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alegrias infinitas da paixão reciproca, os arrobos mysteriosos do amor exaltado, dizes tu, e com razão. Concordo comtigo, e quizera sentil-o; sentil-o, como eu o comprehendo.

D'aqui nascem estes secretos enfados que me atormentam a existencia, estes desesperos tantas vezes disfarçados n'um sorriso d'amarga ironia ao meu destino. Crêr que existe para todas as creaturas um mundo de luz embriagadora, e viver nas minhas trevas!... Aqui, ao lado d'este homem que me chama sua desde os dezoito annos, e a quem o mundo denomina meu! Meu! Pertence-me como o aleijão pertence ao rachitico de nascença, que debalde tenta lançar fóra de si a carga pezada e odiosa.

Que vida esta minha! Sem estimulos de presente, sem esperança de futuro! Bem o sabes: a minha alma inquieta e pensadora levou-me a estudar o amor, essa paixão sublime que aniquilla ou engrandece, nos romances da epocha. Achei, porém, fastidiosas as descripções, e algumas enjoativamente imitadas. Ou o espiritualismo piegas sem aquelle cambiante admiravel do Raphael de Lamartine; ou a sordidez da materia tressudando no arredondado das formas e das galanices do estylo.