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nha desapparição. Dava ella o braço a uma senhora que me tinha impressionado durante o concerto pela maviosidade e intimativa de seu canto. Estimei o ensejo de aproximar-me d'ella, trocando algumas palavras em que deixei transparecer o gosto sincero que me dera em ouvil-a. Recebeu com tanta modestia os meus gabos, que, passados alguns momentos presas por mutua sympathia, conversavamos como se de muito nos conheceramos. Continuou a dança.
De relanço notava eu que o meu incognito seguia todos os meus movimentos, mas com certo disfarce; e eu procurava affastar sempre os olhos do local em que o via, fingindo não o perceber.
No fim da noite tornei a achar-me ao lado da gentil cantora, que possue uma instrucção e espirito nada vulgar.
― Estas festas ― disse-lhe eu ― não curam enfermos de coração, pelo contrario esta luz é demasiado viva e entoutece-os dolorosamente.
― Assim é ― respondeu ella, depois de olhar um pouco para mim. ― Eu tambem gosto mais das trevas: o pensamento vôa mais livre, e a alma faz-se melhor. No meio d'este bulicio, agitam-se paixões mesquinhas, sentimentos igno-