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rioso e escuro, como se a minha existencia escondesse grandes crimes.
E quem sabe?
Gasto muitas horas a reflectir no que ha para mim de obscuro no viver de meus antepassados. Apoquento meu marido, aperto com elle de todas as formas imaginaveis para que me diga alguma coisa respeito á minha familia, tendo, como tenho, boas razões para crer que viveu na sua intimidade; mas tudo é debalde, a nada se move. Cala-se a todas as minhas perguntas, suspira, e reprime a minha curiosidade com duas palavras pronunciadas com o entono de cominiseração profunda e respeitosa:
― Não queiras saber mais do que sabes ― A memoria de teus paes é, e deve ser um culto para nós: foram dois grandes desgraçados.
Porque? pergunta o meu espirito perdido nesta urdidura, sem poder acertar com o fio principal. Porque? repete a minha razão, procurando nas trevas um raio de luz que me esclareça. Mas nem espirito nem razão me responde; e o raciocinio nada pode em casos destes em que é preciso adivinhar... Mudemos por tanto de assumpto, e deixa-me ver se encarreiro