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dade infinda, uma embriaguez dulcissima que me arrebata para além mesmo dos caminhos percorridos pelo espirito...

Vou dizer-te tudo. Muitas vezes, quando os meus olhos se fecham ou escondem, como tu dizes, debaixo das palpebras, é que eu sinto um frémito voluptuoso e aromatico pousar-lhe ao de leve como um beijo da aragem matutina no mez d'abril. Quando a minha cabeça descae como a roza queimada na haste pelos ardores estivos, é que as pontas dos meus cabellos me roçam as faces, palidas pelo estremecimento do jubilo interior. Quando finalmente, a minha voz immudece no meio d'uma dissertação animada, é a minha alma que se desprende dos laços terrestres, e anda pairando no espaço com sua irmã fugitiva.

Depois desta confissão, minha amiga, fico certa de que menos ainda me conheces do que no passado. Ficas-me chamando excentrica, doida, romantica, e afinal de tudo isto, ha só um epitheto que me cabe perfeitamente: chama-me uma grande desgraçada, e é que acertaste. A minha primavera não pôde romper os nevoeiros em que despontou involta; o outomno vae carregado e sombrio; e o inverno, para que eu já