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N’um arranco tragico, gaguejava palavras entrecortadas, que nada diziam, nada do que ella queria talvez dizer. N’um esforço prodigioso de energia, empurrou a prima, sentou-se na cama, e estendeu os braços no vacuo; logo a seguir retezou-se toda, cahindo sobre a ruma d’almofadas que lhe tinham feito supportavel a cama.

O aspecto da pobresita era terrificante, olhos escancarados como se procurassem a luz que lhes fugia, a camisa desabotoada descobrindo as claviculas descarnadas, a bocca augmentada pela emaciação contrahida n’um rictus doloroso, e a pelle a que a luz da lamparina dava um tom azulado enrugada como velho pergaminho. Os braços descahiram-lhe ao longo do corpo e as pequenas mãos transparentes arrepanhavam a roupa...

A Candida levantou os olhos que baixára para fugir á obcessão d’aquelle olhar condemnatorio, e a impressão de horror foi tal que d’um salto se pôz á porta, clamando pelo Emygdio, que vira no quarto proximo.

— «Perdidos, perdidos — murmurou n’uma voz que o terror fazia trémula e soluçante como se um frio intenso a sacudisse. — Diz que a matámos, sabe tudo... vae dizer aos paes!...

O rapaz recuou tambem aterrorisado, até á porta, poz-se a considerar o pequeno volume que o corpo, que fôra uma tão harmonica conjugação de linhas graceis, reduzido á miseria d’um esqueleto sem fórma, fazia sob a cobertura.

Rodeada de luxo e mimos, cheia de esperança e de alegria, intelligente, boa, educada; um pequeno