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Retalhos de Verdade
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tranhe que lhe fale assim. Vejo-a tão criança... e tão infeliz!»

Houve um silencio. Depois o Sequeira, piparotando o charuto para dentro de um pratinho do Japão que servia de cinzeiro, proseguiu, com o mesmo ar tranquillo: «Em geral os maridos preoccupam-se pouco de ser os confidentes e conselheiros das mulheres. O que quasi todos se crêem é no direito de ser os oppressores, os tyrannos. Tomam a casa como mero centro das materialidades da vida. E isto é um erro formidavel. O geral das mulheres submettem-se a essa tyrannia, desistindo, por fraqueza ou por apathia, das mais naturaes aspirações de felicidade. Mas a Chica não pode viver assim. Tem que libertar-se de uma tutela absurda que a opprime, que a tortura, que a não deixa viver...

Talvez porque a Chica fizesse aqui um pronunciado gesto de impaciencia, o Sequeira poz-se de pé na intenção aparente de concluir a visita. Durante ella a Chica não falara. Porquê? Seria que a commoção lhe tivesse embargada a voz? Não era estranho que o caso se desse. Toda a mulher tem um quê de criança. E não ha nada para excitar lagrimas infantis como a compaixão por uma dôr que se engran-