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A QUINZENA
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O começo de 87, como to­dos os começos de anno aqui, so apresentou de novo, no Theatro, O Carioca, revista do anno passado, por Arthur Azevedo e Moreira Sampaio. Inhibo-me de dizer algumas palavras sobre esta peça, por­ que as noticias d’aqui já de­ vem ter ecoado no Ceará, bem com o a divertida discussão entre um dos auctores da peça e o illustrado explicador de an­nexins, o Dr. Castro Lopes, sobre o plagio ou encontro de ideias que houve entre um grande quadro d’O Carioca e A Princeza Flor de Neve.

N’O Carioca o quadro re­presenta a côrte de S. M . Con­to de Réis, com guarda de honra de nickeis, patacões, soberanos, etc. E na Princezo, o reino das moedas com guar­da de honra da rainha Libra.

À propósito d’este plagio, foi acrescentado um novo ac­to a O Carioca, onde o co­nhecido Xisto Bahia tem o papel capital — Um matuto do norte. Imaginem como isso é enorme!

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Embarcou para o Mexico, de onde seguirá para a Italia o es timad o artista Felix Ber­nardelli, irmão do conhecido e genial Rodolpho Bernardelli­ Vae em companhia de sua querida mãe, M.me Celes­tina Bernardelli. Estudará musica ; e temos tudo a es­perar deste moço, modesto de mais para viver em um circu­lo onde só a pretenciosidade e a audacia dão titulos de grande.

Ao seu embarque concorreram diversos artistas bas­tante conhecidos.

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Rodolpho Bernardelli apresenta em exposição, terça-fei­ra proxima (1 de feveretro) o modelo do tumulo de José Bo­nifacio. Representa o patriarcha

em marmore de Carrara, sobre um catafalco de marmore cinzento, adornado nos an­gulos com palmas de bronze dourado a fogo. Cobrindo o corpo até ao peito, estende-se um lençol de bronze antigo.

É um grande trabalho de uma simplicidade commovente. Impressiona profunda­mente aquella face descarna­da, sulcada, os olhos encova­dos pela falta de vida. A pres­são nervosa dos dedos do gran­de artista torna como que fu­gidia ao tacto a pelle da esta­tua, como se tocassemos sobre o craneo ou sobre os ossos do morto.

Está tambem concluida pela mão do mesmo artista o mo­delo da estatua que preten­dem eregir no jardim do caes, da Gloria ao poeta da Irace­ma, ao nosso grande patricio José de Alencar. O modelo tem 1 metro. O grande ro­mancista está sentado na at­titude de quem pensa, tendo um volume em branco em u­ma das mãos, e na outra uma penna. No pedestal, uns meda­lhões de bronze antigo, entre­laçados com ramos e folhas de palmeira em bronze dourado, representam os personagens dos romances do grande ge­nio. A impressão que sente um brazileiro, ainda mais um cearense, diante d’aquelle pe­ queno modelo,é a de um en­thusiasmo intimo. Estremece-se de veneração e de pena, e de horror pela morte que roubou tão cedo o naturalista dos Perfis de Mulher. Creio que a subscripção para este trabalho não está coberta, e deve-se esperar do patriotis­mo cearense a conclusão des­ta divida, e tardia recompen­sa ao grande vulto José de A­lencar.

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Foi hoje á scena no Recreio Dramatico a comedia de Ordonneau,

«A Familia Fantas­tica.» Um successo do qual fallarei na proxima carta.

Uma nova revista de Oscar Pederneiras, Zé Caipora, tam­bem subiu hoje no theatro Principe Imperial. Prometto tambem no proximo paquete tratar d’ella, assim como de um drama do senador Taunay, intitulado «Amelia Smith».

Mario.

(Continua)
A mulher cearense
II

Como já affirmamos, o phe­nomeno da approximação mental e moral entre o homem e a mulher é um facto que a psychologia dos povos che­gados mesmo a um grao no­tavel de cultura só assignala como caso excepcional. Este phenomeno verifica-se, no Cea­rá, onde a mulher pelo influxo de certos factores historicos adquiriu privilegiada organi­sação psychologica.

Não será ocioso, para corroborar este nosso conceito, delinear, syntheticamente, a evolucão da mulher desde os tempos primitivos até ao seu mais elevado ponto de civili­ sacão actual.

Neste esboço supprimimos muito detalhe, aliás interes­sante, que a Ethnologia nos fornece, permittindo-nos per­correr a escala do desenvolvi­mento humano desde gráos muito inferiores.

Escrava para a qual o ho­mem não tinha mais desvelos que para os animaes que cercavam-n’o, amolgava sob a pressão da vontade extranha. De modo absoluto proclama­vam as sociedades antigas a sua inferioridade relativa ao homem, procurando assim justificar o estado de abjecção a que sujeitavam-n’a e o descu