Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/447

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada
173

Cautela com essas hervas, que hão de estar molhadas... Vê lá que não esteja frio... Olha se esses troncos estão molhados...

Henrique tornava-se melancólico e sombrío n’estes momentos, a ponto de uma manhã Christina o interrogar, n’aquelle tom de familiaridade affectuosa, que principiára a poder ter para com elle, desde que o vira fraco e doente e a carecer do seu auxilio e protecção.

—­Que é isso! Por que está sempre triste, agora que vae melhor?

—­Estou triste, porque estou melhor—­respondeu Henrique.

—­Que está a dizer?!

—­A verdade. A poucos doentes terá succedido o que succède commigo. Este renascer para a vida, este sangue novo que sentimos circular nas veías, este vigor que de instante para instante conhecemos accumular-se em nós, que tantos gósos dá aos convalescentes, a mim fazem-me entristecer; como que estou presentindo já as saudades d’este tempo, que passei prostrado no leito da doença, Christina.

—­Não diga isso.

—­E admira-se? Se elle foi o tempo maïs feliz da minha vida! Não sabe que me eram desconhecidos inteiramente os ineffaveis carinhos de familia que me fez experimentar? Com a saude vão voltar para mim os dias da solidão, do desconforto, d’aquella vida gelada e inútil que abomino, desde que principiei a conceber outra... desde que m’a fez conceber, Christina! Quando penso em voltar para Lisboa...

—­E tenciona voltar?

A está pergunta, feita com a maior naturalidade, Henrique sentiu uma intima commoção. Ha d’estes effeitos. Ás vezes o olhar menos significativo, a palavra menos pensada, é pelo coração interpretada de maneira tal que elle proprio se sente estremecer.