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quem fôsse. N’um periodico de Lisboa fôra publicada por aquelles dias uma carta dirigida tempos antes ao conselheiro por não menor personagem politica do que o secretario intimo do ministro.

O proprio conselheiro confessava ser esta carta demasiado compromettedora, e assim tambem o demonstrava a excepcional irritação que transparecia em todos os periodos, da que escrevêra á filha. O periodico que, para fins politicos, fizera a publicação, havia occultado os nomes, porém muitas circumstancias referidas tornavam inutil a discreção; e em Lisboa ninguem hesitou em aprontar as personagens entre quem se passara o facto. Durante uma das suas demoras na aldeia, recebêra o conselheiro essa carta; alli, no seio da familia, a confiança que depositava em quantos o rodeavam impediu-o de ser previdente, como por hábito o era; facil foi portanto o extravio. O conselheiro dizia á filha que era preciso descobrir o traidor, para evitar futuros abusos; e por isso, que se lembrasse de que o alcance da carta não era para todos comprehendel-o, e portanto não se limitasse a indagar entre os da baixa classe. «A vingança, concluia o conselheiro, de uma maneira mysteriosa, como de quem deseja e receia, ao mesmo tempo, fazer uma allusão — a vingança, bem ou mal fundada, obriga ás vezes os mais nobres caracteres a uma acção baixa e vil; entre os que por mim se possam julgar offendidos, é natural encontrar o criminoso.»

— Esclareça-me este mysterio! disse Magdalena, consternada. — De que se trata aqui?

— Alguma correspondencia politica extraviada. Seu pae diz bem; é necessario descobrir o traidor por cautela. Além de que, para todos os que, como eu, teem entrada n’esta casa, é isto um mysterio em que a nossa honra está empenhada, porque v. ex.as teem direito a alimentar suspeitas.

— Por amor de Deus! — acudiu, interrompendo-o, a morgadinha. — Não pronuncie essa palavra! Suspeitas!