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que pelo menos me concederá licença para exercer, junto de si, as humildes funcções de porteiro.

Era Henrique de Souzellas.

Magdalena não foi superior a um vago sentimento de receio, ao encontrar-se ahi com o hospede de Alvapenha; comtudo esforçou-se por dominar-se e respondeu, com apparente presença de espirito:

— Ah! É o primo Henrique. Muito boas noites. Ahi temos um requinte de galanteria, que eu estava muito longe de esperar.

— E de desejar, não?

— E de desejar tambem; confesso-o. Por mais diligente que seja um porteiro, nunca o é tanto como uma porta aberta.

— Mas é mais discreto.

— Duvido. Em todo o caso, agradeço o incómmodo.

E, dizendo isto, preparava-se para entrar, sem mais explicações.

— Uma palavra, prima Magdalena — disse Henrique, retendo-a por o braço e com certa expressão nas palavras e no gesto, que redobrou o sobresalto da morgadinha. — Não ha mais accommodado terreno para um dialogo solemne do que o limiar de uma porta. Ordinariamente no limiar das portas o homem muda de mascara; depõe a que apresenta na sociedade e afivela a que traz na familia, e vice-versa. Ora n’estas mudanças é facil surprehender o verdadeiro rosto da pessoa.

— Será tudo o que quizer o limiar de uma porta, primo; menos um logar muito confortavel para serões n’uma noite de dezembro.

E Magdalena tentou de novo seguir para deante.

Henrique susteve-a outra vez.

— Um momento só, prima Magdalena; tenho necessidade de saber se me quer para alliado ou para inimigo.

— Não vejo a necessidade da alliança que propõe, nem as razões para a lucta.