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Monteiro Lobato

queires para tirar dellas um prato de feijão e uns porquinhos de céva, e que vêm vindo assim de avós a netos, e que permaneceriam assim toda a vida; terras devolutas, que a inercia do Estado conserva a monte, sem saber por quê nem para quê; terras legitimamente, legalmente “aproprietariadas” — nada disso é obstaculo á solercia do grilleiro. Elle, ao partir para o sertão, deixou em casa, na gaveta, os escrupulos da consciencia. Vem firme, vem “feito” como um gavião. Opéra as maiores falcatrúas; falsifica firmas, papeis, sellos; falsifica rios e montanhas; falsifica arvores e marcos; falsifica juizes e cartorios; falsifica o fiel da balança de Themis; falsifica o céo, a terra e as aguas; falsifica Deus e o Diabo. Mas vence. E por arte dessa obra-prima de malabarismo, espoliando posseiros ou donos, firmados na gazúa da lei, os grilleiros expellem das terras, num estupendo parigato, todos os barbas ralas que alli vivejam parasitariamente, tentando resistir ao arranque da civilização.

Divididas as glebas em lotes, vendem-nas os