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A HISTORIA DO FANTASMA INEXPERIENTE
NATURALMENTE, eu desejava vel-o em acção; mas era tão obstinado como um jumento; e, subitamente, como me sentisse muito cansado, — elle me esgotára, — cedi. “Muito bem, disse, não lhe olho mais”. E voltei-me para o espelho, ácima do toucador, junto ao leito. Poz-se a gesticular com rapidez e eu o seguia com toda a attenção no espelho, para pegar o gesto que elle não pudera achar. Os seus braços e as suas mãos giravam e agitavam-se assim, assim, para traz, para deante; logo, precipitando o jogo, chegou ao ultimo gesto... Fica-se de pé, e estendem-se os braços... E vi-o alli, de pé, n՚esta attitude... Depois, crac, já não estava mais lá... Não, já não estava mais. Voltei-me. Mais ninguem. Eu estava sósinho, com o espirito perturbado, deante das vélas vacillantes. Que se passou? Passára-se mesmo alguma coisa? Ou então eu sonhára?
Foi quando, lançando no silencio uma nota absurda de realidade, o relogio da parede comprehendeu que o momento era proprio para bater uma hora. Unicamente... Pang!... E eu estava tão grave e sobrio como um juiz, pois, da garrafa de champagne e do whisky que bebera, não restava nenhum traço. Sentia-me com uma tranquillidade extraordinaria!
Examinou um instante a cinza do charuto.
— Eis, com toda a exactidão, o que se passou — concluiu.
— Depois d՚isso, deitou-se? perguntou Evans.
— Não havia nada de melhor a fazer. O meu olhar encontrou-se com o de Wich. Tinhamos vontade de zombar, e comtudo sentia-mos, na voz e na attitude de Clayton, algo que nos dominava.
— E os passes? — perguntou Sanderson.
— Penso que poderia reproduzil-os agora.
— Oh! — exclamou Sanderson, tirando um canivete e raspando o cachimbo. — Porque não os reproduz logo? — insinuou fechando o canivele.
— Consinto, e vou principiar, — respondeu Clayton.
— Isso não irá bem, — assegurou Evans.
— E se fór bem? — disse eu.
— Para ser franco, aconselhou Wish, alongando as pernas. — eu preferiría que não se arriscasse n՚isso.
— Porque? — interrogou Evans.
— Seria melhor abster-se, — affirmou Wish.
— Mas elle não guardou os passes em ordem, — observou Sanderson, esforçando-se por metter no cachimbo uma enorme porção de tabaco.
— Apezar de tudo, seria preferivel abster-se, — repetiu Wish.
Discutimos com este cabeçudo, que pretendia que recomeçar os passes era ridicularisar uma coisa séria.
— Mas você não acredita... — disse eu com ar de mofa.
Wich lançou um olhar a Clayton, que contemplava o fogo, parecendo pesar alguma determinação no seu espirito.
— Acredito n՚isso, — disse elle, — até mais do que pela metade.
— Clayton, — repliquei, — você é um mentiroso habil em excesso para nós. Toda a sua historia é excellente. E você empresta á desapparição final... um aspecto verdadeiramente conveniente. Diga-nos, “é um conto para dormir de pé?”
Ergueu-se sem dar attenção ao que eu dizia, e installou-se, fazendo-me frente, no meio do tapete da sala. Por um momento, considerou pensativamente a ponta dos pés, fixou os olhos na parede opposta, com uma expressão preoccupada, depois ergueu lentamente as duas mãos á altura dos olhos, e começou...
Ora, Sanderson é maçon, membro da loja dos Quatro-Reis, que com tamanha competencia se dedica ao estudo e á elucidação de todos os mysterios da Maçonaria passada e presente, não sendo elle, entre os eruditos investigadores d՚esta loja, de maneira nenhuma, o menos consideravel. Seguia os movimentos de Clayton, com uma singular curiosidade nos seus olhos de reflexos avermelhados.