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Para Todos...
UM CONTO PARA TODOS

A HISTORIA DO FANTASMA INEXPERIENTE

 
por H. G. WELLS — (Continuação).
 

“Affirmou-me; e eu não puz difficuldade em acredital-o, que tudo o que tentára na sua vida não o levára senão a uma lamentavel miseria, que assim seria durante toda a eternidade. Comtudo, se tivesse encontrado alguma sympathia, póde ser que... Calou-se n՚esta altura, e fixou-me o olhar. Depois declarou-me, por mais extranho que isto pareça, que ninguem, mas ninguem mesmo, nunca lhe concedera a somma de sympathia que eu lhe dispensava n՚aquelle momento. Adivinhei logo onde elle queria chegar, e decidi-me a atalhal-o e a desembaraçar-me d՚elle sem mais esperar. E՚ possivel que eu seja um animal, mas, como hão de comprehender, ser “o unico amigo verdadeiro”, o receptaculo das confidencias d՚um d՚estes egoistas enfermos, é muito mais do que eu posso soffrer physicamente. Levantei-me bruscamente. “Não se agonie demasiadamente com esta situação, disse eu. O que precisa fazer, é sahir d՚ella, e rapidamente. Encha-se de coragem, e experimente”.

— “Não posso!” gemeu.

— “Experimente!” ordenei. E elle experimentou.

— Experimentou? — perguntou Landerson. E como?

— Por meio de “passes” — respondeu Clayton

— De “passes”?

— Series complicadas de gestos e passes com as mãos. D՚esse modo é que elle viera, e era assim que poderia partir. Meus Deus! Que trabalho eu tive!

— Mas, como é que uma série de passes podia?... — principiei eu.

— Meu caro amigo, — interrompeu Clayton, voltando-se para mim, e pronunciando com emphase certas palavras, — vacê tem a mania de querer que tudo seja claro. Não sei nada mais. O que ha de certo é que estes passes, elle os fez. Depois de algumas tentativas indeterminaveis, conseguiu fazel-os como era necessario, e desappareceu.

— Você observou attentanmente esses famosos passes? — perguntou lentamente Sanderon.

— Sim, — respondeu Clayton que reflectiu um momento. — Era devéras exquisito. Estavamos alli, eu e aquelle vago fantasma, n՚aquelle edificio vasio e silencioso. na cidadezinha tambem silenciosa e adormecida. Não havia outro som senão o das nossas vozes e do debil offego que elle fazia gesticulando. A vela que eu trouxera e uma outra que accendera consumiam-se sobre a mesa do toucador. Era tudo o que possuiamos em materia de illuminação; por vezes uma ou outra lançava, durante alguns segundos uma comprida chamma muito tenue, e como que admirada. E aquella exquisita scena desenrolou-se. “Não posso! gemia elle. Nunca eu... De repente. deixou-se cahir n՚uma poltrona ao pé do leito, e pôz-se a soluçar e a soluçar, meu Deus! Que choramigas incommodo!... “Vamos, domine-se e encha-se de coragem,” disse eu. fazendo menção de bater-lhe no hombro, mas... a minha mão como se fosse magica passou através d՚elle. N՚esse momento, como sabem, eu já não estava tão tonto como quando attingira o patamar. Dei-me perfeita conta da exquisitice da coisa. Lembro-me que retirei vivamente a mão, com um estremecimento involuntario, e me dirigi para a mesa do toucador. “Vamos, domine-se e experimente”. E, afim de encorajal-o e ajudal-o, puz-me a experimentar tambem.

— Que! exclamou Sanderson. — Os passes?

— Sim. os passes.

— Mas... interrompi eu. levado por uma idéa que me escapou logo.

— O caso é interessante. — declarou Sanderson. mettendo um dedo no cachimbo. Pretende que o seu fantasma lhe revelou...

— Que elle fez tudo o que pode para revelar-me o modo de transpor a barreira, sim!

— E՚ impossivel — protestou Wish. — Não podia. Ou então você teria ido com elle.

— Era exactamente a objecção que eu queria fazer! — accrescentei, achando assim expressa a idéa que me fugira.

— E՚ isso, precisamente!— disse Clayton, com os olhos pensativos fixos no fogo.

Por um momento ninguem abriu a bocca

— E saiu-se bem, afinal. Foi-me necessaria toda a sorte de esforços para impedil-o de desanimar, mas, afinal, venceu... muito rapidamente. N՚uma certa occasião, perdeu a coragem e eu o reprehendi severamente; depois, levantou-se bruscamente, pedindo-me que executasse a mimica de extremo a extremo, lentamente, afim que elle a visse bem. “Creio, explicou, que, vendo-o fazer, notarei logo o que não serve.” E notou. “Está feito” disse — “Que? Onde está o senhor?” perguntei — “Está feito”, repetiu. Então, com um ar aborrecido: “Não poderei sahir-me bem se o senhor olhar para mim, absolutamente não o poderei. Foi isso que me atrapalhou, em parte, desde o principio. Sou tão nervoso que o senhor até me intimida.” Sem mais preambulos, tivemos uma curta discussão.

 
(Continúa)