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A HISTORIA DO FANTASMA INEXPERIENTE
E՚ a verdade, senhor. Tentei varias vezes, mas não consigo. Escapou-me qualquer coisa, que ja não posso encontrar. Era realmente transtornante, como vêdes. Olhava-me elle com um ar tão miseravel que por nada no mundo eu seria capaz de conservar o tom autoritario que adoptára. “E՚ exquisito,” disse eu, e, emquanto falava, pareceu-me ouvir alguem que se movia em baixo. “Venha então ao meu quarto, e conte-me isso, disse como decisão, porque, em summa, eu ainda não comprehendo nada”. Tratei de agarral-o pelo braço. Mas, naturalmente, o mesmo seria querer agarrar uma baforada de fumo. Creio que me sahira tambem da memoria o numero do meu quarto. Em todo caso, lembro-me de ter entrado em varios quartos, antes de encontrar as minhas malas... Era uma sorte achar-me eu só n՚esta ala do edificio. “Eis-nos á vontade”, disse. E estirei-me n՚uma poltrona. “Sente-se e conte-me esssa historia. Parece-me, meu caro, que você se collocou n՚uma situação singular”. Respondeu-me que preferia não sentar-se, que lhe agradava mais se isso não me incommodasse, vagar a seu bel prazer pelo quarto. Não vi inconveniente e, dentro em pouco, estavamos entretidos n՚uma longa e séria conversação. Em breve dissiparam-se as névoas do whisky, e eu principiei a compenetrar-me de que estava mettido n՚um caso notavelmente extranho. Alli, deante de mim aquelle fantasma, em tudo conforme á tradição, e silencioso, não se falando na sombra da sua voz, fluctuava por aqui e por alli no quarto recoberto de panno estampado. Atravéz d՚elle eu percebia o brilho dos candelabros de cobre, os reflexos da luz sobre o guarda-fogo de cobre amarello e nos angulos dos quadros presos á parede, e elle me contava a sua vidinha miseravel que havia pouco terminára na terra. Os seus traços nada tinham de especialmente distincta, como já sabem; mas, como era transparente, não podia senão dizer a verdade.
— Hein? — exclamou Wish, endireitando-se de repente na poltrona.
— Que? — perguntou Clayton.
— A sua transparencia... que o obrigava a dizer a verdade... Não vejo muito bem a relação.
— Nem eu, replicou Clayton, com uma impagavel segurança, — mas é assim, posso afiançal-o. Não creio que elle se afastasse da verdade verdadeira nem o comprimento d՚uma unha. Contou-me de que modo morreu... Descèra a um subterraneo, com uma véla, para procurar um escape de gaz. Ao tempo em que foi assim liberto da existencia, elle era, como me declarou, professor n՚um instituto particular de Londres.
— Pobre diabo, — disse eu.
— E՚ o que eu pensava tambem, e quanto mais elle me falava, mais o julgava eu. Passára a vida sem uma finalidade, e assim se encontrava fóra da vida. Falou com amargura dos paes, do mestre-escola, de todos aquelles que com elle haviam lido quaesquer relações.
Demasiado sensivel e nervoso, nunca ninguem o apreciára, nem comprehendèra, assegurou-me. Jamais tivera um amigo verdadeiro no mundo, como não tivera nenhum triumpho, abstivera-se dos divertimentos e dos prazeres, e fracassára em muitos exames. “Ha pessòas que são assim, explicou-me. Cada vez que eu entrava na sala dos exames, perdia a cabeça”.
Era noivo, naturalmente, (d՚uma joven
lambem sensivel em excesso), quando o desgraçado escape de gaz pôz fim aos meus amores. “E onde está agora? perguntei: Não está