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— Um caracter permanece o mesmo, ainda qué esteja desencarnado. E՚ um facto que esquecemos demasiadamente. As pessôas que possuem intenções solidas, vontade firme, produzem almas com intuitos tenazes e decididos. A maior parte das almas que “voltam” realmente deve ter essa idéa fixa como monomaniacos: é necessario que tenham uma obstinação de mulas, e aquella pobre creatura não a tinha.
De repente, levantou a cabeça com um ar muito extranho, e o seu olhar percorreu a sala.
— Digo isto com toda a benevolencia, — continuou, — mas é, no presente caso, a pura verdade. No primeiro lance d՚olhos, vi que era um debil.
Com um geito no charuto, sublinhou esta phrase.
— Cahi-lhe em cima no corredor. Volta-va-me as costas, e fui eu que o vi primeiro. Sem demora comprehendi que era uma alma do outro mundo. Era transparente e esbranquiçado; atravéz do seu busto, eu via o scintillar dos vidros da janella. Além do physico, a sua attitude tambem me persuadiu da sua fraqueza. Tinha o ar de quem não sabe absolutamente o que quer fazer. Passava uma das mãos pela parede, emquanto a outra tremia sobre a bocca. Tal como eu faço...
— Que especie de physico tinha elle? — perguntou Sanderson.
— Magro. Conhecem esse pescoço de rapaz que indica duas compridas cavidades nas costas, aqui e aqui... E uma cabecinha mesquinha, os cabellos encaracolados, orelhas talvez disformes, pessimas espaduas, ainda mais estreitas que os quadris, um collarinho amarrotado, um sobretudo curto, de confecção, calças com joelheiras e um pouco poidas nos extremos. Eis a impresão que elle me deixou. Eu subia a escada, de mansinho. Não trazia luz, como podeis suppôr... as vélas estão no patamar, e só ha esta lampada... Achava-me de chinelas, e percebi-o ao subir. Dando com elle, suspendi o passo... para capacitar-me da situação. Não sentia medo nenhum. Creio que, na maior parte destas historias, nunca se fica tão assustado ou excitado como se imagina. Eu estava surprezo e curioso. “Meu Deus, dizia com os meus botões. Eis uma apparição, emfim! E eu que ha mais de vinte e cinco annos não acreditava nas almas!”
— Hum! ” fez Wish.
— Logo que alcancei o patamar, elle me notou lá. Virou rapidamente a cabeça para o meu lado e eu vi uma fresca physionomia de rapaz, um nariz fino e curto, um bigodinho torcido, um queixo reentrante. Permanecemos assim um momento a entreolhar-nos, examinando-me elle, por cima da espadua. Então, pareceu lembrar-se das suas altas funcções. Voltou-se completamente, inteiriçou-se em todo o seu comprimento, projectou a cabeça para a frente, levantou os braços, estendeu as mãos abertas, tal como costumam fazer as almas do outro mundo, e adeantou-se para o meu lado. Ao mesmo tempo, deixava cahir o maxillar e proferia um som fraco e exquisito: “Bu hu!...” Não, não era de modo nenhum, assustador. Eu jantára copiosamente, seccára uma garrafa de “champagne, e, como estava só, absorvêra talvez dois ou tres, talvez mesmo quatro ou cinco “whiskies...” Em tal maneira que me achava solido como um rochedo, e não mais atemarizado que se tivesse sido assaltado por uma rã... “Bu!” repeti. Nada de troças! O senhor não é da casa. Que vem fazer aquí?” Vi-o estremecer. “Bu-hu!” fez ainda uma vez. “Bu! Já chega d՚isso! E՚ algum membro do club?” perguntei. E afim de mostrar-lhe bem que não dava importancia aos seus trejeitos, dei um passo atravéz d՚um pedaço de sua pessoa para accender uma véla. “O senhor é membro do club?” insisti, vigiando-o com o rabo do olho. Collocou-se de lado para que eu não continuasse a invadil-o e tomou uma attitude desconsolada. “Não, respondeu á persistente interrogação do meu olhar. Não, não sou membro do club... Sou um fantasma” — “Muito bem, mas isso não o autoriza a gozar das vantagens do club. Quer ver alguem? Em summa, a quem é que o senhor procura aqui?” Accendi a véla, com a mão o mais firme possivel, para que elle não tomasse como effeito do medo a leve agitação produzida pelo “whisky.” O castiçal à mão, fiz-lhe face. “Que é que procura aqui?” insisti de novo. Deixára cahir os braços, cessára de articular o seu “bu-hu”, e ficava para alli, desageitado e estupido, phantasma d՚um rapaz fraco, idiota e irresoluto.
— Faço uma apparição”, balbuciou.
— “Quem lhe deu licença para isso? perguntei tranquillamente”. — “Sou fantasma”, disse como desculpa. — “E՚ possivel, mas o senhor não tem o direito de fazer o fantasma aqui. Esta casa é um respeitavel club particular; muitas vezes vem gente aqui com as creanças e as amas, e, da maneira descuidosa por que o senhor “assombra” este corredor, qualquer menino poderia tropeçar nas vossas pernas, e o resultado d՚isso seria cahir doente com o susto. Creio que o senhor não reflectiu n՚isso”. — — “Não, não pensei em tal.” — “Deveria ter pensado. Nada o autoriza a vir aqui, não é? Não foi assassinado n՚este logar? Não lhe aconteceu n՚esta casa nenhum contratempo d՚esse genero?” — “Nenhum, senhor”.
“Mas eu pensava que, n'um immovel velho e cheio de armações vasias...” — “Não é uma desculpa isso, interrompi, olhando-o severamente. Certifico-lhe que erra, vindo aqui,” ajuntei em tom de affavel superioridade. Remexi no bolso, fingindo inteirar-me se tinha phosphoros, depois, levantando a cabeça, fixei-o novemente, e continuei:
— “Si eu estivesse no seu logar, não esperaria o canto do gallo, e abalaria em seguida”. Pareceu muito embaraçado. “O facto é que, senhor...” principiou. — “Eu desappareceria immediatamente...” repeti, para que elle não se enganasse. — “O facto é, senhor, que... a culpa não é minha... mas... eu não posso”. — “Como! Não póde?” “Não, senhor. Ha alguma coisa que eu esqueci. Agito-me aqui desde a metade da noile passada, occultando-me nas armações e nas salas vasias... já estou atordoado. Ainda não fizera nenhuma apparição, e já não sei mais como arranjar-me...”