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A HISTORIA DO FANTASMA INEXPERIENTE
RECORDO-ME perfeitamente das circumstancias em que Clayton nos narrou a sua ultima historia. Durante quasi todo o tempo em que nos falou, permaneceu sentado defronte da espaçosa chaminé, n՚uma poltrona de carvalho antigo, e junto d՚elle installára-se Sanderson, fumando um d՚esses cachimbos de barro que levam o seu nome. Estavam presentes, ainda, Evans e Wish, o actor entre todos maravilhoso, que é tambem um homem modesto.
N՚aquelle sabbado, todos chegáramos ao Mermaide Club pela manhã, com excepção de Clayton, que tendo chegado na vespera, lá passára a noite, o que, aliás, lhe forneceu o começo da sua narrativa.
No correr do dia inteiro jogaramos o “golf” até não enxergas mais as pélas. Agora, após o jantar, nos achavamos n՚esse estado de tranquilla benevolencia em que se tolera de bôa vontade que uma historia seja contada. Quando Clayton principiou a contar a sua, pensamos que mentisse. E é bem possivel que mentisse... mas o leitor, dentro em pouco, estará tão capaz de julgar d՚isso como eu.
Na verdade, elle começou no tom da aneedota banal, e d՚ahi pensarmos que aquillo não fosse senão uma ficção sua.
— Digam-me então, pediu, — depois de ter considerando demoradamente os jactos de scentelhas que subiam dos tições remexidos por Landerson, — os senhores sabem que na noite passada eu estava sósinho aqui.
— Sosinho... sem contar os creados, — corrigiu Wish.
— Que dormem na outra ala do edificio, — precisou Clayton. — Pois bem...
Tirou algumas baforadas do charuto, como se ainda hesitasse em fazer-nos as sua confidencias.
Depois, o mais tranquillamente do mundo. acerescentou:
— Capturei um fantasma.
— Capturou um fantasma! Não é possivel exclamou Sanderson. — Onde está elle?
E Evans, que tem uma immensa admiração por Clayton, e que, da estadia d՚um mez em Norte-America, guardou na voz um tom fanhoso, exclamou por sua vez:
— Você capturou um fantasma, Clayton? Estou encantado! Conte-nos isso depressa.
Clayton declarou que ia fazel-o immediatamente, e pediu-lhe que fechasse antes a porta. Ao mesmo tempo, olhava-me com um ar de quem quer desculpar-se.
— Ninguem vem escutar ás portas, é evidente, mas é inutil alarmar os serviçaes com historias de apparições. Ha aqui em demasia recantos sombrios, armações e decorações para arriscar essa brincadeira. E o meu visitante não era um fantasma perfeito, creio mesmo que nunca mais voltará... nunca.
— Mas então... não o conservou preso? — perguntou Sanderson.
— Não tive coragem para isso, respondeu Clayton.
Sanderson externou a sua surpreza. Puze-mo-nos a rir, e Clayton mostrou-se pezaroso.
— Comprehendo-vos — murmurou com uma especie de sorriso. — O facto, porém, é que se tratava realmente d՚um fantasma, e eu estou tão convencido d՚isso como de estarmos todos aqui, n՚este momento. Não estou troçando, e sei muito bem o que digo.
Sanderson, com o seu olhinho vermelho, fixo em Clayton, aspirou uma longa baforada do cachimbo, lançou depois um fino jacto de fumo, d՚uma maneira que dizia mais do que um grande numero de palavras. Clayton desprezou este commentario.
— E՚ o caso mais extranho que já me aconteceu na vida. Sabem os meus amigos que eu nunca acreditei em apparições, nem em nada semelhante, nunca, antes d՚isto... Eis, porém, que vou agarrar um, n՚um recanto da casa, e foi preciso livrar-me d՚aquella, sósinho.
Meditou ainda mais profundamente; depois, tomando um charuto, pòz-se a cortal-o com um curioso instrumentosinho que muito estimava.
— Você falou-lhe? — perguntou Wish.
— Durante cerca de uma hora.
— Palestra divertida? — interroguei, pondo-me do lado dos scepticos.
— O pobre diabo estava em grande afflieção, — disse Clayton fixando a ponta do charuto, e deixando transparecer um leve tom de reprovação.
— Soluçava? — perguntou alguem. Clayton deu um profundo suspiro, evocando a sua recordação.
— Meu Deus! sim, — disse — Pobre rapaz! sim, soluçava.
— Você bateu-lhe então? — perguntou Evans com o seu melhor accento americano.
— Nunca me figurára que triste individue podia ser uma alma do outro mundo, disse Clayton, fingindo não ter entendido.
Ainda uma vez, deixou-nos em suspenso, emquanto remexia os bolsos procurando phosphoros, e accendia o charuto.
— Aproveitei a circumstancia — disse finalmente.
— Nenhum de nós manifestou impaciencia. Elle continuou: