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A esperança

 

cos aquelles que sorriem, quasi todos veem tristes, lacrimisos, vestidos de lucto!!

Vinde recordações queridas, não vos regeito por me não trazerdes alegrias e sorrisos; quero-vos talvez mais assim. Vinde, choraremos juntos.

Na região das illusões tambem ha lagrimas!!

Realidade é o que dizia mr. de Chateaubriand: ― dois licores se vascolijam no calix da vida, doce um, amargo outro; mas além da amargura do segundo, acrescem as fezes que ambos os licores depositam no fundo do vazo.

Isto sim que é realidade; quem se quizer convencer do contrario illude-se a si proprio!

Hoje, e sempre, sereis as minhas companheiras; e depois ireis descançar comigo no gelido sepulcro.

 
 

 
Amor no Oceano
 

 
Romance maritimo
Offerecido ao meu amigo F.M. de Sousa Viterbo
I

Rompia a madrugada do dia 23 de junho de 1845. Os seus primeiros arreboes transpunham, com vagar, o horisonte, similhantes á guarda avançada que sempre precede um exercito. O Douro que, até então, banhára, em silencio, os pés da cidade, adormecida, elevava o seu murmurio, agitado pelos remos ligeiros de um elegante barco. Dentro d'elle vinha alegremente cantando um jovem marinheiro, como se quizesse, pela frescura e valentia da voz, apressiar o nascimento do sol, que pelos reflexos vividos, que espalhava sobre os topos da montanha, deixava predizer um magnifico dia de verão, egual aos muitos, que o nosso explendido ceu sabe reflectir na sua cupula azulada.

Ao vel-o assim, com os olhos, ora perdidos no espaço, ora fitando as aguas, que despiam o seu manto cinzento da noite, dil-o-hieis gentil gondoleiro, ensinando uma canção do seu Tasso ás aguas remançosas da poetica mas escravisada Veneza, d'esse luar melancholico, e cheio de saudade, que se reflete nas ondas do Adriatico, como, n'um logo, descuidado seio de virgem, que, junto d'elle, adormeceu.

Ao murmurio da naturesa já disperta, começava a juntar-se esse rumôr, essa vida, que dá a conhecer ao estrangeiro o genio activo e laborioso dos habitantes d;uma cidade maritima e commercial como a do Porto.

Era por esta hora que a tripulação d'um brigue, ancorado em frente do caes de Massarellos, completava os seus preparativos de viagem, para se fazer ao mar, na maré da manhã.

Além da sua robusta construcção tinha o brigue uma elegantissima fórma. Cintava-o de prôa a popa uma faxa encarnada, que cobre o seu negro costado sobresahia agradavelmente, como a lista vermelha na aza negra d'um insecto.

Na amura do lado de bombordo lia-se em letras douradas sobre assento azul ferrete o nome, de Ancafil. O mastro grande e o da mezena elevavam-se magestosamente para mesa o ceu e sobre elles as vergas e as vélas bem dispostas davam ao brigue, a primeira vista, o aspecto d'um navio de guerra. O cordame descia cem graça indescriptivel para as amuradas, formando os ovens ao mais bem tecidas enxarcias, que mãos de marinheiro enlaçaram. O guarupés subindo do castello de proa erguia-se sobre o beque, recebendo os estais que lhe vinham do cesto de gavea, mastareo de gavea e joanete, armando na extremidade a mais graciosa giba. Ladeava a escada, que, descendo do pertaló, tinha alguns degraus mergulhados n'agua, um lindo e bem torneado corrimão de bronze, que, pelo constante perpassar das mãos, se tornára luzidio.

Nos turcos de estibordo e bombordo penduravam-se dous magnificos escaleres artisticamente pintados. Pendente da carangeja, no mastro da mesena, tremulava, desfraldado ao vento, o valreoso pendãodas quinas, esse senhor, outr'ora dos mares no tempo dos Gamas e Albuquerques. No tope do mastro grande, estendia-se á mercê do vento o signal do navio onde se via o seu nome em letras brancas sobre lansinha vermelha. Outros pequenos signaes estavam içados no mastro de mesena.

Enfim o brigue era um dos navios mer-