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entre as crenças falsas do budhismo, insculpida no frontespicio dos pagodes do Butan. A cruz via-se já gravada nos hieroglificos de Thebas! a cruz, fôra a égide sob que combateram oito cruzadas, que tentaram derrubar a cerviz mahometana! A cruz, gravada na malha do guerreiro, era o escudo impenetravel, que elle offerecia ás balas inimigas! A cruz, depois de Constantino, apparece nos lábaros dos exercitos romanos! Apparece nos cimos do Capitolo, apparece, finalmente, erguida, hoje, sob a abobada do tempo para memorar uma data! Se, ha dezenove seculos, dizia Cicero aos romanos que esquecessem a cruz, nós, hoje, paramos e dizemos diante d'ella: Ave, Crux!
A alma de v.exc.a, minha leitora, não está, ainda, corrompida pela leitura dos Renans e Voltaires. V. exc.a acredita nos Bossuets e Chateaubriands, porque eu vi-a, sexta-feira, com o rosto involvido no veu, de gaze, preto, ajoelhada no meio da nave do templo, orando fervorosamente.
Vossas excellencias ataram, graciosamente, os chapeus, calçaram as luvas de pellica preta, endireitaram o penteado e foram ver a procissão, aromatisando a atmosphera com as vestes, que levavam, perfumadas do incenso do templo.
Tenho, agora, de me fazer acrobata. Saltar do sagrado ao profano. Interpollar façanhas gentilicas n'estas tristes recordações do christianismo.
E' o crime que imputam a Camões, na sua maravilhosa epopea.
Dou por provada a minha criminalidade tendo o author dos lusiadas por cumplice. E não me arrependo... Até aqui esta chronica foi um (texto ilegível), d'aqui em diante parecerá uma nenia. Devia ir tarjada de preto, vestindo lucto. Tenho a noticiar factos tristissimos. Sunt lacrimae rerum, direi eu, agora, perfilhando as palavras de Virgilio, n'um tom elegiaco. Contarei da morte... do ministerio, do ministerio lyrico, da feira de S. Lazaro e da quaresma. Tudo isto morreu! Ainda bem que não foi tudo n'um dia senão fazia-nos lembrar a catastrophe de 1755! O ministerio cahiu! E' a phrase mais concisa que se tem dito. E disse isto de passagem, porque em jornaes litterarios não se falla de politica. E' assumpto este que o chronista não tracta porque não deve e o folhetinista porque não pode.
A respeito de Tantalo, diz a mythologia, que estava immerso na agua, mas que para maior expiação, não podia beber uma só gotta. O folhetinista está tambem mergulhado no mar da politica... mas não póde fallar d'ella. O ministerio lyrico se não cahiu agonisa nos paroxismos da morte. Borghi-Mamo fugiu e levou consigo a alma da companhia lyrica... Ella não pode subsistir sem o auxilio d'aquella garganta, que tanto valia. A companhia, actualmente, é um corpo inerte sem alma, sem vida. As estatuas de Prometheu não valeriam nada, se não fora o fôgo roubado a Jupiter, que as animava. A feira do S. Lazaro acabou. Deixai-a morrer. Já não nos pruem nos ouvidos os sons desconcertados e desharmoniosos das gaitas, que os rapazes tocavam, empregando toda a força dos seus pulmões. As algibeiras dos vendedores resentiram-se com este fallecimento, as dos paes de familiar contentaram-se...
Fugiu a quaresma com todo o seu cortejo de confissões, jejuns, jubileus e contricções. Cantem as beatas e as devotas o epicedio sobre o tumulo, que guarda a ossada da quaresma. Não apregoem já que estes dizeres teem seus laivos de gentilismo. Não. Eu respeito-a, mas não gosto da quaresma, porque a acho muito sreia. Venha a folgada Paschoa com as suas amendoas e pão de ló, com os seus folares e brinquedos. A alegria da Paschoa principia com as bombas, que estouram na barriga do, duas vezes, pseudo-Judas. E acabe-se a chronica com uma expressão já velha — Dedit finem. A chronica,.. não eu.
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