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nós, os homens, principiamos a ser poetas, é na adolescencia; então o que chamamos vozes d'alma são meras recordações da infancia, memorias do passado, que entrevemos sempre risonho, porque a luz do futuro a julgamos ir-se escurecendo. Considerando a mulher na quadra da juventude, quem mais bellas lembranças póde ter dos dias finalisados n'um brincar perpetuo e sereno, innocente e cheio de candura?
Na mocidade, a mulher e o homem são como a flôr e o vento, a flôr sempre pura, sempre aveludada e cheia de matizes, sempre dulcificada de mel e perfumes, ao passo que o vento, raras vezes sereno, turbulento, mortifero, impugnado de miasmas putridas, sem musica, sem deleites, a não serem torpes, variavel sempre! Quebra-se um dia a haste da flôr, e esta deixa de existir. Ainda serve, porém, para cobrir uma lousa, para occultar um anjo, ao mesmo tempo que o vento passa, deixando apoz si uma lembrança tetrica, amaldiçoado, com o ferrete do homicidio, porque aos seus beijos de morte se desfolhou a flôr.
Na idade madura, despedaça, em geral, o homem o prisma da sua individualidade, e principia a colher inspirações em todo o mundo exterior. Mas n'este alargar d'horisontes, quanto laborar em erros, quanta ridicula altivez, quanta velleidade pueril, ao considerar-se o dominador dos espaços, se ao espirito não prezide a justeza, e ao sentimento não allumia a fé? A mulher, comtudo, vê-se livre de taes defeitos. Educadora de seus filhos, ameigadora de seu esposo, ella encontra na religião o balsamo de todas as consolações, a prophetisa, que lhe vaticina e descobre todos os thesouros da alma os mais reconditos.
Se a felicidade lhe principia a sorrir, desde que depoz no thalamo nupcial, a corôa de rosas brancas e de flôr de laranjeira, póde entreter um epithalamio infindo. Se a desventura lhe espreme dentro d'alma as vagas da afflicção, não deixa de ser poetisa, mas em vez da lyra amena do prazer, ver-lhe-heis, pendurado do leiro, o alaúde, d'onde resaltam, como lagrimas as notas d'uma elegia.
Na decrepitude, na velhice, esmigalhou-se o triste fadário de poesia. Quem sente remoçar o descuido da infancia, o ardor e impetuosidade da adolescencia, o meditar vigoroso e descançado da virilidade!... ninguem, ou quasi ninguem.
Se as folhas de cem corôas de louro me enramassem a cabeça, havia de ter força bastante para gritar — bardos, trovadores, homens de galanteio, romancistas, poetas, passae os vossos alaúdes, as vossas lyras, as vossas harpas, as vossas cytharas para as mãos franzinas, mas vigorosas e cheias de arte das mulheres que pensam. Se por ellas sômos poetas, deixemos que provem a atmosphera de creações musicaes para depois n'essas redes de harmonia, mais á vontade nos embalarmos. Formem os seus cabellos as cordas de suas lyras, e não sejam os laços com que nos prenda um amôr voluptuoso ao carro da impudicicias. Não haja receio de que ellas de deixem suffocar no perfume que de si exhalam. Saberão cumprir tão bem a sua missão como as estrellas. Bem como o sol não se abrasa a si mesmo, assim não se hão de consumir no fogo de seu engenho. E ainda que tal a algumas acontecesses, das arrefecidas cinzas quantas phenix não haviam de erguer vôo, confiadas em novo arrojo?!
Andaes em busca de novas formas de poesia?.. Perdei cuidados, deixae á mulher formar novos rythmos, novas combinações, novas fórmas, novas ideias. Os sentimentos ganharão a perfectibilidade, que se anhela, as crenças embotadas hão-de ter a época da sua regeneração. A naturesa do coração da mulher é capaz de tudo isto. Se ellas ainda o não tem feito é porque nós, os sobrebos, olhamos com sobranceria para cada talento feminil, que sorri, e cada nova aurora que desponta, mal póde raiar, por lhe abrirmos logo o seu occaso.
Mas este nós precisa limtar-se. Quem é que zomba da mulher e lhe suffoca e lhe amesquinha a grandeza de suas aspirações? E' o mundo... Mulher, n'este ponto, é preciso que eu me mostre um pouco agastado para comtigo. Porque has dito que só os homens, que se entregam ás lucubrações da phantazia, isto é os poetas, não sómente chegam a repellir as mulheres da communidade litteraria, mas até as julgam indignas da mais pequena collaboração no poema das har-