Os Sertões/A Luta/I

A LUCTA


 
Preliminares. — I Antecedentes. — II Causas proximas da lucta. Uauá. — III Preparativos da reacção. A guerra das Caatingas — IV Autonomia duvidosa.

I

Quando se tornou urgente pacificar o sertão de Canudos, o governo da Bahia estava a braços com outras insurreições. A cidade de Lençóes fôra investida por atrevida malta de facinoras, cujas incursões se alastravam pelas Lavras Diamantinas; o povoado de Brito Mendes cahira ás mãos de outros turbulentos; e em Jequié se commettiam toda a sorte de attentados.

O mal era antigo.

O tracto de territorio que recortam as cadeias de Sincorá e dalli a ambas as margens do S. Francisco, era, ha muito, dilatado theatro de tropelias ás gentes indisciplinadas do sertão.

Opulentada de esplendidas minas, aquella paragem é malsinada pela propria opulencia. Procuram-na ha duzentos annos irrequietos aventureiros ferrotoados pelo anhelo de espantosas riquezas, e estes esquadrinhando-lhe affanosamente os flancos das serranias e as nascentes dos rios, fizeram mais do que amaninhar a terra com a ruinaria das catas e o indumento aspero das grupiaras: legaram á prole erradia e, de contagio, aos rudes vaqueiros que os precederam, a mesma vida desenvolta e inutil livremente expandida na região fecunda, onde por muitos annos foram moeda corrente o ouro em pó e o diamante bruto.

De sorte que sem precisarem despertar pela cultura as energias de um solo em que não se fixam e atravessam na faina desnorteada de faiscadores, conservaram na ociosidade turbulenta a indole aventureira dos avós, antigos fazedores de desertos. E como, a pouco e pouco, se foram exhaurindo os cascalhos e afundando os veieiros, o banditismo franco impoz-selhescomo derivativo á vida desmandada.

O jagunço, saqueador de cidades, succedeu ao garimpeiro, saqueador da terra.

O mandão politico substituiu o capangueiro decahido.

A transição é antes de tudo um bello caso de reacção mesologica.

Caracterisemol-a, de relance.

Vimos como se formaram alli os mamalucos bravos e diligentes, interpostos, tão a proposito, na quadra colonial, entre o torvelinho das bandeiras e o curso das missões, como elemento conservador formando o cerne da nossa nacionalidade nascente e creando uma situação de equilibrio entre o desvario das pesquizas mineiras e as utopias romanticas do apostolado.

Ora, aquelles homens, depois de esboçarem talvez a unica feição util da nossa actividade naquelles tempos, tiveram desde o começo do seculo XVIII, quando se desvendaram as lavras do Rio de Contas á Jacobina, perigosos agentes que se lhes não derrancaram o caracter varonil, nortearam-n’o a lamentaveis destinos.

De feito, transmudaram-se em contacto com os sertanistas gananciosos.

Estes vinham, então, do oriente, espavorindo a ferro e fogo o selvagem e fundando povoados que, ao revez dos já existentes, não tinham o germen de uma fazenda de gado, mas as ruinas das malocas.

apun Bateram rudemente a região, estacionando largo tempo ante a barreira de serras que vão de Caetité para o norte; e quando as minas exgottadas lhes demandaram apparelhos para a exploração intensiva, tiveram, logo adiante, entre as mattas que vão de Macahubas a Assuaruá, novas paragens opulentas, attrahindo-os para o amago das terras.

Devassaram-nas até nova barreira, o rio S. Francisco. Transpuzeram-na, por fim.

Adiante, indefinido, se lhes antolhou, cavado nos chapadões, esse maravilhoso valle do rio das Eguas, tão aurifero que o ouvidor de Jacobina, em carta dirigida á rainha Maria II (1794) affirmava «que as suas minas eram a cousa mais rica de que nunca se descobriu nos dominios de Sua Magestade.»

Naquelle ponto se abeiravam das lindes de Goyaz.

Não deram mais um passo adiante. Ultimara-se uma missão deploravel. Pelos campos de criação avermelhavam, nodoando-os, os montões de argilla revolvida das catas entorroadas; e da envergadura athletica do vaqueiro surgira, destemeroso, o jagunço.

A nossa historia tão malsinada de indisciplinados heroes, adquiria um de seus mais sombrios actores.

Fez-se a metamorphose da situação anterior: ao lado da sociedade robusta e tranquilla dos campeiros, uma outra caracterisada pelo nomadismo desenvolto, pela combatividade irrequieta, e por uma ociosidade singular sulcada de tropelias.

Imaginemos que dentro do arcabouço titanico do vaqueiro, estale, de subito, a vibratibilidade incomparavel do bandeirante. Teremos o jagunço.

É um producto historico expressivo.

Nascendo de cruzamento tardio entre collateraes, que o meio physico já diversificara resume os attributos essenciaes de uns e outros — na actividade bifronte que oscilla, hoje, das vaquejadas trabalhosas ás incursões dos quadrilheiros.

E a terra, aquella incomparavel terra que mesmo quando abrangida pelas seccas, desnuda e empobrecida, ainda lhe sustenta os rebanhos nas baixadas salinas dos barreiros, ampara-o, de identico modo ante as exigencias da vida combatente: dá-lhe, gratis, em toda a parte o salitre para a composição da polvora, emquanto as balas, luxuosos projectis feitos de chumbo e prata, lá estão, incontaveis na galena argentifera do Assuruá...[1]

É natural, por isto, que desde o começo do seculo passado, a historia dramatica dos povoados do S. Francisco, começasse a reflectir uma situação anomala.[2] E embora em todas narrativas emocionantes que a formam, se destaquem rivalidades partidarias e desmandos impunes de uma politica intoleravel de potentados locaes, todas as desordens, surgindo sempre precisamente nos logares em que se ostentou, outr’ora, mais activa a ancia mineradora, denunciam a genesis remota que esboçamos.

Exemplifiquemos.

Todo o valle do rio das Eguas e, para o norte, o do rio Preto, formam a patria original dos homens mais bravos e mais inuteis da nossa terra.[3]

Dalli abalam para as algaras arrojadas alugando a bravura aos potentados, e têm sempre, culminando-as, o incendio e o saque de villas e cidades, em todo o valle do grande rio. Avançando contra a corrente já chegaram, em 1879, á cidade mineira de Januaria que conquistaram, tornando á Carinhanha, de onde haviam partido, carregados de despojos. Desta villa para o norte a historia das depredações avulta cada vez maior, até Xique-Xique, lendaria nas campanhas eleitoraes do imperio.

Não ha traçal-a em meia duzia de paginas. O mais obscuro povoado tem, alli, a sua tradição especial e sinistra.

Um unico, talvez, se destaca sob outro aspecto, o de Bom Jesus da Lapa.

É a Mecca dos sertanejos.

A sua conformação original, ostentando-se na serra de grimpas altaneiras, que resoam como sinos; abrindo-se na gruta caprichosa, cujo interior recorda a nave de uma egreja, escassamente aclarada; tendo, pendidos dos tectos, grandes candelabros de stalactites; prolongando-se em corredores cheios de velhos ossuarios diluvianos; e a lenda emocionante do monge que alli viveu em companhia de uma onça — tornaram-no objectivo predilecto de romarias piedosas, convergentes dos mais longinquos logares, de Sergipe, Piauhy e Goyaz.

Ora, entre as dadivas que em consideravel copia jazem no chão e ás paredes do extranho templo, o visitante observa, de par com as imagens e as reliquias, um traço sombrio de religiosidade singular. Facas e espingardas.

O clavinoteiro alli entra, contricto, descoberto. Traz á mão o chapéu de couro, e a arma á bandoleira.

Cae, genuflexo, fronte abatida sobre o chão humido do calcareo transudante... E reza. Sonda longo tempo, batendo no peito, as velhas culpas. Ao cabo, cumpre devotamente a promessa que fizera para que lhe fosse favoravel o ultimo conflicto que travara: entrega ao Bom Jesus o trabuco famoso, em cuja coronha alguns talhos de canivete lembram o numero de mortes commettidas.

Sae desapertado de remorsos, feliz pelo tributo pago. Amatula-se de novo á quadrilha. Reata a vida temerosa.

Pilão Arcado, outr’ora florescente e hoje deserta, na derradeira phase de uma decadencia que começou em 1856; Xique-Xique, onde dezenas de annos, se degladiaram liberaes e conservadores; Macahubas, Monte-Alegre e outras, e todas as fazendas de seus termos, delatam, nas vivendas derruidas ou esburacadas á bala, esse velho regimen de desmandos.

São logares em que se normalisou a desordem esteiada no banditismo disciplinado.

O conceito é paradoxal, mas exacto.

Porque ha, de facto, uma ordem notavel entre os jagunços. Vaidosos de seu papel de bravos conducticios e batendo-se lealmente pelo mandão que os chefia, resumem as desordens ás minusculas batalhas em que entram, militarmente, arregimentados.

O saque das povoações que conquistam, tem-no como direito de guerra, e neste ponto absolve-os a historia inteira.

Fóra disto, porém, são raros os casos de roubos, que consideram desaire e indigno labéo.

O mais fragil positivo pode atravessar, inerme, procurando o littoral, aquellas mattas e campos, com os piquás atestados de diamantes e pepitas. Não lhe faltará um só no termo da viagem.

O forasteiro, alheio ás luctas partidarias, atravessa-os egualmente immune.

Não raro um mascate, seguindo por alli, com os seus cargueiros rengueando ao peso das caixas preciosas, estaca — tremendo — ao ver apparecer-lhe adiante um grupo de jagunços, acampados na volta do caminho...

Mas perde em momentos o medo.

O clavinoteiro chefe approxima-se. Sauda-o com boa sombra; dirige-lhe a palavra, risonho; e mette-lhe á bulha o terror, galhofeiro. Depois lhe exige um tributo-um cigarro. Accende-o numa pancada unica do isqueiro; e deixa-o passar, levando, intactas, a vida e a fortuna.

São numerosos casos deste theor revelando extranha nobreza entre aquelles valentes desgarrados.

Cerca de dez ou oito leguas de Xique-Xique demora-lhes a capital, o arraial de Santo Ignacio, erecto entre montanhas e inaccessivel até hoje a todas as diligencias policiaes.

Estas, em geral, conseguem pacificar os logares conflagrados, tornando-se interventoras neutras ante as facções combatentes. É uma acção diplomatica entre potencias.

A justiça armada parlamenta com os criminosos; pondera as condições de um e outro partido; evita-lhes os ultimatums; e acaba ratificando verdadeiros tratados de paz, sanccionando a soberania da capangagem impune.

Assim os stygmas hereditarios da população mestiça se têm fortalecido na propria transigencia das leis. Não surprehende que hajam avolumado, avassallando todo o valle do S. Francisco, e desbordando para o norte.

Porque o cangaceiro[4] da Parahyba e Pernambuco, é um producto identico, com diverso nome. Distingue-o do jagunço talvez, a nullissima variante da arma predilecta; a parnahyba de lamina rigida e longa, supplanta a fama tradicional do clavinote de bocca de sino.

As duas sociedades irmãs tiveram, entretanto, longo afastamento, que as isolou uma da outra. Os cangaceiros nas incursões para o sul, e os jagunços nas incursões para o norte, defrontavam-se, sem se unirem, separados pelo vallado em declive de Paulo Affonso.

A insurreição da comarca de Monte-Santo, ia ligal-as.

A campanha de Canudos despontou da convergencia expontanea de todas estas forças, dispersas e perdidas nos sertões.

Notas

  1. Vide «Descripções praticas da Provincia do Brazil» pelo tenente-coronel Durval Vieira de Aguiar.
  2. Caetano Pinto de Miranda Montenegro, vindo em 1804 de Cuyabá ao Recife, andando 670 leguas, passou pela Barra do Rio Grande, e no relatorio que enviou ao visconde de Anadia, diz, referindo-se áquelles logares que «em nenhuma parte dos dominios portuguezes a vida dos homens tem menos segurança. (Liv. 16. Corr. da Côrte, 1804-1808).
  3. Quem precisa de Jagunços no rio S. Francisco manda-os contractar nesse grande viveiro. O clavinote com a munição é o preço; o mais arranjam facilmente conforme o valor da impunidade que a influencia do patrão offerece.» Tenente-coronel Durval. Idem.
  4. Derivado de cangaço, complexo de armas que trazem os malfeitores.
    «O assassino foi á feira debaixo do seu cangaço, dizem os habitantes do sertão.» Franklin Tavora, o Cabelleira.