Oração ao sol

Oração ao Sol

Sol, rei astral, deus dos sidéreos Azues, que fazes cantar de luz os prados verdes, cantar as aguas! Sol immortal, pagão, que symbolisas a Vida, a Fecundidade! Luminoso sangue original que alimentas o pulmão da Terra, o seio virgem da Natureza! Lá do alto zimborio cathedralesco de onde refulges e triumphas, ouve esta Oração que te consagro neste branco Missal da excélsa Religião da Arte, esmaltado no marfim eburneo das illuminuras do Pensamento.

Permitte que um instante repouse na calma das Idéas, concentre cultualmente o Espirito, como no recolhido silencio de egrejas gothicas, e deixe lá fóra, no rumôr do mundo, o tropél infernal dos homens ferózmente rugindo e bramando sob a cerrada metralha accêsa das formidandas paixões sangrentas.

Concéde, Sol, que os manipanços não possam, grotescamente, chatos e rômbos, com grimaces e gestos ignobeis, imperar sobre mim; e que nem mesmo os Papas, que têm á cabeça as veneraveis orelhas e os chavelhos da Infallibilidade, para aqui não venham, com solemne aspecto abençoador, babar sobre estas paginas os classicos latins pulverulentos, as theorias abstrusas, as regras fósseis, os principios batrachios, as leis de Critica-megatherio.

E faz igualmente, Sultão dos espaços, com que os argumentos duros, broncos, tórtos, não sejam arremessados á larga contra o meu cérebro como incisivas pedradas fortes.

Livra-me tu, Luz eternal, desses argumentos coléricos, attrabiliarios, como que feitos á maneira de armas barbaras, terriveis, para matar javalis e leões nas sélvas africanas.

Dá que eu não ouça jámais, nunca mais a miraculosa caixa de musica dos discursos formidaveis! E que eu ria, ria — ria symbolicamente, infinitamente, até o riso alastrar, derramar-se, dispersar-se emfim pelo Universo e subir, nos fluidos do ar, para lá no fóco enorme onde vives, Astro, onde árdes, Sol, dando então assim mais brilho á tua chamma, mais intensidade ao teu clarão.

Pelo scintillar dos teus raios, pelas ondas fulvas, flavas, ó Espirito da Irradiação! pelos empurpuramentos das auroras, pela chlorose virgem das steppes da Lua, pela clara serenidade das Estrellas, brancas e castas noviças geradas do teu fulgôr, faculta-me a Graça real, o magnificente poder de rir — rir e amar, perpetuamente rir, perpetuamente amar...

Ó radiante orientalista do firmamento! Suprêmo artista grego das fórmas indeleveis e prefulgentes da Luz! pelo exotismo aziatico desses deslumbramentos, pelos magestosos cerimoniaes da basilica celeste a que tu presides, que esta Oração vá, suba e penetre os ethereos paços esplendorosos e lá para sempre vibre, se eternise atravez das forças firmes, n’um som alacre, cantante, de clarim proclamador e guerreiro.