O Giaur
O GIAUR
POEMA DE LORD BYRON
portuguezes, livres
O GIAUR
POEMA DE LORD BYRON
portuguezes, livres
Mayrink
O GIAUR[1]
Nem zephyra subtil enruga as ondas,
Que á praia vêm morrer, molhando a base
Ao tumulo do chefe atheniense.[3]
— Primeira a branqueiar no promontorio —
A pedra sepulcral saúda o nauta,
Quando, de riscos salvo, aos lares volta,
E domina o paiz, que foi, debalde,
Por Themistocles salvo. Oh! quando o mundo
Heróe de tal valor verá, de novo?
Bello clima! Sorri-se, alli, fagueira
Advertencia I — O Giaur, poema formado de fragmentos soltos, repousa em factos, menos frequentes hoje no Oriente, do que em tempos idos, ou porque os christãos actuaes sejam menos ousados, ou mais habeis. Continha esta historia, antes de mutilada, as aventuras de uma joven escrava, que, convencida de infidelidade, foi, segundo o uso musulmano, arrojada ao mar. Um moço veneziano, seu amante, resolveu vingal-a. Estava, então, de posse das Sete Ilhas a Republica de Veneza. Os Arnotas foram expulsos da Morèa, por elles devastada em seguida á invasão dos Russos. A deserção dos Menotas, a quem foi recusado o saque de Misistra, obstou a realização dessa empreza, sendo aquella peninsula entregue, indefesa, a todos os horrores de uma guerra, que não se depara igual, nem mesmo nos annaes dos fieis.
Cada estação ás ilhas fortunadas
Que são, vistas da altura do Colonna,
Da solidão encanto e enlevo d՚alma.
Alli, na face limpida e serena,
Em ridentes covinhas a entreabrir-se
Reflecte o mar as tintas das montanhas
E lhes imprime a cor nas ledas vagas,
Que desse paraiso as praias beijam.
Si leve brisa, a sacudir das azas
Perfume e fresquidão, encrespa, ás vezes,
O limpido crystal d՚aquellas aguas,
E a rama embala aos flóridos arbustos,
Quanta delicia traz aos que a respiram !
Alli, sobre alcantis e em fundos valles,
Aos doces beijos do canóro amante [4]
Purpureo calix desabrocha a rosa,
Noiva do rouxinol, que em seus trinados
Enche, por ella, os ares de harmonia.
Essa odalisca do cantor plumoso,
Que o sceptro dos jardins conserva, eterno,
Sempre, em toda a estação mimo das auras,
Nunca offendida de tufões e gelos,
Sem conhecer occidentaes invernos,
—A rosa—paga c՚o mais puro incenso
A՚ natureza os succos nutritivos
E, grata, offerta ao céo, de que é dilecta,
O brilhante matiz das vivas cores
E a essencia de balsamicos suspiros.
Flôres mil do verão alli resplendem ;
Ha profusão de sombra, a amor propicia ;
E muita gruta, parecendo asylo
De calma e paz, é coito do pirata.
Este, no abrigo de seguro golfo
De pacifica vela está na espia,
Até que Vesper no horizonte assoma
E o nauta fere as cordas da guitarra.[5]
Então, batendo amortecidos remos,
O nocturno ladrão cahe sobre a victima,
E em mortal estertor lhe muda o canto.
Estranha aberração ! Plaga tão bella,
Onde parece quiz a natureza
Crear habitação, propria de Numes;
Paraizo, em que a mão munificente
Graças, encantos, derramára, a froixo,
Eis que a transforma mum deserto o homem!
Cego, vibrando a foice do exterminio,
Sua planta brutal esmaga as flôres,
Que não têm precisão de algum desvelo
Para viçarem nesse fertil sólo,
E, apenas, na dulcissima linguagem
Parecem implorar que as não destruam.
Estranha, sim ! A paz respira em tudo ;
Mas reina das paixões furia orgulhosa,
E sobre escombros de belleza tanta
Fundam imperio a crápula, a rapina.
Dirieis que os espiritos do inferno
Venceram os exercitos celestes
E que os herdeiros da infernal cohorte
Vão, livres, occupar do Empyreo o throno;
— Tanta magia encerra aquelle sólo,
Tão odiosos são os seus tyrannos !
Já contemplaste o rosto de um cadaver,
Quando inda corre o dia do trespasso ;
Dia que é termo á dor e inicio ao nada !
Inda a destruição não ha quebrado
Linhas, em que a belleza sobrevive.
Certo, notaste a angelica doçura,
O calmo somno, o extasi tranquillo
Dessas feições, que immoveis se tornaram,
Mas que dominam o languor das faces,
Sem terem inda a rigidez da morte.
Não fôra aquella fronte, quêda e gélida,
Sem lagrimas, sem fogo e sem sorriso,
Onde a apathia do sepulero engendra
Terror em quem no morto os olhos crava,
(Como si aquella vista origem fosse
De sorte igual, que tanto horror infunde),
Sim! Não fôra esse indicio irrecusavel,
Quem não descrera do poder da morte,
Ante o cunho de paz e de belleza,
Anto a serena placidez, que mostra
O da morte primeiro e ultimo aspecto ?! [6]
Espectaculo igual ha nestes sitios.
A Grecia aqui se vê, porém, sem vida;
Fria, mas rica em producções e galas.
Treme-se vendo-a bella até no exicio,
Pois alma já não tem. Os seus encantos
São os da morte e não tem fim com ella.
Sua belleza guarda a côr funerea,
Essa tinta das portas do sepulcro.
Clarão fugaz da idéa, que se evóla,
Aureo nimbo na fronte de um cadaver,
Raio de adeus do extincto sentimento,
Chamma, que vem, talvez, do fóco ethereo
E, sem dar-lhe calor, inda illumina
A tão saudosa habitação de argilla.
O՚ de immortaes heróes sagrada patria !
Tú, que nas chans, cavernas e montanhas
Offereceste azylo á liberdade
E para a gloria um tumulo cavaste ;
— Ossuario de fortes e valentes !
E՚ crivel que de ti tão pouco exista ?
Aproxima-te, ó vil, rojante escravo !
São estas as Thermopylas ? Responde !
Descendente servil dos homens livres,
Que ondas azues são estas, que te cercam ?
Qual o nome da praia, em que rebentam ?
Vejo de Salamina o golfo, a rocha ?
Vem Toma posse do scenario augusto,
Pelo fanal da Historia illuminado;
Arranca ás cinzas de teu pai scentelhas
Do fogo divinal, que os animava !
Quem na lucta morrer prende a seu nome
Outro nome, fatal aos oppressores,
E ha de legar aos seus eterna gloria,
Que será defendida a todo o transe.
Succumba o pai ; o filho ha de vingal-o.
Uma vez começada a lucta heroica,
Virá triumpho certo, após revezes.
Dá testemunho, ó Grecia. Em tua historia
Cada pagina affirma esta verdade !
Emquanto envolve os reis treva e poeira,
A teus heroes, si bem que derruida
A columna, que seu meimento ornava,—
Mais inclyto padrão consagra o nome:
—São as montanhas de seu patrio ninho.
Alli aponta ao mundo a musa d՚Héllen
A campa dos que têm perpetua fama.
Longo seria acompanhar-te os passos.
Pelo declive lubrico e funesto,
Por onde do apogéo, em que fulgias,
Rolaste neste abysmo de miseria.
E՚ bastante lembrar que em teu passado
Inimigo qualquer, de estranha origem,
Jamais logrou envilecer tua alma,
Antes de polluida á propria vilta,
Que ao despota, ao traidor abrio caminho.
Que assumpto dás do peregrino á penna ?
Nem legendas dos seculos passados,
Nem rasgos de valor e heroicidade,
Que alcem da musa o vôo ao gráo sublime,
Attingido em teus dias gloriosos,
Quando os varões, gerados em teu seio,
De teu formoso céo condignos eram.
Deviam sempre produzir teus valles
Briosos corações, almas de fogo,
Capazes de inspirar acções heroicas
A teus filhos... Mas ai! Quaes vis escravos,
Ou (que digo?) de escravos servidores,[7]
Insensiveis a tudo, excepto ao ouro,
Que do crime provém — espuria raça —
Rojando vão do berço á sepultura.
Immersos nas paixões, em que chafurda
Essa baixa porção da especie humana,
Que da bruta alimaria está mais perto ;
Desprovidos até dos simples dotes,
Que são communs aos incolas das selvas,
Entre quantos á grey servil pertencem
Não pulsa um coração, valente e livre.
Arrastando, porém, de porto em porto,
Proverbial finura e antigas fraudes,
Alli se nos depara o Grego astuto,
Que só por este titulo é notavel.
Seria vão da liberdade o appello
Para almas taes, á escravidão moldadas.
Tentame inutil fôra erguer taes frontes,
Que, avergadas ao jugo, o jugo adoram.
Trégoa a tão triste, doloroso thema.
Pois o que vou nariar tambem é triste !
Acredite o leitor de minha historia
Que, quando a ouvi contar, foi entre lagrimas.
De negras rochas sobre o mar ceruleo
Se alonga a sombra. O pescador, de longe,
Toma-a por barca de insular pirata
Ou de Menota. Acautelando o esquife,
Foge á suspeita, proxima enseada.
Posto que exhausto e tendo grave o barco
Dos productos de mar, pesado e lento,
Mas com todo o vigor, maneja os remos,
Té que em Porto Leone acha refugio
Em constellada noite do Oriente.
Quem, como o raio, á disparada, vôa
Sobre negro corcel, de redeas soltas
E pé veloz? Estrepitosas, soam
As ferraduras, acordando os écos
Das cavernas que, ao longe, os sons repetem.
Dos ilhaes do ginete a branca espuma
E՚ como a que produz do oceano a vaga.
Esta, do açoite fatigada, dorme ;
Mas não repousa aquelle cavalleiro.
Si crástina borrasca o céo prepara,
O՚ moço giaur, será, por certo,
Que a do teu coração menos tremenda.
Não te conheço; odeio a tua raça;
Mas em tuas feições signaes descubro,
Que deve accentuar a mão do tempo.
Trazes na fronte joven, mas sem viço,
De ferozes paixões gravado o estygma.
Ao passares por mim, qual meteóro,
Ias fitando o chão; mas em teus olhos
Conheci, de relance, um desses entes,
Que matar ou fugir deve o Ottomano !
Corria sem parar; cheio de assombro
Seguia meu olhar aquella fuga.
Qual demonio da noite, apparecera
A՚ minha vista e, logo, se esvaira.
Mas guardei na memoria a imagem sua,
E resoou, por muito, em meus ouvidos
O forte galopar de seu ginete.
Crava mais fundo agudos acicates;
Eil-o visinho da ouriçada escarpa,
Que, entrando pelo mar, ensombra as ondas.
Quer, galopando, contornal-a, ás pressas.
Vai a meus olhos escoudél-o a rocha.
(Testemunhas não quer quem bate em fuga ;
Vendo brilho de mais em cada estrella,
Sente real vexame, ao ter certeza
Que olho importuno lhe acompanha os passos.)
Volve a cabeça e para traz dirige
Olhar, que visos tem de olhar extremo.
O ginete detém, por um momento;
Levanta-se no arção! Porque seus olhos
Erram por sobre o bosque de oliveiras?
Vê-se o crescente, a rutilar no oiteiro;
Já tremulante claridade espalha
D՚alta mesquita a lampada votiva.
Bem que não possa de tão longe ouvir-se
O mosquete a troar, vivos lampejos[8]
De festival descarga simultaneos,
As provas dão do musulmano zelo.
Esta tarde atufou-se no occidente
O ultimo sol do Rhamazan; começam
As festas do Baïram. E՚ nesta tarde...
Mas quem és tu, de traje peregrino
E de aspecto cruel? Que val tudo isto
Para appressar-te, ou demorar-te a fuga ?
Pára. O terror se pinta em seu semblante,
Que odiosa expressão, de prompto, assume,
Não é rubor de passageira colera,
Sim pallidez do marmóre da campa,
Féral brancura, lugubre, sinistra.
Pendida ao chão a fronte conservava ;
Tinha no olhar a fixidez da morte.
Em feroz attitude erguendo o braço,
Movia a dextra em gesto de ameaça.
Parecia hesitar em dous alvitres:
--Retroceder ou proseguir caminho.
Nitrio, impaciente, o seu cavallo,
Negro, quaes são do corvo as negras azas.
Então, o cavalleiro, a mão baixando,
Levou-a aos cópos da pendente espada.
Esse nitrido o despertou do souho,
No qual, sem ter dormido, estava immerso.
Assim o mocho acórda em sobresalto
A quem, tranquillo, dorme. O cavalleiro
Rasga co՚a espora os lados do ginete.
O fremente corcél, célere, vóa,
Qual dardo, que obedece á rijo impulso.[9]
Elle dobrou a rocha e já na praia
Não repercute o galopar sonóro.
Nem se vê do christão o fero vulto.
Um só momento, retivera a brida
Do fogoso corcel; sem mais tardança
Proseguio no correr desenfreado,
Qual si no encalço lhe viesse a morte.
Mas na dura do rapido intervallo
Vivas recordações de longos annos
Lhe resurgiram, subito, na mente
E adensaram num atomo de tempo
Toda uma vida de miseria e crime.
A alma, presa de amór, odio ou receio,
Nesse momento encontra resumido
Um passado de dor. Nelle, que soffre,
Essa do coração triplice angustia,
Quem marcaria a duração do instante,
Occupado em pensar no seu destino?
Si tal momento pouco val no tempo,
E՚ no seu cogitar, a eternidade.
O pensamento, infindo como o espaço,
Abrange a consciencia e encerra males
Sem esperança, sem limite, ou nome.
Passou o tempo; o giaur partira.
Logrou fugir, ou succumbio sosinho ?
Maldita a hora, em que chegou ; maldita
A hora, em que partio! Flagello vivo,
Que os peccados de Hassan punir viera,
Transformára um palacio em sepultura.
Qual simoun, chegou; foi-se, como elle[10]
Mensageiro fatal de lucto e morte,
O sopro seu destróe mesmo o cypreste,
Arvore escura, que a chorar persiste,
Quando cessado tem a dor dos outros,
E a quem trajar de dó jamais fatiga...
Jaz de Hassan o palacio ermo de escravos.
O estabulo não tem um só cavallo.
Teia cinzenta a solitaria aranha
Vai nas paredes, lentamente, urdindo.
Ninho o morcego faz do harém nos quartos ;
Na torre do pharol habita o mocho.
Magros, famintos cães, hoje bravios,
Uivando junto á fonte, a sède illudem,
Pois do marmoreo leito, agora inçado
De sarça e de poeira, a lympha é secca.
Quanto enlevava o contemplar, outr՚ora,
Aquellas claras, saltitantes aguas,
Que, em filetes de prata deslizando,
Suavizavam a aridez da plaga,
Brincando em ledas, caprichosas voltas,
Enchendo o ar de fresquidão suave
E de verdor luxuriante o solo !
Quanto enlevava na mudez da noite,
Sob estrellado céo, limpo de nuvens,
Dessa liquida luz fitar as ondas
E ouvir-lhes o murmúrio harmonioso!
Quantas vezes, Hassan, em tenra infancia,
Junto ás margens folgou dessa cascata !
E quantas vezes, no materno seio
Essa harmonia lhe embalára o somno !
Mais tarde, em quadra juvenil, que vezes
Ouvio alli os cantos da Belleza,
Que á musica da fonte unindo a sua,
Como que lhes prestava encanto novo!
Mas na velhice, á hora do crepusculo,
Hassan alli não buscará descanço.
Secco o manancial, estanque o sangue,
Que dava ao coração calor e vida,
Não se ouvirão alli de voz humana
Accentos de furor, tristeza ou jubilo.
O derradeiro som, que a brisa trouxe,
Foi grito de terror, um som de morte.
Não houve outro ruido além do embate
Das gelosias, á merce do vento.
Restruja o furacão; chova em torrentes;
Nunca mais haverá braço que as feche.
Praz em meio de safaro deserto
Vêr, posto que indistincto, humano rasto.
Tal nessa casa um éco de consolo
A propria voz da dôr despertaria.
Dir-se-hia ao menos: Não partiram todos;
Inda, apezar de langue, a vida pulsa.
Ha neste paço camaras e salas,
Não destinadas a ficar desertas.
Por dentro do edificio, a mão do tempo
Foi exercendo a acção destruidora,
E só na entrada accumulou ruinas.
Alli não se detém derviche errante,
Nem o proprio fakir; pois dessa porta
Hospitaleira mão ninguem lhe estende.
Cansado viandante, forasteiro,
No ermo lar não comparte, abençoando-os,
Nem o pão, nem o sal—sacros emblemas.
Passará, descuidado, o rico, o pobre,
Por aquelle lugar, sem ser notado;
Pois com Hassan fugiram desses montes
Bondade e compaixão, virtudes raras,
Seu paço—antigo fóco de bulicio—
Hoje é theatro de tristeza e fome.
Já não ha para os hospedes asylo,
Para os vassallos já não ha trabalho,
Depois que do infiel a mão perversa
O turbante de Hassan fendeu co՚a espada
Soam passos de alguem; não oiço vozes.
Vem proximo o rumor...vejo turbantes,
Vejo dos yatagans argenteas guardas.
Pelo uniforme seu de verdes cores[11]
Reconheço um emir no commandante.
Ao brado: «Quem és tu ?» acudo, presto ;
«Este salám, profundo e respeitoso[12]
A minha fé de musulmano atteste.
O fardo, que vos dá tanto desvelo,
Contém, de certo, precioso objecto.
Prompto para leval-o ahi está meu barco,
— Vens opportuno! Desamarra o esquife.
Eia; larguemos desta muda praia.
Não abras vela; põe no remo esforço.
Pára, chegando em meio dos rochedos,
Aonde, immota em seu canal estreito,
A agua repousa em profundez sombria.
Agora... Ahi... Que bem que trabalhaste!
Nossa excursão foi rapida... Entretanto,
Durou mais do que as outras, que...»
Nas aguas
Tombou a carga e foi, lento, afundando.
Uma onda, que surgio, bateu na praia.
Segui co՚a vista o fardo. Afigurou-se-me,
Que, nesse instante, um movimento extranho
Essas tranquillas aguas agitava.
Era, talvez, a luz, tremeluzindo
No liquido crystal. Ia minguando,
Pouco a pouco, o tamanho do volume,
Qual diminue o de arrojada pedra,
Que no leito do mar, descendo, toca.
— Menos visivel cada vez,—tornou-se
Nodoa branca, a alvejar do mar no fundo,
Té que, de todo, se esvaio nas aguas.
E foi dormir nas furnas do oceano
Desse fardo o mysterio tenebroso.
Sabem-n՚o (mais ninguem) do abysmo os genios,
Que em suas grutas de coral, tremendo,
Siquer, não ousam murmural-o ás vagas.
De Cachemira nos virentes prados
A rainha gentil das borboletas,[13]
Lindas, purpureas azas desdobrando,
Incita uma criança a perseguil-a;
Leva-a de flor em flor e, alfim, no termo
De uma carreira longa e fatigante,
Subito, alçando o vôo o alado insecto,
Deixa a offegar o desolado infante.
Tal a Belleza com brilhantes côres
E fantasticas azas irrisadas
Attrahe o homem—a criança adulta,
Que lhe corre na treita. Essa corrida,
—Luta continua de receio e esp՚rança,—
Começa na loucura e acaba em pranto.
Si alguem as prende—á borboleta e á moça
Cabe destino igual.—Vida de angustias,
Coração, de que a paz ha desertado,
Eis quanto colhe do embeléco o infante,
Do capricho do adulto é tal o fructo.
Com tanto ardor seguida a borboleta,
Perde, quando apanhada, os seus encantos;
O contacto da mão lhe apaga as côres,
E, extincta c՚o o matiz toda a belleza,
Deixamol-a voar, ou vír á terra,
D՚aza quebrada e coração ferido,
Cada qual destas victimas illusas
Em que sitio achará calma e repouso ?
Hade, assim mutilada, a borboleta
Voar, qual dantes, da tulipa á rosa?
Póde a belleza, extincta em breves horas,
Em seu profano asylo haver descanço?
Não!... Em transito, insectos mais felizes
Hão de, piedosos, repousar o vôo
Junto á pobre, expirante companheira ?
Não! Quando uns olhos de mulher formosa
Mostraram compaixão, vertendo pranto
Por outra queda, que não seja a sua ?
Sempre insensiveis são á toda a magua,
Excepto á de uma irmã, que ha succumbido.
A alma, que guarda em si culposas dores
E cuja irritação friza o delirio,
E՚ semelhante a escorpião nas chammas.
Mais se restringe o eirculo brilhante
Quanto mais vivo o fogo do brazeiro.[14]
Cada vez mais de perto a chamma o envolve ;
Té que, pungido de intimas torturas,
Lança mão de seu ultimo recurso:
— O aguçado ferrão, que só vibrava
Contra inimigos seus; arma tremenda,
Que nunca fére em vão. Em desespero,
Voltando-o contra si — num só tormento
Põe termo a todos, que lhe causa o fogo.
Desta maneira, os tristes pensamentos
Podem ser dentro d՚alma aniquilados
Após terem vivido em seus recessos,
Qual esse escorpião em vivas brazas.[15]
Assim, durante a vida, é torturado
Coração, de retnorsos consumido.
Incapaz de viver no terreo globo,
Excluido do céo, — por cima delle
Umbrosa noite; em baixo o desespero ;
Chammas em derredor e dentro a morte.
Hassan já não visita o harém. Soturno,
Só tem para a belleza ollar isento.
Hoje a caça, que dantes despresava,
E՚ sua occupação; mas é sabido
Que não goza prazer correndo os bosques.
Era, porém, frequento no serralho
Quando a sua odalisca preferida
— Leila — estava lá... Que é feito della ?
Hassan e mais ninguem dizel-o póde.
Singulares boatos circulavam.
Diziam que Leila o harém deixára,
Do Rhamazan na derradeira tarde,[16]
Quando, brilhando em cada minarete
Lampadas mil, a todo o vasto Oriente
A festa do Bairam annunciavam.
Ella saira em direcção dos banhos,
Onde os servos de Hassan, acceso em colera,
Perderam tempo em pesquisar-lhe os rastos.
Pois, disfarçada em pagem da Georgia,
A՚ vindicta de Hassan tinha escapado,
E do christão desleal cedendo aos votos
Irrogara ao senhor profunda injuria.
Suspeitas da infiel Hassan nutria;
Ella, porém, ternuras requintando,
Tanto fingira, seductora e bella,
Que Hassan não quiz suppor fosse uma escrava
Capaz de perpetrar tão grande crime.
Fôra á mesquita, nessa mesma tarde ;
Déra, após, um festim em seu kiosque.
Foi esta a explicação dos servos Nubios,
Guardas do harém; mas, pessimos vigias.
Contavam outros que, naquella noite,
Da pallida Phingari á luz incerta,[17]
Correra o giaur, á desfilada,
De seu negro corcel sangrando a ilharga,
Sem comsigo levar mulher, nem pagem.
Como pintar-lhe os lindos olhos negros,
Grandes, profundos, languidos? Sómente
Pondo-lhe em frente os olhos da gazella.
Cada raio, que ás palpebras lhe desce,
Reflectindo-lhe d՚alma o intenso brilho.
Alma, sim! Si o propheta houvesse dito,
Que esse corpo não é mais do que argilla,
Pelo sopro de Allah vivificada,
Eu contestara o divinal asserto,
Mesmo passando de Al-Sirat na ponte,[19]
Que oscilla e treme sobre um mar de fogo,
E vendo em frente a mim o paraizo
E todas as huris[20] a me acenarem.
Qual crente, ao ler nos olhos de Leila,
Veria na mulher só vil poeira,
Do prazer de um senhor mero instrumente?[21]
Chamma immortal fulgia-lhe nos olhos!
O encarnado da flor da romanzeira,
Sempre recente, as faces lhe accendia.[22]
Quando, em meio das servas prosternadas,
Desatava no harém sedosas tranças,
Flexiveis como o talo do jacintho,[23]
Ellas viuham beijar da sala o marmore,
Onde, a offuscal-o, os pés lhe resplendiam,
Tão alvos como a neve das montanhas
Da nuvem paternal inda no encèrro,
Livre de pó, na virginal pureza.
E, qual desliza magestoso cysne,
Do lago á flor, na terra perpassava
Essa formosa filha da Circassia,
Cysne do Franguestan. Como, assustado[24]
Esse passaro nobre ergue a cabeça
E com aza orgulhosa açoita a lympha,
Si ouve passar alguem nas margens humidas,
Tal, garbosa, Leila alçava o collo,
Mais alvo que o do cysue; assim vestia
Qual armadura, a esplendida belleza,
Contra importuno olhar, té que, forçado,
Para o chão o baixasse o presumpçoso.
Era seu porte gracioso e nobre.
Estremecia o eleito de sua alma.
Este eleito quem é? Tão doce titulo,
O՚ merencorio Hassan, não te pertence.
Pôz-se a caminho Hassan. Vinte vassallos
De yatagan e arcabuz todos muuidos,
O sequito lhe foi. A՚ frente delles,
Armado, cinge Hassan a cimitarra,
Tinta na flôr do sangue dos Arnotas,
Quando reveis, a disputar lhe o passo
Na gargante de Parne se atreveram,
De onde voltou, apenas, um pugillo,
Para narrar as scenas do recontro.
Traz á cinta riquissimas pistolas
Que foram de um bachá; bem que embutidas
De ouro puro e de gemmas cravejadas,
Treme de vel-as o feroz bandido.
Corre que vai em busca de outra amante,
Mais fiel do que a perfida captiva,
Que por um giaur do harém fugira.
Ferem do sol os raios derradeiros
Limpidas, frescas aguas de um regato
Que do rude montez attrahe as bençãos.
O Grego traficante, retardado
Póde aqui desfrutar paz e repouso,
Que não encontra em meio das cidades,
Onde o seu cabedal é facil preia
A՚ sordida ambição de vis senhores.
Aqui pó le dormir tranquillo somno,
Não devassado por olhar extranho.
Elle, escravo nos centros populosos,
Inteiramente livre é no deserto.
Póde nesse lugar encher do vinho,
Defeso ao musulmano, a taça argentea.
Um Tartaro, que traz turbante jalde,
Da garganta á sahida, em frente surge
De seus soldados, que em fileira postos,
Lento, fazem a volta da passagem.
Domina-os da montanha o erguido cimo,
Onde faminto abutre aguça o bico,
Pois talvez, essa noite, um bom repasto
Se lhe prepare e, á ceva estimulado,
Deixe o refugio seu antes da aurora.
Aos pés lhes fica o leito de um ribeiro,
A՚ que sugou a lympha o sol do estio,
E onde rareiam rebentões de tojo,
Que, mal abrolham, enfesados morrem.
De ambos os lados margeando a estrada,
Jazem fragmentos de um granito escuro,
Que a mão do tempo, ou dos tufões a força
Destacaram dos picos desses montes,
Sempre envolvidos num capuz de nuvens.
Quem vio, sem elle, do Liakura o pincaro ?
Attingiram os bosques de pinheiros.
« Bismillah! O perigo é já passado; [25]
Eis diante de nós planicie aberta,
Onde os corceis esporear podemos.»
Sentio o guia, ao terminar a phrase,
Uma bala silvar-lhe nos ouvidos.
Morto cahio o Tartaro da frente.
Rapido, colhem redea os cavalleiros,
E, de um salto, no chão se precipitam.
Não mais cavalgarão tres desses homens.
Mão invisivel os ferio de morte.
Bradam vingança, embalde, esses cadaveres.
De espada em punho e carabina armada,
Firmam alguns os braços nos arreios,
Fazendo ante-mural dos seus cavallos.
Outros se abrigam nas visinhas rochas,
E a salvo de perigo, o assalto aguardam.
Fôra bravata alguem expor-se aos golpes
De aggressor, entre as arvores occulto.
Mas Hassan não apeia; avante segue ;
E, ouvindo retroar tantos mosquetes,
Vê-se colhido ás mãos dos inimigos,
Que a retirada, em pleno, lhe cortaram.
Então, de furia se lhe eriça a barba;[26]
Mais terrivel clarão do olhar despede.
« Zunam, embora, perto ou longe, as balas.;
Tenho escapado de mais rudes lances ! »
Salta o inimigo de detraz da rocha
E intima a rendição. Tem mais imperio
De Hassan o olhar, seus gestos e palavras,
Que as cimitarras do contrario bando.
Dentre o pequeno grupo, que o seguia,
Nenhum entrega espada, ou carabina,
Nem diz — Amaun — o grito do covarde.[27]
Saem do escondrijo os ultimos bandidos;
Approximam-se e põem-se a descoberto.
Muitos do pinheiral surgem, montados.
Quem é este que traz, á frentes delles,
Uma espada de insolito feitio,
A lampejar-lhe na sangrenta dextra ?
«E՚ elle; é elle! Reconheço-o agora
Por essa mesta pallidez do rosto.
Sim! Reconheço-a pelo olhar funesto,[28]
Que ás suas traições serve de auxilio;
Reconheço-o na barba de azeviche.
E bem que vista de um Arnota o traje,
E tenha renegado a crença antiga,
Não n՚o livra da morte a apostasia.
B՚ elle! Sé bem vindo, a qualquer hora,
Tu, amante da perfida Leïla,
Giaur execrado, incréo maldito ! »
Quando irrompe da foz, impetuoso,
Rio, que mescla ás aguas do Oceano
A tumida caudal das negras ondas,
Muitas vezes o mar lhe oppõe nas vagas
Força igual e, altaneiro, levantando
Columna azul, impelle para longe
A corrente invasora; esta recúa
Entre espumosas e frementes serras,
Que torvelinham dos tufões ao sopro.
Fulgem, través de scintillante fumo,
Uns humidos clarões; as aguas mugem,
Qual trovão fragoroso e se arremessam
Com espantosa rapidez á costa,
Que, desse embate sacudida, esplende.
Qual do mar e do rio a lucta ingente.
Tal foi o encontro dos oppostos bandos,
Que injurias mutuas, o destino, a furia,
Um contra o outro em desespero arrojam.
O retintim dos sabres, que se embotam,
Crébras detonações, que longe, ou perto,
A ensurdecer o ouvido, repercutem,
O projectil mortal, que no ar sibila,
Os brados, o cruzar dos combatentes,
Os gemidos de dôr—tudo isto forma
Uma orchestra de lugubres ruidos,
Que o éco geme nesse val, fadado
A repetir o canto dos pastores.
Poucos luctando estão; mas nessa pugna
Ninguem implora, nem concede a vida.
Quão energico o nó, que enlaça e prende
Dous jovens corações, inebriados
No terno enlevo de caricias mutuas !
Para alcançar, porém, toda ventura,
Que não hesita em dar facil beldade,
Nunca revela Amor tanta pujança
Quanta o odio, no instante, em que se estreitam
Dous inimigos no mortal aperto,
Que nada póde desligar. Amigos
Separam-se, em seguida a breve amplexo;
Ri-se o amor dos laços, que tecèra ;
Mas a juncção, em lucta de exterminio,
Só póde separal-a a mão da morte.
Té seus punhos quebrada a cimitarra,
Inda gotteja o sangue, que esparzira;
Inda a dextra, do panho dividida,
Cerra, convulsa, a espada que, traidora,
Lhe mentira ao valor. O seu turbante,
Traspassado no mais espesso ponto,
Longe rolou; a fluctuante veste
De mil golpes de sabre está crivada,
E rubra como as nuvens matutinas,
Nuncias de chuva para o fim do dia.
De seu chale de esplendidos matizes[29]
Ha retalho sangrento em cada moita.
Rasgam-lhe o peito innumeras feridas.
Face voltada ao céo jaz, resupino,
O desditoso Hassan, que, já defunto,
Para o inimigo os olhos arregala,
Qual exprimindo inextinguivel odio,
Sobrevivente á morte. Em cima delle,
Rancoroso, o inimigo se debruça,
Sombrio, como a face do cadaver.
Sim! No fundo do mar Leïla dorme,
Porém, Elle ha de ter um fim sangrento.
A sombra ultrice ha dirigido o ferro,
Que o coração do algoz fer՚o, certeiro.
Elle invocou o amparo do Propheta;
Não pôde Mahomet prestar ouvidos
Do feroz giaur contra a vingança.
Soccorreu-se de Allah e Allah foi surdo
Ao clamor. Insensato musulmano!
Podia o cóo as supplicas ouvir-te,
Quando insensivel foste ás de Leïla?
Estudo eu fiz da occasião propicia;
Destes valentes colloquei-me á testa;
Sorprehendi o traidor, tirei-lhe a vida.
Apaziguada a sede da vingança,
Parto; mas, desta vez, ninguem me segue.»
Tintillam as campanas dos camellos[30]
Na planicie; atravez das gelosias
Vigia a mãi de Hassau, á noite, e sente
Cahir nas veigas reluzente orvalho.
Diz. quando ve o brilho das estrellas:
«Chega a noite; está perto a comitiva.»
Não pousa no jardim; irrequieta,
Sóbe á torre mais alta do palacio
E, olhando pelas grades da janella:
«Porque tanta demora? Os seus ginetes
Voam; não temem o calor do estio.
Tardam do noivo os promettidos mimos.
Esfriou seu amor? Menos ligeiro
Galopa seu corcel ?... Não ha motivo
Para minha extranheza. Eu vejo um Tartano
Surgir no cimo da visinha serra;
Desce o declive, a passo cauteloso;
Eil-o no valle; traz no arção da sella
Os mimos... Accusei-o de tardança;
Injusta hei sido. Dadivosa, agora,
Da presteza e do afan vou compensal-o.»
Chega o Tartaro á porta do palacio ;
Mal se firma nos pés; o abatimento
Transluz-lhe nas feições ennegrecidas;
Póde bem ser effeito da fadiga.
Traz manchado de sangue o vestuario ;
Esse sangue é talvez de seu ginete.
Tira do seio o mimo esponsalicio
E á pobre mãi o entrega — Anjo da morte !
E՚ de Hassan o turbante, em dous fendido? [31]
« Mulher! Teve teu filho horrivel sorte!
Não por clemencia a vida me pouparam,
E sim para trazer-te este presente.
Paz ao bravo, que o sangue ha derramado,
Desgraça ao giaur. Foi delle o crime !»
Um turbante, esculpido em pedra simples,[32]
Uma columna, sobranceira ás moitas
De silva espessa, e em cuja face, apenas,
Se lê, quasi desfeito á acção do tempo,
O verso do Koran, sagrado ás campas—:
Eis quanto indica nosse algar deserto
O lugar, em que Hassan cahio, ferido.
Ahi dorme um dos melhores musulmanos
Desses, que Meca ajoelhados vira;
Que aos labios nunca poz vedada taça,
E a cada appello do muezzim, rezava,[33]
Voltando a face ao Tumulo Sagrado.
Prostrou-o, emtanto, a mão de um forasteiro,
E na terra natal morreu, luctando,
Com as armas na mão. Té hoje inultos
Estão seus manes. Si colheu vindicta,
Não foi cruenta, não! Apressuradas
Do paraiso as virgens o acolheram
No flórido jardim. Os olhos negros
Brilhantes das huris sorriso eterna
Em premio lhe darão. Eil-as caminham,
Trajando verdes, transparentes gazes[34]
E ao bravo mandam saudação de beijos.
Todo o que morre de infiel aos golpes
Tem certa a entrada na divina estancia.
E tu, giaur cruel, has de estorcer-te
De Monkir sob a foice vingadora[35]
E só descansarás de tal supplicio
Para errar em redor ao throno d՚E՚blis.[36]
Alli perpetuo fogo, a circumdar-te,
Devorará teu coração culpado.
Desse horrivel inferno o atroz martyrio
Não n՚o póde escutar ouvido humano,
Nem existe expressão, que o pinte ao vivo.
O teu corpo, do tumulo surgindo,
Ha de á terra voltar e, transformado
Num vampiro de força poderosa,[37]
Fará morada (pavoroso espectro !)
Nessas paragens, onde houveste berço,
Tudo a todos os teus sugar as veias.
Tu, repugnando o detestavel cibo,
De que te nutritás—vivo cadaver—
Irás, á meia noite, haurir o sangue
Da propria irmã, da filha, da consorte.
Hão de, expirando, conhecer as victimas
Qual o monstro infernal, que as sacrifica.
Serás dellas maldito... has de lançar-lhes,
Por tua vez, o derradeiro anathema.
As tuas flôres murcharão na estipite.
Dos que têm de morrer por teu flagicio,
Um sómente... o mais moço, o mais presado,
Devo chamar-te—e abençoar-te.
Esta palavra—pai—qual ferro em braza,
Te queimará. E՚ força que termines
Teu horrivel mister. E՚ força espreites
Naquellas faces o rubor extremo,
Naquelles olhos a ultima scentelha
E o derradeiro olhar, limpido e puro,
A gelar-se na palpebra expirante.
Então lhe arrancarás co՚a torpe dextra
A loura côma. Em vivo, conservavas
Della um anel, penhor de terno affecto.
Has de guardar o teu recente espolio,
Qual monumento de perpetua angustia.
Teus dentes, a rangerem convulsivos,
Sempre gottejarão dos teus o sangue.
Volta agora a teu lugubre sepulcro ;
Vai a furia incubar ao pé das Goulas,
Que tremerão de horror, vendo uma larva,
De mais odio credor, do que ellas proprias.
«Qual desse monge taciturno o nome!
Já divisei essas feições, ha muito,
Em meu paiz natal. Por erma praia
Passando, vi-o estimular á espora
O mais veloz corcel, que bem quadrava
Do cavalleiro á viva impaciencia.
Uma só vez fitei aquelle rosto ;
Elle accusava tão crueis tormentos,
Que logo o conheci, em novo encontro.
Tem a mesma tristeza e até parece
Que nelle impresso está da morte o sello.»
«No proximo verão farei seis annos
Que appareceu aqui: negro peccado,
Certo, vinha purgar. Não quiz dizel-o.
Mas nunca o viram de joelho em terra,
Tomando parte na oração da tarde,
Nem ante o tribunal da penitencia
Jámais á nós se unio. Quando sabiam
A Deus o incenso e os canticos sagrados,
Ficava só, a meditar na cella.
Nenhum de nós lhe sabe a raça, a crença.
Desembarcou de terra musulmana;
Mas á raça de Osman parece extranho.
Nelle eu notára um triste renegado,
Si commungasse o vinho e o pão divino,
Si não fugisse das sagradas aras.
Ganhou do abbade o complascente affecto,
Porque ao mosteiro fez largos favores.
Eu, si fosse o prior, não tolerava,
Nem um dia siquer, esse extrangeiro,
Ou na cella da austera penitencia
A՚ reclusão perpetua o condemnára.
Frequentemente fala, em seus delirios,
De moças, no oceano submergidas,
De sabres, que se embatem, faiscando,
De inimigos fugindo em debandada,
De tredos actos, de vingada injuria,
De um musulmano em vascas de agonia.
Sobre um rochedo de escarpada costa
Em sonhada visão do enfermo cerebro,
Sangrenta mão, de fresco descepada,
Delle só vista, lhe apontava a campa,
Convidando-o á immersão nas crespas ondas.
Luz-lhe, sob o capuz, o olhar sombrio,[38]
Que da terra não é; o seu passado
Sem veus, bem claramente se revela
Na chamma desses olhos dilatados.
Atravéz de indistinctas cambiantes,
Muita vez, esse olhar infunde assombro,
Pois exerce o ascendente inexplicavel
Dalma, sempre rebelde a todo o jugo.
Como avesinha que sacode as azas,
Sem escapar á serpe, que a fascina,
Quem fita aquelle olhar, treme e não póde
Fugir lhe á intoleravel influencia.
Si um de nossos irmãos, a sós, o encontra
Prova um temor, que o força á retirada,
Qual si do olhar e do sorriso amargo
Traição e terror vertesse o monge.
Quando, raro, sorri, o seu sorriso
Parece escarnecer das proprias dores,
Tanto elle crispa, ironico e fremente,
O labio, que de novo immovel fica
E parece fechar se eternamente
Qual si o desdem, ou a dor vedado houvessem
Toda a leda expansão. Si assim não fôra,
Nunca exprimira jubilo sincero
Aquelle riso sepulcral. Mais triste
Seriá o pesquizar naquella face
Que sentimentos reflectira outr՚ora.
Nestas tristes feições vestigios restam
Do bem, mesclado ao mal, que o tempo ainda
Não logrou alterar; inda, por vezes,
Alma, que o crime não damnou, de todo,
Nellas vem resumbrar. Vulgar juizo
Apenas nisso ve signaes escuros
De culpadas acções, de seu castigo.
Mas o criterio, imparcial e justo,
Descobre um՚alma pura e illustre origem;
Dous predicados (ai !) que hão sido inuteis,
Porquanto, o crime e a dor os deturparam.
Dotes communs não são. Os que os possuem
Respeitoso temor em roda espalham.
«Apenas lança o viandante os olhos
A՚ misera choupana em descalabro;
Mas uma torre, dos tufões açoite,
— Em quanto em pé a derradeira ameia,
Sustém o assalto — as attenções concentra.
Arcos, forrados d՚hera verdejante,
Pilares campeando, solitarios,
Inda nos falam de uma gloria extincta.
« Arrasta devagar comprida veste
Do velho claustro ao longo dos pilares.
E՚ com terror que o vemos assistindo
Com tôrvo aspecto ás pias ceremonias.
Quando, porém, no côro os hymnos soam,
E no lagedo os monges se ajoelham,
Subito, se retira. Em pé, no adro,
A՚ tenue luz de tocha vacillante,
Emquanto dura o officio, permanece,
Ouvindo sem que as diga, as nossas preces.
Vede-o... Quasi sem luz, ao pé do muro,
Ergue o capuz á fronte descorada,
Onde parece que as mais negras serpes
Da tetra coma as Gorgones prenderam.
Tombam-lhe em confusão negros cabellos ;
Pois, adoptando o habito da Ordem,
Deixou de parte a regra da tonsura.
Instiga-o orgulho insano e não piedado
A cumular de dóns a nossa igreja,
Que nunca lhe escutou vozes ou preces.
Attendei, Quando o coro ao ceu levanta
A possante harmonia das litanias,
Tem esse frade o mesmo rosto livido,
Sempre guardando de marmorea estatua
A immovel fixidez e na attitude
De desafio e desespero mudo.
Oh São Francisco! Afasta-o de teu templo,
Antes que em nós a colera do Eterno
Por terriveis signaes se manifeste !
Si um anjo máo tomar figura humana,
Como a deste ha de ser. Pela esperança
De perdoados ver os meus peccados !
Nem do céo nem da terra é seu aspecto !
Nasceram para amar as almas ternas ;
Cheias, porém, de timidez, sem forças
Para affrontar os males da existencia,
Brandas em face á dôr e ao desespero,
De amor não sentem o exclusivo imperio.
Só almas fortes sangram das feridas,
Que o tempo nunca fecha ou cicatriza.
Supporta o fogo, para ser polido,
O grosseiro metal, que sahe da mina;
Fundido, corre na fornalha ardente
E, ductil, sem mudar de natureza,
Presta-se a todo o molde, a todo o emprego.
Póde utensilio salvador tornar-se,
Instrumento de morte, ou de tortura,
Forte coiraça, a proteger o peito,
Ou gladio, que traspasse o do inimigo.
Mas si elle toma de um punhal a fórma,
Tome cautela quem lhe aguça o fio !
Assim o fogo das paixões, o encanto
Seductor da mulher abranda, vence
O coração mais forte e nelle imprime
O seu destino e fórma. Elle persiste
Sempre o que dantes foi, tal qual nascera.
Si o tentarem dobrar noutro sentido,
Será baldado esforço... Ha de quebrar-se.
Si após á dór, a solidão nos cerca,
E՚ fraco, inefficaz qualquer allivio.
Ao nosso coração, triste e vasio,
Fôra grato o pungir de nova angustia.
Si outrem quinhão não tem no que sentimos,
Invade-nos o tedio; a propria dita,
Gozada só por nós, volve-se em magua.
Orphão o coração de sympathias,
No odio busca refugio. E՚ qual si o morto,
Sentindo sobre si reptil nojento,
Prestes a devorar-lhe a inerte argilla,
Não pudesse espancar o plumbeo somno
Para longe arrojar o hospede impuro.
Assim tamben ess՚ave do deserto,
Que, para alimentar os tenros filhos,
Rasga as entranhas e não chora a vida,
Que com o sangue seu nelles transfunde,
Si quando offerecesse o seio aberto,
Vasio achasse o ninho... A dor mais forte,
Que se póde curtir, é gozo intenso
Equiparado ao vacuo da existencia,
A՚ solidão, ao ermo esteril d՚alma.
Quem supportára um ceo sem sol, sem nuvens ?
Prefiro da borrasca o horror perenne,
A não ter de lutar com a vaga em furia,
A ver-me, quando o mar e os ventos jazem,
Naufrago sobre a praia do infortunio
E lento e só morrer fóra do mundo,
De longinqua enseada em mudo seio
E de lugubre calma rodeado.
«Padre! Na paz teus annos deslizaram,
A contar orações em teu rosario.
A tantas culpas conceder indulto,
Sem remorsos curtir, sem outras penas,
Salvo esses leves, transitorios males,
Que são dos homens a commum partilha,
—Eis, desde a mocidade, o teu destino. —
Ao céo dás graças por viver isento
Dessas paixões indomitas, ferozes,
Que ouves no tribunal da penitencia,
E cuja historia sepultada guardas
Nos penetraes purissimos do seio.
Si a minha curta vida amenizaram
Em grande escala, vivas alegrias,
A dôr pungio-a em proporções maiores.
Mas da lucta e do amor as breves horas
Do tedio do viver me preservaram.
De inimigos cercado—entre os amigos
Nunca frui lazer, socego, ou calma.
Para amar e odiar nada me resta;
Nada esperança e orgulho me desperta.
Antes quizera ser o torpe insecto,
A marinhar de um carcere nos muros,
Do que rojar os dias uniformes
Em triste meditar. Sinto que nasce
Dentro em minha alma almejo de repouso.
Mas quizera gozal-o, inconsciente.
Por mais negro, que seja o meu peccado,
Dormirei, sem pensar no que já fôra
Nem no que ser quizera no futuro.
Minha memoria é tumulo, que encerra
Extinctas alegrias do passado.
Não succumbio minha alma á dôr sem trégoas;
Não quiz buscar, a exemplo de alguns loucos,
Com suicida mão forçada calma.
Nunca tive, aliás, temor da morte.
Ella me fôra grata em marcia lida,
Si a gloria e não o amor por norte houvesse.
O perigo affrontei, não por vaidade.
Que monta perda ou ganho de corôas?
E՚ quasi sempre mercenaria a fama.
Mas, haja um nobre estimulo a meus actos :
—A mulher, que idolatro, o homem, que odeio,—
Sobre os passos do Fado irei, sem medo,
Por entre o fogo e o ferro arremessar-me,
Levando vida a uma, a outro a perda ;
Pódes acreditar-me. Hoje, de novo,
Eu faria outra vez o que fizera.
A morte nada vai. O audaz a encara,
O fraco a aceita, o desditoso a implora.
A quem me deu a vida a vida entrego.
Jámais, quando feliz e poderoso,
Ao perigo dobrei... Não dobro agora.
Amei essa mulher; idolatrei-a.
Todos repetem phrases semelhantes;
Mas não provei o meu amor por phrases.
Vės uma nodoa nesta espada?... E՚ sangue.
Jámais se apagará. Só por Leila,
Sacrificada por me ter amado,
Este sangue verti. Elle animava
O coração de um homem execrando.
Oh! Não fremas! Não caias de joelhos !
Não contes essa acção como peccado
E dá-me absolvição. A lei de Christo
Esse homem foi hostil. Era um veneno
Para seu coração de musulmano
O nome de christão. Ingrato, louco !
Si não morresse ás mãos de um nazareno
No ceo de Mahomet, d՚est՚arte, entrando,
Inda agora no umbral do paraizo
O aguardaram huris impacientes.
Eu adorava-a. O amor abre veredas,
Por onde não ousára o proprio lobo
Seguir a preza. Quando emprega audacia
E՚ mui raro que Amor não colha o premio.
Lastimei que da bella creatura
Por novo affecto o coração batesse...
Morreu!... Como? Não ouso proferil-o.
Mas olha !... Podes ler em minha fronte
Impresso em caracteres indeleveis,
O meu crime e com elle a pavorosa
Maldição de Caim. Peço me escutes,
Antes de julgamento. Eu fui a causa
Do crime e não o autor. O que elle ha feito
Em seu caso eu faria. Atraiçoado,
A merecida pena fulminára.
Por mais justo que fosse um tal castigo
Da bella a traição, na essencia, importa
Fidelidade para o novo amante.
Deu-me o seu coração—unico objecto
Que é defeso aos grilhões da tyrannia.
Cheguei, tarde demais, para salval-a;
Fiz quanto pude. Consolei-lhe a sombra,
Tirando a vida a seu cruel verdugo.
Não me pésa essa morte. A sorte d՚elle
E՚ que me torna aos olhos teus, meu padre,
Um ser, cuja presença horror infunde.
Foi lavrada a sentença do assassinio;
Elle o soubera de antemão. Soára
A seu ouvido o merencorio tono
Do tahir, que troava a prophecia[39]
A՚quelle, que levava os seus asseclas
Ao theatro do infando morticinio.
Morreu, aliás, no campo da batalha,
Quando não ha fadiga ou soffrimento.
Um rogo a Allah, a Mahomet um brado.
Nada mais. Conheceu-me na refrega;
Travou lucta comigo. Eu contemplei-o
No chão da morte; vi partir sua alma.
Bem que varado, qual da flecha o tigre,
Nem metade soffreu do que eu soffrera.
Espreitei, mas em vão, naquelle rosto
As convulsões de um՚alma atormentada.
Trahiam-lhe as feições furor compresso,
Mas nem siquer indicios de remorso.
De tudo eu dera mão, té da vingança
P՚ra ler naquella face moribunda
A desesperação; de par com ella
Esse arrependimento em vão, tardio,
Que nem um só terror á morte arranca,
Que na vida actual não dá conforto,
Que não é salvação além da campa.
«Nas frias regiões é frio o sangue;
O amor apenas desse nome é digno.
Foi, porém, meu amor, lava em torrente
Do Heckla fervendo no revolto bojo.
Não sei pintar em pueril linguagem
As seducções e encantos da Belleza.
Si por ventura um pallido semblante,
Si plethoricas veias inflammadas,
Labios que, sem gemer, convulsos tremem,
Si um coração ardente e sempre franco
A՚s expansões de nobres sentimentos ;
Si um cerebro em demencia, actos de audacia,
Si um gladio, prestes da vingança ao grito,
Si o que hei sentido, si o que sinto ainda ;
Si isto tudo revela amor,—foi esse
O meu amor. Indicios mais terríveis
Minha paixão fervente revelavam.
Desconhecia queixas e suspiros ;
Morrer ou possuir, era o meu thema.
Morro... mas possui ; qualquer que seja,
Agora, o meu porvir, gozei ventura.
Não! Accusar não devo este destino.
Eu o escolhi. De tudo despojado,
Mas só pungido de uma angustia immensa—
A morte d՚Ella—aceitaria offerta
Do prazer e de dôr, si m՚a fizessem.
Eu quizera viver e amar ainda :
Por mim, que vou morrer, não é que chóro,
E՚, sim, meu padre, por Leïla morta.
Leïla dorme sob a vaga errante.
Porque não tem em terra sepultura ?
Este meu coração despedaçado,
Esta minha cabeça palpitante,
Iriam compartir seu leito angusto.
Era uma viva luz; desde que a vira
Dos olhos meus foi raio indispensavel.
Eu via, em todo o ponto que fitava,
Surgir seu vulto seductor, formoso,
—Estrella d՚alva de lembranças caras!—
« Oh! sim! Amor é luz do céo; scentelha
Desse fogo immortal, que nos anima,
C՚os anjos em commum. Quiz Deus, clemente,
Quando nos insuflou tão puro fogo,
Nossos desejos destacar da terra.
Exalça-nos ao céo piedade santa ;
E até nós, puro amor, o céo transportas !
Raio, que vem do Eterno, e que circumda
A alma humana de um nimbo fulgurante,
Amor! E՚s o crysol dos sentimentos !
Certo, que o meu amor era imperfeito,
Como tudo, a que dão de amor o nome;
Póde ser um peccado, em teu criterio,
Nella, porón, o amor não foi culposo.
Era a estrella polar de minha vida.
Extinguio-se... Que raio, agora, póde,
Desta existencia interromper a noite?
Poder que ella pudesse inda guiar-me
Mesmo que fosse á morte, ou fim mais triste !
Extranhas? Si da sorte aos desherdados,
Que nada esperam do porvir, se véda
Levar em paz de sua angustia o peso ;
Si elles, em phrenesi, o fado accusam,
Si os arrasta delirio passageiro
A՚ pratica de horriveis attentados
Que ajuntaráõ ao soffrimento o crime,—
Um coração, ferido em seus recessos,
Nada receia dos externos golpes.
Decahido de tudo o que é ventura,
Nada lhe importa o fojo, em que se abysma.
Tu me julgas cruel, qual fero abutre ;
Um dos castigos meus é este, ó velho!
Sim! Marcam meu roteiro o sangue, a morte;
Como o rapina fui; deixando a vida,
Sigo da pomba o salutar exemplo.
Morro, sem que outro amor sentido houvesse.
Tome-se esta lição de humildes seres,
Que ao desprezo condemna o orgulho humano.
A ave, que no silvedo amores trina,
O cysne, que desliza á flor do lago,
De uma só companheira ao lado vivem.
Qual criança, inconstante em seus brinquedos,
Chasqueie, embora, um coração voluvel,
Do que mudar não póde. Eu não lhe invejo
O prazer variado e dou-lhe apreço,
Muito menor que ao eysue solitario,
Ou que á belleza seductora e facil,
Que lhe aceitara a fé e a quem trahira.
Eu de vil trahição não sou culpado.
Leïla! Foram teus meus pensamentos,
Virtudes, bens, delictos, infortunios,
Minha esp՚rança no céo, tudo na terra!
Nada o universo tem, que te assemelhe,
Si acaso existe, é para mim inane.
Nem por um mundo contemplar quizera
Outra, que te igualasse e tu não fosses.
Crimes, que a minha juventude mancham,
E este leito feral são disto a prova—
Para outro pensamento é tarde, agora;
Foste; ainda és meu delirante sonho !...
E Leïla morreu e vivo ainda,
Não como vive o resto dos humanos.
Uma serpe enlaçava em fortes dobras
Meu coração; o seu pungente acúleo
Estava sempre a despertar meu odio.
Indifferente ao decorrer do tempo,
Tendo aversão a todos os lugares,
Da natureza desviava os olhos.
Tudo que, dantes, me causava jubilo,
Hoje tristeza e dor me infundem nalma.
Sabes o resto; os erros meus conheces
E metade tambem de meus tormentos.
Mas não desejes vêr-me arrependido.
O mundo vou deixar—Inda prestando
Inteira tó ás tuas phrases pias,
Poderás desfazer o que está feito?
Não sou ingrato, não; mas crê,—não póde
Dores iguaes sanar teu ministerio.
Julga por ti do estado de minha alma,
Quanto mais compaixão em ti desperto,
Menos de compaixão convém me fales.
Si deres vida á misera Leïla,
Então impetrarei o teu indulto ;
Então pleitearei a minha causa
Ante esse tribunal, cuja indulgencia
Si obtém á custa de compradas missas.
Busca applacar a furia da leóa,
Que despojada foi dos tenros filhos,
Mas não tentes zombar deste exaspéro.
«Em calmas horas de meus verdes annos,
Quando meu coração, nadando em gozo,
Pulsava unido ao coração da amada,
«De meu torrão natal nas floreas balsas,
Tinha (tel-o hei ainda ?) um bom amigo.
Por ti lhe envio este penhor de affecto.
Desejo que elle saiba o meu destino.
Si bem que as almas, qual a minha, absortas
Num unico, empolgante pensamento,
Pouco se lembrem da amisade ausente,
Eu quero crer, ó padre, que meu nome,
Posto que maculado, inda lhe é grato.
Ai de mim! Elle a sorte annunciou-me;
Minha resposta foi sorriso incredulo.
Nessa quadra (oh saudade!) inda eu sorria.
—A prudencia inspirava os seus conselhos,
Que eu recusei ouvir. Mas neste instante,
Aviva-me a memoria os seus dictames,
Que, leviano, comprehender não soube.
Dize-lhe que é cumprido o seu augurio;
E elle se pezará de ser propheta.
Dize-lhe, sim, que si na triste faina.
De uma existencia, de paixões batida,
Eu desleixei recordações tão gratas,
Desse tempo feliz da mocidade,
Nesta hora amarga, em transes de agonia,
Sua memoria abençoar tentára.
Mas fóra offensa a Deus ousar o crime
Eu favor da innocencia erguer um rogo.
De justas arguições não peço excusa.
Mas o seu coração, nobre e sensivel.
Não lhe consente desprezar meu nome.
Pouco me importa a opinião do mundo.
Nem lhe peço, aliás, me poupe lastimas.
Parecerá desdem tão fera supplica.
No esquife de um irmão é bem cabido
De amisade leal masculo pranto.
Entrega lhe este anel, foi delle prenda,
E pinta-lhe... o que estis agora vendo...
—Enfraquecido corpo, alma em ruinas,
Triste despojo, arremessado á praia
Pelo naufragio de paixões revoltas;
Pergaminho apagado, inutil folha.
Aos ventos outomnaes torvelinhando.
«De visionario não me acoímes, padre !
Não era sonho, não; pois só quem dorme
Póde sonhar. Estava bem desperto.
Eu quizera chorar; mas não podia.
Tinha abrasada a fronte e, convulsiva,
A՚s pulsações do cerebro vibrando.
Aos olhos, como dom precioso e raro,
Apenas uma lagrima implorava.
Suppliquei-a debalde e inda a supplico.
Mais forte que a vontade és, desespero !
Não esperdices, não, as tuas preces.
Não! Que esse desespero ha de frustral-as.
Possivel fosse, eu rejeitára a benção
Do céu; pois não aspiro ao paraizo.
Só precizo repouso. Eu vi Leïla,
Viva, meu padre, ao pé do mim. Brilhava
No alvo sudario, qual por entre a nuvem
Brilha, cem vezes menos bello, um astro.
Tal como a contemplava, ora a contemplo;
Seu tremulo fulgor vejo, indistincto.
A noite de amanhã será mais negra,
E antes que o raio seu desappareça,
Serei a cousa inanime, que aos vivos
Infunde tanto horror. Desvairo, ó monge;
Proximo estou do derradeiro transe.
Vi-a. Ergui-me, esquecendo os meus desgostos.
Do leito me arrojei. Cerrei-a ao peito,
De encontro ao coração angustiado.
Cerrei... mas não um seio, que respira,
Não coração, que junto ao meu batesse...
Mas é este o teu seio, ó doce amiga !
E՚s tu, Leïla, em tudo tão mudada?
Dando a meus olhos jubilo e consolo,
Não retribues meu estreito amplexo.
Sejam de gelo embora os teus encantos,
Quero abraçar o unico thesouro,
A que aspiraram sempre os meus anhelos,
Não comsigo abraçar mais que uma sombra,
E sobre o peito os braços se me fecham.
Mas Leïla aqui está, de pé, callada,
E estende para mim mãos supplicantes.
São estes os aneis de seus cabellos,
São os seus negros, scintilantes olhos.
Bem sabia que tudo era mentira.
Não podia morrer... mas elle é morto ;
No sitio, em que tombou, jaz sepultado.
E tu, por que da morte hoje despertas?
Ele não vem; quebrar não póde a lousa.
Disseram-me que as vagas inquietas
Sobre tuas feições e bellas fórmas
No revolto estuar passado haviam;
Disseram... foi mentira. E, si eu quizera
Repetir essa historia, a lingua minha.
Revel se recusára. E si é verdade,
Que abandonando as grutas do Oceano
Vens reclamar um tumulo tranquillo,
Humidos dedos põe-me nesta fronte.
Ou neste coração, que estala em ancias.
E assim extingue a febre que o devora.
Mas, sejas tu realidade ou sonho,
Rogo-te não te sumas de meus olhos ;
Ou si tens de partir, leva minh՚alma
Longe, inda além das regiões, aonde
O vento sopra e as vagas se desdobram.
«Confiei-te meu nome e minha historia;
De minhas dores sabes o mysterio.
Eu te agradeço a compassiva lagrima,
Que é vedado a meus olhos resequidos.
Dém-me um leito entre os mortos mais humildes;
E salvo a cruz, plantada no seu tôpo,
Não tenha meu sepulcro emblema, ou nome,
Que attraiam a attenção do viandante
E detenham o passo ao peregrino» [40]
E morreu, sem deixar um testemunho,
Que possa revelar-lhe o nome e a raça.
Ouvio-lhe o confessor da vida o arcano,
E impede-o de o dizer o sacro voto.
Só esta narração truncada existe
Sobre a bella mulher, que tanto amára,
E sobre aquelle, que punio co՚a morte.
Barão de Paranapiacaba.
Notas — ^ (1) Giaur, palavra turca, que significa infiel, (christão), deve ser pronunciada, aqui com todas as lettras, accentuando-se o u. Traduzi estes versos quando estudante em S. Paulo.
^ (2) Successo, em que Byron tomou parte, inspirou-lhe a primeira idéa deste poema. Não foi Byron, como alguns suppõe, o amante da escrava. A rapariga, salva pelo poeta em Athenas, era, conforme o testemunho de M. Hobhouse, amada por um criado, filho, como ella, da Turquia. Quanto aos promenores, fornecidos a este respeito pelo Marquez de Sligo, convém consultar as Memorias de Thomaz Moore.
Foi o Giaur publicado em meiados de 1813, firmando os creditos litterarios, ganhos pelo autor desde a publicação de Childe Harold.
No Giaur, o primeiro dos poemas-romances de Byron, a versificação reflecte, de algum modo, o seu enthusiasmo pelo Christabel, de Coleridge, cujo rithino irregular fôra já adoptado por Walter Scott no Lai do Derradeiro Menestrel. O Christophe Colomb, de M. Rogers, poema recente, então em voga, suggerio-lhe a idéa da composição fragmentaria do Giaur. Antes de sua viagem ao Levante, já Byron mostrava predilecção pelas cousas daquella região e se familiarizara com a historia dos Ottomanos. O Velho Knolles (dizia elle em Missolonghi, pouco antes de sua morte) é um dos livros, que mais me divertiram na infancia. Creio que elle contribuio, em grande parte, para minha visita ao Levante e talvez lhe deva esse colorido oriental, que é um dos caracteres de minha poesia. A՚ margem de uma das paginas do livro Ensaios sobre o caracter litterario, de M. Israeli, escrevera o poeta: « Antes dos dez annos, eu devorára Knolles, Cantimir, de Fott, Lady-Montagu, a traducção da Historia dos Turcos, de Mignot, por Hankins, as Mil e uma Noites e, em uma palavra, todas as Viagens ou Historias, que falavam do Oriente.
^ 3) O tumulo, que se vê sobre os rochedos do promontorio é, segundo a tradicção, o de Themistocles. Diz Cumberland em seu Observateur, que nesse tumulo estão gravados alguns versos de Platão, synthese da mais pathetica e tocante simplicidade.
^ 4) Os amores do Rouxinol e do Rosa são uma fabula persa, bem conhecida. O Bulbul, das Mil Historias é, si não me engano, um dos nomes do rouxinol. Meshi, traduzido por William Jones, presta-lhe a seguinte linguagem:
«Vem, ó seductora joven, e escuta os cantos de teu poeta... Elle te celebra, ó Rosa, elle, a ave da primavera! Impelle-o a gorgear o amor; será o amor obedecido. Exulta! As flóres da primavera murcham, bem depressa.»
^ 5) A guitarra é o instrumento favorito dos marinheiros gregos. A՚ noite, quando os ventos dormem, acompanham-na elles, cantando e, ás vezes, dansando.
^ 6) Creio que poucos de meus leitores tiveram occasião de sontir o que levei em mira descrever aqui, mas os que se acharam no caso de o experimentar, conservam provavelmente melancolica lembrança dessa singular belleza, que ainda accentua as feições humanas, muitas horas depois que a alma se retirou do corpo. Está verificado que, em caso de morte violenta por arma de fogo, a expressão é sempre de languidez, qualquer que seja o gráo de energia do morto. Si a ferida é de punhal, a expressão do semblante é terrivel e a alma revive, inteira, até o derradeiro instante. (Byron)
^ 7) Athenas é propriedade do xislar-aga (eseravo incumbido de guardar as mulheres do serralho). E՚ elle quem nomeia o wayxode. Um traficante, mulheres e um ennuco (podem as palavras peccar por falta de polidez, mas pintam os homens) governam hoje o Governador de Athenas.
^ (8) Mosquete (tophaike). E՚ o Beiram annunciado, logo ao por do sol, por um tiro de peça. Illuminam-se, de subito, as mesquitas e, durante a noite, detonam armas de fogo de toda a especie, carregadas á bala.
^ (9) Jerreed ou djerrid, dardo turco, de aguçada ponta, lançado com extrema dextreza por homens a cavallo. (Byron)
^ (10) O Simoun, vento do deserto, mortal para as caravanas e á que a poesia oriental frequentemente allude.
^ (11) E՚ o verde a côr favorita dos pretensos descendentes do propheta. Na opinião destas familias, a fé, inalienavel herança, basta para substituir as boas obras. São, por isso, os mais despreziveis dessa raça inferior,
^ (12) Salam aleikoum, aleikoum salam (a paz seja comvosco; vivei em paz). Saudação dos crentes. São recebidos os christãos com Urla--rula (boa viagem!) ou Sabam hiresenm; sabam serula (bom dia, boa tarde!) Algumas vezes dizem: Sêde sempre feliz!
^ (13) A borboleta azulada de Cachemira é a mais bella e rara de todas.
^ (14) Refere M. Dalas ter-lhe Byron assegurado que este simile do escorpião lhe fóra suggerido em sonho.
Correspondente lhe é a maravilha psycologica, que começa: « Vi, certo dia, em sonho linda joven com sua lyra; era uma filha da Abyssinian».
Diz Coleridge que compuzera isto, dormindo a sésta.!
^ (15) Occuparam-se os amaveis philosophos de suicidio do escorpião, de que trata nesta passagem.
Uns attribuem este suicidio a um movimento convulsivo; querem outros ver nelle um acto de livre arbitrio.
São os escorpiões interessados na solução deste problema.
Si assentarem solidamente que elles são insectos—Catões—, ser-lhes-ha permitido viver quanto quizerem e não morrerào victimas de uma hypothese.
^ (16) O canhão annuncia, ao crepusculo, o fim do Ramazan.
^ (17) Phingari, a lua.
^ (18) O texto diz Giamschid. E՚ o celebre e fabuloso rubi do Sultão deste nome. Constitue essa gemma o ornamento de Istakhar. Tambem o chamam Scheligerag, (phanal da noite, taça do sol).
^ (19) Al-Sirat é uma ponte, mais estreita que o fio da aranha esfomeada e mais cortante, que o gume da espada. Por cima della têm os musulmanos de passar para o paraizo. Não ha outro caminho. O peior é que por baixo está o inferno, onde caem os que não tem pé maritimo, justificando assim o facilis descensus averni. Espectaculo pouco animador para aquelles, que os seguem.
Ha, em plano inferior, outra ponte, ainda mais estreita, reservada aos judeus e christãos.
^ (20) Por causa de seus grandes olhos negros são as virgens do paraízo chamadas hur al oyum. Um colloquio ao lado dellas constitue, segundo as promessas de Mahomet, a suprema ventura do crente. Seus corpos não se formam de argilla, como os das outras mulheres.
Dotam-nas de immorredouros encantos e do celeste privilegio de eterna mocidade.
^ (21) Concede o Koran ás mulheres virtuosas um terço, ao menos, do paraizo, O maior numero dos musulmanos, porém, interpretando a seu talante esse texto, exclue do céo suas caras metades. Inimigo dos platonicos, não attribue faculdades ás almas do bello sexo, e pretende que as huris as substituem perfeitamente.
^ (22) Comparação do Oriente, que, posto bem local, poderá parecer mais arabe, que na Arabia.
^ (23) O jacintho (em arabe, sunbul). Esta comparação é frequente na poesia dos Turcos e dos antigos Gregos.
^ (24) Franguestan--Circassia.
^ (25) Bismillah! (Em nome de Deus!) E՚ a primeira palavra de todos os capitulos do Koran, excepto um. Por ella começam os Turcos todas as suas orações e seus agradecimentos.
^ (26) Este phenomeno não é raro em um Turco furioso. Em 1809, no correr de uma audiencia diplomatica, os bigodes do capitão-pachá eriçaram-se de indignação, como os de um tigre, infundindo grande terror aos drogmans. Espera-se que esses terriveis bigodes mudassem de côr, salvando, deste modo, maior numero de vidas, do que o dos cabellos, de que são formados.
^ (27) Amaun — perdão, quartel.
^ (28) Máo olhado — Superstição espalhada em todo o Levante e que produz sobre as imaginações credulas os mais extravagantes effeitos.
^ (29) Chale matizado, trazido pelas pessoas de distincção.
^ (30) Esta bella passagem appareceu, pela primeira vez, na 5ª edição :
« Mando-te as provas (escreveu Byron a M. Murray, 10 de Agosto de 1815 ).
Nunca hei de acabar esta infernal historia. Ecce signum — trinta e tres versos mais. Que cega-rega para o infeliz impressor, sem proveito algum para ti ! »
^ (31) O calpac é a parte solida e o centro do turbante, em torno do qual é o chale enrolado.
^ (32) Um turbante, uma columna e alguns versos decoram no cemiterio e no deserto o tumulo dos Osmanlis. Encontram-se nas montanhas muitos desses monumentos. São, as mais das vezes, o jazigo de alguma victima da insurreição, do saque, ou da vingança.
^ ( 33 ) Allah-hu. Por estas palavras, o muezzin, postado na mais alta galeria exterior do minarete, termina seu appello á oração.
Valid, filho de Abdalmalek, foi o primeiro, que ergueu uma torre, ou minarete, na grande masquita de Damasco, com um muezzim, ou prógoeiro para annunciar a hora da prece. Foi, depois, este uso universalmente adoptado pelos Orientaes. (D՚Herbelot.)
^ (34) Estes versos são imitação de um canto de guerra turco: «Eu vejo, eu vejo uma joven do paraizo; tem os olhos negros; fluctua-lhe o véo, o seu véo verde, e exclama: Vem ; abraça-me, porque te amo ! »
^ (35) Monkir e Nekir são os inquisidores dos mortos. O corpo faz ante elles uma especie de noviciado e experimenta, de antemão, os tormentos do inferno.
Si as provas não são satisfactorias, é o infeliz levantado sobre uma foice e reimmerso no abysmo, a impulso de uma pesada massa de ferro em braza. Ha outras provas semelhantes.
Não é, por certo, uma sinecura o officio destes anjos. São apenas dous, e, sendo muito maior que o dos orthodoxos o numero dos peccadores, não ha mãos a medir para Monkir e Nekir.
^ (36) Éblis. E՚ o Satan dos Orientaes.
Suppõe D՚Herbelot que este nome é um derivado corrompido de uma palavra grega. Por elle designam os Arabes o chefe dos anjos rebeldes. Conforme a mythologia arabe, Eblis decahio de seu posto, por ter, desobediente ás ordens divinas, negado reverencia a Adão. Allegava Éblis, como razão da recusa, ser Adão feito de argilla, ao passo que elle era uma substancia etherea.
^ (37) A crença nos vampiros é ainda geral no Levante. Tournefort conta uma longa historia, citada por M. Southey, nas notas de Thalaba, sob o titulo de Vroucolochas (a palavra romaica é Vardoulacha). Recordo-me ter visto uma familia inteira aterrorizada pelos gritos de uma criança, attribuidos á visita de um vampiro. E՚ a tremer que um Grego pronuncia esta palavra. Creio que Broukolakas é uma palavra do antigo grego. Applicam-n-a a Arsenius que (reza a tradição) foi possuido pelo demonio depois de morto. Os modernos empregam a palavra Vardoulacha.
^ (38) Esta segunda parte do poema, que contém perto de 500 versos, foi successivamente augmentada por lord Byron, parte durante a impressão, parte nas posteriores edições.
^ (39) Vi ocularmente um exemplo dessa crença na segunda audição (no Oriente não é conhecida a segunda vista) por occasião de minha terceira viagem ao cabo Colonna, em 1811. Passando com a minha comitiva por um desfiladeiro, observei que Dervish Tahiri deixava o atalho e apoiava a cabeça nas mãos, como quem está incommodado. Dirigi-me a elle e perguntei-lhe o que receiava. « Corremos perigo», respondeu.—«Que perigo? Não estamos na Albania nem nos desfiladeiros de Epheso, de Missolonghi e de Lepanto. Temos muita gente e bem armada, e aos Choriatas não assiste coragem bastante para se tornarem salteadores...»—«Tudo isto é verdade, Effendi,—mas tenho nos ouvidos o sibilo das balas»—«Como ! Esta manhã, ainda não foi disparado um só tiro de mosquete...»—«Mas estou a ouvir-lhe as detonações... bum, bum; tão distinctas como as vossas palavras.»—«Bah !»—Como vos aprouver, Effendi; o que está escripto está escripto» —Sahi do pé deste fatalista, de tão apurada audição, e fui ter com Basili, seu compatriota christão, cujos ouvidos anti-propheticos não podiam comprehender minha narração. Chegados ao Colonna, ahi ficamos algumas horas e voltamos de lá tranquillos, engenhando e repetindo trocadilhos em todas as linguas do universo. O romaico, o arnota, o turco, o italiano, o inglez—, prestaram-nos suas melhores pilherias para acabrunhar o pobre musulmano. Emquanto contemplavamos bellissimas paizagens, occupara-se Dervish em examinar as columnas. Acreditei-o possuido da mania dos antiquarios e perguntei-lhe si estava convertido em palco-castro.— «Não (respondeu-me); observo estas columnas, que são excellente ponto de partida.» E accrescentou outras reflexões, que provavam a sua crença na segunda audição. Regressando a Athenas, soube que Léoné (prisioneiro posto em liberdade pouco tempo depois) que os Monotas haviam feito mais de uma tentativa para aggredir-nos. Querendo certificar-me disso, fiz-lhe perguntas minuciosas. Descreveu-me com tal exactidão as armas, vestidos e cavallos da campanha de então, que não duvidei fosse elle proprio um dos Menotas, preparados para nos receberem hostilmente. Foi Dervish reconhecido como propheta e, provavelmente, ainda lhe zunem aos ouvidos as balas, com grande satisfação dos Arnotas de Bérat e para salvação dos montanhezes de sua patria.
Vou citar outro exemplo, que dá exacta photographia deste singular povo.
Em Março de 1811, um Arnota, guapo e activo sujeito, apresentou-se-me (era o quinquagesimo que eu rejeitava). — «Bem, Effendi, respondeu elle. Deus vos conceda longa vida. Entretanto, eu podia ser-vos de grande utilidade. Sahirei amanhã da cidade, em demanda da serra, mas voltarei em começo do inverno... Talvez, então, seja recebido ! » Dervish, presente, observou como cousa muito natural, que elle ia juntar se aos klephtes (salteadores). E era verdade. «Si não houverem morrido, voltarão antes do inverno e se estabelecerão em alguma cidade, onde ninguem as inquietará, apezar de serem por demais conhecidas as suas proesas.
^ (40) O acontecimento, que forma assumpto deste poema, é muito frequente na Turquia. Alguns annos atrás, a mulher do Muchtar-Pachá queixou-se a elle da pretensa infidelidade de seu filho.
Quiz este conhecer as culpadas e ella teve a barbaridade de apontar-lhe o nome de doze das mais bellas mulheres de Janina. Foram estas immediatamente presas, encerradas em saccos e na noite seguinte lançadas ao mar. Um dos guardas presentes assegurou-me que nenhuma das victimas soltou grito, nem mostrou o menor symptoma de terror, ao ver-se arrancada, de repente, a tudo quanto lhe era caro. A sorte de Phrosina, a mais bella destas desgraçadas victimas, veio a ser assumpto de muitas canções arnotas e romaicas. A historia, que faz objecto deste poema, é de data mais antiga. O heroe della foi um moço veneziano, hoje esquecido. Ouvia-a, por acaso, em um café do Levante de um desses narradores, que cantam ou recitam aventuras. Distinguem-se as addições e interpellações do traductor, porque são despidas de córes locaes.
Lastimo não haver conservado de memoria parte mais consideravel da originaria historia. Quanto ás notas, devo as a Herbelot e a esse livro tão original, a que M. Weber dá, apropriadamente, o título de romance sublime—o Califa Vathek
Ignoro em que fonte bebeu informações o autor desse livro singular. Podem ler se alguns de seus episodios na Bibliotheca Oriental. Em relação, porém, á verdade dos costumes, á riqueza das descripções, ao poder da imaginação, deixa elle a perder de vista todas as imitações européas, e tanta originalidade reveste, que difficilmente acreditam os visitadores do Levante seja elle uma traducção. Como pintura do Oriente, Rasselas lhe é muito inferior e o Valle Feliz nem de longe se compara ao Castello de Eblis.
Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.
