Lisboa no anno três mil/Prefácio

PREFÁCIO

 

 
Hipnotismo.—Ruínas da Europa.—O omnipotente russo Ivan LIV.—A civilização na Austrália‚—,—A «Bibliotéca Universal» de Sidnei.—A prodigiosa obra de um sábio futuro.—Da Austrália ao Tejo.
 

Quando o doutôr Das annunciou ao pùblico lisbonense várias scenas de hipnotização, tive desde lógo um vivo sentimento de curiosidade. A vida sugestiva póde realmente exibir os mais extraordinários cambiantes, os mais fantásticos panoramas, os lances mais bellos e os mais terríveis.

Aproximando-me do hipnotizadôr, senti ao mesmo tempo o mêdo e a atracção do abismo, a ância do incognoscível, a sêde de revelações sobrenaturais, e manifestei-lhe receosamente o desejo de uma experiência. O doutôr annuíu, mas eu pedi a palavra para uma questão prévia, como se diz em San-Bento, e parolei-lhe assim:

—Senhôr conde. Nasci montanhês, criei-me entre as serranias da Beira, bebi nas mesmas fontes onde se dessedentaram os heróis que vingaram a afronta de Galba e fizeram rôsto ao cônsul Serviliano.... (E a êste propósito ingeri-lhe no tímpano tôda a história de Viriato). O grande caso, senhôr conde, é que o sentimento da independencia e da liberdade radicou-se em mim a tal ponto, que me horrorizam instintivamente: as caprichosas e arbitrárias sugestões de v. ex.ª—Não consentirei jámais que a minha consciência seja estranha aos meus actos ; e, antes de hipnotizar-me, pretendo que v. ex.ª se obrigue a não me sugerir palavras ou actos que não tenham a minha aprovação prévia.—

Concordou o doutôr com as minhas reflexões, e pediu-me que indicasse a sugestão.

Nêste ponto, desdobraram-se diante de mim os planos mais deslumbrantes. Que diria eu? que deveria eu fazêr durante o sono hipnótico ?

Ocorreu-me uma grande e legítima ambição: vivêr no futuro; guindar-me ao vértice das civilizações vindoiras, e estirar a vista por tôdo o passado, abrangendo num lance de olhos todas as sociedade extintas e tôdo o quadro ingente dos progressos humanos. Devia sêr um momento assombroso.

Mas êste plano, segundo o que me observou o doutor, era de execução dificilima. Para lêr toda a história do futuro, sería mister um sono hipnótico de muitos mêses ou de muitos annos, e á dificuldade acresceria o perigo.

Tive que modificar a minha ambição:

— Visto que em poucas horas não é possível fazêr a revista dos séculos, como se faz a revista do anno para os teatros de terceira ordem, desejo, senhor conde, que por duas ou três horas a sugestão me transporte ao anno Três Mil, e que me coloque no ponto mais civilizado do mundo de então, podendo eu sabêr se ainda haverá memória do meu país e o que dêlle se pensa.

— Far-se-há o que deseja, — rematou o hipnotizadôr. —

E, sem pronunciar uma palavra mais, sentou-se defronte de mim, tocando nos meus joelhos com os dêlle. Abriu as mãos e espalmou-m՚as nas regiões temporais, obrigando-me a fixar os olhos no seu olhar, vivo, penetrante e ao mesmo tempo immóvel.

Senti percorrêr-me o corpo uma languidêz estranha, e adormeci profundamente.

Pelo que eu soube depois, o hipnotizadôr ordenou-me que fôsse sentar-me junto de uma mêsa e que, tomando uma penna, descrevêsse tudo o que visse.

 
*
 

Conservo, e conservarei, quanto escrevi durante o sono hipnótico; e é á vista dêsse escrito que posso contar hôje a assombrosa excursão que fiz, durante algumas horas, pelo mundo do futuro.

Num dado momento, esvaeceram-se-me todas as memorias do presente, perdi a consciência da minha primitiva personalidade, e achei-me dentro de um grande vehículo aéreo,—um balão do anno Três Mil[1], —em companhia de muitos milhares de passageiros, que falavam tôdos a mesma lingua, o volapuque, e descemos na Austrália, um pouco acima do lago Torrens.

A Austrália era então a nação mais civilizada do mundo.

Extraordinários cataclismos geológicos e grandes convulsões sociais haviam transformado enormemente os vélhos continentes. Grandes arquipélagos, muito celebrados nas histórias antigas, haviam desaparecido, submergidos pelo oceano. Em compensação, uma infinidade de ilhas madrepóricas, desconhecidas hôje, disseminavam-se alegremente pelo Pacífico, opulentas de vida e de vegetação.

A Europa e a Asia, como duas cortezans decadentes, atestavam a inanidade das grandêzas humanas; e tudo o que escapára aos

cataclismos naturais e sociais constituía um feudo enorme, que reconhecia por seu único chefe Sua Omnipotência Russa. Esta omnipotência intitulava-se Ivan LIV, e residia guardado por ursos brancos, nas ruínas do Krenlim.

O movimento, a vida, o progresso, concentrava-se tôdo na Austrália, tendo esta por dependencias a África ao poente, e a léste as duas Américas.

Desde a Carpentária á Tasmânia, e desde o cabo Biron ao cabo Cuvier, numa extensão de mais de sete milhões de quilómetros quadrados, era tudo uma cidade enorme, repleta de gente laboriosa, sadia e alegre. Os antigos desertos Victoria e Gibson estavam agora cobertos de fábricas, aquários, jardins, bibliotecas e palácios. As

aguas do Brisbane e do Murrei, desviadas por grandes canais, iam abastecêr aquêlles bairros. Mas os bairros mais opulentos e magnificentes eram Sidnei, Melbourne, Adelaide e Perth.

Grandes alcias de acàcias, cedros, palmeiras, laranjeiras e eucaliptos, sombreavam as praças mais amplas daquelles bairros.

A agricultura decaíra, porque a alimentação humana estava reduzida a um simples elixír, de que bastava tomar uma gôta diariamente, e cuja invenção era atribuída pelos antiquários a Tâner e a Succi, que vivêram, um na Europa, e outro na América, pouco antes do século XX.

A miséria por conseguinte quási que não existia.

Não havia caminhos de ferro nem navegação a vápôr: as viagens e os transportes faziam-se por meio de rápidos vehículos aéreos, que numa hora cruzavam tôdo o Pacífico, desde Sidnei até á Califórnia. O Dragão, em que eu descêra na Austrália, fôra immediatamente fretado por dois noivos, que iam passar a lua de mel, pairando alguns mêses sôbre as Filipinas e os estreitos da Malásia.

A governação pública era de uma simplicidade extaordinária. Conheciam-se dois podêres do estado,—o legislativo e o executivo, que residiam essencialmente numa corporação única. uma espécie de senado eleito, de funções vitalícias, excepto no caso raríssimo de nepotismo ou concussão.

Os delegados do senado eram, sob a responsabilidade dêste, os executôres especiais da lei, dentro de tôdo o falanstério, e das suas dependências. Esquecia-me dizer que esta originalíssima nacionalidade se denominava falanstério, em homenagem a um filósofo humanitário, Fourier, que vivêra no século XIX, segundo affirmavam os cronicons australianos.

Os delegados do senado, mal comparados, eram como os nossos governadores civis. Tinham a seu cargo a execução das leis na sua respectiva área, correspondiam-se com o senado pelo teléfono, e eram os unicos candidatos á dignidade senatorial.

O que mais vivamente me atraíu a vista e a atenção foi um immenso farol eléctrico, tão alto, e tão monstruosamente grande, que do centro da Austrália illuminava todas as costas do continente ! Falta só dizêr que esse farol era apenas o zimbório do mais majestoso e extraordinário edifício de tôda a Austrália,—a Bibliotéca Universal.

 
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Exteriormente, a Bibliotéca era um immenso palácio de coral, de fórma quadrangular, com dois quilómetros de diàmetro, e cem portas, rasgadas em tôda a altura do edificio e constantemente abertas. Os intervallos das portas comprehendiam interiormente a biblioteca propriamente dita. Mas livros propriamente ditos, não os havia : eram enormes rôlos de papel, dispostos e empilhados, como nos nossos estabelecimentos de papel para forrar casas.

Cada um dêstes rôlos tinha um número de ordem, correspondente ao número que câda obra tinha no catálogo. Catálogo é uma maneira de dizêr. Lá não havia catálogos como os nossos: em câda repartimento, isto é, em câda intervallo das portas, estendia-se, em tôda a altura, um grande listão de metal branco, exibindo, em grandes lêtras doiradas, os números e os titulos das obras contidas no respectivo repartimento.

Não obstante a aparente juxtaposição dos rôlos, qualquer dêlles podia saír dos seus logares, sem se alterar a posição dos demais. O visitante, ou o estudioso, consultava o listão-catálogo, e, tocando no botão de um aparelho eléctrico, fazia descêr a obra que procurava: o rôlo poisava numa grande mêsa, onde se desenrolava, depressa ou devagar, segundo a pressão que o leitôr exercêsse no botão do aparelho. O aparêlho estava em communicação com uma lâmina metálica, á volta da qual se enrolava a obra, e com outra lâmina que correspondia á margem oposta.

Como é natural, entre as duas margens mediava maiór ou menór extensão, segundo as dimensões da obra. Havia obra que daria um quilómetro: mas, ao lêr-se, a lâmina exterior ia dobrando sôbre si a parte lida; e, quando se chegava ao fim da primeira página, a lâmina interior, que então se descobria, realizava a operação da outra lâmina, para que se lêsse a segunda e última página.

Nem escadas, nem contínuos, nem cadeiras. Lia-se escrevia-se de pé, a tôda a altura do peito, porque a sciência e a higiene assim o prescreviam.

Em vêz do contínuo, e junto de cada repartimento, permanecia um sábio, que tinha o encargo de explicar, durante duas horas em câda dia, as doutrinas scientíficas, artísticas ou literárias, contidas nas obras que lhe estavam ao lado.

Os sábios da bibliotéca constituíam o corpo universitário; e, pelas naves do edificio agrupavam-se os mais ingenhosos maquinismos, maravilhas práticas da indústria, das sciências e das artes, poderosos auxiliares do ensino universitário. Este ensino, embora graduado, comprehendia tôdos os ramos de conhecimentos humanos, desde a instrucção elementar até á mecânica celeste.

Tôdas as obras da bibliotéca, originais umas e traduzidas outras, estavam escritas no idioma universal, o volapuque, que tôdos podiam lêr e intendêr. Procurei o listão-catálogo, que tinha por título geral Viagens, e tive tentações de lêr o n.º 98:765, porque eram as Digressões no extremo occidente, pelo sábio Terramarique.

Toquei no botão eléctrico, e, momentos depois, devorava com avidêz uma obra curiosissima, em fórma de cartas. Era nada menos que a descrição geográfica, histórica, sociológica e etnográfica das extremas regiões occidentais, de que se conservava uma vaga reminiscência, como das lendas que ouvimos na meninice.

Terramarique saíra do Queensland, no seu balão de recreio, com uma numerosa comitiva de operários e estudantes, ao quinto dia da vigesima lua do anno 2995, e demorara-se algum tempo na Anatólia e na Sibéria, realizando excavações e investigações interessantíssimas. Aproximara-se do Báltico, para obtêr de Sua Omnipotência Russa a permissão de visitar as ruínas occidentais, desde o Reno até Gibraltár e acháva-se á beira do Tejo, no primeiro equinócio do anno 3000.

Sobretudo as cartas que êlle data das ruínas portugalenses excitaram em mim o maiór interesse e a mais natural surprêsa. E, como escrevi quanto pude vêr e lêr até que o doutôr Das me despertou cruelmente para os tristes esplendores da actualidade, não posso equivar-me a tornar públicas algumas dessas cartas.

Não obstante a seriedade e a imparcialidade do sábio australiano, há por vêzes nas suas palavras uma franquêza tão rude a nosso respeito, que, pelo menos por agora, não reproduzirei o que mais possa ferir as susceptibilidades nacionais. Se eu fizér a edição definitiva das cartas, resolverei se devo ou não mantêr a prudente reserva de agóra.

E, dito isto, vou cedêr a palavra a Terramarique.

 

Candido de Figueiredo.


  1. Vêm a pêllo algumas palavras sôbre a estructura e configuração daquella embarcação aérea, que nada se assimilha aos nossos balões de hoje, e ainda menos aos modellos do nosso padre Bartolomeu de Gusmão, ou dos irmãos Montgolfier, de Lennox, de Genet, do barão Scott, ou de Dupuy de Lome.
    A configuração daquêlle vehículo era a de um dragão enorme, com as respectivas asas e garras.
    As garras eram como que âncoras fixas, que sustinham a embarcação aérea, quando chegavam ao solo. As asas, no comprimento de 20 metros, eram construídas de ébano e aço, e moviam-se mais ou menos rapidamente, segundo a indicação de em commutadôr eléctrico, muito differente do commutadôr de Tissandier. A cabeça do dragão constituía o leme do enorme navio aéreo, que comportava 100 passageiros. O leme e as asas eram conjuntamente reguladas pelo commutador, que estava em contacto com uma potente máquina dinamo-eléctrica.
    O aço polido das asas, marchetando e reforçando o ebano, tinha scintillações fantásticas nas solidões do espaço. Do costado azul e vêrde do Dragão, que era o nôme e a configuração do vehículo, pendiam, doiradas, as garras.
    Interiormente, o Dragão offerecia o luxo e as commodidades do mais sumptuoso e perfeito palácio; e á frente, isto é, um pouco atrás do leme, erguia-se um elegante torreão, que era observatório astronómico, guarnecido de maravilhosos instrumentos scientificos, entre os quais avultavam telescópios, cujo alcance excedia todas as previsões de Flammarion.
    Um incanto, aquelle Dragão de cédro, aço e ébano !

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