Lisboa no anno três mil/Nota do editôr
Nota do editôr
Como advertido ficou em outro logar, a presente edição não reproduz integralmente tôdas as cartas de Terramarique ácêrca de Lisboa.
Omitti, por agora, cartas interessantíssimas, e episódios originais, em que a penna do sábio australiano sarja á fundo a carne esverdeada de umas gangrenas repugnantes. Chêga a parecêr-me cruel, o sábio; e eu, sem razões nem ânimo para contestar-lhe a filosofia, sinto por um lado o devêr de poupar amigos que não escapam ao penetrante estilete do futuro investigadôr; e por outro a necessidade de poupar as pantorrilhas próprias á investida dos lobos cervais, que a luz da história fôra acordar nos fojos escuros, donde assaltam, pela calada da noite o viandante inoffensivo e o lavradôr indefêso.
Asseguram-me, além de tudo, que ainda há fariseus em terra de cristãos; e eu não desejo nem merêço a distinção com que trataram Jesus, crucificando-o entre ladrões.
Reservo pois para os meus herdeiros,— já que mais lhes não deixo,—a edição definitiva das cartas de Terramarique, se circunstâncias ponderosas me não levarem, antes d՚isso, a corrêr o perigo da crucifixação, atirando á publicidade, integralmente, sem reservas nem reticências, as Digressões de Terramarique nas terras do extremo occidente.
Devia esta explicação ao benevolente leitôr, que certamente notou interrupções e lacunas nesta edição provisória.
E outrosim me apraz declarar que, embora as minhas palavras não correspondam sempre com grande nitidêz ao volapuque espirituoso e cáustico do sábio australiano, reflectem, quanto possível, as ideias e os conceitos de Terramarique.
Agradecendo ao sr. Angelo Das, que se diz doutor e conde, o havêr-me facilitado tão instructivas e surprehendentes revelações, faço votos para que ellas não sejam lição perdida, perante a consciência nacional e o amôr pátrio dos meus concidadãos.
E com isto, meus amigos, não mais os enfadarei, até... á edição definitiva.
C. de F.
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