Lisboa no anno três mil/9
CARTA IX
Mestre e amigo—Effectivamente, o pedaço de ferro fundido, representando um tinteiro, um livro e uma ave, era um símbolo. Assim o affirma Reliquiano, que é autoridade incontrovertível.
Sôbre a espécie da ave, occorreram-me dúvidas graves, porque, cotejando a figura com os vestígios análogos da fauna fóssíl da península hispânica, e sendo aquêlle documento um símbolo do estudo, cheguei a persuadir-me de que se tratava de um papagaio, porque o estudo em Portugal tinha geralmente, como resultante, a faculdade de falar, sem necessidade de pensar. Mas por fim, melhor orientado, intendo que o simbólico passarão era uma ave de rapina, não só pela configuração do bico, mas tambem porque, nos últimos tempos da naciolidade portugalense, as aves predominantes eram as aves de rapina.
Mas o que mais importa á crítica histórica é a síntese das ideias que o símbolo representava.
O estudo existia e recommendava-se em Portugal, como prenda galante de gentes ociosas, e como meio de conquistar os logares menos rendosos. As sinecuras, as prebendas, as fontes de pingues proventos, isso era partilhado entre os que, á falta de letras, tinham por ascensôres o patronato e a audácia.
Havia aqui três categorias de estudo: primário, secundário e superiór.
Para o estudo primário, chegou a havêr em Portugal perto de sêis mil escolas públicas. Entretanto, e ainda que se decretou o ensino obrigatório, apenas sabía lêr uma parte insignificante da população. Numa Exposição Universal, que houve em Vienna de Áustria, quasi no último quartel do seculo XIX, provou-se que Portugal, em assuntos de instrucção, estava a par da Turquia e da Rússia, que eram por aquêlle tempo as nações europeias menos civilizadas.
—Que faziam então os sêis mil mestres de ensino primário ?—perguntarás tu.
Davam palmatoadas e pediam esmola. Primitivamente a esmola era-lhes dada pelo Estado, a título de retribuição. Depois, ergueu-se a bandeira seductôra da descentralização, e os municípios foram encarregados de esmolar os professôres; mas, como os municípios também eram pobres, e como a caridade bem ordenada não sái de casa, os professores sentaram-se á porta das escolas, estendendo a mão á caridadde particular.
A caridade official, ao mesmo tempo, exercia-se profusamente, esmolando com avultados premios os poldros que mais corrêssem nos hipódromos, e distribuindo muitos contos de reis pelos comediantes aposentados, que ainda pudessem trabalhar. Os poldros premiados significavam que o seu criador tinha excellentes éguas para seu uso; e a aposentação dos commediantes em serviço activo representava o sacerdócio da arte, que atirou o busto de Garrett para a Feira da Ladra.
A instrucção secundária, não posso dizêr-te claramente o que isto era, porque nunca têve uma organização definida. Nas colleccões de Reliquiano, há um índice da legislação da instrucção pública em Portugal, e por aí vejo que, desde 1863 até 1910, houve cincoenta e duas reformas do ensino secundário, não falando naquellas que não chegaram a executar-se, por absoluta inexequibilidade.
Imagina como se desenvolveria o ensino secundário! Uns dos reformadôres eram rotineiros, quasi imbecis, e punham o latim á esquerda e á direita, atrás e adiante de cada uma das demais disciplinas, obrigando até os alunos de matemática a resolvêrem em latim as equações trignométricas. Outros eram filósofos utopistas e exigiam meninos sábios, que aos déz annos soubessem fisiologia, química, paleontologia, e outras sciencias vistosas, que o legislador conhecia perfeitamente, por lhes têr visto o titulo nuns catálogos transrenanos. Havia tal, que mandava estudar os preliminares de uma sciencia um anno depois de estudada a mesma sciencia. Outro pretendia que todos soubessem desenhar, ainda aquêlles que nascêssem sem braços. Outro mandava estudar as línguas estranhas no primeiro anno do curso, e a lingua nacional no último anno. Outro... Não te conto mais, porque teria o direito de duvidar de quanto eu te dissesse a êste respeito. E, contudo, juro pelo teu nôme, que nada há mais autêntico!
Do ensino superiôr, o exemplar mais completo era a universidade coimbran. Este instituto, quanto a reformas, seguiu destino oppôsto ao do ensino secundário: emquanto êste sofria cincoenta e duas reformas em 47 annos, a universidade, abordoada a uns estatutos do tempo da inquisição e dos frades, arrastava immutavelmente a sua majestosa decrepitude por tôdo o século XIX, e apresentava ao século XX, intacta, a sciencia fossilizada do padre Vernei e de outros acólitos do marquêz de Pombal. Na universidade, ás ideias correspondia a fórma: professores e alunos trajavam de monges; os delinquentes eram julgados em tribunal secreto, sem direito de defêsa; os livros eram do século VI, do tempo de Justiniano; e o Estado gastava ali boa parte da receita pública, mantendo, com fóros de sciencia universitária, a sciencia dos mistérios e dos dogmas,—a teologia.
Compara êste quadro antigo com a Universidade Central, e congratula-te, homem do presente.
Até muito breve.
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