Lisboa no anno três mil/8

CARTA VIII

 
A Feira da Ladra.—Fac-símile de uma gazêta.—O artigo de «fundo».―O noticiário.—O annúncio.
 

Mestre. — Referi-me anteriormente, e de passagem, ao célebre mercado, a Feira da Ladra, onde se me havia deparado o busto de Garret, de invólta com fragmentos de estatuêtas e utensílios da vélha cerâmica.

Consultei as memórias de Reliquiano, para, de alguma fórma, ajuizares o que era a Feira, e encontrei, dispersos por várias crónicas, excerptos de uma apologia, atribuida a um fabulista do século XIX, O՚Neill.

Aproximando e reunindo esses excerptos, parece-me que terei pintado a Feira, sem urgência de palêta.

Era isto a Feira:

 

Aqui a imagem, venerada outr՚ora
Por milagrosa.....

 

·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·

Ali, retratos, que os avós preclaros
A netos imbecis mal recordavam.

 

·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·

Além, bojudo calhamaço insulso,
Obra de frade, forjadôr de petas.

 

·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·

Mais longe vejo colossais volumes:
São leis, decretos, alvarás, Diarios.

 

·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·

Vejo novellas mil, por fóra immundas,
Mais immundas por dentro, traduzidas
Em chulo português de francês chôcho.

 

·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·

Collecções de jornais... ai, meus peccados!
Em que eu ia falar; cala-te boca!
........................ Agora vejo
Arcas de pinho dos boçais gallegos

 

·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·

Mais longe está o batalhão cerrado
De quanto já calçou pés delicados,
Desformes patas, um museu completo!

 

·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·

Armas não faltam, mais ou menos virgens.

 

·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
 

Ociôso é dizêr que, de todo êsse pandemónio, só restam, para o visitante e para o explorador, fragmentos de estatuêtas e loiças, tachos de férro, bacias de arame, chaves e fechaduras, ferraduras e arreios, e outros objectos de metal. Entre êstes, deparou-se-me uma lâmina, que tenho estudado com muita curiosidade, porque equivale a um largo e minuciôso capítulo da história portugalense.

E՚ uma inscrição, gravada em cobre, e que constituía certamente uma vistosa tabulêta, para decorar a frontaria de uma casa de redacção.

A inscrição abrange três divisões: duas laterais e uma central; aquellas são o fac-símile da primeira e segunda página da Opinião da Arcada, diário político, noticiôso e industrial; e a parte central réza assim, em grandes caractéres:

 
Nesta casa se fundou
em 1895,
a Opinião da Arcada,
a maior e a mais popular gazêta
das regiões occidentais.
Tiragem 365:000 exemplares.
Redactor— Cesar Fernandes,
1895.
 

O fac-símile da segunda página representa a parte annunciatória do jornal, donde se infere que a terceira e a quarta página seriam análogas áquella; e o fac-símile da primeira exibe o título do jornal, o nôme do redactôr e da Emprêsa, e numerosos assuntos, distribuidos por 15 colunas.

Politicamente, vê-se que a Opinião da Arcada estava sempre na opposição, porque, falando sempre mal de tudo e de tôdos, é que adquiriu a mais extraordinária popularidade e o maior prestígio no ânimo de todos os govêrnos.

No primeiro artigo do fac-símile, há cruêzas dêste calibre:

 

--« Desengane-se o govêrno: emquanto não restituír á fazenda os déz mil e quinhentos contos que roubou aos contribuintes e distribuiu pelo compadre Nunes e pelo afilhado Lopes, havemos de dizêr bem alto que o ministério é uma quadrilha de ladrões, e havemos de esgotar todos os nossos tinteiros, cobrindo de negra ignomínia a lama em que os míseraveis se a atolam.»

 

Mais adiante, a penna do noticiarista conta-nos:

 

—« Veio hoje ao nosso escritório Josefa Simeôa, uma galante rapariga de 18 annos, padeira, queixar-se de que o seu namorado, num momento de despeito, a ferira com uma tesoira na côxa esquerda.

Vimos o ferimento: é um golpe de 2 centímetros de comprimento e 1 de profundidade. Compungia-nos o contraste do sangue com a alvura da pelle, que é de uma maciêza veludínea. A côxa direita estava perfeitamente incólume. O sangue havia espirrado para a tímbria da camisa, maculando-a. As meias, que eram de finissimo algodão, não offereciam nada de notável. Fomos vêr depois o instrumento do crime: é uma tesoira pequena e barata, tendo ainda numa das fôlhas uma nodoazinha de sangue. Pedimos tôdo o rigôr da lei para o criminoso, e sentimos o desgôsto da pobre Simeôa, que é realmente de uma condescêndencia amabilîssima, e de uma formosura tentadora.»——

 

A Opinião fornecia aos seus 365:000 leitôres, de todos os sexos e de todas as idades, minuciosas informações sôbre os factos ainda os mais insignificantes. Parece que a vida particular deixára de existir, porque entrava no domínio público tudo o que hôje consideramos íntimo, e defêso á curiosidade pública. No fac-símile da primeira pagina lê-se, por exemplo:

 

—« Quando hontem subíamos ao 5.° andar do prédio n,° 229 da rua do Conselheiro Aoaoci ,áonde íamos levar as nossas consolações a uma pobre menina que chegou da provincia e ainda não tem collocação, percebemos que havia altercação entre os habitantes do 4.° andar; e, na nossa qualidade de reporter da Opinião, foi-nos facultada a entrada, e percebemos então que o sr. major reformado Silvestre Silvano discutia com sua espôsa o orçamento doméstico. Tôda a razão estava do lado do sr. major, porque já tinha empenhado a cama por 4$000 réis, não vestia camisa lavada há 15 dias, não tinha sapatos para sair á rua, e negava-se a empenhar a espada, para que a esposa fôsse vêr os elefantes do circo.»

 

Em assuntos industriais, cito-te apenas um exemplo. Em discussão com um collega, dizia a Opinião:

 

—« Accusa-nos a Voz da Baixa de que deixámos de agredir violentamente a nova Companhia do Guano, desde que a direcção desta companhia nos brindou com duas mil acções beneficiárias. Não tem de que accusar-nos: a companhia procedeu nobremente, esquecendo nocivos resentimentos, para têr ao seu lado um defensor convicto; nós convencémo-nos a final de que é devêr de tôdos auxiliar qualquér indústria destinada a fomentar a riquêza pública.»―

 

A parte annunciatória da Opinião offerece curiosidades, que o nosso critério estranha hôje, mas que eram factos vulgaríssimos da vida portuguêsa.

Um annúncio :

 

—«Barnabé Catão da Silva, directôr geral dos descaminhos e contrabandos, prontifica-se, por módico prêço, a obter o logar do tesoireiro das décimas para quem tenha boa fórma de letra e conheça as quatro operações, satisfazendo o mais que se combinar.»—

 

Outro:

 

—«O lavradôr do casal das Pintas, que dispõi de 4 votos e possue os melhores porcos do Alentejo, dará 3 contos em dinheiro ao sr. deputado ou a qualquer influente, que lhe consiga o título de marquêz das ditas Pintas.»—

 

Outro ainda, em caractéres maiores, no alto da coluna 12.ª:

 

—«Previne-se o sr. ministro das justiças de que, se não nomeia Miguel dos Anjos para o logar de escrivão dos orfams, publicaremos integralmente a cartinha desencaminhada que o ministro escreveu á sr.ª condêssa dos Açudes, e na qual elle promettia tratar immediatamente de se divorciar de sua mulher, para consagrar o resto dos seus dias á incantadora condessa.»—

 

Mais ainda:

 

—«Meu bem. Teu pai oppõi-se, mas vamos vencer tudo. Está pois combinado: ámanhan, ás 2 da madrugada um trem há de parar á tua porta. Não te digo mais. Como seremos felizes!»—

 

Ainda outro:

 

—«Uma senhôra muito decente, de 21 annos, e possuidôra de tôdas as prendas, offerece-se para governante de homem só, solteiro, nôvo, que esteja em bôa posição e dê boas abonações. Carta a P. P.

 

Não tenho espaço para reproduzir tôdo o fac-símile, nem vale a pena. Isto, meu grande amigo, não é o fac-símile de um jornal, é o fac-símile de uma época, e por isso o recommendo aos teus estudos de filosofia da história.

Os demáis objectos, que observei nas ruínas da Feira da Ladra, pouco interessam á arqueologia. Há entretanto uns restos de portão, de ferro fundido, conservando sobrepostos um tinteiro, um livro e uma ave nocturna, tudo do mesmo metal. Provavelmente são vestigios dos tempos simbólicos. Vou estudar o assunto, e ainda te escreverei, antes do solstício do verão.

Todas as obras escritas por autores portugueses falecidos até 31 de dezembro de 1945 se encontram em domínio público nos Estados Unidos, independentemente de quando foram publicadas, inclusive obras póstumas já publicadas e ainda não publicadas. Além disso, essas obras estão também em domínio público no Brasil, em Portugal e nos demais países onde os direitos autorais expiram após 70 anos da morte do autor. (detalhes)