Lisboa no anno três mil/2
CARTA II
Mestre. — Estamos já na segunda lua do primeiro equinócio do anno 3000, e é escasso o que, por emquanto, te posso communicar ácêrca das explorações, a que anteriormente me referi. Debruçado sôbre os mapas da antiguidade lisbonense, e á vista dos cêrros e valles por onde se estendia a cidade do Tejo, tenho levado dias e noites a reconstituír na memória essa pitoresca povoação, a que a passagem do tempo e os abalos subterrâneos nem sequér pouparam a sua primitiva configuração.
A tenda, em que te escrevo, está erguida onde provavelmente existia o castello de San-Jorge. O monte de Santa-Catarina, referido nas descrições antigas, foi provavelmente arrasado por algum cataclismo, que permittiu alargar-se o Tejo até San-Roque, cobrindo tambem que noutras eras se chamava a cidade baixa.
Nas horas em que a maré deixa a descoberto a antiga Praça do Commércio e a Avenida marginal do século XX, já tenho feito algumas ligeiras explorações, e recolhido alguns fósseis e exemplares arqueológicos, de que minuciosamente falarei no meu Diário.
Á míngua de interésse scientifico, não deixa de ser curioso um dos primeiros objectos que se me depararam numa pequena escavação, a léste da minha tenda, no mesmesmo sítio talvez, em que se emaranhavam as vielas de Alfama.
É uma prancha, ou lâmina, petrificada, e recoberta de calcáreo e grés de formação marina. Fi-la immergir numa solução de corrosivo antilítico, e, desligado o calcáreo da prancha primitiva, pude lêr nella, em indecisos caractéres:
As memórias escritas do quinto período geológico, um pouco mais claras que as do período terciário e quaternário, e bem assim as preciosas informações do cenobita açoriano, convenceram-me de que a prancha alludida era uma tabuleta commercial; e de que a apparente redundância da expressão vinho legitimo era a mais legítima consequência do estado económico e social dos portuguêses, no século XX, ou fins do século XIX, a que a prancha provavelmente pertencia.
Cartaxo devia sêr algum burgo vinhateiro; mas, com o seu nôme, vendia-se vinho legítimo e vinho falsificado. Parece que o mesmo succedia com outras regiões vinhateiras, porque havia vinho do Porto, que era da Bairrada; vinho de Collares, que era de Tomar; vinho de Bordéus, que era de Carcavelos; vinho de Champanhe, que era do Poço do Bispo.
Este qui-pro-quó industrial estava tão radicado nos costumes do povo e no interésse das grandes indústrias, que, quando um govêrno julgou indispensável dar o nôme ás vaccas e pôr os pontos nos ii, como então se dizia, uma emprêsa poderosa, Mixórdia & C.ª, fêz uma revolta, que obrigou o governo a cantar a palinódia e deixar corrêr o marfim. Em tôdo o caso, não havia desdoiro na transigencia, porque estava ainda em voga uma sciência, chamada economia política, de cujos princípios bastará citar este: «laissez faire... mixórdia e tudo. »
O que se dava com o vinho reproduzia-se nas demais indústrias: a manteiga era margarina, o café era grão de bico, o assúcar era farinha, os panos da Covilhan eram panos de além-Caia. Por desamôr a êstes panos e a outras fazendas suspeitas, estêve um ministro em risco de sêr crucificado por uma seita de contrabandistas, que infestava o país.
E as falsificações estendiam-se a tudo, desde as indústrias até aos industriais, desde o pôvo até aos governos. Commerciantes de gente negra, bandidos de casaca e luvas, marçanos anónimos que surgiam endinheirados dos alçapões da fortuna, tinham no seu tempo o cognôme de homens de bem, beneméritos e sustentáculos da pátria.
Uma das festas favoritas do occidente era o carnaval, em que toda a gente revelava as suas tendências e aspirações, mascarando-se do que não era. Pois nos últimos tempos desta nacionalidade, o carnaval tornou-se permanente, não a rir, mas a sério. As lendas de Sardanápalo, de Joana d՚Arc, e de Maria da Fonte, tiveram a sua. consagração prática nos últimos tempos de de Portugal. Havia homens que eram mulhéres, e mulheres que eram homens. Nas vendas de módas, robustos mocetões, cheios de denguices e perfumes, ajustavam tournures em ancas femininas. A mulhér do campo lavrava as terras; a da cidade, se não vendia cautelas nem fazia a guarda nocturna da cidade fazía política e ingeria-se vigorosamente na burocracia, aniquilando os seus indifferentes, e elevando os seus favoritos aos mais altos cargos da coisa pública. A uma palavra, a um simples gesto de mulhér formosa, mais de um ministro criou inconscientemente um director geral, um governador, um cónsul.
Mas isto é antecipar assuntos, meu querido mestre. Hei de descrevêr-te, mais por miudo, a organização social e burocrática da nacionalidade portugalense; e, por muito que te espantes desde já, só perante um quadro mais completo e mais vivo, poderás entrevêr a decadência a que alludo.
Nesta carta, propuz-me falar-te apenas da minha primeira exploracão nas ruinas lisbonenses, e transmittir-te as impressões que ella me deixou.
Está demonstrado que a venda do Cartaxo era um entre milhares de estabelecimentos congêneres. Os portuguêses bebiam muito Cartaxo, muito Torresão e muito Termo, ou coisas com êsse nôme. Só assim se explica como êste paíz foi cambadeando através de alguns quartéis do seculo XX, até cair no sono, de que nunca mais despertou.
De noite pelas ruas e praças da cidade, havia agentes policiais, encarregados de conduzir a alberges públicos os cidadãos que, cançados de bebêr, se estiravam na calçada.
A embriaguêz, longe de ser punida, chegava a ser gentil, quando não provocava o sono. Para se sêr amável, para se falar sem hesitação, para se pronunciar um discurso arrebatadôr, chegou a julgar-se indispensável o têr grão na asa.
E isso explica-se. Em Portugal, os faladôres tiveram sempre a mais larga aceitação. Quem o não fôsse era semsabôr e reles; e, se o desgraçado fôsse deputado, nunca chegaria a ministro, excepto em caso de recomposição urgente. Audácia e parola, com um poucochinho ao menos de ignorância recommendada, era aqui o mais curto e direito caminho para as grandezas políticas e sociais.
Muito excêntricos, estes neo-visigodos; não é verdade?
Ainda não viste nada, meu grande amigo. As informações de Reliquiano e as antigas crónicas que o acompanham, descerraram-me um mundo novo, e tudo te contarei.
Por agora, estão-me chamando a attenção uns postes escuros, que se erguem no Tejo, de espaço a espaço, dêsde uma á outra banda. Vou examiná-los.
Até já.
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