Jornada de um poeta

LIVRO BOM

O mestre e amigo.

«Le poète étend son être à l’infini; il est chose légère et vole à tout sujet, et partout il est chez lui. Les liens secrets des harmonies mystérieuses le rattachent sans effort aux innombrables aspects de la nature extérieure et du monde invisible. Voilà pourquoi si peu de gens comprennent et goûtent la poésie; c’est un parfum trop subtil pour leurs sens grossiers, et ils s’en vengent en la méprisant.»

Paul Albert.

A GOULART DE ANDRADE

Não escrevi a prefação pedida
Para seu livro. É que pensei: Tão vasto
É o publico de insectos e de flores,
E affronta-o, da chrysalida saída,
Sósinha, a borboleta, e em tudo o rasto
Deixa das azas de brilhantes côres;

Tão vasta é a multidão que o sol espera
Neste scenario azul da immensa altura;
E o sol, sem ser preciso pelo braço
Alguem trazêl-o, entra a celeste esphera,
Esplende em toda a luz divina e pura,
E faz o dia, illuminando o espaço.

Alberto de Oliveira.

A JORNADA DE UM POETA

1905

O OURO
(aos parnasianos)

I

Verona acorda ao vir do sol da bella Italia:
Pompeiam pela veiga o rainunculo e a dhalia!
Desfaz-se o ninho em som, em perfumes o ambiente;
Das altas chaminés um bafo escuro e quente
Espirala-se no ar! Aves cruzam-se ás mil,
E o pacifico armento abandona o redil.
Lampejam os vitráes e as cupolas de ardósia,
E a lympha do Adge escorre, á luz do Oriente, rósea!
As áscuas de Chryseu afundam na espessura
Arabescando de ouro a trama verde-escura!
De uma torre de igreja um sino devagar
Pende pesadamente e dobra a badalar,
Revôando uma alva pomba a cada nota quérula
A bater azas pelo espaço côr de perola,
Como uma prece alada ao claro céo subindo!
— Salve, formoso sol, ao teu fulgor infindo
A Natureza inteira é um cantico de amor
E te envia para o alto um beijo em cada flor!
Sê mil vezes bemdito, ó causa dos crepusculos,
Rejuvenescedor das fibras e dos musculos,
Manda-nos por igual a tua luz, e banha
O valle humilde, a selva, as grimpas da montanha,
Sonho de ouro eternal pelo infinito a arder,
Vida eterna! Ouro eterno! Infinito prazer!

Aos mysterios da noite e aos rumores do dia
Indifferente, só, na lobrega mansarda,
O esqueletico talhe envolto num burel,
Pelo sonho que affaga, o Alchimista porfia,
Num anceio febril, sob a agourenta guarda
De um môcho, que lhe crava um olhar duro e cruel!

Amontoados em torno — escóreas e baguêtas,
Tubos em espiráes, cubas e almofarizes,
Retortas e crysóes, barras, laminas, sáes;
Um aberto alfarrabio ostenta as linhas prêtas
De hieroglyphos; além — cucurbitas, raizes,
E um brazeiro a luzir nos vidros e metáes!

As «Taboas de Esmeralda» e o «Tratado dos Sete
Capitulos» em vão consulta... Não descança!
E no fogo que ruge, elle mergulha o olhar
Que em volupia infernal a flamma azul reflecte!
Em seu rosto ora ri, ora morre a Esperança
Como a fagulha brilha e após se perde no ar!

Que lhe importa lá fóra a Primavera cante,
A agua brilhe, o astro fulja e se emballance a palma
E a rama verde vibre ouvindo um rouxinol?

Se lhe ferve no corpo, um sangue em febre, estuante
Nos estos do Verão! Se elle tem dentro d’Alma
Um merencoreo Hynverno, intérmino e sem sol!

O fogo arrebatou-lhe em seu furor insano
Os haveres, a vida, o affecto da familia,
Transformando-lhe tudo em cinza negra e pó!
Para sua ambição atroz e eterno engano! —
Em vez do Ouro almejado em tão longa vigilia:
Novas combinações, novos crystáes... e só!...

Tal como um lavrador, que vindo da colheita
As espigas conduz a longinquo celeiro
E pela estrada vae deixando o grão caír,
Grão que medra e floresce e fructos louros deita,
Elle traça, inconsciente, um fulgente roteiro
Que desvenda outra Estancia aos clarões do Porvir!

E como um sonhador, que percorrendo a escala
Das paixões e de todo o humano soffrimento
Com o proprio sangue escreve paginas de dôr,
E insensivel, um povo ou uma epocha assignala,
Elle chegou, sem o saber, ao fundamento
De uma sciencia ignorada, uma Idéa melhor.

E no sonho que o nutre e que o contrista,
No desejo que o alenta, abate e inflamma,
O pallido Alchimista
Exclama:

« — Terra, ostenta aos meus olhos o thesouro
« — Que no teu seio fúlgido palpita

«Em veio incandescente ou rútila pepita
«De ouro!

«Apenas mostras a esta febre o louro
«Campo de trigo, múrmuro, ás aragens,
«E este engano do Poente incendido em celagens
«De ouro!

«Em vão calcino, purifico, douro
«Tudo! Debalde a prata se acrysolla...
«E ultrajando este anceio — o astro de ouro! A corolla
«De ouro!

«Muda-me, Terra, o sangue todo, o chôro
«Todo que eu verto pelo Ideal sonhado
«Em fino ouro! E que eu viva em ambito fechado
«De ouro!

«Dá que eu possa extasiar-me ouvindo o côro
«De aureas barras chocando-se, da queda
«De tilintante moeda, a bater noutra moeda
«De ouro!»

A GLORIA
(aos symbolistas)

II

Refulge o Sol sobre a campina vasta,
Quéda o arvoredo ao luminoso açoite,
Do recesso da moita hirsuta e basta
Vão-se as ultimas lagrymas da noite.

Quéda o arvoredo ao luminoso acoite,
Procura a alfombra o passaro cançado;
Vão-se as ultimas lagrymas da noite
Para o silente céo amplo e azulado!

Procura alfombra o passaro cançado;
Caem por terra as folhas resequidas;
Para o silente céo amplo e azulado
Sóbe o aroma das petalas feridas.

Caem por terra as folhas resequidas,
Umas fulvas, cinzentas, outras pretas;
Sóbe o aroma das petalas feridas
Com o vivo turbilhão das borboletas!

Umas fulvas, cinzentas, outras pretas;
As lagartas ao sol vão se arrastando,
Com o vivo turbilhão das borboletas
Mórbidas, languorosas, contrastando.

As lagartas ao sol vão se arrastando...
Passam as aguas de um regato frio,
Mórbidas, languorosas, contrastando
Com a exhuberancia cálida do Estio!

Passam as aguas de um regato frio
Dando á riba expressão de Primavéra...
Com a exhuberancia cálida de Estio
Faisca o monte, o valle reverbéra.

Dando á riba expressão de Primavéra
A flor sylvestre em fino hastil se engasta...
Faisca o monte, o valle reverbéra,
Refulge o sol sobre a campina vasta!

Deixando um fundo traço no terreiro,
Passa em corcel de clina solta ao vento,
Um athletico, intrepido guerreiro.

No elmo — um pennacho côr do firmamento,
No broquel cinzelado — signo estranho,
Ao sol luzindo, num deslumbramento,

Com tanto brilho, com fulgor tamanho,
Que as borboletas batem de offuscadas
Nas laminas de prata, de aço e estanho!

Sob o seu passo alargam-se as estradas,
A relva morre, traça-se um caminho,
A poeira sóbe em ondas revoltadas,

As folhas sêccas vão num torvelinho
Revoando atraz do Cavalleiro Errante...
E a flor desfaz-se, fóge o passarinho!

Fulgura a larga folha do montante,
Pesada e presa á fulgida loriga,
Nos estribos batendo, tilintante.

« — Cavalleiro, que idéa assim te obriga
«A deixar a fronteira de teus lares,
Para que a Sorte affrontes, inimiga?

«Terás bençãos por onde tu passares?
«Por ventura redimes o opprimido
Por longinquos paizes e por mares?...»

Mas o guerreiro no metal brunido
Da rútila couraça, galga o espaço,
Num rapido galope desabrido,
Brandindo no ar a fina lança de aço!

E para Deante, para seu Destino,
No desejo que o alenta, abate, e inflamma
O paladino
Clama:

« — Hei de quebrar os éstos do desejo,
« Dentro desta couraça fria e dura:
«O Amor! O Amor nasce de um beijo
«E vive o que um beijo perdura!

«Prefiro ao Ouro a fina folha de aço,
« Relampagueando em zigue-zagues! Quéro
«Com um montante o largo espaço
«Fender num vivo reverbéro!

«Quero a Victoria! A aspérrima escalada
«Dos taludes, das torres, das muralhas:
«Sinto minh’alma alvorotada
«Ouvindo a grita das batalhas!

«Quero plantar o lábaro victorioso
«Na trincheira inimiga! E dar certeiro
«Golpe que ao eternal repouzo
«Leve cavallo e cavalleiro!

«Quero a effigie no bronze, eternamente
«Num alto pedestal ferindo as vistas,
«Ficar no coração da gente
«Como um heróe de mil conquistas!»

AMOR
(aos lyricos)

III

O occaso é rôxo, cinza e rosa,
A luz se esváe...
A noite cáe, silenciosa,
A neve cáe...

Na rua accendem duas filas
De lampeões:
Parecem, longe, alas tranquillas
De procissões...

Pallida e triste a luz se côa
Do combustor,
Por entre a névoa, que a corða
De um resplendor!

Cada vez mais se adensa a treva
No escuro céo,
Que, sobre a Terra (E neva! Neva!)
Desata um véo...

Numa soleira um cão errante
A tiritar,
Põe sobre o raro caminhante
Supplice olhar.

Em alta igreja um iriado
Vitral em cruz,
Mostra um Senhor-Crucificado
Feito de luz!

Nas casas brancas e silentes
Ha luz tambem,
Que, pela frincha dos batentes,
Á estrada vem!

E fóge para a noite escura
De um frio atroz,
Em melopéa suave e pura
Celeste voz!

— Em noite destas quem se atreve
Cantar assim?
E cáe a treva... E a fria neve
Cáe sem ter fim!

Num véo bem alvo a laranjeira
Mostra-se então,
Como donzella indo á primeira
Communhão.

Quem se aventura ao frio açoite?
Portas fechae:
Feia e tristonha veio a noite...
A neve cáe...

Num risonho quarto, côr do céo pintado,
Solitaria, borda linda costureira:
Suas mãos pequenas roçam no bordado,
Como as andorinhas tocam no arrufado
Lago, e vêm e voltam, d’agua á ribanceira!

Nunca tem nos labios desalento ou queixa,
E se chóra, cauta, as lagrymas estanca...
Seu pezar em breve ella esvaír-se deixa:
Borda, e quanto é bello ver-se-lhe a madeixa
Desatar-se negra sobre a renda branca!

Dentro desse quarto sempre ha primavera:
Flores na varanda de perfumes suaves,
Passaros cantando o que a saudade gera...
E é nesse scenario que a donzella espera
Seu amor, cercada de verbenas e aves.

Na parede, ao alto, está Nossa-Senhora,
Que na pobre moça um brando olhar descança:
Quer a noite venha, quer desponte a aurora,
No seu manto azul, sorri, consoladora,
Dando á desgraçada sonhos de esperança...

E com os olhos em alvo, aos clarões da lareira,
Para dar curso ao Idèal, que a fortalece e a encanta,
A linda costureira
Canta:

«— Em um palacio, illuminado
«Por uma aurora boreal,
«Claro e diaphano, cercado
«Pelo cortejo sideral,
«Talvez meu noivo inda enlevado
«Esteja em sonho emballador;
«Em vão o aguarda um peito anciado...
«Quando virás. ó meu amor?

«Talvez, no mar calmo e azulado,
«Em transparencias de crystal,
«Por uma ondina encarcerado
«Durma entre ramos de coral..
«Meu branco leito enregelado
«Em vão espera o seu calor...
«Beijar-me o collo desnudado
«Quando virás, ó meu amor?

«Talvez, num bosque ermo e encantado
«Ao som do côro matinal
«Das aves, junto ao nacarado
«Corpo de nympha esculptural,

«Sorrindo esteja sem cuidado
«Este por quem chóro de dôr...
«Abril passou manso e enflorado,
«Quando virás, ó meu amor?

«Tenho o cabello já nevado
«E as faces num mortal pallor,
«E ainda espero o retardado...
«Quando virás, ó meu amor?...»

Só, no seu quarto. É’meia noite. A vela
Váe se extinguir... No cerebro escaldado,
Na ancia do Bem-Fazer, todo o cuidado,
Em luta com o cançaço, apenas véla...

Talvez um Poeta. E que vizão é aquella?
— É a que elle formou: — Envenenado
Morre o alchimista pelo Ideal sonhado..
Silencio... a forja é fria... o catre gela.

Sobre um pantano putrído e nojento,
Boia um pennacho côr do firmamento...
Longe, um cavallo que desapparece...

Uma donzella num caixão descança:
Os cyrios ardem... ha rumor de prece...
— Ideal enganador, ai! quem te alcança?...