Historia das invenções (4ª edição)/XIV
Capítulo XIV
O Olho
— HOJE que é? perguntou Narizinho no dia seguinte, quando dona Benta se sentou para o serão cientifico.
— Hoje é o olho — o mais maravilhoso orgão de que dispomos. O olho é o orgão da vista, e o que é a vista não preciso explicar. Quem quiser saber, basta que feche os olhos por alguns segundos. Isso ensinará melhor do que um livro inteiro o que é e o que vale a vista.
Os meninos fecharam os olhos por alguns segundos.
— Que horror! exclamou Narizinho reabrindo os seus. Que horror a cegueira, vóvó!...
— E no entanto ha animais completamente cegos que se arrumam muito bem na vida, disse dona Benta. Mas possuem os outros sentidos apuradissimos, de modo que conseguem equilibrar a ausencia de olhos. Vamos ver o livro de capa preta.
Dona Benta correu os olhos pelo livro e falou:
— Van Loon começa dizendo que os homens vivem no fundo dum oceano de ar de tal profundidade que ninguem ainda conseguiu chegar á superficie. Durante certas horas do dia esse occano gasoso está iluminado pelos raios de sol. Está cheio de luz — a luz solar que nos permite ver. Por que? Porque pertencemos a uma especie animal dotada de olhos, isto é, de orgãos sensiveis á luz.
O mecanismo dos olhos é um misterio, meus filhos. Pura maravilha da natureza. Pois apesar disso um sabio ale- mão, especialista no conhecimento dos efeitos da luz, declarou que qualquer fabricante de aparelhos de otica se envergonharia se de suas oficinas saisse um orgão tão imperfeito como o olho humano.
— Como se chamava esse monstro, vóvó ? perguntou o menino, indignado.
— Helmholtz. E o interessante é que ele prova com muito bons argumentos que o olho humano podia ser infinitamente mais bem arranjado...
Os meninos danaram com o sabio alemão.
— O peludo, continuou dona Benta, aprendeu na pratica que com os dois olhos que tinha no rosto ele se garantia dos perigos, vendo os perigos. Notou que se fechasse os olhos estava liquidado e á mercê das feras atacantes. Tambem notou que logo que o sol desaparecia atrás dos morros, era o mesmo que ele fechar os olhos. A noite corresponde a olhos fechados. Porisso, para fugir aos perigos que ameaçam as criaturas de olhos fechados, logo que a noite sobrevinha o peludo corria a esconder-se nas cavernas.
Depois que aprendeu a acender fogo, observou que o fogo dava uma luzinha bem boa, capaz de tornar as noites menos perigosas. E veio o habito de iluminar com fogueiras as cavernas. Sentia-se assim mais garantido; as feras não se aproximavam; limitavam-se a rondar por perto, intrigadissimas com aquele misterio do fogo, que não compreendiam.
Começou então o aperfeiçoamento da arte de combater o escuro. Os peludos foram experimentando ora um, ora outro material combustivel até acertar com o oleo, que tem a propriedade de embeber uma mecha, dando uma fuz continua, isto é, que dura enquanto ha oleo. A banha dos animais foi a primeira substancia empregada.
Surgiu o archote. Se embebermos uma corda de fibra em oleo formaremos uma corda gordurosa, que se queima lentamente até o toquinho final. Os gregos usaram muito o archote. Nos poemas de Homero ha archotes em penca.
Veio depois um progresso. Em vez de embeber a corda no oleo, colocavam nele uma cordinha — mecha ou pavio, e obtinha-se luz melhor. Esse sistema de iluminação perdura até hoje. Só tem variado o oleo. Usou-se o de baleia. Vieram depois os oleos vegetais, como o da mamona, e por fim o oleo mineral, ou petroleo, que é o mais barato.
Por milhares de anos o homem iluminou suas noites assim, apesar da incomoda fumaça desprendida por tais lampadas. Um progresso grande foi a vela, em que o pavio se reduz ao minimo e fica dentro dum cilindro de materia queimante. A cera passou a ser usada, e até hoje a vemos nas igrejas os cirios. Apareceram depois as velas de espermacete, que é a massa que as baleias possuem na caixa craniana. Surgiu tambem a vela de sebo e finalmente as velas modernas de estearina, em que o espermacete e o sebo são substituidos por uma mistura graxa.
A luz das velas, porém, era muito fraquinha. Alem disso cara. O homem continuou a procurar melhores meios de produzir luz. Lembrou-se de queimar o gás do carvão de pedra.
Sabem como o gás entrou? Durante a Revolução Francesa os balões de ar quente tomaram um grande desenvolvimento na guerra, para observação dos acampamentos ou da marcha do inimigo. Um fisico francês teve a boa ideia de enche-los com gás em vez de ar quente. Usou o gás de carvão de pedra, que é tambem mais leve que o ar. Mas o gasometro que ele construiu tinha um rendimento maior que o necessario — e o tal fisico lembrou-se de canalizar para sua casa o gás que sobrava, empregando-o na iluminação.
O povo estranhou muito aquela "arte do diabo", mas, como outros começassem a imitar o fisico, o medo foi acabando. Por fim todas as casas que se prezavam e as ruas das cidades importantes acabaram iluminadas a gás.
Parece incrivel, mas a resistencia foi grande. As autoridades da cidade de Colonia, na Alemanha, condenaram a luz do gás como ofensiva á religião e ainda por cima antipatriotica...
— Por que?
— Ofensiva á religião, porque Deus havia criado o dia e a noite, e era heresia querer modificar isso. E antipatriotica, porque acostumava o povo com a luz durante a noite, desse modo impedindo-o de entusiasmar-se com a iluminação dos dias de festa nacional.
— Bem diz a senhora que a estupidez humana não tem limites, comentou Pedrinho.
— Pois é. Houve grande resistencia ao gás, o que não impediu que ele vencesse e se generalizasse. Todas as cidades de alguma importancia passaram a iluminar-se pelo novo processo. No Estado de São Paulo tivemos uma cidade do interior que por muitos anos se iluminou com o gás extraido do xisto betuminoso, abundante nas margens do rio Paraiba.
— Que cidade foi essa?
— Taubaté.
— E ainda o usa ?
— Não. Depois que a eletricidade entrou em campo, a iluminação a gás morreu completamente. Hoje, Taubaté e todas as cidades do mundo só usam a luz eletrica, muito mais economica, mais limpa, mais tudo.
Esse novo habito de ter luz de noite, entretanto, veio afetar os orgãos da vista. Quando a natureza fez os olhos não previu que o homem fosse a ponto de destruir as trevas noturnas em suas casas e cidades. Com a luz artificial começou o abuso de ler á noite, de trabalhar de noite, e os olhos se ressentiram. A vista enfraquecia mais depressa.
Toca a corrigir aquilo. Como? Inventando meios de aumentar o poder da vista enfraquecida.
— E vieram os oculos, adiantou Narizinho.
— Isso. Atribue-se a invenção dos oculos a Roger Bacon, um antigo sabio inglês. A moda pegou. Toda gente queria usar oculos, precisasse ou não, por achar bonito. Muitos os adotaram para se impingirem como estudiosos. "Estão vendo? Fiquei com a vista fraca de tanto ler".
Mas hoje o numero de pessoas que usam oculos porque de fato precisam é enorme. Entre os que lêem muito, o uso é quasi geral. Como tambem é geral entre os velhos. Os anos enfraquecem nossa vista, como aliás todos os outros sentidos. Eu, por exemplo, que nunca abusei dos meus olhos, já não posso ler sem estes vidros.
— Pois eu enxergo uma pulga no pelo da Grande Ursa lá no ceu, disse Emilia gabolamente.
Emilia vivia a proclamar o maravilhoso poder de visão dos seus olhinhos, deixando os meninos na duvida. Seria verdade ou peta? Impossivel verificar. Narizinho e Pedrinho enxergavam na perfeição, como em regra todas as criaturas ainda no começo da vida. Já Emilia enxergava mil vezes mais, segundo vivia dizendo...
— Mas a eletricidade, continuou dona Benta, alem de acabar com as trevas dentro de casa e nas ruas, veio aumentar muito o poder dos olhos humanos. Graças aos holofotes, que são luzes fortissimas que o homem projeta na direção que quer, conseguimos devassar os espaços, sobretudo na guerra. Um avião inimigo pode ser visto a enorme distancia, por mais escura que seja a noite.
A grande proeza dos olhos, porém, foi em relação ao ceu. A infinidade de estrelas que enchem o espaço á noite sempre impressionou vivamente a imaginação humana. Surgiram os astronomos, isto é, os homens que se dedicam aos estudos dos astros. Na Babilonia, no Egito, na Grecia, a ciencia do ceu alcançou grande desenvolvimento. Mas só usavam nesses estudos os olhos naturais.
— Ha olhos artificiais, então?
— Ha. Os instrumentos que dão grande poder aos olhos bem podem chamar-se olhos artificiais. Roger Bacon parece ter sido o primeiro a ter a ideia, mas foi na Holanda que os oculos de alcance apareceram. Povo de marujos, talvez a necessidade de ver ao longe os conduzisse a essa invenção.
A Holanda passou a fornecer oculos de alcance ou lunetas ao resto da Europa. Uma delas caiu na mão dum italiano de nome Galileu, que a estudou e transformou no telescopio, isto é, num poderosissimo oculo capaz de aproximar tremendamente os astros que brilham no ceu.
Estudando o ceu, Galileu viu que as ideias aceitas pelos "sabios oficiais" da epoca estavam erradas. Eles queriam que a Terra fosse o centro do universo e que o Sol lhe girasse em torno. Galileu provou o contrario — e por um triz não foi queimado vivo. Teve de comparecer perante os tribunais religiosos, que o obrigaram a desdizer-se.
De nada adiantou essa estupida violencia. A verdade estava com o sabio italiano e hoje ninguem se anima a dizer que a Terra é fixa.
Galileu, portanto, inventou o meio de dar aos olhos o poder de estudar o ceu e ver os astros invisiveis a olho nu. Hoje os telescopios estão aperfeiçoadissimos. São maquinas gigantescas de altissima potencia. A Lua no telescopio fica pertinho — a alguns quilometros apenas.
— Como é o telescopio ?
— Não passa da combinação dum certo numero de lentes, ou cristais com a propriedade de aumentar os objetos vistos através deles. Se esse instrumento aponta para o ceu, é telescopio engenhoca de ver longissimo. Se aponta para baixo, vira microscopio — instrumento de ver pertissimo todas as coisinhas invisiveis a olho nu. O telescopio só lida com as maiores coisas que existem — os astros. O microscopio lida com as menores como os microbios.
— Eu queria tanto ter um microscopio !... suspirou Pedrinho.
— Deixe. Quando o café subir, comprarei um. E’ na realidade um instrumento maravilhoso. Graças a ele o olho humano consegue devassar o que os sabios chamam o mundo do infinitamente pequeno. E da mesma forma que o telescopio se aperfeiçoa constantemente, o microscopio não faz outra coisa senão aumentar de poder, aumentando desse modo o poder do olho humano.
— Eu queria ter um telescopio, disse Narizinho. Deve scr lindo passar a noite a descobrir astros invisiveis aos olhos de todo mundo...
— Realmente. Se tivessemos aqui o famoso telescopio de Mount Wilson, nos Estados Unidos, o maior do mundo, com cem polegadas de diametro, vocês haviam de regalar-se. Esse tremendo olho artificial alcança astros á distancia de 300 milhões de anos-luz. Com ele os astronomos distinguem 100 milhões de vias-lacteas tão grandes como a que vemos a olho nu.
— Cem milhões, vóvó? Que colosso !... Universo é mesmo um absurdo de grande...
— Ah, minha filha! Nem queira pensar nisso. E’ tão grande o Universo, que uma só dessas cem milhões de vias-lacteas mostra oitenta milhões de vezes mais materia do que a que compõe o Sol.
— Puxa exclamou Pedrinho, arregalando os olhos.
— O numero de astros que o homem vê com o olho artificial é tambem oitenta milhões de vezes maior que o numero das nebulosas. E sabem qual é o numero das nebulosas conhecidas?
Dona Benta parou para tomar folego; depois disse:
— Quinhentos trilhões!...
— Nossa Senhora gritou a menina. Isso até dá tontura na gente, vóvó! Oitenta milhões de vezes quinhentos trilhões!...
Tia Nastacia entrou nesse momento com a peneira de pipocas.
— Está aí uma invenção de que a senhora não falou, disse Emilia, apontando para as pipocas. E é das boas, porque Narizinho já está lambendo os beiços.
— Lábios, aliás, emendou a menina. Beiço é de boi...
Dona Benta ainda falou de inumeras coisas inventadas pelos homens; depois discorreu sobre o muito que ainda era necessario inventar. A ideia do Mel Humano entrou em cena.
— Todas as nossas doenças, disse ela, vêm de erro de alimentação. Já conversamos sobre isto. O homem é o animal que não sabe comer. Daí as doenças. No dia em que inventarmos um alimento perfeito, como mel o é para as abelhas, nesse dia as farmacias começarão a fechar as portas.
Espantoso o homem, meus filhos! Mede a distancia entre os astros; pesa-os; descobre milhões de milhões de vias-lacteas; torna visivel o que é invisivel; fala dum continente para outro; voa com velocidades espantosas; faz prodigios sobre prodigios — mas não sabe comer. Come tudo quanto encontra, e ainda comete o crime de destruir com o fogo o que ha de melhor dos alimentos. Leite fervido, por exemplo, não é mais leite — é cadaver de leite. E todos nós sofremos as tremendas consequencias desses erros, num mundo em que todos os animaizinhos chamados inferiores são mestres na arte de comer. As abelhas, por exemplo. Não é maravilhoso como acertaram com a sua comida? Chegam a ponto de "fabricar" as suas rainhas com uma simples modificação do alimento comum.
— Como?
— Se querem criar uma rainha nova, limitam-se a modificar a alimentação duma larva qualquer. As abelhas sabem que o animal se faz pela boca. O homem tambem sabe disso, mas só o aplica aos animais que cria — aos cavalos, aos bois, ás aves domesticas. Quando se trata de si proprio, o homem falha lamentavelmente. Porisso, Pedrinho, não esqueça de realizar aquilo que prometeu: inventar o Mel Humano. Essa, sim, vai ser a maior das invenções.
— Fique descansada, vóvó, declarou o menino convencidamente. Juro que hei de resolver esse problema.
— E eu? perguntou Narizinho. Que hei de inventar?
— Invente uma maquina de costurar que não precise de linha nem de agulha, disse dona Benta, lembrando-se da tragedia que lhe era enfiar a agulha e da luta para achar o carretel. Com a nova mania de Pedrinho, de empinar papagaios, não havia carretel de linha que parasse na maquina de dona Benta.
— Pois eu hei de inventar coisa muito melhor que o Mel Humano, que o radio, que tudo! gritou Emilia.
Todos ficaram atentos, á espera da asneirinha.
— Vou inventar a maquina de fazer invenções. Bota-se a ideia dentro, vira-se a manivela e pronto — tem-se a invenção que se quer.
Quindim, que estava espiando pela janela, fez quó, quó, quó...
Campos do Jordão, setembro, 1935.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
