Historia das invenções (4ª edição)/X

CAPITULO X

O Pé que Voa: o Avião

 

NO dia seguinte dona Benta continuou a falar das invenções que vieram substituir o pé humano na função de caminhar. Antes disso referiu-se a inumeras invenções menores que nasceram das grandes, como os ramos nascem do tronco da arvore.

— O que ha de invençõezinhas numa locomotiva, nos carros que ela puxa e nos trilhos sobre os quais corre não tem conta. O apito da maquina; os sinais de aviso á beira da linha; os "jacarés" ou entrecruzamentos de trilhos; os freios pneumaticos que travam o trem com a força do ar comprimido; o carro-salão, o carro-restaurante, o carro-dormitorio... Se todas essas invenções fossem mencionadas dariam para encher um livro.

A mesma coisa nos navios. A invenção do leme, da ancora, da helice, da bussola... A bussola foi de tremendas consequencias, porque permite aos navegadores orientarem-se com a maior exatidão, qualquer que seja o estado do tempo. Antes da bussola eles só podiam guiar-se pelo sol ou pelas estrelas, o que os punha atrapalhados nos dias de ceu encoberto.

Por fim veio o navio a vapor, que resolveu da maneira mais completa o problema da navegação. O homem não ficava mais na dependencia do capricho do vento. Houvesse ou não vento, o navio caminhava do mesmo modo. Só então ele conseguiu dominar completamente o mar. Restava o ar. Dono já da terra e dos mares, o ar ainda não era dominio do homem. Tornava-se preciso conquista-lo.

— Que bichinho insaciavel! observou a menina. Não ha o que o contente...

— Justamente por isso o homem progride sempre. Sua ambição não tem limites. Mais, mais, mais! é o seu lema.

— Que ponto pretenderá atingir?

— Ninguem sabe. O homem avança para a frente movido por uma força misteriosa. Impossivel prever até onde o levará essa corrida louca. Impossivel tambem faze-lo parar. O progresso lembra uma pedra que se despenhou do alto da montanha. Tem velocidade cada vez maior.

— Mas a pedra que desce da montanha tem de parar um dia, observou o menino. Na base das montanhas ha sempre um vale, um abismo...

— Se você cochichar essa advertencia ao ouvido da pedra que rola, nem porisso ela se deterá. Assim tambem com o avanço do progresso. Seja vale, seja abismo o que ha pela frente (e nada podemos saber a esse respeito), sua marcha não pode ser detida por nenhum cochicho.

O ar, por exemplo. Durante milhões de anos o homem olhava para o ceu como algo inacessivel. Era o dominio das aguias. "Mas um dia resolveu voar. "Se as aguias voam, por que não hei de voȧr tambem, eu que sou mais inteligente que as aguias ?"

A vida das aves fazia inveja ao homem. Não se arrastam pelo chão em movimentos de lagarta, como nós. São donas dessa maravilhosa estrada de rodagem sem poeira, sem buracos, sem lameiros que se chama "camada atmosferica". E como podem com a maior facilidade transportar-se dum ponto para outro, estão livres dos horrores do extremo frio e do extremo calor. Se o inverno chega, emigram para as terras quentes; se o verão está muito forte, voam para as terras temperadas.

Ha seculos que o homem encasquetou a ideia de voar.

O papagaio de papel inventado na velha China mostra essa preocupação. Mas no papagaio ele apenas consegue fazer voar uma coisa construida por suas mãos; não consegue que essa coisa o leve pelos ares.

Entre querer e poder vai uma boa distancia. O grande italiano de nome Leonardo da Vinci, um dos maiores genios da humanidade, sonhou muito com isso e desenhou varios aparelhos voadores. Só tinham um defeito: voar apenas no papel. Faltava a Leonardo uma coisa: a energia mecanica de alta potencia para mover as asas dos seus aparelhos. Com a força muscular dos braços era impossivel. E naquele tempo as grandes invenções que aumentam o poder dos musculos do homem ainda não haviam aparecido.

Outra ideia surgiu mais tarde: fazer um balão que subisse com ar quente. O homem tinha notado que o ar quente é mais leve que o ar frio. Nas chaminés dos fogões vemos isso. O ar aquecido pelo fogo sobe pela chaminé.

A experiencia foi pela primeira vez tentada em Lisboa por um brasileiro, Bartolomeu de Gusmão. O seu balão chamava-se Passarola. Subiu até o beiral dum telhado, no qual bateu, escangalhando-se. Vaia, risadas, e depois perseguições da "gente de juizo" da epoca, sob pretexto de que ele era um doido.

Mais tarde um francês tentou igual experiencia e foi bem sucedido. Montgolfier, que era papeleiro, construiu um grande balão de papel e o fez subir com ar quente, pelo sistema que vocês usam com os balões do dia de São João.

Foi um acontecimento. Toda gente ficou de nariz para o ar, assombrada; e quando o balão caiu, aconteceu o mesmo que hoje quando os balões de vocês caem. Os camponeses perseguiram-no com seus gadanhos em punho para espeta-lo — para destruir o monstro aereo. Os moleques de hoje repetem o impulso instintivo daqueles camponios, quando um balão começa a descer, correm em bando em sua direção, só sossegando depois que o estraçalham.

Estava feita uma grande descoberta. Construindo-se um balão maior e de material mais resistente, era possivel levar pelos ares um homem. O caso foi resolvido.

Esses balões de ar quente, com uma barquinha pendurada de cordas onde o aeronauta podia acomodar-se, tinham varios defeitos. O principal: não ir para onde o homem queria. O vento o governava. Ora, balão que o vento governa pode ser muito bom para o vento; para nós não presta. E toca o homem a estudar meios de construir um balão governavel por quem vai na barquinha.

A primeira ideia ocorrida foi mudar a forma. Em vez de esferico ou de em formato de pera, adotaram a forma do charuto — mas isso muitos anos depois do balão do papeleiro francês.

Os sabios oficiais meteram-se no meio, para atrapalhar. Com todo o peso da sua ciencia garantida pelo governo e pelas academias, declararam absurdo isso de voar com direção. O mais que o homem podia fazer era voar para onde quisesse o vento. E na Academia de Ciencias de Paris provavam essa impossibilidade com mil argumentos.

O balão sobe porque é mais leve que o ar. E se se construisse um aparelho voador mais pesado que o ar? As aves são mais pesadas que o ar e voam. Essa ideia louca deu de bulir com a cabeça de muitos loucos. Os sabios oficiais, chamados a dar parecer, riram-se e provaram por a + b que era um disparate sem nome. E como os governos e o povo dão grande importancia á opinião deles, os experimentadores partidarios do "mais pesado que o ar" nunca tiveram o apoio de ninguem. Ficou assente que eram loucos varridos.

Mas tais loucos preferiram ficar com a sua loucura a ficar com o bom senso dos sabios oficiais. Insistiram. Experimentaram. Muitos morreram de desastre. — e cada vez que isso acontecia os sabios vinham para os jornais dizer: "Bem feito! Eu já não provei que um corpo mais pesado que o ar não voa?" E o povo repetia os dogmas dos grandes perús da ciencia oficial.

Um dia Santos Dumont voou para onde quis. Voou de verdade. Encheu dum gás mais leve que o ar um balão em forma de charuto; colocou no bico do charuto uma helice movida por um motor de gasolina — e voou. Mas voou mesmo, de verdade, dando volta em torno da celebre torre Eiffel em Paris e vindo pousar no ponto de partida.

Foi um assombro. Não contente com isso, voou mais tarde no seu aviãozinho "Demoiselle", que era mais pesado que o ar.

O povo, já esquecido das palavras dos perús, aclamou-o com delirio. O grande acontecimento daquele ano na Europa foram esses primeiros vôos de Santos Dumont.

— E os sabios oficiais, que fizeram ?

— Encolheram-se, de bico caladinho. Enfiaram-se nas tocas, desapontadissimos.

Tambem na America dois homens viviam a estudar o mesmo problema — os irmãos Wright; conseguiram voar, ou realizar o primeiro vôo um pouco antes de Santos Dumont. De modo que essa tremenda invenção surgiu quasi ao mesmo tempo na America e na Europa, sem que o inventor de lá conhecesse as experiencias dos de cá, e vice-versa. Isso sucede frequentemente. Quando uma invenção está madura, sua tendencia é brotar ao mesmo tempo em varios pontos.

— Por que estava madura a invenção do aeroplano?

— Porque a coisa dependia apenas do aperfeiçoamento dos motores de gasolina. No dia em que o homem dispusesse dum motor de pequeno peso e grande força, estaria na posse do elemento que faltou a Leonardo da Vinci. Ora, quando Santos Dumont e os Wright metcram mãos á obra, os motores de gasolina já estavam bem leves.

Desde então a arte de voar se foi aperfeiçoando com enorme rapidez. Inumeros pioneiros a ela se dedicaram. Um francês, Bleriot, construiu um aeroplano com que atravessou o canal da Mancha. Os ingleses assombraram-se. Viviam na sua ilha segurissimos de si, guardados pela mais poderosa esquadra do mundo. Só punha lá o pé quem eles quisessem — e quem entrasse pela porta da rua. Ora, Bleriot entrou sem pedir licença — e por cima da porta. Isso deixou os ingleses atordoados. "Se um homem entrou cá sem nossa licença, poderão entrar mil", foi como refletiram, vendo que a segurança da ilha, apesar de todo o poder da esquadra, já não era a mesma. E começaram a mudar de mentalidade. Começaram a aprender a voar.

A Grande Guerra veio confirmar aquele raciocinio. A famosa ilha já não era a antiga fortaleza inexpugnavel. Não podendo entrar por baixo, o inimigo entrava por cima. A cidade de Londres foi muitas vezes bombardeada pelos Zeppelins vindos da Alemanha.

— E quem inventou os Zeppelins?

— Foi o conde Zeppelin, um sabio alemão. Enquanto os franceses, ingleses e americanos se dedicavam de corpo e alma ao "mais pesado que o ar", o conde Zeppelin pôs-se a aperfeiçoar o "mais leve que o ar", que havia sido mais ou menos abandonado. E conseguiu maravilhas. Os Zeppelins de hoje fazem proezas extraordinarias. São monstros aereos feitos de aluminio, com capacidade para bastante carga e numerosos passageiros. Mas só os alemães sabem construir Zeppelins. As tentativas feitas pelos outros povos fracassaram. Hoje vemo-los flutuar no ceu em viagens tão regulares como as dos navios transatlanticos.

Viajar de Zeppelin constitue uma das maiores novidades. Outro dia visitou-me um escritor paulista de que gosto muito ― aquele que escreveu o "Professor Jeremias". Pois até ele já foi á Europa de Zeppelin; foi e voltou. Esse moço tinha fama de ceptico, isto é, de não acreditar em nada. Agora acredita no Zeppelin. Descreveu-me toda viagem com as maiores minucias. Que maravilha! A coisa é tão linda que, apesar de velha eu não desisto duma viajada pelos ares.

Os meninos bateram palmas. Que beleza se fossem todos num Zeppelin, em viagem ao redor do globo...

— Isso, vóvó! E havemos de ir o bando inteiro — até Quindim... Quando partimos?

— Talvez no dia de S. Nunca.

Os meninos ficaram de nariz comprido. Apesar disso Emilia foi arrumar sua malinha, ajudada pelo visconde.

— Sabe do que mais vou gostar nesse passeio de Zeppelin? perguntou aquele espirro de gente.

O embolorado sabugo cientifico fez cara de quem não sabia.

— De dar minhas cuspidinhas lá de cima... confessou Emilia.

 

 

Nota — Alguns anos depois sobreveio o horrivel desastre do Zeppelin "Hindenburg" no momento de chegar aos Estados Unidos. A catastrofe horrorizou o mundo e ninguem mais quis saber dos dirigiveis.

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.