Historia das invenções (4ª edição)/VIII
CAPITULO VIII
O Pé Humano
— ENTRE todos os membros do corpo o pobre pé sempre foi o burro de carga, o martir. Sempre em contacto com o chão, sofria os maiores horrores — topadas em pedras, espinhos, estrepes. E além da parte do corpo mais judiada, era a mais sobrecarregada de trabalho.
— Bem verdade isso, vóvó! exclamou a menina. Só ter de sustentar o peso do corpo a vida inteira...
— Sustentar o corpo e carrega-lo, fazendo-o mover-se dum lugar para outro. Se o pé humano escrevesse suas memorias, como está fazendo a Emilia, não haveria leitor que não chorasse. E nós sabemos disso melhor que os outros, porque moramos numa terra em que o pé ainda padece muito. O Brasil é um país onde ainda ha milhões de pés descalços, exatamente no estado de nudez do pé do peludo. Não tem conta aqui no sitio o numero de cortaduras de pés, que eu curei; de estrepes, que eu tirei; de topadas de arrancar unha, que eu tratei. Pobres pés! Feios, sujos, de sola grossissima, toda rachada, dedos cheios de cicatrizes... Como é triste o pé do brasileiro da roça, que nu nasce, nu vive e nu morre !...
— E vitimas do bicho, vóvó, acrescentou Pedrinho. Na casa do Quizumba, por causa daquele chiqueirinho de porcos que eles têm no quintal, os pés das crianças dão dó. E՚ bicho que não acaba mais — e cada "morango"...
— E notem que o pé do homem padeceu mais que o dos outros viventes. No começo eram quatro patas, mas como duas se libertaram, transformando-se em mãos, as duas restantes tiveram de duplicar de trabalho...
A primeira função do pé é sustentar o peso do corpo; a segunda é andar, ou levar o corpo daqui para ali. Esta é a peor, porque, andando, o trabalho se torna duplo. Tem ao mesmo tempo de sustentar o corpo e de carrega-lo.
Carregar o corpo, no tempo dos peludos, era horrivel, porque como havia numerosas feras perseguidoras o pé tinha constantemente de correr, isto é, de carregar o corpo depressa, sem olhar para o chão. Havia espinhos? Pedras pontudas? Estrepes? Peor para ele. O corpo não queria saber de nada. Só queria que os pés o levassem depressa, correndo com a maior velocidade possivel. E quando o corpo alcançava um refugio seguro, ai! ós pobres pés estavam em miseravel estado.
Viagens, emigrações para terras afastadas, correrias de defesa... Foi tanto o trabalho dos pés que o cerebro do peludo teve de vir em seu socorro — e começaram as invenções que poupam o trabalho do pé, aumentando-lhe a eficiencia. Uma das primeiras ideias foi "desapertar para a esquerda", como diz Pedrinho; foi aproveitar-se dos pés de outros animais de menos cerebro — e o peludo aprendeu a montar em cavalos. Até descobrir que o cavalo era cavalgavel, havia de levar bom tempo. Com certeza experimentou a animalada inteira. Este, não se deixava montar. Aquele, mordia. Aquele outro, pinoteava demais. Por fim deu com o cavalo, cuja docilidade é espantosa. E o peludo domesticou o cavalo, isto é, começou a cria-lo para desde pequeno fazer dele um carregador.
Isso acresceu enormemente o poder do peludo. Sendo animal de muita força, o cavalo o levava no lombo por toda parte, devagar ou rapidamente, poupando desse modo os pés do cavaleiro.
No começo o homem só se utilizava do cavalo para locomover-se. Depois que começou a juntar coisas em casa, a cultivar a terra e guardar cereais, pôs o cavalo a carregar essas coisas — e surgiu o animal de carga. Ainda hoje o homem não dispensa o seu velho escravo de quatro pés. Aqui no sitio temos as bestas da tropa, que nos trazem o café do cafezal para o terreiro e depois o conduzem para a estrada de ferro.
Mais tarde veio a ideia de fazer o cavalo puxar uma armação de osso sobre o gelo, lembrança que deve ter ocorrido num daqueles periodos glaciais que enregelaram a terra. O gelo, como vocês sabem, é lisissimo, de modo que um corpo duro escorrega sobre ele com a maior facilidade. Sobre tal armação os homens punham a carga a transportar. Nasceu assim o trenó, que ainda hoje é veiculo usado nos paises frios em que tudo se cobre de neve.
— Por que de osso e não de pau?
— A suposição dos sabios é que os primeiros trenós foram de osso por causa de abundancia de ossos que havia sobre o chão. Ainda hoje os esquimós fazem seus trenós com ossos de baleia.
Mas o primeiro trenó correu muito bem enquanto havia sobre a terra uma camada de gelo. Quando, ao fim do inverno o gelo se derreteu, o trenó engasgou. Por mais que o peludo batesse no cavalo, o veiculo não saía do lugar, por causa da irregularidade e aspereza do chão. Que fazer?
Eu imagino como não devia ter trabalhado a cabeça desse peludo! No primeiro momento irritou-se e deu no cavalo com um pau. Bateu no coitado até cansar o braço, convencido de que o animal não caminhava de birra. Nada adiantou a violencia. Ele então procurou ajudar o cavalo, empurrando o trenó — e verificou que a coisa parecia mesmo ter criado raizes. "Ahn!" havia de exclamar, coçando a gaforinha emaranhada, ao ver que a culpa não era do animal. Como resolveu o caso? Pensa que pensa, força daqui, força dali, com muito custo consegue que o veiculo se mova um bocado para a frente. Subito, o trenó desliza rapido por uns metros, para emperrar novamente. "Ué! Que aconteceu ?"
O peludo para, limpa com as costas da mão o suor da testa, examina o chão e afinal descobre que o veiculo tinha caminhado mais facilmente porque montara sobre um pedaço de pau roliço, casualmente por ali. Examina o rolete. Tem uma ideia. Coloca outra vez o rolete sob o trenó e toca o cavalo, e empurra — e com uma peludissima risada no rosto bestial verifica que a gigajoga de novo caminha com facilidade um ou dois metros. Mas o rolete, que ele pusera na frente, está atrás. O peludo, reflete. Seus olhos brilham de subito. Muda o rolete para frente. Repete a manobra — e outra vez o trenó avança com facilidade mais um ou dois metros.
Pronto ! Estava inventado o meio de fazer um trenó caminhar sobre o chão sem gelo...
Mas caminhava muito vagarosamente, exigindo a cada passinho que o rolete fosse mudado para a frente. Se houvesse um meio de deter o rolete sempre no mesmo ponto... O peludo pensa, pensa. Coça a gaforinha. Sorri. E se ele o segurasse de cada lado com um gancho de pau?... Experimenta. Dá certo. Os ganchos seguram o rolete sempre no mesmo ponto. Um grande problema fora resolvido.
Mesmo assim a tarefa de arrastar um trenó sobre o chão era muitissimo mais penosa do que sobre o gelo. Muito atrito do rolete nos ganchos e na terra. O peludo pensou pensou e ficou na mesma. Um dia, porém, um pedaço de sebo grudou-se por acaso num dos ganchos, e quando o trenó foi posto a caminho o peludo viu logo que daquele lado o rolete girava com maior facilidade. Imaginando que o sebo fosse alguma substancia magica, botou sebo tambem no outro gancho — e a lubrificação foi inventada. Aqueles rudes ganchos são os antepassados dos aperfeiçoadissimos mancais das nossas maquinas de hoje.
Os trenós ficaram desse modo um veiculo que tanto andava no gelo como no chão de terra. Quando o gelo vinha, era só tirar fora o rolete e arrancar os ganchos; terminado o inverno, bota de novo o rolete no trenó!
Um dia sobreveio um desastre de extraordinarias consequencias futuras. Um rolete, que durante o inverno fora posto de lado, perto do fogo, queimou-se no centro tomando a forma de um carretel tosco. Acabado o inverno, quando chegou o tempo de adaptar novamente o rolete ao trenó, o peludo ficou furiosissimo de ve-lo queimado e deformado daquela maneira. Com certeza deu uma tremenda surra na mulher culpada de que aquilo acontecesse. E como de pronto não achasse um pau roliço com que fazer novo rolete, botou no trenó aquele mesmo — e saiu bufando. Pouco adiante, porem sua raiva desfez-se em risada gostosa. Pois não era que com o raio do rolete queimado o trenó estava não somente mais macio, como muito mais rapido? A forma de carretel que o fogo casualmente dera ao rolete diminuia enormemente o atrito contra o chão.
Desde aí o peludo passou a só usar roletes queimados no centro — e isso até o dia em que um deles, mais audacioso, em vez de queimar o rolete deu-lhe a forma de carretel com o machado. Não era a magia do fogo que melhorava os roletes, era a forma com que ficavam.
E a coisa foi indo, o carretel foi se aperfeiçoando, até que a roda surgiu. A roda ! Que maravilha !
— Uf! exclamou Narizinho. Que roda comprida, vóvó! Quanto rodeio para chegar a uma coisa tão simples...
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
