Historia das invenções (4ª edição)/VII

CAPITULO VII

Ultimas Mãozadas

 

NO dia seguinte dona Benta continuou:

— Ontem, quando falei da invenção da maquina a vapor por aquele James Watt, deixei de mencionar alguns pioneiros que já vinham trabalhando nela com grande ardor. Um deles foi o francês Papin, que muito se impressionara com uma chaleira de agua a ferver. A tampa da chaleira dansava ao impulso do vapor e desse modo revelava a existencia de uma força aproveitavel. Outros foram os italianos Della Porta e Giovanni Branca, o marquês de Worcester, e um de nome Fiske, nos Estados Unidos. Este chegou a suicidar-se quando viu que não resolvia o problema.

As primeiras locomotivas a vapor aparecidas diante dos olhos do publico provocaram indignação. O povo, que ia ser tremendamente beneficiado com aquilo, só pensou numa coisa: destruir tais "artes do diabo", aqueles horrores que caminhavam por si mesmos, sem a ajuda dos musculos humanos ou da força dos animais.

— Interessante, vóvó, como a inteligencia dos homens é desigual. Nuns, tão grande que inventam coisas; noutros, tão pequena que se revoltam contra as invenções...

— Realmente, minha filha. A distancia entre a inteligencia dum Newton e a dum homem comum do povo é talvez maior que a distancia entre a inteligencia desse homem do povo e a de um boi de carro. Daí o sofrimento dos homens de alta inteligencia. Em regra não são compreendidos. Ainda hoje vemos isso a cada instante. Nos jornais aparecem artigos de pessoas que se julgam inteligentes pelo fato de serem bem falantes e bem escreventes, as quais culpam as maquinas de todos os males dos tempos modernos. Como cada maquina nova vem diminuir o numero dos operarios comuns, essas pessoas querem acabar com a Maquina. Esquecem-se que se a maquina nova diminuiu um certo numero de operarios comuns, isso apenas significa que libertou um certo numero de homens do trabalho que até então faziam e que de agora em diante passa a ser feito pela maquina.

Cada maquina que aparece liberta do trabalho penoso um punhado de escravos. No dia em que tivermos maquinas para tudo, e em tremendas proporções, nesse dia a humanidade inteira estará redimida do trabalho. Em vez de estafar-se no doloroso esforço muscular, o homem passará a dirigir as maquinas, como antigamente os feitores dirigiam os escravos. E teremos então o 13 de maio da Humanidade.

O serviço mais penoso que ha é o de cavar a terra. Aqui no sitio tenho uma turma de cinco homens que não fazem outra coisa; passam a vida a abrir valos, consertar caminhos, fazer buracos para moirões de cerca, etc. Trabalho duro, estupido, que os deixa no fim do dia exaustos e com dor de costas. Quando aparecer a maquina que faça todos esses serviços, eu deixo um deles dirigindo a maquina e dispenso Os outros.

Os inimigos da maquina não percebem que a minha maquina veio libertar os meus atuais cinco escravos, cavadores de terra. Um deles passou de escravo a feitor, ficando a dirigir, sem nenhum esforço, a maquina. Os outros foram despedidos. O inimigo da maquina só olha para a situação de momentaneo desarranjo de vida dos quatro despedidos. Não olha para a humanidade. Não percebe que a humanidade ficou beneficiada com a redenção de mais quatro escravos cavadores e com a supressão de mais quatro cansaços diarios e de quatro dores de costas vitalicias. Não vê nada disso. Só enxerga o momentaneo desarranjo daquelas quatro vidas.

Quando estavam construindo a primeira linha de tubos para a condução do petroleo, os inimigos da maquina enfureceram-se, e destruiram a obra, alegando que aquilo vinha deixar sem emprego milhares de carregadores de petroleo. Não percebiam que aquilo vinha apenas libertar milhares de criaturas do trabalho penoso de carregar o petroleo com a força dos musculos. O fato de momentaneamente serem dispensados do serviço centenas de carregadores não tem a minima importancia para a humanidade; tem importancia unicamente para os carregadores e só no momento, porque logo se arrumam em outros serviços.

O berreiro de hoje contra a maquina chega a ser grotęsco; porque a maquina é a forma concreta do que chamamos progresso, e progresso quer dizer caminhar para a frente. Ora, como nada pára no mundo, como tudo marcha — e marchar é caminhar para a frente e não para trás — havemos de ter cada vez mais maquinas. E os primeiros a se beneficiarem são justamente os que mais as condenam. Todos os artigos e livros contra a maquina são escritos em maquinas de escrever; compostos em linotipos, ou maquinas de compor; impressos em prelos, ou maquinas de imprimir; distribuidos por automoveis, ou maquinas de andar. O inimigo da maquina esquece que se ele tem o lazer necessario para escrever contra a maquina é unicamente porque já existem milhares de maquinas a serviço do homem — cada uma das quais foi a libertadora dum grande numero de inimigos da maquina.

Inteligencia, meus filhos, é compreensão, coisa mais rara do que se supõe. Inumeros homens parecem dotados de inteligencia; parecem apenas, como uma borboleta de papel parece borboleta, como a barulhada de certas bandas de musica da roça parece musica. Mas ficam no parece...

— Como eu pareço gente, disse Emilia.

Dona Benta riu-se.

— Você não parece gente, Emilia. Você já é na verdade uma gentinha — e das boas. Acho injustiça viverem a chamar você de asneirenta. Você não diz asneiras, não. Asneiras são essas acusações contra a maquina. Você o que é, é muito independente de ideias, muito corajosa. Diz sempre o que pensa, sem escolher ocasião ou palavras. Se certas pessoas condenam esse modo de falar sem papas na lingua, achando-o "improprio", é porque elas não passam de "bichos ensinados". Como lhes ensinaram que isto ou aquilo não se deve dizer, aceitam o mandamento como coisa infalivel e passam a vida a respeitar o que lhes ensinaram, sem nunca examinarem por si mesmas se o tal ensino tem ou não tem razão. Com você dá-se o contrario. Você é rebelde a tais imposições. Com essa cabecinha sua você vai pensando com uma liberdade que espanta a gente. Porisso andam todos curiosos por ler as tais "Memorias da Emilia", que não saem nunca. Como vão elas?

Emilia, toda ganjenta com o elogio, respondeu, rebolando-se:

— Vão indo bem, muito obrigada. Mas devagar. Meu secretario (o visconde) briga muito comigo e faz greves. Eu ordeno: "Escreva isto". Ele, que é um "sabugo ensinado", escandaliza-se. "Oh, isso não! E՚ improprio". E vem o "fecha" e o livro vai se atrasando...

— E que diz você nesse livro ?

— Digo o que me vem á cabeça. Vou dizendo o que quero, sem dar satisfação a ninguem, porque não sou "boneca ensinada..."

Dona Benta riu-se de novo e continuou:

— Pois é isso, meus filhos. Estamos vivendo num periodo muito interessante do mundo. A mão do homem adiantou-se demais neste nosso seculo, desenvolveu-se demais, multiplicou de tal modo a sua eficiencia que o cerebro ficou na bagagem, lá longe. Ha miolo já muito adiantado nos grandes homens, isto é, nos inventores, nos pioneiros e nos que compreendem; mas a massa geral do cerebro humano está hoje seculos atrás da mão. Van Loon diz que mecanicamente vivemos neste ano de 1935, mas espiritualmente, ainda muito perto dos peludos. E՚ que a mão pioneira veio correndo com a velocidade, suponhamos, de 100 quilometros por hora e o cerebro das massas caminha com velocidade de 10 apenas. Noventa e cinco por cento dos homens de hoje são peludos que andam de automovel e ouvem musicas pelo radio. Só isso explica horrores como a Grande Guerra. Nessa guerra, que é que o homem revelou ? O mesmo peludo que nos tempos antigos andava de machado de pedra em punho a partir o cranio dos semelhantes. O ato foi o mesmo. Só variaram os meios de realiza-lo.

Em vez dos tacapes, machados, flechas e lanças com que o peludo aumentava o poder agressivo das suas mãos, o homem moderno se estraçalhou durante quatro anos por meio de canhões, metralhadoras, gases venenosos, torpedos, bombas aereas, na maior matança da Historia.

E por muitos seculos as coisas ainda continuarão assim. A mão não cessa de aperfeiçoar-se com velocidade sempre maior, mas o progresso moral tem a lentidão das lesmas. Havemos de ter outras matanças ainda mais terriveis. A futura guerra mundial vai por num chinelo a de 1914, porque de 1914 para cá a mão tem feito progressos tremendos — e o progresso moral até parece que diminuiu a velocidade da sua marcha de lesma.

— Mas isso é um horror, vóvó!

— E que tem que seja horror? E՚ o que é. E՚ o que pode ser. E՚ o que tem de ser. E quanto mais horroroso for, melhor. O meio de dar velocidade ao cerebro das massas é cotuca-lo vivamente com o espeto de um grande horror. Lembre-se daqueles horriveis derrames de gelo dos periodos glaciais. Foi o melhor chicote para o cerebro do peludo. Aprendeu a pensar mais depressa. Progrediu. Os horrores da guerra moderna e das crises economicas causadas pela estupidez da mentalidade reinante, são verdadeiros periodos glaciais que hão de produzir os mesmos efeitos.

Mas os periodos glaciais eram catastrofes resultantes da natureza. Hoje a natureza está completamente dominada pela mão do homem. Contra o frio temos as mil coisas que a mão criou para nos abrigar. Contra a fome temos os transportes rapidos que levam os alimentos dum país para outro, por mais afastados que sejam. A Argentina pode alimentar com seu trigo uma cidade dos antipodas onde haja escassez de alimento. Em dias um vapor despejará nessa cidade o trigo argentino. Contra as pestes temos a higiene. Contra todas as calamidades naturais temos as defesas criadas pelas invenções.

Entretanto, contra as calamidades que o cerebro ainda atrasado desencadeia a mão nada pode fazer, porque o cerebro, como senhor dela que é, põe essa pobre escrava a serviço da sua estupidez e maldade.

— Qual o jeito, então?

— O jeito é tornarem-se essas calamidades tão grandes que o cerebro humano abra os olhos e veja — e compreenda, afinal !...

Mesmo assim a vida do homem de hoje não se compara com a vida do homem de outrora. Os beneficios das invenções já se estendem a quasi todos os habitantes do planeta. O mais humilde operario moderno goza de comodidades que seriam sonhos para os antigos reis. A escuridão, que era um dos pavores do peludo, está se acabando. Todas as casas iluminam-se á noite. Temos as ruas clareadas pelas lampadas eletricas — e nos paises mais adiantados até as estradas de rodagem são iluminadas á noite. O radio está ao alcance de todos...

— Como, ao alcance de todos, se só quem tem dinheiro pode comprar um radio?

— Mas não é preciso ter dinheiro para ouvi-lo. Sempre que o nosso apanha as musicas de Pittsburgh, as familias do Zé Pichorra, do Totó, do Quizumba — todas que moram e trabalham aqui no sitio — vêm sentar-se aqui no terreiro e ouvem-no tão bem quanto nós. Se o imperador Carlos Magno quisesse ouvir um concerto executado em outro continente, poderia?

— E՚ verdade, vóvó. E os camaradas aqui no sitio ainda tomam sorvetes nas tardes de calor, e recebem cartas pelo correio, e vão ao cinema aos domingos. O pobre Carlos Magno nunca viu sorvete, nem fita...

— Sim. Nas casas mais humildes encontramos sempre alguns dos tais produtos da invenção humana que tanto facilitam a vida. Aqui, por exemplo, na nossa, que é uma simples casa de sitio. Quanta comodidade as invenções nos trouxeram! Temos, alem desse maravilhoso radio, o lampião belga, a batedeira de ovos de tia Nastacia, as ferramentas de Pedrinho — as verrumas, a maquinazinha de furar ferro, o rebolo em que ele "desamola" as minhas tesouras; temos as tesouras; o ferro de abrir latas; a maquina de costura; a pena, a tinta e o papel por meio dos quais fixamos nosso pensamento e Emilia escreve as suas memorias; o facão da cozinha...

— Temos os livros !

— Sim, os livros onde os homens de imaginação e cultura fixaram suas ideias. Temos a Enciclopedia Britanica, onde toda a ciencia humana está concentrada. Temos os quadros das paredes — a arte. Temos a maquina fotografica de Pedrinho, que me obriga volta e meia a posar com cara de riso. Temos os jornais que o correio nos entrega todos os dias com as novidades do mundo inteiro.

— Temos o varal de roupa...

— Sim, temos esse fio de ferro chamado arame, recoberto duma camada de estanho para não enferrujar. Temos os pregos que Pedrinho prega...

— Temos o visconde, que é um sabugo cientifico...

— E temos finalmente a Emilia, concluiu dona Benta. O poderoso monarca que foi o pobre Carlos Magno, se ressuscitasse e entrasse aqui, havia de assombrar-se da nossa riqueza, ficando bobo diante do radio, do ferro de abrir latas, do jornal, da Emilia, de tudo...

Isso mostra que graças ás invenções a vida humana vai sempre ganhando em comodidades e facilidades. Somos riquissimos, se nos comparamos ao mais rico dos romanos. O que ha é que ainda não acertamos um meio de vida que faça as invenções beneficiarem a todas as criaturas igualmente.

E a maior das invenções humanas vai ser essa: um sistema social em que todos tenham de tudo.

Bem. Até aqui falamos das invenções que vieram aumentar o poder, o jeito, a astucia da mão humana. Vamos agora passar em revista as que aumentaram o poder do pé.

— O pé tambem, vóvó?

— Como não? O pé do homem igualmente se desenvolveu com tremenda velocidade, graças ás invenções que lhe aumentaram a eficiencia.

— De que jeito ?

— Ora, ora! Reflita um pouco. Para ir daqui á cidade, que fazia o peludo?

— Ia caminhando a pé.

— E que fazemos nós?

— Vamos de automovel.

— Pois aí está a resposta. O automovel foi uma das invenções que aumentaram a eficiencia do pé do homem. Permite que esse pé vá daqui á cidade — vinte quilometros — em quinze minutos e sem se cansar. Para fazer o mesmo trajeto o peludo tinha de dar quarenta mil passos, isto é, tinha de mover os musculos da perna e do pé quarenta mil vezes. Logo, o automovel foi uma invenção que aumentou tremendamente a eficiencia do pé humano.

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.