Historia das invenções (4ª edição)/VI

CAPITULO VI

Ainda a Mão

 

— TIVE um sonho horrivel, disse no dia seguinte Narizinho, logo que todos se reuniram em redor de dona Benta. Sonhei com uma infinidade de forcas com cadaveres pendurados, que o vento balançava...

— E eu sonhei com Tamerlão, aquele terrivel conquistador tartaro, ajuntou Pedrinho.

Dona Benta riu-se.

— Você, minha filha, sonhou com a Justiça Humana, e Pedrinho sonhou com o Heroi na forma em que a humanidade mais o venera e admira. Os cadaveres pendurados das forcas eram de pobres degenerados que pelo impulso irresistivel da sua degenerescencia furtaram ou mataram. Se tivessem saqueado um país inteiro, e matado milhões de criaturas, em vez de estarem nas forcas estariam na Gloria, babosamente admirados pelo mundo.

Mas deixemos de lado as filosofias tristes. Continuemos a ver o que tem saido da mão do homem. Já observei que uma das primeiras artes que a mão aprendeu foi esmagar coisas com o auxilio de pedras. Pois disto vieram grandes desenvolvimentos.

A vida do bicho-homem naqueles tempos era muito incerta. O fato de viver da caça punha-o na dependencia dos animais existentes numa certa zona. Se os animais escasseavam, sobrevinha a fome e muitos homens morriam. Daí o habito do nomadismo, isto é, de andarem sempre mudando de zonas. Mudavam de zona arrastados pela necessidade de encontrar caça facil. Mas aquele muda-muda tinha graves inconvenientes; os peludos não só esbarravam muitas vezes com inimigos novos, como ainda não podiam possuir nada, cabanas, utensilios, comodidades. Nas mudanças só levavam o estritamente indispensavel, abandonando muita coisa já produzida pelo trabalho. Ah! se encontrassem um meio de alimentação que substituisse a caça !...

Entre as plantas eles já haviam descoberto varias que produziam sementes alimenticias. Isso, porém, não bastava. As sementes vinham uma vez por ano e só nos lugares onde tais plantas cresciam á lei da natureza. Um peludo — talvez uma mulher — teve a lembrança de enterrar um punhado desses grãos — e a agricultura surgiu. Agricultura é isso: plantar num certo ponto certas plantas. O novo sistema veio melhorar grandemente as condições de vida dos peludos. Colhiam grãos em abundancia e guardavam-n՚os. Quando a caça se tornava rara, já não eram obrigados a morrer de fome ou emigrar.

Mas o grão das plantas colhidas era duro. Se o quebrassem, podiam come-lô com maior facilidade — e começou a moda de quebrar os grãos em pedacinhos. Para isso colocavam os grãos sobre uma pedra e batiam em cima com outra.

— Devia espirrar grãos de todos os lados! observou o menino.

— Sim, e semelhante inconveniente levou o homem a escolher pedras concavas; e para bater o grão escolheu pedras convexas. Nasceu daí o pilão — essa grande coisa, pois foi invento que contribuiu muito para melhorar as condições de vida dos peludos. Só tinha dois defeitos: exigir enorme esforço fisico e ser de fraco rendimento. Imagine a trabalheira para pilar os grãos necessarios aos estomagos de toda uma tribu ! As pobres mulheres (porque todo trabalho bruto era feito por elas) deviam nesse tempo levar o dia inteiro pilando, pilando, pilando.

A necessidade põe a lebre a caminho. Uma das mulheres lembrou-se de esmagar os grãos entre duas pedras chatas, girando uma sobre outra. O esforço exigido era menor e o rendimento, maior. Dessa ideia genial nasceu o moinho que ainda hoje usamos.

— Mas os moinhos de hoje são movidos a agua, advertiu o menino.

— Perfeitamente. Podem ser movidos por meio da agua, da eletricidade, do vento ou dos animais. O principio, entretanto, é o mesmo. Sempre duas pedras planas entre as quais os grãos se trituram. No começo eram movidas exclusivamente á força de braços. Ainda no tempo dos romanos a moda consistia em escravizar homens na guerra para pô-los o dia inteiro movendo as pedras dos moinhos. Por fim, mesmo lá entre os romanos, nasceu a ideia de aproveitar a força da agua para substituir o musculo dos escravos.

Esse imenso progresso permitiu que o moinho de agua se espalhasse pelo mundo inteiro. Possuia um defeito: só ser possivel nas terras montanhosas onde as aguas têm sempre queda. Nas planicies não podia ser usado. Como fazer ? Surgiu a ideia de aproveitar outra força da natureza – o vento. E o moinho de vento apareceu.

— Aquele que Dom Quixote tomou por um gigante ?

— Esse mesmo. Armado de grandes asas, como as ventoinhas, trabalhava de graça, silenciosamente, sempre que havia vento, prestando serviços inestimaveis. O moinho de agua, entretanto, é o preferido, porque não falha nunca, não para. O de vento está sujeito a paradas, por ocasião das calmarias.

— Mas a agua tambem para, observou Pedrinho. No Ceará a agua acaba durante as secas.

— Em alguns pontos do mundo isso acontece. Mas no geral as aguas correm sempre, sempre, sempre. Com maior volume na estação chuvosa, com menor volume durante o inverno — mas correm sempre.

Hoje é a Holanda o país que mais aproveita a força do vento. Aquilo lá não passa duma planura chata como mesa de bilhar, sem florestas que produzam lenha, sem quedas d՚agua que produzam força, sem carvão ou petroleo. A unica fonte de energia natural é o vento — e os holandeses souberam aproveita-la maravilhosamente. Não ha vista da Holanda em que não apareçam os seus famosos moinhos de grandes asas. Empregam-n՚os para tudo — para serrar madeira, para moer trigo, para descascar arroz, para produzir eletricidade, para irrigar as terras de cultura, para esvaziar diques.

Por muito tempo as duas fontes de energia mecanica que o homem encontrou, capazes de substituir a energia dos musculos, foram a agua e o vento. O vento, com o defeito da irregularidade — ora mais forte, ora mais fraco, ora nenhum. A agua, com o defeito de estar localizada num certo ponto. Eu, por exemplo, tenho aqui otimas aguas para mover quantas maquinas queira; já o compadre Teodorico vive se queixando de falta d՚agua. Era preciso aparecer uma nova fonte de energia sem esses inconvenientes — e apareceu o carvão de pedra.

— Por que dizem carvão de pedra? E՚ de pedra mesmo?

— Não. Apenas madeira fossil, isto é, que ficou soterrada muitos milhões de anos. Dizemos de pedra porque tem a aparencia da pedra, e tambem para distingui-lo do carvão de madeira. Em muitos pontos do globo esse carvão mostrava-se em veios á flor da terra. Os romanos deram-lhe o nome de carbo, donde vieram as palavras carbono e carvão. Os gregos chamavam-lhe anthrax, donde veio a palavra antracite, que designa uma qualidade de carvão. Os antigos povos do centro da Europa chamavam-lhe kol, donde surgiu a palavra inglesa coal, que é como lá chamam ao carvão.

— Mas por que o carvão produz energia?

— Espere. Houve tempo em que em muitas zonas da terra a quantidade de arvores era imensa, por causa da muita umidade do clima. Isso ha milhões de anos. Depois, nos grandes terremotos que houve, imensas florestas foram soterradas e a madeira se transformou no tal carvão fossil. Para queimar, os gregos e romanos aproveitavam o carvão encontrado à flor da terra. Era pouco. Foi acabando. Começou-se então a escavar o chão para extrair o que estava mais profundo. Sobretudo na Inglaterra, cujo subsolo era todo ele um imenso bloco de carvão. Mas quando os buracos chegavam a certa profundidade...

— Já sei, disse Pedrinho. Aparecia agua. Aqui no sitio, um buraco de cinco metros já dá agua.

— Isso mesmo. O aparecimento de agua nas primitivas minas de carvão veio atrapalhar o homem. Ele teve de inventar a bomba. A bomba é um instrumento para elevar até á superficie a agua que se acumula nos buracos. Mas a bomba precisa ser movida, e onde a força para mover tantas bombas, dia e noite? Primeiro usaram a força dos musculos do homem e dos animais. Ficava muito caro. Tão caro que a tirada do carvão começou a não compensar. Tornou-se preciso descobrir força mais barata para mover as bombas. E toca o homem a escarafunchar o cerebro.

— Essa é que é a verdadeira mina, vóvó, observou Narizinho. Sempre que o homem fica atrapalhado, cavoca o cerebro e tira uma ideia.

— Foi o que aconteceu no caso do carvão. Atrapalhados com a agua das minas, os ingleses começaram a estudar. Leram na Historia que os antigos da cidade de Alexandria tinham inventado uma maquina de fogo que trabalhava melhor que os escravos. Mas com a destruição do Imperio Romano essa maquina se perdeu. Ninguem sabia como era, nem em que principio se baseava. Só sabiam que fora inventada. Privados de qualquer informação, tornou-se necessario inventa-la de novo.

Aqui entram em cena duas forças contrarias. Dum lado, a inercia da grande maioria dos homens, que são como as arvores, os peixes, os animaizinhos caseiros. Não querem mudanças, têm medo das novidades e combatem-nas, chamando loucos aos que pensam de modo contrario. Se sempre vencesse a ideia dessa gente inerte, o mundo jamais mudaria em coisa nenhuma. Do outro lado estão os pioneiros, isto é, os homens de ideias, amigos das novidades, os que inventam, os que criam coisas novas. O pioneiro é sempre combatido pela carneirada inerte, difamado, insultado, perseguido. Mas quando vence e realiza a sua invenção, a carneirada inteira corre a aproveitar-se dela.

Os pioneiros ingleses, que procuravam inventar a maquina que substituisse o musculo, a queda d՚agua e o vento, não descansavam. Dia e noite pensavam naquilo, estudando, experimentando, consumindo a vida numa luta sem treguas. O problema era aproveitar a força do vapor d՚agua. Queimando o carvão, obtinha-se calor. O calor evaporava a agua. O vapor d՚agua era uma força. Como, porém, escravizar essa força? Como faze-la mover as rodas duma maquina?

Entre os numerosos pioneiros empenhados nisso houve um que venceu: James Watt. Inventou um sistema de pistões que iam e vinham movidos pelo vapor, e nesse ir e vir movimentavam uma roda.

Pronto ! Estava criada a maquina a vapor que iria revolucionar o mundo, libertando o pobre musculo do homem e dos animais de certos trabalhos pesadissimos. Já as bombas de esgotar a agua das minas podiam trabalhar dia e noite a um custo baratissimo; o calor necessario para produzir o vapor dessas bombas era produzido pelo proprio carvão das minas. O problema ficou maravilhosamente bem solucionado.

— Surgiu então a grande Inglaterra, o país da maquina a vapor. Como possuisse ferro e carvão em abundancia, construiu maquinas inumeras, para tudo navios, locomotivas, locomoveis, tecedeiras, teares — e em poucos anos tornou-se a rainha dos mares e das terras. O imenso Imperio Britanico, que tem hoje 500 milhões de habitantes, foi formado á custa do ferro e do carvão transformados em maquina e energia.

Mas o carvão começou logo a mostrar os seus inconvenientes. Muito sujo. Borrava de preto a paisagem. Encardia os homens. Negrejava as casas. Não ha nada mais triste que uma região mineira, isto é, uma região onde o principal trabalho dos homens consiste em extrair carvão do fundo da terra. Alem disso, como o carvão fosse ficando cada vez mais fundo, os operarios das minas iam se degradando. Já não eram homens — eram minhocas de pernas. Sua vida tornava-se uma noite permanente. Subiam á superficie á noitinha é na manhã seguinte desciam antes de romper o sol. Não viam mais o sol. Não tomavam sol. Começaram a virar toupeiras — e aos milhares.

Alem desses ainda havia outros inconvenientes. O carvão requeria muito transporte e, como estivesse ficando cada vez mais fundo, ia logicamente encarecendo. E vinham greves dos mineiros, e lutas e desesperos. Era necessario inventar coisa melhor. Começaram então a aparecer o petroleo e a eletricidade.

O petroleo é como um carvão liquido. O fato de ser liquido tem vantagens imensas. Sobe lá do fundo da terra por si mesmo ou por meio da sucção das bombas. Não tem que ser carregado. Depois de chegar á superficie, segue por dentro de canos para as refinarias, como se fosse agua. E tem muito maior valor que o carvão, porque produz mais calor. E é muito mais limpo. E pode ser levado em latas para todos os pontos do globo. Uma lata de gasolina, por exemplo, que é? E՚ uma certa quantidade de força enlatada. Remetida para qualquer ponto da terra, o homem solta-a no ponto em que precisa produzir força ― e ela então se transforma em energia mecanica para mover os automoveis, os tratores, as maquinas de qualquer especie.

— Mas gasolina é petroleo ?

— Não. Petroleo é o oleo bruto como sai da terra. Nas refinarias é refinado, isto é, transformado em varios produtos de mais valor, como a benzina, a. gasolina, o querosene, o oleo combustivel usados nos motores Diesel, o oleo lubrificante que serve para engraxar os eixos das maquinas; em flit, que serve para matar mosquitos; em piche e asfalto, que servem para o calçamento das ruas; e em mais 300 produtos de menor importancia.

— Trezentos, vóvó ? Que colosso ! Mas então o petroleo é realmente uma substancia maravilhosa...

— E porisso a luta entre os povos modernos gira sempre em torno dele. Guerras tremendas já foram causadas pela disputa dos terrenos petroliferos. A Guerra do Chaco, por exemplo, na qual morreram 70.000 homens, não teve outra origem.

Mas ao lado do petroleo vai crescendo a forma ideal de produzir energia — a eletricidade. Isso é que é a maravilha das maravilhas.

— Como se produz a eletricidade? Ou, melhor, que é eletricidade?

— Não sabemos, meu filho. E՚ uma força que anda no ar e que o homem conseguiu tornar sua escrava. Desde os tempos mais antigos já era conhecida. Aquele Tales de Mileto, de que falamos na Geografia, observou que, esfregando com uma lã um pedaço de ambar, esse ambar ficava carregado duma força que atraia pequenos corpos. Era a eletricidade. O esfregamento de certos corpos, ou a fricção, concentra essa força num certo ponto, tornando-a aproveitavel. Era preciso inventar a maquina esfregadora — e o sabio inglês Faraday inventou o Dinamo.

— Que é?

— Uma roda que gira de modo a produzir muita fricção e que portanto produz muita eletricidade. Para mover o dinamo temos de usar uma força mecanica qualquer, a força do vapor ou a força da agua. O dinamo o que faz é transformar essa força mecanica em força eletrica.

— Qual a vantagem?

— Grande. A força eletrica não é aplicada unicamente no ponto onde é produzida, como a força do vapor.. Pode ser enviada para muito longe, a centenas de quilometros. Vai por um fio de cobre, invisivel, quietinha, limpinha, sem sujar coisa nenhuma, sem cheiro, sem sabor, sem nada.

— Sem nada, não. Tem faiscas. Se a gente mexe nela de mau jeito, Nossa Senhora! Fica danadinha e espirra fogo.

— Sim, ela quer andar sempre em ordem, dentro dos seus fios. Não tem culpa de que os desastrados a irritem. Respeitando-lhes as leis, fazemos dela a mais humilde e prestimosa das escravas, tanto para mover as locomotivas enormes como as nossas maquinas de costura e batedeiras de ovos. Mas, desrespeitando suas leis, ah, ela reage da maneira mais violenta, fulminando as criaturas, incendiando as casas...

Nesse ponto dona Benta foi interrompida pela entrada de tia Nastacia.

— Que é isso hoje? resmungou a negra. Nove e meia já e tudo ainda acordado, a conversar bobagens...

Dona Benta olhou para o relogio. Eram de fato nove e meia.

— Você tem razão. Para a cama, todos! Amanhã acabaremos com a Mão do homem.

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.