Historia das invenções (4ª edição)/V

CAPITULO V

Mais Mão

 

— ONTEM vimos, continuou dona Benta, varias invenções que aumentam o poder da mão do homem. Falamos da draga, engenhoso meio de levar a mão do homem ao fundo das aguas. Falamos do guindaste, meio de dar á mão força capaz de erguer até locomotivas. Vimos as armas, meios de fazer as mãos alcançarem o inimigo ou a caça ao longe. Hoje vamos ver outras maravilhas que sairam do precioso membro desenvolvido na extremidade do braço do homem.

— Realmente, vóvó, disse Pedrinho. Esta noite perdi o sono e estive pensando em varias mãozices. Quando a gente quer apanhar uma laranja lá do alto, pega duma vara e aumenta o alcance da mão. Para tomar banho, para coçar as costas, para arrancar espinhos, para fazer um desenho...

— Para tirar ouro do nariz, acrescentou Emilia.

— ...para tudo, tudo, tudo, é a mão. Realmente, a mão é a maravilha das maravilhas, concluiu o menino, lançando um olhar terrivel á boneca.

— E ainda ha mais coisas que sairam das mãos, disse dona Benta. Pensem nisto: quando vocês querem beber agua duma fonte, que fazem?

— Apanhamos a agua na cova da mão.

— E se querem juntar areia ou tirar um bocado de arroz do saco ?

— A mesma coisa. Juntamos as duas mãos em cuia e pronto — podemos tirar uma mãozada que vale meio litro.

— Perfeitamente. A ideia da vasilha de guardar coisas solidas ou liquidas veio desse emprego das mãos em forma de cuia, ou dessas mãozadas, como diz Pedrinho. O homem começou tirando coisas com a mão e guardando-as na mão. Mas esse guardar era temporario, porque a mão não podia ficar parada toda a vida com as coisas dentro. Veio então a ideia de fazer mãos artificiais em forma de cuia — e surgiram todas as vasilhas de guardar coisas — pratos, bacias, peneiras, gamelas, panelas; e depois, caixas, gavetas, malas, canastras, armarios, etc. Estamos de tal modo acostumados ás vasilhas que não lhes prestamos a menor atenção, embora sem elas fosse impossivel vivermos neste mundo. Ha necessidade de guardar coisas para o dia de amanhã, e onde guardar senão em vasilhas? Imaginem uma casa sem vasilhas. Não poderiamos tirar o leite das vacas, por não termos onde pô-lo. Não podiamos ter agua de beber ou de lavagem, pela mesma razão. Não podiamos nada. Só o vasilhame, cuja variedade não tem fim, é que torna possivel a nossa vida. Não ha povo selvagem, por mais primitivo que seja, que não use vasilhas. Ora, a vasilha não passa da evolução da mão em forma de cuia...

— Está aí uma coisa que eu nunca seria capaz de imaginar, observou Narizinho, olhando para suas mãos postas em forma de cuia.

— Nem é capaz de imaginar qual foi a primeira vasilha que o homem usou...

— ?

— Foi o cranio dos mortos.

— Que horror, vóvó! exclamou a menina fazendo cara de nojo. Como isso?

— Muito simplesmente. Durante milhares de anos os mortos eram deixados sobre a superficie da terra, como sucede com os animais. Sendo o habito de enterrar os mortos relativamente recente, a abundancia de esqueletos espalhados pela superficie da terra foi se tornando cada vez maior. Ora, cada cranio era uma vasilha natural de primeira ordem, já prontinha e feita duma substancia de grande duração. A ideia de aproveita-los veio logo — e nas cavernas e cabanas dos tempos primitivos passaram a abundar cranios, como hoje em nossas casas abundam xicaras, copos e latas. Tornou-se comum esse habito a ponto de entrar nas religiões do norte da Europa; os deuses nordicos usavam os cranios dos inimigos como taças para vinho. Matar um inimigo para fazer do seu cranio uma taça virou a ambição de todos os jovens guerreiros.

— Que porcaria exclamou a menina.

— Esse sentimento de repugnancia que você demonstra, minha filha, é moderno. Para nossos antepassados, nada mais natural. Quanta menina do nariz arrebitado daquela epoca não tomou seu leite em cranios, sem fazer a menor careta ?

— E depois dos cranios?

— A suposição dos sabios é que depois do cranio os homens começaram a usar cestos, isto é, vasilhas feitas com as varas flexiveis de certas plantas. Como o vime fosse abundante nas margens dos rios e lagos, houve um genio peludo que um dia, pela primeira vez, teceu com ele uma desajeitadissima cesta. E nasceu a arte do cesteiro, porque quem faz um cesto faz um cento, diz o ditado. O progresso foi grande. Usando o vime, o homem podia ter vasilhas muito maiores que os cranios, e do formato que quisesse.

Depois o cesto começou a evoluir. Outro genio teve a ideia de forra-lo de couro — e nasceu, entre outras coisas, o bote de couro. Fazendo a armação de vime e revestindo-a, tornavam os botes impermeaveis. Tambem tiveram a ideia de tecer com vime escudos que os defendessem das pedras flechas dos inimigos. Um escudo de vime bem forrado de couro era defesa de muito valor — e tanto, que persistiu até á descoberta da polvora. Só desapareceu depois que as armas de fogo vieram torna-lo inteiramente inutil.

Outra modificação importantissima introduzida nos cestos foi revesti-los por dentro com uma camada de barro. Ficavam proprios para muitos mais empregos do que os cestos simples, cheios de vãos. Mas não serviam para guardar liquidos — o liquido derretia o barro. O acaso veio resolver o problema. O acaso tem sido o pai de tantas invenções que se eu fosse dona do mundo mandava erguer-lhe um monumento.

Certo dia incendiou-se uma cabana onde havia varios cestos revestidos de barro. Quando tudo ficou reduzido a cinzas, o dono veio examinar os escombros; viu que só tinham escapado á destruição os tais cestos. Mas com espanto notou que as chamas haviam devorado o vime exterior, deixando intacto o barro interno. E notou tambem que esse barro havia mudado. Estava duro como pedra, não se derretendo com a agua.

Foi maravilhosa a descoberta. O homem aprendeu que o barro cozido ao fogo muda de propriedades. Torna-se durissimo e impermeavel. E assim nasceu a Ceramica.

— Sempre pensei que ceramica fosse a arte da cera, disse Pedrinho.

— Não. Em grego, a argila ou barro tem o nome de keramos; é desta palavra que vem a palavra ceramica. Com o aparecimento da ceramica os cestos perderam metade da importancia. Ficaram apenas para guardar coisas secas; para guardar coisas liquidas entrou em cena a vasilha de barro cozido.

— E como se fazem as vasilhas de barro ?

— No começo o homem amassava a argila e ajeitava-a com as mãos. Depois veio a ideia de colocar a bolota de argila amassada sobre um disco horizontal. Dando-se movimento giratorio ao disco, a bola de barro vira sobre si mesma e torna-se então facilimo fazer uma vasilha bem redondinha e do formato que se deseja. Os nossos utensilios de barro, moringas, potes, panelas, pichorras, alguidares e o mais são até hoje feitos assim. No começo o homem girava com a mão esquerda o disco, enquanto com a direita ia conformando a argila. Depois introduziu uma novidade que ainda perdura: virar a roda com o pé, num movimento de balança, como o do pedal das maquinas de costura; desse modo ficava com as duas mãos livres para o trabalho da modelagem.

Depois de modeladas, as vasilhas são postas a cozer num fogo bem forte. Ficam endurecidas e impermeaveis. Mas não bem impermeaveis. Muito lentamente a agua vai atravessando os poros do barro. Uma invenção surgiu para suprimir esse inconveniente: o vidramento. Reparem que as nossas panelas são vidradas por dentro.

Eu suponho que o primeiro poteiro, o tal descobridor casual da arte de cozer a argila, quando tratou de reproduzir novamente o fenomeno fez outra cabana, encheu-a de vasilhas de vime e barro, e deitou fogo a tudo. Havia de imaginar que para conseguir aquele efeito era necessario repetir as coisas exatinho como da primeira vez...

— Que asno! exclamou a menina.

— Não, minha filha. Esse termo não se aplica a um dos maiores inventores que existiram, embora sua invenção fosse obra do acaso, como tantas. O cerebro daqueles nossos avós não tinha as qualidades do nosso, e nada mais logico que desejando reproduzir um mesmo fenomeno repetissem fielmente todas as condições anteriores. Talvez fosse um segundo genio quem descobriu não ser necessario queimar uma cabana para cozer as cestas de barro. Tudo se faz passo a passo, no caminho do progresso.

Mas a arte da ceramica desenvolveu-se grandemente em vista dos serviços que as vasilhas de barro prestavam. Os chineses ergueram-na a um estupendo grau de perfeição. Descobriram novos barros de grã muito fina, como o caulim, e criaram a arte maravilhosa das porcelanas. Em vez de vasos simples, ornavam-n՚os com desenhos, tornando-se inexcediveis nisso. Todos os grandes museus do mundo possuem uma sala destinada unicamente ás porcelanas chinesas — e os visitantes são obrigados a nela se demorarem mais que em muitas outras, tais as maravilhas que têm diante dos olhos.

Os fenicios, aquele povo de mercadores que viveu nas costas do Mediterraneo, foram os espalhadores dos produtos ceramicos. Não se dedicavam á arte de fazer vasilhas, mas mobilizavam as vasilhas que outros povos modelavam. Compravam-nas dos oleiros para revende-las por toda parte, de modo que em breve não houve casa, de qualquer país, em que o vasilhame não fosse de argila.

Veio depois o vidro, outra grande invenção, ou, melhor, uma descoberta feita igualmente por acaso. Dizem os cronistas gregos e romanos que o seu autor foi um mercador fenicio que atravessava o deserto da Siria. Havendo acampado em certo ponto, fez fogo para preparar o jantar. Mas fez fogo na areia, em cima duns blocos de pedra, ou duma substancia esbranquiçada que ele julgou ser pedra e não passava de blocos de potassa ou soda. Ao levantar acampamento na manhã seguinte, com assombro verificou que entre as cinzas brilhava uma substancia desconhecida, dura, quebradiça, transparente. Era o vidro !

— Então vidro é potassa derretida ?

— O vidro é uma substancia amorfa, isto é, sem forma definida, que resulta do derretimento da areia misturada com potassa ou soda e um pouco de cal. Tem a propriedade, enquanto está muito quente, de ser moldavel, isto é, de tomar a forma que a gente lhe quer dar. De modo que com o vidro ainda em estado pastoso podemos fazer objetos e vasilhas de mil formatos diferentes. E soprando por canudinho dentro duma bola dessa massa, a bola estufa, ficando oca por dentro. Assim fabricamos as garrafas e garrafões.

— Que engraçado !

— Pois o vidro foi um sucesso tremendo. O tal mercador levou consigo a maravilhosa substancia achada nas cinzas e vendeu-a aos pedacinhos, como pedras preciosas. Nasceu daí a industria das contas de vidro, que dura até hoje. Não ha na roça cabocla faceira que não tenha ao pescoço um colar de contas, ou missanga, como se diz.

A Fenicia era vizinha do Egito, de modo que a arte do vidro logo invadiu o Egito, onde muito se aperfeiçoou. Os fabricantes não tinham mãos a medir no fabrico de colares, pulseiras e berloques de todos os tipos. Em Roma o vidro fez furor. O luxo da epoca passou a ser o uso de vasilhame de vidro em vez de barro. O vasilhame de barro ficou para os pobres. O rico só usava o vidro. Vieram aperfeiçoamentos. Foi introduzida a cor. Artistas de talento inventaram formas harmoniosas — e com isso a vida humana se embelezou. Mais tarde, na republica de Veneza, a arte do vidro atingiu grande perfeição. Não ha museu que não mostre com orgulho os famosos vidros de Veneza.

E tudo vinha da mão ! Arte de tecer vimes, arte de ceramica, arte do vidro — tudo aperfeiçoamentos da mão em forma de cuia ! Mas a mão não serve apenas para guardar. Serve tambem para tirar coisas dum lugar e por noutro — e tambem surgiram aperfeiçoamentos maravilhosos da mão que tira daqui e põe ali.

Vieram as "cegonhas", ou maquinas de tirar agua dos poços para o serviço da casa ou da irrigação das terras. Inumeros campos improprios para a agricultura, por muito secos, foram aproveitados. Irrigando-os, os homens tornavam-n՚os otimos — e para irriga-los havia as cegonhas. Que é a cegonha? E՚ o desenvolvimento da mão numa fonte.

Depois vieram as bicas e aquedutos, por meio dos quais os homens passaram a conduzir agua dum ponto para outro. Isso foi de grande vantagem para as cidades, pois lhes permitiam ter agua pura para beber, trazida das montanhas. Antes deles os homens tinham de trazer a agua em vasilhas. Entre nós, na roça, e mesmo nos bairros pobres das cidades pequenas, ainda ha o uso de carregar agua em potes ou latas de querosene. Por isso todas as velhas cidades possuem chafarizes publicos.

Outro aperfeiçoamento da mão, ou outras invenções para substitui-la, sabem quais foram? As taramelas, as fechaduras, as trancas de porta e os trincos.

— Como isso, vóvó? Não estou entendendo...

— Pense um pouco. Depois que o homem aprendeu a ter cabana, surgiu um problema. Na cabana ele guardava suas coisas — coisas sempre cobiçadas pelos vizinhos. Era preciso fechar a porta de modo que os vizinhos não entrassem quando ele estivesse fora. Para fechar a porta utilizava-se da mão, e para mante-la fechada tinha de ficar com a mão ali, encostando-a. Mas se assim procedesse teria de permanecer feito estatua, preso dentro de casa. Que fazer ? A necessidade põe o cerebro a caminho. O homem pensou, pensou e inventou os fechos de porta. Primeiro, os fechos internos — taramelas, trancas e trincos. Depois, o fecho externo — a fechadura de chave. Deu um jeito de, do lado de fora, mover as trancas de dentro — e lá se ia com a chave no bolso.

Hoje as fechaduras, apesar de aperfeiçoadissimas, seguem o mesmo principio. E՚ uma trancazinha de ferro que a gente faz mover de fora por meio da chave. Antigamente as chaves eram enormes. Pareciam martelos. Hoje são minusculas e chatinhas. Um homem pode sair levando no bolṣo todas as chaves da casa. Um que quisesse fazer isso antigamente precisava alugar um carrinho... Em casa do meu avô lembro-me de uma que teria palmo e meio de comprimento e pesaria um quilo... Que é uma chave ?

— Eu sei, vóvó gritou Pedrinho, tapando a boca da menina que tambem queria falar. E՚ um dedo mecanico que entra por um buraco e vai mover um ferrolho lá dentro.

— Está certo. Como o dedo natural do homem não podia fazer isso, ele inventou esse prolongamento, ou desenvolvimento do dedo, graças ao qual mantem sua casa livre da visita dos amigos do alheio. Quem quiser entrar em casa fechada tem de arrombar a porta, o que é dificil e perigoso.

E mil coisas mais sairam das mãos. Coisas boas e más, porque a mão não tem coração. E՚ uma escravazinha que obedece. Faz o que mandam. Daí as coisas inventadas para pô-la a serviço do mal. Os ladrões inventaram gazuas e pés de cabra. Os guerreiros matadores de gente inventaram armas, isto é, meios de dar um terrivel poder ofensivo ás suas mãos — as facas de ponta, os punhais, as lanças, baionetas, as espadas. Por meio dessas invenções a mão do homem tem suprimido milhões de vidas humanas nas guerras. E na paz os assassinos têm suprimido milhares.

E ha as invenções para apanhar animais destinados á alimentação. Anzois de pescar peixes, fisgas, arpões de espetar baleias. Redes de pesca, armadilhas, ratoeiras...

— Redes de pesca, vóvó?

— Sim. Que é uma rede senão a mão do homem sob forma de malha que coa a agua para apanhar os peixes? Se numa agua rasinha e empoçada queremos apanhar os guarús ali presos, a primeira ideia que nos vem é correr a mão pela poça, com os dedos levemente entreabertos de modo que a agua se escoe e os peixinhos fiquem. Pois a rede de pesca não passa do desenvolvimento desse artificio.

A ratoeira, que é senão a mão que fica engatilhada até que o bobo do ratinho se ponha ao alcance dela, atraido pela isca? De repente, nhoc? a mão fecha-se e o ratinho está preso. Reproduza esse artificio numa maquinazinha feita de arame e eis a ratoeira — e todas as mais armadilhas.

O laço de laçar cavalos e bois bravos, que é senão a mão projetada ao longe por meio duma corda?. Uma das faculdades da mão é agarrar. O laço agarra. E a mão agarra para dois fins: para simplesmente pegar ou para estrangular. A mão que agarra uma galinha pelo pescoço, um coelho ou qualquer outro animal e o estrangula, tambem teve larga aplicação para estrangular criaturas humanas. A forca não passa disso. A forca é mão de corda que agarra um pobre diabo pelo pescoço e o dependura no espaço até que a vida o abandone.

— Que horror a forca, vóvó! exclamou a menina, que nem podia ouvir essa palavra.

— Realmente. E no entanto até hoje, e em paises dos mais adiantados, esse cruel meio de dar morte às criaturas ainda subsiste. Na antiguidade os romanos usavam-no muito. Os gregos não. Eram artistas até nesse ponto. Se queriam condenar alguem á morte, usavam o veneno, como fizeram com Socrates. Muito mais decente. Já os romanos usaram grandemente da forca; e depois dos romanos, quando a Europa caiu naquele tetrico periodo da Idade Media, os homens inventaram meios de matar cem vezes mais crueis. Inventaram os suplicios da Inquisição e da Justiça Publica, coisa que ainda arrepia a gente. A crueldade chegou a tal ponto que a forca foi reabilitada. Só eram enforcadas as pessoas importantes, dignas de consideração. Os outros...

— Pare, vóvó! gritou a menina. Não toque nisso que me faz mal...

Dona Benta mudou de assunto. Passou a falar das armas de arremesso. Contou das maquinas que projetavam grandes pedras contra o inimigo. Falou do arco.

— Está aqui uma invenção notavel, disse ela. No arco o homem aproveita a força que vem da elasticidade de certas madeiras. Se você encurva uma vara, ela tende a voltar á posição primitiva logo que deixa de ser contrariada. O aproveitamento dessa elasticidade permitiu ao homem arrojar projeteis a grande distancia. O arco devia ter começado como bodoque, isto é, como lançador de pedras. Depois o homem verificou que lançando pedras a pontaria não era segura, e inventou a flecha, que lhe permite melhor pontaria. Certas tribus selvagens ficaram amestradas no lançamento de flechas a ponto de os seus atiradores rivalizarem com os nossos modernos mestres da carabina.

O homem sempre viveu em guerra, de modo que as invenções para melhorar a "mão que mata" foram inumeras. Mas sempre que aparecia uma invenção nova surgia tambem um novo meio de defesa. Você lança flechas, não é? Pois vou armar-me de um escudo. E՚ como hoje a luta entre o canhão e a couraça dos navios. Quanto mais cresce o poder ofensivo dos canhões, mais cresce o poder defensivo das couraças.

Por muitos milhares de anos o unico meio que o homem tinha de arremessar coisas contra o inimigo foi a multiplicação da força dos seus musculos. Com o arco ele somava a força dos musculos com a elasticidade da madeira e lançava uma flecha a 200 metros de distancia, coisa impossivel com os musculos apenas. Mas era pouco. Tornava-se necessario inventar uma força maior que a elasticidade da madeira. E essa invenção veio e revolucionou o mundo: a polvora.

Os chineses, e depois um frade alemão de nome Schwartz, ou quem quer que seja, observou que a mistura do enxofre, do carvão moido e do salitre tinha a propriedade de explodir com grande violencia. Quer dizer que quando se punha fogo a essa mistura ocorria uma reação quimica que a transformava subitamente em gás.

— Como?

— Sim. De substancia solida que é, a mistura passa subitamente á forma de gás. A rapidez dessa passagem dum estado para outro lança o gás violentamente em todas as direções. Ora, se a gente fechar a explosão num canudo de modo que o gás só possa sair por uma das extremidades, a força dele se canalizará numa certa direção e com enorme violencia. E se pusermos um corpo solido tapando a extremidade do canudo, a força do gás fará que esse corpo seja expulso dali com grande velocidade, para lhe abrir caminho. Esse corpo solido é a bala. De modo que nas armas de fogo o que lança a bala não é mais a elasticidade da madeira, como no arco, e sim a furia do gás que quer fugir de dentro do canudo.

Pronto! O homem havia inventado a arma de maior poder destruidor possivel. Surgiu a espingarda, a carabina, o morteiro, o canhão, a metralhadora. O canhão é uma carabina de cano muito grosso, que atira balas enormes. Apenas um aumento da carabina. A metralhadora é a mesma carabina com maior velocidade de tiros. Em vez de a mão do homem carrega-la com polvora e bala para cada tiro, os tiros já vêm arrumadinhos dentro dos cartuchos, e os cartuchos vêm enfileirados numa fita, ás centenas. A fita encartuchada corre por dentro dum mecanismo, que outra coisa não faz senão ir explodindo aqueles cartuchos com a maior rapidez, um atrás do outro.

Depois vieram as armas modernas do ar e do mar. Veio o torpedo, em que o explosivo está acondicionado dentro dum charuto de ferro que caminha na agua movido por um maquinismo. Apontam-no e soltam-no em direção do navio inimigo e ele lá vai caminhando por si mesmo até bater no alvo. Explode, então, abrindo enorme rombo no casco do pobre navio.

E vieram as bombas dos aviões, que são torpedos verticais, sem mecanismos propulsores. A força que os leva contra o alvo é o proprio peso, ou a força da gravidade.

Mas chega de armas de guerra. Amanhã continuaremos a passar em revista as outras invenções com que o homem aumentou a poder das mãos — mas invenções beneficas, construtivas, e não horrendamente destruidoras como as armas de guerra.

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.