Historia das invenções (4ª edição)/Introdução

Dona benta costumava receber livros novos, de ciencia, de arte, de literatura. Era o tipo da velhinha novidadeira. Bem dizia o compadre Teodorico: "Dona Benta parece velha mas não é, tem o espirito mais moço que o de muitas jovens de vinte anos".

Assim foi que naquele bolorento mês de fevereiro, em que era impossivel botar o nariz fora de casa, de tanto que chovia, resolveu contar aos meninos um dos ultimos livros chegados.

— Tenho aqui um livro de Hendrik Van Loon, disse ela, um sabio americano, autor de coisas muito interessantes. Ele sai dos caminhos por onde todo mundo anda e fala das ciencias dum modo que tudo vira romance, de tão atrativo. Já li para vocês a geografia que ele escreveu e agora vou ler este ultimo livro — Historia das Invenções do Homem, o Fazedor de Milagres.

Era um livro grosso, de capa preta, cheio de desenhos feitos pelo proprio autor. Desenhos não muito bons, mas que serviam para acentuar suas ideias.

— E quando começa? quis saber Narizinho.

— Hoje mesmo, no serão. Podemos começar logo depois do radio.

Já havia lá no sitio um radio de ondas curtas, que pegava as irradiações de numerosas estações estrangeiras, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Russia, e "depois do radio" queria dizer depois das sete horas, porque das seis ás sete nunca deixavam de apanhar a irradiação de Pittsburgh, que é uma das estações estrangeiras de maior força.

Terminada naquele dia a hora de Pittsburgh, todos se reuniram em redor de dona Benta, ainda com os ouvidos cheios das musicas e falações americanas.

— Comece, vóvó! disse Pedrinho.

E dona Benta começou.

— Este livro não é para crianças, disse ela; mas se eu o ler do meu modo, vocês entenderão tudo. Não tenham receio de me interromperem com perguntas, sempre que houver qualquer coisa obscura. Aqui está o prefacio...

— Que é prefacio? perguntou Emilia.

— São palavras explicativas que certos autores põem no começo do livro para esclarecer os leitores sobre as suas intenções. O prefacio pode ser escrito pelo proprio autor ou por outra pessoa qualquer. Neste prefacio o senhor Van Loon diz que antigamente tudo era muito simples...

— Tudo o que? interrompeu Pedrinho.

— A explicação das coisas do mundo. A Terra formava o centro do Universo. O ceu era uma abobada de cristal azul onde á noite os anjos abriam buraquinhos para espiar. Esses buraquinhos formavam as estrelas. Tudo muito simples.

Mas depois as coisas se complicaram. Um sabio da Polonia, de nome Nicolau Copernico, publicou um livro no qual provava que a terra não era fixa, pois girava em redor do sol, e as estrelas não eram brinquedinhos dos anjos, sim sois imensos, em redor dos quais giravam milhões de terras como a nossa.

Isso veio causar uma grande trapalhada nas ideias assentes, isto é, nas ideias que estavam na cabeça de todo mundo — e por um triz não queimaram vivo a esse homem. Afinal a sua ideia venceu e hoje ninguem pensa de outra maneira.

A astronomia, que é a ciencia que estuda os astros, tomou um grande desenvolvimento. Os astronomos foram descobrindo coisas e mais coisas, chegando á perfeição de medir a distancia dum astro a outro, e pesar a massa desses astros. As distancias entre os astros eram tão grandes que as nossas medidas comuns se tornaram insuficientes. Foi preciso criar medidas novas — medidas astronomicas.

— Por que? perguntou Narizinho. Com o quilometro a gente pode medir qualquer distancia. E՚ só ir botando zeros e mais zeros.

— Parece, minha filha. As distancias entre os astros são tamanhas que para medi-las com quilometros seria necessario usar carroçadas de zeros, de maneira que não haveria papel que chegasse. E então os astronomos inventaram o "metro astronomico", ou a "unidade astronomica", que é como eles dizem. Essa unidade, esse metro, tinha 92.900.000 milhas.

— Que colosso, vóvó! Eu acho que fizeram um metro grande demais...

— Pois está muito enganada, minha filha. As distancias entre a Terra e as novas estrelas, que com os modernos telescopios foram sendo descobertas, acabaram deixando essa medida pequena. E então o astronomo Michelson propôs outra medida: o ano-luz.

— Que historia é essa?

— Michelson verificou que a luz caminha com a velocidade de 299.820 quilometros por segundo. Multiplicou esse numero por 60 para obter a velocidade da luz num minuto, ou um minuto-luz. Depois multiplicou isso por 60 para obter a velocidade da luz numa hora, ou uma hora-luz. Depois multiplicou isso por 24 para obter um dia-luz, e finalmente multiplicou o dia-luz por 365 para obter o tal ano-luz.

— E que obteve?

— Obteve 9.455.123.520.000 quilometros. Quer dizer que num ano um raio de luz caminha a distancia de 9 trilhões, 455 bilhões, 123 milhões, 520 mil quilometros.

— Puxa! exclamou Pedrinho. Até dá tontura na gente...

— Pois é isso. Os astronomos tiveram de criar esse monstruoso metro para medir a distancia entre os astros; e, por imenso que seja tal metro, mesmo assim eles têm que recorrer aos zeros para a medição de certas distancias. Já se conhecem astros á distancia de trinta mil anos-luz de nossa Terra, imaginem !

— Caspite !

— Pois bem, isto que os astronomos fizeram para os astros, outros homens de ciencia fizeram para o contrario dos astros, isto é, para as moleculas e atomos, que são coisinhas infinitamente pequenas. Chegaram a medir atomos que têm o tamanhinho de uma trilionesima parte de milimetro.

— Será possivel ? Um milimetro já é uma isca que a gente mal percebe...

— Imagine agora o que é um milimetro dividido em um trilhão de partes iguais! Isto serve para mostrar até onde vai o homem com a sua ciencia. Mede a distancia entre a terra e um astro que está a trinta mil anos-luz daqui; e mede uma particula de materia que tem 1/1.000.000.000.000 de milimetro. Ora, neste livro o senhor Van Loon trata de mostrar como esse bichinho homem, que já foi peludo e andava de quatro, chegou a desenvolver seu cerebro a ponto de medir a distancia entre os astros e a calcular o tamanho dos atomos.

— Como foi isso?

— Inventando coisas. O homem é um grande inventor de coisas, e a historia do homem na Terra não passa da historia das suas invenções com todas as consequencias que elas trouxeram para a vida humana. E՚ mais ou menos isto o que Van Loon diz neste prefacio. Vamos agora ver o capitulo numero um.

— Depois da pipoca vóvó! gritou Narizinho farejando o ar.

— De fato, da cozinha entrou para a sala o cheiro das pipocas que tia Nastacia estava rebentando. Pipoca á noite foi coisa que nunca faltou no sitio de dona Benta.

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.