Historia das invenções (4ª edição)/IX
CAPITULO IX
O Pé que Roda: a Roda
— MINHA filha, respondeu dona Benta, o rodeio que dei para chegar á Roda foi bem menor que o caminho seguido pelo homem para inventar essa coisa que parece tão simples. Eu resumi o caso, fazendo que o mesmo peludo que descobriu o rolete fosse o descobridor das vantagens do rolete queimado em forma de carretel. Mas é provavel que muitos seculos se passassem para chegar do rolete ao carretel. E quantos mais, para cortar o carretel ao meio fazendo dele duas rodas? Ou para ter a ideia de enfiar nessas rodas um eixo?
Mas a Roda afinal surgiu, sem que os peludos pudessem sonhar as consequencias infinitas de tal invenção. Se possuimos hoje milhares de maquinas para tudo, devemo-lo á alavanca e á roda. Entre numa fabrica de tecido. Que vê você lá dentro? Rodas e mais rodas, de todos os tamanhos, de todos os tipos, lisas ou com dentes, inteiriças ou de raios. São essas rodas que distribuem a força, isto é, que movem todas as incontaveis maquinas de que se compõe uma fabrica.
— Já vi uma fabrica de tecidos, vóvó, disse Pedrinho. A gente tonteia lá dentro. Tudo move, tudo gira. Uma trapalhada...
— Parece trapalhada, meu filho, mas a ordem é perfeita. Dum lado está a Casa da Força, onde fica a maquina geradora do vapor, composta da fornalha, onde se faz fogo e da caldeira, onde fica a agua que o fogo evapora. O vapor d՚agua possue o que se chama força de expansão; quer dizer que ao ser produzido alarga-se, procurando ocupar um espaço muito maior que o ocupado pela agua. Essa tendencia constitue a força que o homem aproveita.
Saindo da caldeira o vapor penetra num cano onde está o pistão. Sabem o que é pistão?
— E՚ uma pista grande, respondeu Emilia.
— E՚ um tampão, uma especie de rolha de aço colocada dentro do cano; não está pregado nele — está apenas bem ajustado e bem engraxado, de modo que pode ir e vir. Quando um jacto de vapor entra pelo cano, o pistão é tocado para a frente até o ponto em que uma abertura deixa escapar o vapor; nesse ponto o pistão para. A manobra repete-se do outro lado. Entra novo jacto de vapor, empurra para trás o pistão que parou e tambem escapa pela abertura. E assim fica o pistão a ir e vir dum lado para outro, ora empurrado pelo jacto de vapor de cá, ora empurrado pelo jacto de vapor de lá.
— Verdadeiro jogo do empurra, disse Pedrinho.
— Bem. Temos aqui o principal. Temos a força do vapor fazendo o pistão ir e vir sem parar. Foi essa a grande coisa que James Watt inventou. A força expansiva do vapor transforma-se num movimento de vaivem. Resta agora transmitir esse movimento a uma roda, o que se consegue por meio duma haste que liga o pistão a um ponto da roda afastado do centro. Tudo muito bem calculado, de modo que, quando o pistão vai para diante, a roda tambem vai para a frente impelida pela haste, dando meia volta; quando o pistão vem para trás, a roda é puxada pela haste e dá outra meia volta. Meia volta com mais meia volta forma uma volta inteira — e aí está a roda a rodar. E enquanto o vai-vem do pistão não para, a roda tambem não para de girar.
A Casa da Força é isso. E՚ a produção do vapor para o movimento duma roda principal. Essa roda principal move, por meio de correia, outra roda colocada fora da Casa da Força, já no grande salão onde se acham as maquinas de lidar com os fios a tecer. Em geral ha nesse salão, dum extremo a outro, um grande eixo perto do forro. Numa das extremidades do eixo fica uma roda ligada pela correia á roda mestra da Casa da Força. E pelo eixo afora ficam numerosas outras rodas, maiores ou menores, cada uma delas com uma correia que desce e vai virar a roda mestra da maquina que está em baixo. O vapor move o pistão: o pistão move a roda grande; a roda grande move a roda mestra do salão; esta roda mestra faz o eixo virar; o eixo virando, tambem viram todas as demais rodas a ele ligadas; estas rodas virando, tambem viram todas as rodinhas de todas as maquinas distribuidas pelo salão. E pronto: aquele maquinário complicadissimo, cheio de alavancas e ferros engenhosos que se mexem de todos os jeitos, de todos os lados, com todas as velocidades, entra a mover-se com a maior harmonia, executando o trabalho que o homem quer. Uma, desembaraça as fibras do algodão bruto. Outra, torce esse algodão em fios; outra, enrola os fios em carreteis. Outra, tece os morins, os algodõezinhos, as toalhas felpudas. Outra dá um banho de goma no morim. Outra corta o tecido de tantos em tantos metros para formar as peças. Outra passa-o a ferro para que fique bem lisinho. Outra dobra-o em peças. Outra gruda as etiquetas.
O homem apenas dirige aquela infinidade de escravas de ferro, que não se cansam, não dormem e só se alimentam de oleo lubrificante. Ah, isso elas não dispensam. Se dum momento para outro todo o oleo lubrificante do mundo desaparecesse, imediatamente todas as fabricas, trens, automoveis, aviões, navios — tudo que é maquina parava. Nesse ponto são exigentissimas.
— Pois olhe, vóvó, disse Pedrinho, quando visitei a tal fabrica fiquei tonto e não entendi nada. Agora, tudo me está claro como o dia. Hei de voltar lá de novo.
— E՚ que quando a visitou ainda não sabia ler o que estava escrito naquelas rodas e eixos e correias. Agora você já conhece o alfabeto da lingua mecanica. Assim tambem com os livros.
Para tia Nastacia um livro não passa duma porção de folhas de papel. Mas para quem sabe ler, um livro é um mundo de ideias. Quando voltar á fabrica de tecidos você vai ler nela como lê num livro — e ha de maravilhar-se.
Antes de haver grandes fabricas o sistema era outro. Os operarios não trabalhavam reunidos. Os patrões lhes forneciam o material e lhes alugavam a ferramenta — e eles que trabalhassem em suas casas. Os inconvenientes do sistema fizeram que surgissem as fabricas, isto é, grandes casarões onde os operarios se juntam para o trabalho em comum. Com o aparecimento da maquina a vapor e da eletricidade, todos os serviços pesados passaram para o lombo das maquinas. O operario apenas as dirige, fazendo-as andar ou parar, lubrificando os mancais, consertando o que se desarranja, etc.
Tudo isso, porem, graças ao vapor que produz a força, e graças á roda e á alavanca que distribuem essa força de mil modos diferentes, conforme. as necessidades do trabalho. Lá vemos uma força enorme que ergue pesos, que corta ferro, que serra madeira; aqui vemos forcinhas delicadissimas que lidam mimosamente com o mais fino fio de seda. Não existe serviço, por delicado que seja, que a maquina não faça — e o faz sempre do mesmo jeito, sempre igualzinho. Não erra.
Numa fabrica de relogios, por exemplo. E՚ admiravel a precisão com que a maquina fabrica todas as rodinhas e engrenagens quasi microscopicas dum minusculo relogio de pulseira — todas absolutamente iguais. Com a mão seria impossivel.
— Mas a maquina não é mão?
— E՚ a mão do homem mecanizada, aperfeiçoada. Na maquina de costurar, por exemplo. A lançadeira combina-se com a agulha que sobe e desce de modo que os pontos saiam absolutamente iguais. Que mão de carne seria capaz de fazer isso — e com aquela velocidade?
A natureza deu ao homem a Mão, que é uma perfeita maravilha. O cerebro deu á Mão a eficiencia mecanica, que é mil vezes mais maravilhosa ainda.
Mas estou me afastando do assunto de hoje. O assunto é o pé, não a munheca. Estavamos na roda, não é assim?
— Estavamos no carretel tostado ao fogo, que virou duas rodas, advertiu a menina.
— Isso mesmo. A roda começou assim, tosca, brutissima, pesadona — um mostrengo. Mas começou, e isso é tudo. O que começa não para mais. Segue aperfeiçoando-se até o infinito.
A roda começou permitindo a multiplicação da força do pé. Sem aquele rolete que o fogo queimou não teriamos os Fords e os aviões.
— Que tem o avião com a roda?
— Tem tudo. E՚ movido por meio duma helice, que não passa duma roda com pás dum certo jeito. Entre as varias filhas da roda está a helice.
Mas a roda não se generalizou nos tempos antigos como está generalizada hoje. Houve povos que a ignoraram. As populações primitivas da America, por exemplo, desconheceram-na completamente. Quando os primeiros colonizadores introduziram aqui os veiculos de roda, o espanto dos indios foi grande.
A roda, ou antes, o veiculo de rodas exige uma superficie lisa em que possa rodar; isto é, exige boa estrada. Ora, isso de estrada boa é coisa que só existe em certos paises, de maneira que ainda hoje em muitos pontos do mundo ha menos veiculos de roda do que veiculos de quatro pés: o burro que leva carga ao lombo.
Os dois grandes veiculos dos paises sem boas estradas são a "tropa" e o "carro de boi".
O carro de boi tem a propriedade de dispensar estradas. Não ha por onde não passe. Sobe morros, atravessa lameiros horríveis, onde atola até aos eixos. Duma lentidão extrema e duma capacidade de transporte minima; no entanto, segurissimo. Chega sempre ao seu destino.
As rodas do carro de boi são rodizios maciços, forma ainda conservada por causa dos atoleiros. Se em vez de maciças fossem de raios, como as de carroça, ficariam presas na lama. Em cada carro encangam-se ás vezes até vinte juntas de boi — e lá vai pela estrada afora aquela animalada imensa, aquela procissão de bois puxando um carrinho que não transporta mais de 600, 700 quilos. Um caminhão automovel carrega toneladas. Em materia de rapidez o carro de boi mal ganha das lesmas. Caminhada de duas leguas por dia já é boa. Um auto-caminhão vence duas leguas em 15 minutos, e com carga cinco vezes maior.
Os egipcios, os romanos, os gregos, os babilonios, todos os povos da antiguidade civilizada tinham carros aos quais davam grande importancia. Quando queriam representar a imagem dum deus punham-no de pé num carro de duas rodas. Era coisa nobre, distinta. E deviam ser relativamente raros, porque em materia de estradas só os romanos se mostraram inteligentes. Foram os criadores das estradas bem feitas, pavimentadas, com otimas pontes de pedra.
— A senhora falou em ponte. E՚ invenção da mão ou do pé? perguntou Pedrinho.
— Do pé, está claro. Que é uma ponte?
— Ponte? Ponte é... é um caminho aereo...
— Isso mesmo. Quando uma estrada vai dar a um rio, tem que parar; mas como uma estrada que para não é estrada e sim beco sem saida, o homem teve de inventar um meio de projetar a estrada por cima do rio. A primeira ideia lhe foi sugerida pela natureza, porque não existe floresta cortada por um ribeirão em que não haja paus caidos duma margem a outra, formando pinguelas.
O homem copiou a natureza. Cortou o rio com um grande tronco de árvore, bem reto; e como os troncos são roliços, desbastou-o a machado na parte superior para que sobre ele seus pés pudessem caminhar com firmeza.
O tronco de pau, entretanto, só resolve o problema da passagem dos rios estreitos. E os largos? Aí o homem teve de fazer outra coisa. Teve de fincar dentro d՚agua fortes esteios que suportassem uma armação de madeira, ou troncos articulados. Os romanos foram alem. Construiram pontes de pedra, maravilhosas de resistencia, pois que duram até hoje.
A ponte, portanto, é pé. E՚ o meio que permite ao pé . atravessar os rios sem se molhar.
— E como veio o pé de ferro que corre — o trem?
— Ah, isso foi interessante. Depois de descoberta a maquina a vapor, varios ingleses tiveram a idea de fazer essa maquina puxar carros pesados nas estradas comuns. Montavam num ponto da estrada uma maquina a vapor fixa, para, por meio de enrolamento de uma corda, puxar carros. Era complicadissimo e de pouco resultado nas distancias grandes. A boa ideia então ocorreu a Stephenson: e se em vez da maquina puxar os carros ela se puxasse a si mesma? Estuda que estuda, Stephenson resolveu o problema. Inventou a locomotiva, a maquina que se puxava a si propria. Mas que luta! Foi enorme a resistencia do povo. Ninguem queria saber daquilo. O Cavalo de Ferro inspirava horror, como se fosse arte do diabo. O governo inglês botou os obstaculos que pode, alegando os perigos desse cavalo de ferro solto pelas estradas. Chegou a passar uma lei tornando obrigatorio vir na frente das locomotivas um homem a cavalo para avisar os transeuntes.
— Como? Não estou entendendo... disse Pedrinho.
— Sim. A lei inglesa mandava que á frente das locomotivas seguisse pela linha um homem a cavalo com uma bandeirinha, "para evitar desastres"... Semelhante medida, está claro, impediu do modo mais completo o desenvolvimento da estrada de ferro. Alem disso os sabios oficiais do tempo Digitized by Google de Stephenson provavam com calculos segurissimos que aquilo era bobagem, não passava duma exploração do publico...
Mas Stephenson insistiu. Lutou anos, e em 1825 venceu, afinal. Conseguiu realizar sua ideia, isto é, montar sobre rodas a maquina a vapor.
Isso não era tudo. Para que tal maquina pudesse caminhar com rapidez tornavam-se necessarios caminhos otimos, bem calçados, bem nivelados, sem lama no tempo de chuva. E não havia tal coisa. Como resolver o problema? Stephenson imaginou os trilhos, isto é, duas estradinhas paralelas feitas de ferro, da largura que bastasse para as rodas da sua locomotiva — e hoje o mundo inteiro está cortado de norte a sul e de leste a oeste por maravilhosas estradas de ferro, filhas da estradinha do grande inventor inglês.
— O que eu admiro, vóvó, é a coragem, a tenacidade dos inventores, observou Pedrinho. Por maiores que sejam os obstaculos, eles não desanimam nunca.
— Tem razão de admirar-se, Pedrinho. Os inventores são criaturas excepcionais, diferentes em tudo das outras. Depois que encasquetam na cabeça uma ideia, não pensam em mais nada. Parece que a natureza os cria especialmente para aquele fim, como cria o pintor para pintar, o musico para compor musicas, o homem rotineiro para embaraçar o progresso do mundo. Os inventores, os pintores, os musicos, suportam as maiores miserias, privam-se de tudo, contanto que possam realizar a sua invenção, o seu quadro, a sua musica. E acabam vencendo.
A porcentagem dos inventores, pintores, musicos e artistas de outros tipos é minima. Em cada cem criaturas haverá uma desse genero, de modo que eles têm sempre contra si os noventa e nove restantes. O menos que esses noventa e nove dizem do um por cento que não pensa como eles, é que são loucos.
E são mesmo aloucados. O fato de sacrificar a vida para beneficio futuro dos noventa e nove por cento de ingratos, é coisa mesmo de louco. Mas, que hão de fazer? Seu destino é produzir invenções e obras de arte, assim como o destino duma roseira é produzir rosas. A sauva tosa a roseira; o jardineiro poda-a sem dó; os meninos malvados batem-na com varas; as cabras que entram no jardim pastam-lhe as folhas. Por mais judiada e perseguida que seja, porem, quando chega o tempo proprio a roseira dá as suas lindas rosas. Inventores, artistas e roseiras judiadas pagam o mal com o bem.
— Mas as roseiras se defendem com os espinhos, observou a menina.
— Está claro que se defendem, as coitadinhas. E os artistas, inventores é sabios se defendem com a misantropia, isto é, afastando-se dos homens comuns. Spencer, que foi um grande filosofo inglês, chegava a por algodão nos ouvidos quando obrigado a receber certas visitas.
— Para que isso?
Digitized by Google — Para que as asneiras do visitante não fossem sujar seu maravilhoso cerebro, sempre ocupado com os grandes problemas da vida...
O navio a vapor foi uma consequencia logica da locomotiva de Stephenson. Assim como a maquina a vapor podia carregar-se a si propria em terra, poderia tambem carregar-se no mar. E Roberto Fulton, um americano, teve a ideia. Como não havia de rir-se dele! O louco! O imbebecil... Até Napoleão sorriu, quando Fulton afirmou ser capaz de construir um barco a vapor que atravessasse o canal da Mancha. Hoje não existe mar em que os navios de Fulton não deslizem por cima como baratinhas fumegantes.
— E antes do navio a vapor?
— Espere. O pé do homem já havia resolvido o problema de andar rapido sobre a terra sem se cansar. Tinha depois de resolver o problema de andar sobre a agua. Um tronco boiante deu a primeira ideia da canoa. Mas um tronco não tem estabilidade; vira facilmente de um lado ou de outro. Foi preciso escavar esse tronco — e a canoa surgiu. Para escava-lo o homem recorreu ao fogo lento; queimava com brasas o tronco até te-lo na forma de canoa.
A canoa foi primeiramente movida pelas mãos, que iam empurrando a agua para trás. Como não desse rendimento e cansasse muito, o canoeiro teve a ideia de encompridar a mão com o remo, que é uma palma de mão de pau posta num cabo. Pronto. Estava inventada a navegação. Da canoa vieram as galeras dos romanos e outros povos antigos. As galeras empregavam grande numero de remos movidos por escravos.
Um dia um canoeiro que perdeu o remo longe da costa teve a ideia de erguer contra o vento um couro que trazia. A canoa deslizou veloz. Estava inventada a vela. Era só fincar na canoa um mastro e amarrar nele um couro esticado, com as pontas seguras por meio de cordas.
Dessa humilde canoa de vela de couro sairam os navios veleiros com que os navegadores do seculo XVI puseram todas as terras do mundo em ligação umas com as outras. E saiu o comercio maritimo que consiste em levar os produtos dum país para outro. Do Brasil os navios de vela carregaram o pau brasil usado na tinturaria da epoca; das Indias traziam as famosas especiarias. Da Africa traziam escravos e da Europa trouxeram os colonos que formaram os nossos paises da America.
Afinal surgiu o barco a vapor, e a vela teve de ceder seu cetro de rainha dos oceanos. Graças á canoa, ao barco de vela e hoje aos grandes navios a vapor, o pé humano conseguiu o milagre de caminhar sobre a superficie dos mares tão seguramente como caminha em terra.
Outra invenção para dar eficiencia ao pé foram os tuneis, ou caminhos subterrancos que varam as mais altas montanhas, ou passam por baixo de rios.
— E a escada, vóvó? Não é tambem pé?
— Certamente. Com a escada o pé adquire meios de subir até certas alturas. Se houvesse uma escada da Terra á Lua, podiamos ir até lá a pé.
— Mas não chegariamos nunca, observou Pedrinho. A distancia eu sei qual é: 354.000 quilometros. Cada degrau tendo um palmo, seriam... seriam...
Narizinho fez depressa a conta, dando a cada palmo 20 centimetros, e respondeu:
— Um bilhão e setecentos e setenta milhões de degraus.
Pedrinho não quis ficar atrás; calculou depressa quanto tempo um homem levaria para subir todos aqueles degraus e disse:
— Se um homem subisse mil degraus dor dia, tinha de levar 1.770.000 dias subindo, ou sejam 4.850 anos.... Quer dizer que se com minha idade Julio Cesar começasse a subir essa escada, estaria hoje a pouco mais de meio caminho, apenas... Um absurdo, vóvó, ir á Lua a pé.
Dona Benta riu-se daqueles calculos, satisfeita de ver como o cerebro dos meninos já estava desenvolvido. Depois concordou:
— Realmente. A pé, com o nosso pé de carne, é impossivel. Mas com o pé aumentado por alguma invenção, quem sabe? Esse pé de carne, que no tempo do peludo só vencia uma distancia insignificante, já está hoje terrivelmente veloz. Por meio do avião atinge a velocidade de 600 quilometros por hora. Quer dizer que, se formos á Lua com o nosso pé voador, levaremos... Façam a conta.
Emilia ganhou a corrida. Foi quem respondeu primeiro:
— Vinte e cinco dias! Um avião a 600 quilometros por hora vai daqui à Lua em 25 dias.
— Só? exclamou Pedrinho assombrado — e ao concluir a sua conta, vendo que era aquilo mesmo, assombrou-se.
— Sim, meu filho. O homem já atingiu na terra velocidade que lhe permite ir á lua em 25 dias. Mas por enquanto o vôo é impraticavel. Os aviões têm que abastecer-se de combustivel pelo caminho e entre a Terra e a Lua ainda não existe uma só bomba de gasolina...
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