Historia das invenções (4ª edição)/IV
CAPITULO IV
— POIS é isso, começou dona Benta no dia seguinte. Da pele que um peludo bicho-homem usou pela primeira vez sairam todos os maravilhosos tecidos com que nos vestimos hoje, e do primeiro abrigo de pau tosco e ramos sairam todas as casas modernas, inclusive aquele arranha-ceu que vocês tanto admiraram em New York.
— O Empire State Building! exclamou Pedrinho, com os olhos brilhantes. Que colosso, vóvó! Trezentos e oitenta metros de altura! Quando parei diante dele e vi aquela imensidade que subia para o ceu, senti um arrepio na pele. Um orgulho! O orgulho de ser homem, de pertencer á mesma especie dos que haviam construido o colosso...
— Pois o Empire começou da maneira mais modesta. Sem aquele primeiro passo que foi a miseravel cabana de pau tosco e palha, imaginada pelos peludos para substituir a caverna de mau cheiro, não teriamos esse assombro do arranha-ceu, que de fato, como diz Pedrinho, nos causa arrepios de orgulho. Mas chega de Pele. Hoje vamos tratar da Mão. Quem sabe o que é mão?
— E՚ isto! respondeu Emilia espichando a munheca — e os outros puseram-se a olhar para as suas como se as estivessem vendo pela primeira vez. Só notaram uma coisa: que estavam bem sujinhas...
— A mão, explicou dona Benta, é a evolução duma pata dianteira. Todos os quadrupedes possuem patas dianteiras que empregam para andar e tambem para fazer muito desajeitadamente o papel de mãos. Repare o gatinho. Quando pega qualquer coisa, pega com os dentes, procurando auxiliar-se com as patas dianteiras. Infelizmente para ele essas patas dianteiras não possuem os dedos que temos em nossas mãos; e o auxilio que prestam ao gatinho é bem pequeno. A grande coisa que aconteceu com a mão do homem foi o encompridamento dos dedos e a colocação do polegar em oposição aos outros quatro. Ficou assim transformada num maravilhoso instrumento de agarrar. A torquês ou o alicate é uma mãozinha de ferro com dois dedos apenas, um oposto ao outro; se esses dedos estivessem um ao lado do outro, de nada valeriam. O importante é estarem em posição oposta pois que isso permite agarrar.
Com a disposição oposta do polegar, a mão do homem tornou-se prodigiosamente habil para fazer mil coisas impossiveis aos animais, cujas patas dianteiras têm os dedos semelhantes aos dos pés. O dedo polegar! O mata-piolho! Eis o grande progresso. Se reduzirmos nossas mãos a dois dedos apenas, sendo um o polegar, ainda podemos fazer mil coisas; mas se cortarmos o polegar deixando os outros qua- tro, babau! Não podemos fazer quasi nada com eles.
Os animais utilizam-se das patas dianteiras para cavar buracos e ajudar os dentes no agarramento das coisas — exceto os simios, que, como estão mais proximos de nós, já têm mãos que são verdadeiras mãos. De modo que a mão do homem significa o mais importante instrumento natural que ele adquiriu — e ao qual se devem todas as maravilhas que vemos hoje no mundo.
Mas a mão sozinha, embora valesse muito, servindo para agarrar, despedaçar a caça, colher frutas, etc., não fez grande coisa até o dia em que o primeiro peludo teve a ideia de aumentar o poder dela por meio dum pedaço de pau ou pedra.
— Mas isso é tão simples, vóvó! Essa lembrança, se eu fosse peludo, me acudiria imediatamente, observou Pedrinho.
— Acredito. Com a inteligencia que você tem, nada mais natural que a ideia acudisse imediatamente. Mas quantos milhares de anos não levaria o peludo para descobrir o que a você parece tão simples? Descobriu-o, afinal. Um deles começou. Em vez de agarrar a caça com as mãos, como faziam todos, teve a ideia de segurar num pau ou numa pedra e bater com ele ou ela na caça. E todo um mundo novo abriu-se-lhe diante dos olhos. Esse genial peludo verificou que o seu poder aumentava grandemente. Outro genio do mesmo tipo descobriu que segurando uma pedra e arremessando-a conseguiria atingir um objeto que estivesse longe de si. Outro progresso imenso, do qual iam sair até os canhões de hoje.
— Como, vóvó?
— Espere. Sem que eu explique você irá compreendendo. Antes de aprender a arremessar a pedra, o homem tinha o poder dos musculos limitado ao comprimento dos braços. Quer dizer que só podia no raio de um metro mais ou menos.
— Não estou entendendo muito bem esse raio aí...
— Raio é a metade do diametro dum circulo. Isso você sabe. Pois bem: antes de aprender a arremessar a pedra, o peludo era como se estivesse no centro dum circulo de dois metros de diametro, seus braços formavam os raios desse circulo, de modo que ele só podia atingir o que estivesse dentro dum raio do comprimento do seu braço, isto é, um metro.
— Bom, agora entendi.
— E quando aprendeu a arremessar a pedra, esse homem passou a poder muito mais. O raio do circulo em redor dele (do circulo que ele podia atingir com a pedra) passou a ser muitissimo maior do que o raio que ele podia atingir apenas com as mãos. Se, por exemplo, jogava a pedra a vinte metros de distancia, seu poder aumentava vinte vezes mais. Com as mãos ele só podia dentro do raio de um metro. Jogando a pedra, ele passou a poder dentro do raio de vinte metros, suponhamos. Antes ele só podia atingir um veado que estivesse a um metro de distancia; com a pedra atingia o veado que estivesse a vinte metros. Compreendeu?
— Não ha o que a gente não compreenda quando a senhora explica, vóvó, observou Narizinho.
— Muito bem. Temos aqui o peludo aumentando de um para vinte o alcance do seu poder. Depois vieram as outras invenções, que aumentaram ainda mais o poder das suas mãos. Veio o arco que lança uma flecha a 200 metros de distancia — e o poder do homem passou a ter um raio de 200 metros. Depois veio a carabina, que lança uma bala a 2.000 metros — e o raio do poder do homem passou a ter 2.000 metros. Depois veio o canhão que alcançou 100.000 metros — e o raio do poder do homem passou a ter 100.000 metros.
Como vocês vêem, o progresso foi imenso. O peludo, que ainda não sabia jogar pedras, só alcançava o que estivesse a um metro de distancia do centro do seu corpo, isto é, só alcançava o que estivesse ao alcance do braço. No entanto, com o canhão Berta os alemães, na Guerra de 1914, alcançaram Paris duma distancia de 100.000 metros. Quer dizer que esses alemães podiam 100.000 vezes mais que o peludo primitivo.
— Interessante isso, vóvó! murmurou Pedrinho pensativamente.
— Hoje vemos nos museus os martelos de pedra que os peludos faziam para aumentar o poder das mãos. Parecem coisas muito simples. Mas, se refletimos um pouco, temos de nos curvar com toda a reverencia diante dessa invenção, como nos curvamos diante duma velhinha que é mãe dum grande homem. Inumeraveis maquinas que aumentam prodigiosamente a eficiencia do homem moderno procedem desse martelo. São filhas dele.
E quanto tempo levou o peludo para ter a ideia de botar um cabo na pedra? Quantos milhares de anos não passou batendo com pedras sem cabo? Um dia, um dos genios que sempre surgem entre os homens teve a ideia do cabo — e com espanto viu que a pedra encabada possuia força muitissimo maior que a pedra sem cabo. Estava inventado o martelo, esse preciosissimo instrumento que é de todos o que mais uso tem. Pelo menos aqui em casa...
Aquilo era alusão a Pedrinho, cujo martelo já estava desbeiçado de tanto prega-prega. Até a Emilia tinha o seu martelinho.
— Do martelo de pedra saiu o machado. Com certeza foi descoberta feita sem querer. Ao malhar com o martelo, a pedra lascou de bom jeito, por si mesma, virando lamina de machado, e com espanto o peludo viu que em vez daquele martelo amassar ou esmigalhar, como fazem todos os martelos, cortava... Ora, cortar era coisa utilissima para quem já fazia cabanas de madeira. Podia ele agora cortar os paus do mesmo tamanho. E o machado começou a aperfeiçoar-se. O peludo escolheu pedras proprias, que dessem bom corte. Encontrou o silex e outras. E veio vindo, veio vindo de aperfeiçoamento em aperfeiçoamento, até chegar ás modernas laminas Gillere que hoje se usam para cortar os fios de cabelo do rosto, vulgo barba.
E՚ facil imaginar a lentidão com que surgiram tais aperfeiçoamentos, e a alegria do primeiro peludo que, esfregando a pedra do seu machado contra outra, conseguiu avivar novamente o corte. Era a arte de amolar que nascia. Antes dela tinham de aproveitar o machado enquanto durasse o corte natural da pedra lascada: logo que o corte ficava rombudo, punham fora o machado e faziam outro. Imaginem a trabalheira!
E dessa pedra lascada que virou machado saiu a faca, a serra, a lança, a tesoura, a espada, a picareta, a enxada, o canivete — todos os inumeros instrumentos que têm cabo e cortam. Porisso, quando vocês, num museu, derem com aqueles toscos machados de pedra dos nossos antepassados peludos, tirem respeitosamente o chapeu.
— E eu que faço, vóvó, eu que não uso chapeu? perguntou a menina.
— Você tira o sapato, asneirou Emilia.
Ninguem achou graça e dona Benta continuou:
— A tesoura, por exemplo, que é a combinação de duas laminas opostas, custou muito a aparecer. Dizem os sabios que os egipcios, gente de civilização tão adiantada, desconheciam a tesoura. Começam a aparecer em Roma, onde as usavam para cortar a grama dos jardins e tosar a lã dos carneiros. Antes disso sabe o que faziam? Arrancavam a lã dos coitadinhos.
— Que horror! Quer dizer que se os carneiros fossem mais agradecidos deviam ajoelhar-se diante de cada tesoura encontrada...
— Sim, porque a tesoura veio liberta-los duma horrivel tortura. Infelizmente, se esse par de facas opostas, chamado tesoura, veio libertar os carneiros dum suplicio, não aconteceu o mesmo para os proprios homens com a invenção dos instrumentos cortantes. Em vez de usa-los apenas para o que lhes era bom, transformaram-n՚os em instrumentos de guerra — e foi na propria carne humana que tais invenções mais trabalharam. Surgiram as espadas, as lanças, os cutelos, as adagas, os iatagãs, as cimitarras, as baionetas e outros crueis instrumentos de cortar a carne dos homens nas lutas. Veio a guilhotina, cuja função era cortar a cabeça dos que não pensavam de acordo com os dominantes do momento.
— Eu sempre tive horror ás facas, disse Narizinho — isto é, ás facas de ponta, porque as facas de mesa são até bem boazinhas. Para passar manteiga numa fatia de pão, nada melhor. Verdade é que quando muito amoladas elas tambem cortam o dedo da gente...
— A culpa não cabe á faca, minha filha, mas ao uso que fazemos dela — e o mesmo se dá com todas as invenções humanas. Prestam beneficios sem nome, quando bem empregadas; e tambem causam horrores sem nome, se mal empregadas. A dinamite, por exemplo. Que serviço não presta na demolição duma pedreira? E que horror não é quando jogada dum avião sobre uma cidade?
Infelizmente a estupidez ou maldade dos homens tem até aqui estado de cima, sobre a inteligencia e a bondade. A grande arte que ainda hoje os homens cultivam com maior carinho é a arte de matar cientificamente. Se vocês compararem o que os povos modernos gastam no aperfeiçoamento da arte de matar com o que gastam na educação do povo e outras coisas de beneficio geral, hão de horrorizar-se. Os homens não fizeram progresso nenhum em materia de bondade e compreensão. Chegaram ao ponto de crucificar Jesus só porque Jesus queria implantar na terra o reino da bondade. A maldade ainda é a soberana absoluta neste grão de poeira que gira em redor do sol...
Mas deixemos isto. Vamos ver agora o que aconteceu com outra grande invenção dos peludos — a enxada.
— Acha a senhora que tambem a enxada seja uma grande invenção?
— Sem duvida, minha filha. E com certeza foi invenção feminina, porque naqueles tempos as mulheres tinham sobre si os trabalhos mais pesados. Eram as bestas de carga dos homens. Incumbia-lhes cuidar da casa, da comida, das plantações, de tudo que era penoso; e com certeza foi uma "genia" que, cansada de cavar a terra com as unhas, teve a ideia luminosa de botar cabo numa pedra cortante. Reparem que a diferença entre o machado e a enxada está apenas na posição da lamina. No machado a lamina tem o fio na mesma direção do cabo; na enxada tem o fio colocado verticalmente. Só isso. Mas foi preciso que surgisse uma "genia" para fazer essa modificação!
— Se a gente pudesse saber o nome dela... murmurou Narizinho.
— Havia de chamar-se Enxadia, lembrou Emilia. Enxadia da Silva.
Ninguem achou graça e dona Benta continuou:
— Pois essa mulher fez uma grande coisa. A enxada primitiva representou imenso progresso para a agricultura, e até hoje, em muitos paises, entre eles o nosso, a base da agricultura está na enxada. Se dum momento para outro todas as enxadas do Brasil se evaporassem misteriosamente, meses depois estariamos morrendo de fome.
Mas a primitiva enxada de pedra, tão tosca e rude, foi se civilizando nos filhos que teve. E que maravilhosos netos apresenta hoje! Os arados de disco, as grades, as ceifadeiras...
— Essas não, vóvó. Essas são filhas da faca.
— Pode ser. Mas as pás, as grandes pás mecánicas movidas a motores eletricos, ou melhor, as escavadeiras que vocês já viram nas cidades, abrindo alicerces para os grandes predios, são filhas da enxada. E as dragas? Sabem o que são?
— Dragas eu sei! disse Emilia. São as irmãs das Drogas!
— As dragas são as filhas da enxada que trabalham dentro d՚agua. Usadissimas em muitos portos para mante-los com a profundidade necessaria ao calado dos navios. No porto de Santos podem ser observadas. Vivem perpetuamente dragando o lodo que se acumula no fundo do canal — e o navio dragador, depois que enche seus reservatorios com a lama tirada do fundo, vai despeja-la longe no mar. Se a dragagem dos portos fosse interrompida, que grande calamidade para o mundo!
— Por que?
— Porque os vapores não poderiam entrar ou sair dos portos, e as nações que têm necessidade de coisas produzidas fora ver-se-iam grandemente atrapalhadas. Se os vapores não pudessem entrar em Santos, por exemplo, S. Paulo ficaria sem poder vender fora o seu café, as suas laranjas, o seu algodão — e igualmente não poderia receber as maquinas e mais coisas, indispensaveis á nossa vida, que nos vêm do exterior. Agora, uma coisa interessante. A enxada teve um filho que vocês não são capazes de imaginar.
— ?
— O escafandro, esse aparelho dentro do qual o homem desce dentro d՚agua.
— Como, vóvó? Isso me está cheirando a absurdo...
— Pois não é. As invenções saem umas de dentro das outras, ás vezes diretamente, ás vezes indiretamente. A enxada teve aquela filha Draga, de que já falei, e dona Draga teve o filho Escafandro. Logo, o Escafandro é neto da Enxada.
— Como?
— Nos trabalhos de dragagem dos portos encontravam-se muitas vezes no fundo da agua rochas que impediam o trabalho das dragas. Atrapalhado com aquilo, o homem teve de inventar um meio de descer lá para rebenta-las. Dessa necessidade nasceu o escafandro. E՚ um vestuario impermeavel que permite ao homem descer ao fundo d՚agua sem molhar-se, nem morrer afogado; a respiração se faz por um tubo que liga o vestuario á superficie, permitindo que o ar alcance o nariz do escafandrista, isto é, do homem que desce dentro da tal vestuario impermeavel.
No começo esse tubo era de cobre, imaginem ! Depois fizeram-no de couro; hoje é feito de borracha. Dentro do escafandro o homem pode descer até certa profundidade e trabalhar no fundo com picaretas, ou o que seja, destruindo os rochedos que atrapalham as dragas.
—— Mas como faz a draga para recolher o lodo dos fundos ?
— A draga é um maquinismo que move uma corrente armada de grandes canecos. Nas maquinas de beneficiar café vocês vêem isso: aquelas correias com canecos de distancia em distancia, que mergulham nas moegas onde está o café em coco e sobem cheias; quando chegam em cima, giram sobre uma roda e despejam o café dos canecos numa bica inclinada que o leva ao descascador. A draga está baseada nesse principio. Os canecões descem ao fundo, fazem uma volta no lodo, enchem-se e sobem; quando dão a segunda volta em cima despejam o lodo nos reservatorios.
— Compreendo, disse Pedrinho, que gostava muito de ver trabalhar a maquina de beneficiar café do coronel Teodorico. E՚ uma correia sem fim armada de canecos grandes — só isso.
— Mas não são os escafandros tambem usados para pescar ostras? perguntou a menina.
— Sim. Usam-n՚os para todos os trabalhos no fundo do mar. As ostras portadoras de perolas ainda são em muitos lugares apanhadas pelos mergulhadores. Mas um mergulhador, coitado, não pode ficar debaixo d՚agua senão muito pouco tempo. Um minuto, um minuto e meio no maximo. Dentro do escafandro, porem, um homem poderá ficar horas dentro d՚agua.
— Está aí uma coisa que eu queria ter, disse Pedrinho. Um escafandro! Deve ser interessantissimo andar num fundo d՚agua. Quanta coisa exquisita! E no fundo do mar, então? Que maravilha!...
— Infelizmente a pressão da agua vai crescendo com as profundidades, de modo que os escafandristas, mesmo nos aparelhos mais aperfeiçoados, ainda não conseguiram descer 54 Suc Monteiro Lobato A alavanca a mais de 200 metros de fundo. Mesmo assim já dá para ver e fazer muita coisa.
Mas estou fugindo ao meu assunto de hoje. O assunto é a Mão, e a multiplicação do poder das mãos por meio das invenções. Entre essas invenções aumentadoras do poder das mãos houve uma tremenda, talvez a maior que o homem fez — a alavanca.
— Como, vóvó? exclamou Pedrinho admirado. A alavanca, uma coisa tão simples...
— Por simples que seja, suas consequencias foram tremendas. A alavanca permitiu a construção de todas as maquinas, porque o que chamamos maquina não passa duma aplicação da alavanca.
Meus filhos, todas as modificações que o homem fez na superficie da terra, os canais, as piramides, os monumentos de toda a especie, as casas enormes de pedra ou cimento armado, as estradas de ferro, os navios gigantescos, nada disso seria possivel sem o uso da alavanca. Que é uma alavanca ? Em principio não passa duma barra rigida, de certa extensão. Uma barra de borracha não é alavanca, porque não é rigida — verga. A alavanca não verga. Numa das extremidades o homem aplica a força do braço; a outra extremidade ele coloca debaixo do peso que quer levantar; ha depois um um ponto de apoio onde ele encosta a barra. Esse ponto de apoio quanto mais longe está da extremidade que o braço segura, melhor.
— Por que ?
— Porque quanto mais longe estiver do braço, mais muluplica a força do braço. Experimente.
Pedrinho foi buscar um sarrafo de peroba e veio fazer a experiencia na sala. Colocou a ponta do sarrafo debaixo do armario e com uma pedra fez o ponto de apoio. E notou que com muito pouca pressão na outra ponta do sarrafo ele erguia aquele armario pesadissimo. Notou tambem que quanto mais perto do armario estivesse a pedra, menos pressão precisava fazer para ergue-lo.
— E՚ mesmo! gritou. Este armario, que naquele dia foram precisos dois camaradas peitudos para move-lo, eu agora com uma forcinha á-toa ergui de quasi meio palmo.
— E por um triz que não me despenca a pilha dos pratos, disse dona Benta mandando parar com a experiencia. Pois está aí a grande invenção. Com a alavanca o homem aprendeu a multiplicar tremendamente a força do braço — e foi essa multiplicação que lhe permitiu erguer as pedras enormes com que levantou as piramides do Egito, e escavar o canal do Panamá, e construir tudo quanto ha de grande no mundo. Não existe maquina nenhuma que não seja baseada no principio da alavanca — e é porisso que as maquinas têm tanta força.
— Então, quando me perguntarem o que é maquina posso responder que é... que é...
— Responda que é uma aplicação da alavanca — e o perguntante ficará entupido.
Outra invenção tambem de grande valor foi a corda de levantar pesos, donde sairam os modernos guindastes. Se você amarra uma corda a uma grande pedra e faz a corda passar por uma roldana atada a uma certa altura, puxando a ponta da corda pode fazer a pedra subir até junto da roldana. Essa invenção permitiu mil coisas, como é facil de imaginar. Os navios são carregados e descarregados assim, com a corda que gira sobre a roldana, ou com os guindastes poderosissimos que nasceram dessa corda com roldana. Na India os ingleses metem elefantes a bordo dos navios por meio dos guindastes. Passam-lhes sobre o ventre umas barrigueiras de corda. O guindaste segura-as e lá ergue os imensos elefantes, depondo-os no convés dos navios. Para desembarca-los, a mesma coisa. Até locomotivas são postas ou tiradas dos navios assim.
Eu falei na roldana; mas que é a roldana senão uma roda? Foi outra grande invenção, a roda, sobre a qual temos que conversar. Não hoje. O relogio já bateu nove horas e Narizinho está "pescando". Olhem o jeitinho dela...
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
