Historia das invenções (4ª edição)/III

CAPITULO III

Da Pele ao Arranha-ceu
(Continuação)

 

No outro dia, quando dona Benta abriu o livro de capa preta, Narizinho disse:

— Com que então, vóvó, aquele vestidinho meu, duma gase tão linda, que a senhora me fez para o casamento da Joyce Campos, não passa da evolução duma pouco cheirosa pele de urso ?

— Isso mesmo. Nem aquele vestido, nem o sobretudo novo de Pedrinho, que ele com tanto orgulho chama "overcoat", nem os vestidos magnificos da Gloria Swanson em suas fitas, nem os vestidos das princesas de verdade que se casam com principes de sangue real, nem o macacão azul com que os mecanicos trabalham, nem o vestuario eletrico dos aviadores, nada disso é mais que uma pele de urso evoluida. Veja você o que é o mundo!

— Que vestuario eletrico é esse? Nunca ouvi falar....

— Os aviadores que voam a grandes alturas sofrem do terrivel frio que reina por lá e não havia roupa de lã, por mais acolchoada que fosse, que lhes prestasse. Tiveram então a ideia de fazer o macacão eletrico, isto é, um vestuario aquecido pela corrente eletrica á temperatura desejada. Desse modo, usando uma roupa muito mais leve que os grossissimos capotões de lã que usavam, os aviadores riem-se dos tremendos frios das alturas.

— Que engraçado !

— E ainda ha mais, minha filha. Já se cogita de fazer roupas assim para toda gente. O freguês que as vestir leva no bolso um acumulador eletrico pequenininho mas de grande força — e a eletricidade contida nesse acumulador aquecerá a roupa na temperatura desejada. E se num passeio ou viagem o acumulador se descarregar, basta que entre numa casa qualquer e o carregue de novo, ligando o fio á tomada do ferro eletrico ou do radio.

Tia Nastacia, que vinha entrando, deu uma risada gostosa.

— Isso é impossivel, sinhá! exclamou ela convencidamente.

— Tambem era impossivel ouvirmos neste sertão o que falam e cantam lá em Pittsburgh e no entanto todas as noites o radio nos resolve o problema.

— E a senhora pensa que eu acredito ? disse a preta piscando o olho. Não vou nessa, não ! Por mais que digam o contrario, estou convencida de que ha qualquer coisa dentro dessa caixa, que fala e canta e toca musica. De lá tão longe é que não pode vir.

Todos se riram da coitada e dona Benta continuou:

— Bem. Já vimos um dos inventos do homem para proteger a pele contra o frio excessivo ou contra o demasiado calor — a roupa. Mas essa invenção em beneficio da pele não foi a unica. Temos outra importantissima embora de genero diverso: a casa. Apenas com a roupa o homem não se defenderia do mau tempo — nem defenderia as crianças novas que têm de ficar por varios anos ao abrigo do mau tempo. E defender os filhotes é para todos os animais coisa muito importante, porque disso depende o que os sabios chamam a perpetuação da especie. Se os adultos só pensassem em si, deixando que as crianças morressem, a especie humana extinguir-se-ia rapidamente.

A casa serve sobretudo para nos defender das chuvas, que ás vezes se prolongam durante meses inteiros. Como apareceu a casa? Primeiramente, o bicho-homem fez o que faziam todos os animais: abrigou-se nos ocos das grandes arvores e nas cavernas das pedreiras. Semelhante morada tinha terriveis inconvenientes; os ocos eram muito acanhados; e as cavernas, alem da escuridão perpetua de lá dentro, viviam cheias de outros animais que tambem as procuravam para refugio, grandes morcegos, aranhas, cobras, isso sem falar nos terriveis tigres de dentes de sabre, tão abundantes naqueles tempos. E leões, e quanta fera existe. Os homens que tomavam conta duma caverna tinham de dar pulos para afastar dali tão perigosos inquilinos. O numero de batalhas tremendas que foram obrigados a travar contra as feras invasoras não tem conta — e quantas vezes não foram vencidos e devorados?

— E a sujeira, vóvó! lembrou Narizinho fazendo cara de nojo. Suponho que essas cavernas deviam ser um horror sem conta.

— E eram. Nas que os sabios têm descoberto, a quantidade de ossos reunidos lá dentro espanta. Ossos dos animais com que os nossos antepassados se alimentavam. Quando frescos, e ainda com muchibas e restos de carne grudados, imaginem o mau cheiro que não punham nas cavernas! Hoje nem para casa de porcos serviriam — e no entanto lá viveram os antepassados dos maiores genios da nossa especie — os avós de Shakespeare, de Miguel Angelo, de Edison, de Santos Dumont...

O horror das cavernas naturais, aquela escuridão eterna, fez que o homem tratasse de construir outros abrigos sem aqueles inconvenientes — e a casa começou.

— Como eram as primeiras?

— De muitos jeitos, minha filha. De todos os jeitos, podemos dizer. Havia as escavadas em blocos de gelo, nas regiões geladas. Havia as construidas sobre arvores, com paredes de paus e teto de ramos secos. Depois vieram as feiras de barro, como ainda hoje o joão-de-barro tem as suas. E vieram as casas lacustres, ou construidas dentro da agua dos lagos.

— Dentro?

— Em cima, sobre estacas bem fincadas. A maior preocupação do bicho-homem era construir um abrigo que o livrasse do mau tempo e das feras. As casas construidas sobre a agua tinham diversas vantagens; não somente os punham a salvo do ataque dos tigres e leões, como também lhes forneciam um banheiro facil. E ainda alimentação facil — peixes.

— Que coisa gostosa, vóvó! exclamou Pedrinho. Imagine a gente pescando da janela!... Por que a senhora não arranja uma casa lacustre?

— Se eu fosse arranjar todas as maluquices que vocês imaginam, acabaria no hospicio... Mas o fato de os moradores da casa lacustre terem o banho á mão, é muito importante; porque uma das carateristicas do homem é lavar-se e lavar coisas. Hoje temos pias e banheiros comodissimos, com agua corrente, quente ou fria á vontade. Isso, entretanto, é coisa moderna. Grandes metropoles antigas, que hoje veneramos em suas ruinas, eram porquissimas. Em Atenas os suinos andavam pelas ruas, encarregados da limpeza publica. Em Marselha, ainda em nossos tempos, certos hoteis anunciam "eau courante" — agua corrente, dando ideia de que agua corrente ainda seja novidade digna de anuncio.

Mas, como eu ia dizendo, as casas passaram-se a construir sobre a agua, ou perto d՚agua. Hoje mesmo, quando um caboclo aqui da roça vai escolher lugar para sua casinha de sapé, a preocupação maior é a proximidade duma aguada, não só para beber e cozinhar, como para a limpeza domestica. Daí a importancia das margens dos rios. Na minha geografia acentuei isso. Por que? Vamos ver quem sabe. Por que os homens procuravam as margens dos rios para erguer suas cidades?

— Por tudo, vóvó, respondeu Pedrinho. Para terem agua em abundancia para banhos e limpeza da casa, lavagem da roupa, das panelas, etc. Para terem peixe facil. Para terem um meio de transporte comodo, já que os rios são estradas que caminham por si mesmas. Para terem boas terras de cultura, visto que as das margens são sempre frescas e alem disso fertilizadas pelo humus durante as enchentes anuais.

— Isso mesmo. A casa, portanto, servia para livrar os homens das feras, dos raios do sol, das chuvas e das ventanias, das geadas e da neve e servia tambem para dar ás familias esse "á vontade" que tanto nos agrada. Quem está em sua casa está como quer; quem está fora de casa tem que estar como os outros querem. O maior encanto da casa é justamente essa intimidade — esse estar longe das vistas ferozes e mexeriqueiras dos vizinhos. Imaginem uma cidade em que as casas fossem de vidro bem transparente. Que horror não seria a vida lá dentro...

— Eu pintava logo as paredes com piche, para não dar o gosto á gentarada de fora, disse Emilia.

— Quer dizer que você restabelecia com o piche a intimidade que deve ter uma casa — e dessa vez não fazia nenhuma asneirinha... Pois foi essa intimidade da casa que tornou possivel a vida de familia, algumas bem felizes, como a nossa, com tia Nastacia fazendo quitutes lá na cozinha, com Quindim filosofando no quintal enquanto masca o capim, com o senhor marquês de Rabicó sempre farejando gulodices, com a Emilia a abrir e fechar a sua celebre torneirinha, comigo aqui a contar historias historicas e geograficas — e com vocês dois a aprenderem mil coisas brincando.

— A senhora esqueceu o visconde, vóvó! lembrou a menina.

— Sim, e com o visconde fazendo... o que mesmo? Que anda ele fazendo agora?

Narizinho cochichou ao ouvido de dona Benta o grande segredo: "O visconde está escrevendo as Memorias da Marquesa de Rabicó. Emilia dita e ele escreve, naquela letrinha toda cheia de sabuguices".

Dona Benta arregalou os olhos, pois aquilo era novidade grande. Em seguida voltou ao assunto.

— Depois da casa singular, isto é, duma casa para cada familia, apareceram em Roma os casas coletivas. Era nelas que viviam os escravos. Aqui tambem tivemos as celebres senzalas, e hoje temos casas de pensão, hoteis, quarteis, conventos, internatos, isto é, grandes casas onde moram numerosas pessoas. Mas as pessoas que moram desse jeito estão sempre pensando em morar na sua casinha isolada. Se vivem assim é por economia ou outra qualquer razão — não por querer.

— As casas dos operarios nas grandes cidades tambem não têm grande intimidade, vóvó, lembrou Pedrinho que havia visto em New York e Londres os chamados "tenements", ou casas de apartamento dos pobres.

— Sim. Entre os males que a excessiva aglomeração de gente em certos bairros trouxe, veio tambem esse. Mas está no fim. A tendencia moderna é para acabar com as tristes habitações coletivas em que os pobres vivem. Em certos paises o operario já possue casas de um conforto e intimidade que até aqui eram privilegio exclusivo dos ricos. Um dia no mundo inteiro será assim. Esperemos.

Foi essa vida horrivel nas sordidas gaiolas das grandes cidades que criou a emigração, ou a fuga dos homens pobres para outras terras menos povoadas, onde lhes fosse possivel ter a sua casinha propria. Quem emigra, quem sai para trabalhar em outras terras, é porque não encontra na sua condições de vida agradaveis. Foi graças á má vida do pobre na Europa que a America se povoou — e que tambem se vão povoando a Australia e tantas outras terras chamadas coloniais.

Mas a invenção da casa não resolvia todos os problemas. Nos paises em que no inverno a neve cobre tudo com o seu manto de gelo, mesmo dentro de casa o homem arcava com os horrores do frio. O remedio era acender fogo. O fogo aquece o ar, o que é agradavel; esse prazer fez que se fossem aperfeiçoando os meios de aquecer o ar dentro das casas. Inventou-se o fogão para substituir as fogueiras primitivas que enfumaçavam tudo. No fogão a fumaça é levada para fora por meio dum tubo vertical que chamamos chaminé. Foi um passo gigantesco e até hoje tal sistema é usadissimo. Depois vieram os aperfeiçoamentos do fogão — vieram os radiadores.

— Que é isso?

— Um meio de fazer o calor penetrar nas casas sem nenhum fogão visivel. Constroem-se nos porões umas fornalhas que evaporam a agua, e o vapor vai por encanamentos escondidos dentro das paredes até umas serpentinas de ferro. Essas serpentinas são os radiadores. O calor aquece o ferro da serpentina e irradia-se pelas salas e quartos.

— Mas isso é muito moderno, não, vóvó?

— Menos do que parece, meu filho. No palacio de Cnossos, na ilha de Creta, já havia radiadores mil anos antes de Cristo. E as casas construidas pelos romanos (as casas dos ricos, está claro) já usavam um sistema de aquecimento por meio de ar quente. Mas veio aquela invasão dos barbaros que destruiu a civilização dos gregos e romanos, dando começo á triste e fria Idade Media, em que era moda desprezar o corpo, como se não fossemos corpo. A arte do aquecimento desapareceu, isto é, voltou para trás. Resumiu-se á fogueira dentro de casa. Os pobres medievais, coitados, viviam entanguidos. E mesmo depois, já quasi nos tempos modernos, o frio muito martirizou a humanidade.

Aquele celebre rei de França, que os basbaques chamaram Rei-Sol, morava num palacio enorme, impossivel de aquecer-se com as simples lareiras ou fogões então usados. Muitas vezes a comida se congelou na mesa real. Vinha daí o seu habito de não tomar banho. Como tomar banho, sobretudo no inverno, tempo em que a agua se congelava nas torneiras?

O fogão, ou lareira com chaminé, se generalizou. Parece tão simples uma chaminé, não acham? Pois demorou a vir. No começo havia apenas um buraco no teto para dar saida á fumaça. A ideia de construir um tubo que levasse a fumaça do fogão ao telhado custou a aparecer.

Unicamente no fim do seculo passado os homens retomaram a arte do aquecimento do ar, inventada pelos gregos e romanos. Voltaram os radiadores, aquecidos a agua quente ou vapor. Nas grandes cidades em que ha invernos fortes o aquecimento é hoje obrigatorio. Quem faz uma casa tem que construir a aparelhagem de aquecer o ar. Nas grandes casas de apartamentos, assim que chega a data oficial do começo do inverno as fornalhas se acendem nos porões para um fogo que só se apagará na data oficial do fim do inverno.

— E os aquecedores eletricos?

— Esses são o ideal. O aquecimento a vapor ou quente exige dispendiosas instalações de fornalhas nos porões, e canalização, e uma trabalheira para manter o fogo sempre aceso. Com o aquecimento eletrico, nada disso. Basta um aparelhinho radiador em cada comodo. Liga-se o fio á tomada eletrica e pronto. Aquilo fica incandescente, inundando o comodo dum agradabilissimo calor.

Infelizmente a eletricidade ainda é cara. No dia em que a tivermos por preço razoavel, então o aquecimento eletrico eliminará todos os outros sistemas, do mesmo modo que a iluminação eletrica deu cabo de todos os lampiões de querosene ou azeite. Havemos de lá chegar.

— E o fogo, vóvó? Não foi tambem uma grande invenção?

— Das maiores, meu filho. Para mim foi a invenção que permitiu tudo ao homem. A civilização que temos hoje, com suas locomotivas poderosissimas, seus automoveis, seus navios gigantescos, suas fabricas de tudo quanto existe, é uma filha do Fogo. Mas sobre isto já conversamos. Já contei que o primeiro fogo foi obtido pela fricção de dois paus, um duro e outro mole. Depois o homem aprendeu a fazer fogo aproveitando a faisca que sai de certas pedras, quando batidas com um pedaço de ferro.

— E՚ o isqueiro da roça, que os caboclos sempre usaram...

— Isso. E depois veio a invenção do fosforo, que revolucionou o mundo. Toda gente passou a trazer fogo no bolso, em caixinhas. Só riscar um pauzinho e pronto. Parecia que isso fosse o final e não foi. Apareceu ultimamente o acendedor automatico. Maquinazinha muito simples e engenhosa. A gente aperta a mola e o acendedor dispara, arrancando uma faisca que vai acender a mecha embebida de gasolina. O reinado do fosforo está hoje se dividindo em dois pedaços, como aconteceu com o Imperio Romano. O fosforo fica, mas tem de repartir os seus dominios com o acendedor automatico.

— E como nasceu o fosforo?

— No começo era fosforo mesmo. Os homens observaram que essa materia fosforescente, isto é, luminosa, chamada fosforo, tinha a propriedade de dar fogo quando batida com uma pedra, e esse fogo era comunicado a uma isca em que entrava o enxofre. Um meio complicado e de mau cheiro. Mais tarde, em 1827, um inglês de nome John Walker inventou o fosforo de esfregar. Em vez de bater, bastava esfregar um pedaço de fosforo num esfregador preparado para esse fim. Vinte anos mais tarde o sueco Lundstrom, natural da cidade de Jonkoping, inventou o fosforo que usamos hoje, pequenino e comodo, sem mau cheiro e não venenoso como o fosforo feito de fosforo.

— Então o fosforo de hoje não é feito de fosforo?

— Não, e porisso não é fosforescente. Contem varios corpos quimicos misturados de modo que pela fricção na lixa da caixinha produzam fogo, sem envenenar os pulmões de quem os acende. O curioso é que quando os comodos fosforos de Jonkoping apareceram a resistencia do publico foi grande. O homem acostuma-se ao que tem e refuga as novidades que apresentam progresso. Tolice, porque as novidades acabam sempre vitoriosas — e ai do mundo se não fosse assim!...

Hoje temos por aqui muitas fabricas de fosforos, marca Olho, marca Pinheiro, etc. Tempos houve, porem, em que só usavamos o fosforo vindo da Suecia, por sinal que excelente. Lembro-me perfeitamente deles. Um letreito amarelo em lingua sueca e a palavra Jonkoping em baixo. O povo dizia que eram fosforos do João dos Copinhos...

Tia Nastacia entrou nesse momento para arrumar o lampião belga da sala, que estava reinando. Tirou o vidro, aparou o pavio com uma tesoura e graduou a luz convenientemente.

— Pois é isso, meus filhos. Nós cá no sitio ainda estamos atrasados em materia de luz. Ainda usamos o querosene. Mas deixe estar. No dia em que o café subir, eu compro um dinamo para aproveitamento da queda d՚agua da cachoeirinha do pasto. E havemos de ter luz eletrica excelente e força eletrica para o nosso radio, em vez dessas baterias incomodas, e para mover minha maquina de costura, e para um batedor de ovos na cozinha, e para um ventilador, e para um ferro eletrico, e para uma geladeira, e para um aspirador de pó, e para uma enceradeira. Quanta coisa! Tudo isso lá se está perdendo naquela cachoeirinha do pasto...

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.