Historia das invenções (4ª edição)/II

CAPITULO II

Da Pele ao Arranha-ceu

 

NO serão do dia seguinte dona Benta continuou:

— Meu filhos, todas as invenções humanas têm um objetivo comum: poupar esforço, fazer as coisas com o minimo trabalho possivel. Desse modo o prazer do homem aumenta, porque o esforço é sempre desagradavel. Se eu posso levar aquela pedra dali da porteira até a casa do compadre com um esforço igual a 10, meu prazer se torna dez vezes maior do que se eu tivesse de leva-la fazendo um esforço igual a 100. Isto é claro como a agua do pote.

Daí vem dizer-se que a Lei do Menor Esforço é a lei que rege o progresso humano. No começo o homem tinha de fazer tudo unicamente com a força dos seus musculos, e o esforço era penosissimo, era doloroso. Progresso quer dizer isso: fazer as coisas cada vez com menor esforço e, portanto, cada vez com maior prazer. E para libertar-se do esforço o homem foi aumentando a sua eficiencia.

— Como?

— Pelo aperfeiçoamento, pelo desenvolvimento das suas faculdades naturais, isto é, da faculdade de falar, de andar, de ouvir, de enxergar. Se eu dobro a força dos meus olhos com um invento qualquer (com um vidro de aumento, por exemplo), estou aumentando a eficiencia, ou o poder dos meus olhos. Se multiplico a minha capacidade de andar usando o trem ou o automovel, aumento a eficiencia dos meus pés. De modo que todos os progressos humanos não passam da multiplicação do poder dos olhos, da boca, dos pés, das mãos e dos ouvidos — e da resistencia da pele.

— Da pele tambem, vóvó? admirou-se Narizinho.

— Pois decerto. Esse aumento da resistencia da pele foi dos mais importantes, porque garantiu a sobrevivencia do homem. Se hoje encontramos o homem no mundo inteiro, seja nas regiões frigidissimas do circulo artico, seja nas zonas torridas do Equador, isso se deve ao aumento da resistencia de sua pele.

— Mas não ha tal aumento de resistència, vóvó, disse Pedrinho. Se a gente levar um esquimó para a Africa, ele morre; como morre um negro da Africa se o pusermos nos gelos.

— Não morrerá nem um nem outro, se se utilizarem das invenções que o homem fez para garantir a pele. A invenção da roupa manterá a vida do negro lá na região artica, e a invenção dos refrescos e ventiladores manterá a vida do esquimó lá na Africa.

— Mas se puserem os dois nus, o negro no gelo e o esquimó no forno africano? lembrou Emilia.

— Nesse caso ambos morrerão; mas esse caso não é o nosso caso. ○ nosso caso é o do homem aumentado pelas suas invenções. Sem essas invenções o esquimó e o negro morreriam; mas com as invenções ambos sobreviveriam.

Desde o começo da vida dos animais na Terra o estado de nudez ficou sendo a regra. Nenhum teve a lembrança de dobrar a resistencia da pele botando em cima do corpo uma pele suplementar. O bicho-homem teve essa ideia. Isso lhe deu a vitoria, permitindo-lhe invadir todos os climas e desse modo tomar conta do globo.

Quando vinham os frios duma estação invernosa, todos os outros animais só sabiam fazer uma coisa: esconder-se nas cavernas, ou lugares mais abrigados. O bicho-homem foi adiante. Dobrou sua pele, metendo-se dentro duma pele tirada dum animal peludo, como o urso. O pelo da pele dos ursos e dos outros animais era a defesa unica que eles tinham contra o frio — defesa dada pela natureza, não inventada por esses animais. O homem inventou botar sobre o corpo a pele dos ursos, multiplicando assim a sua capacidade de resistencia ao frio. Foi ou não foi inteligente?

— Inteligentissimo, vóvó! Estou já me entusiasmando com a esperteza dos nossos brutissimos antepassados, disse Pedrinho.

— Mas era uma coisa tão simples... observou a menina.

— Para nós hoje, que já estamos com a inteligencia muito desenvolvida, parece simples. Lembre-se, porem, de que essa ideia só ocorreu a uma especie animal das milhares de especies existentes no mundo. Só ao bicho-homem! E é facil imaginar que espantos causou aos seus irmãos o primeiro que fez isso — que apareceu na caverna envolto numa pele de urso. Talvez espanto maior que o causado pelo primeiro automovel, isto é, pelo primeiro carro sem cavalos que passou pelas ruas duma cidade. Todos deviam ter aberto a boca, atonitos.

Mas como ele se risse e dissesse que estava quentinho, enquanto os demais tiritavam de frio, o espirito de imitação fez que todos saissem em busca de peles. E desde então o homem trocou o estado de nudez pelo estado de vestido, aumentando enormemente o poder de resistencia da pele.

Da pele de urso pela primeira vez usada pelo bicho-homem — e, portanto, invenção sua — sairam todos os maravilhosos tecidos que usamos hoje — de linho, de seda, de algodão, de lã, de rayon...

No começo o vestuario era constituido somente de peles nem sequer curtidas; secavam-nas ao sol simplesmente — e é facil imaginar o horror dos guarda-roupas da epoca. Fedentina medonha; com a umidade as peles apodreciam infecionando as cavernas; e com o sol ressecavam, tornando-se incomodas e quebradiças. Isso fez que tratassem de descobrir coisa melhor que a pele crua — e desse tratar de descobrir veio toda a maravilha dos tecidos modernos.

Antes de aparecerem esses tecidos, porem, o homem descobriu o meio de transformar a pele crua no que chamamos couro curtido. Sabe o que é curtir couros, Pedrinho?

— Sei vóvó, e até já estive num curtume. Eles mergulham o couro cru num tanque d՚agua misturada com tanino, e depois de varios dias de banho o couro fica diferente — fica curtido. Não apodrece mais com a umidade e torna-se macio.

— E que tanino é esse? quis saber a menina.

— O tanino é uma substancia que existe em certas plantas. Lá no curtume em que eu estive eles usavam a casca duma arvore chamada barbatimão, que é muito rica em tanino. Eu mordi um pedaço dessa casca. Tem um gosto acido de banana verde.

— E՚ que a banana verde contem muito tanino, explicou dona Benta. Pois os nossos antepassados fizeram logo essa invenção. Tratando as peles cruas em banhos de tanino, transformavam-nas em couro curtido, que é macio e não apodrece. Todas as peles que usamos hoje são curtidas.

Mas a pele dos animais não bastava para vestir tantos homens que já havia, alem de que em muitos pontos as peles rareavam. Foi necessario descobrir substitutos. No Egito, e naquela Mesopotamia famosa, os homens tanto experimentaram fazer tecidos desta ou daquela fibra de planta, que por fim descobriram o linho. Chama-se linho a fibra duma planta classificada pelos botanicos de Linum usitatissimum. A gente de lá não tinha de defender o corpo contra o frio, mas sim contra o calor, pois são regiões quentissimas. O linho resolveu o problema. Veste o corpo com toda a macieza e afasta o calor. Mas o que estou contando em meia duzia de palavras, quantos anos não levou para ser realizado? Quantos milhares de anos não levou o homem a usar peles enquanto não achava substitutos?

— Eu calculo em 2500 anos, sugeriu Emilia.

— Não seja boba, disse Narizinho. Continue vóvó.

— Logo que um invento desses era feito, espalhava-se por toda parte, de modo que a aplicação do invento se ia generalizando. Os chineses descobriram que com o fio do casulo duma lagarta tambem era possivel fazer tecidos — e apareceu a seda e a criação do bicho da seda. O homem ficou com o linho e a seda. O algodão tambem já era conhecido...

— Onde surgiu o algodão?

— Um antiquissimo historiador grego, Herodoto, fala que veio da India, mas não temos meios de saber com certeza. E՚ antiquissimo, embora só modernamente sua cultura tomasse a grande extensão que tomou. Hoje a base do vestuario humano é o algodão. Mais que a lã, mais que a seda, que o linho, que tudo.

Os povos naqueles tempos eram vitimados por calamidades constantes. Cada inverno rigoroso dava lugar a hecatombes, sobretudo de crianças. O problema do vestuario ainda não estava bem resolvido. Só seria bem resolvido com a lã — e a lã apareceu. Os homens tiveram a esperteza de domesticar um animalzinho que os romanos chamavam ovis e nós chamamos ovelha ou carneiro — um animal muito timido, de muito bom genio, que só sabe fazer tres coisas: obedecer ao pastor, pastar capim e produzir lã. Todos os anos tosavam-lhe a la e com ela teciam um vestuario quentinho, o melhor de todos para as regiões frias.

— E onde começou isso?

— No centro da Asia. Foi do Turquestão que a industria da lã se espalhou para a Grecia, para Roma e para o resto do mundo, chegando até áquelas ilhas nevoentas que hoje chamamos Ilhas Britanicas. As Ilhas Britanicas se tornaram mais tarde o maior centro mundial dos tecidos de lã. Ainda hoje quem veste o mundo, com a lã dos carneiros que se criam na Australia e em outras colonias, é a Inglaterra. Os ingleses construiram maquinas aperfeiçoadissimas para limpar, alisar e tecer a lã. Ficaram os reis da lã, os mestres. Quando a gente diz "casimira inglesa", todos tiram o chapeu.

— E՚ porisso que entre nós há tantas casimiras inglesas, observou Pedrinho, ainda que tenham o cheirinho do Braz [1] onde são fabricadas...

— O que a Inglaterra fez com a lã, a China fez com a seda. Foi na China que se desenvolveu a cultura do Bombix mori, uma lagarta que para enrolar o casulo tira das suas glandulas quasi mil metros dum fio finissimo. Os homens tomam esses casulos e desenrolam o fio, formando as meadas de seda com que tecem os mais lindos tecidos que existem.

Os chineses consideravam a seda como de origem divina, e uma rainha de nome Si-lung, esposa do grande imperador Huang-ti, que reinou mais de mil anos antes de Cristo, foi a primeira pessoa que fez um estudo cientifico do maravilhoso bichinho.

— Mas então o Bombix era tambem um grande inventor, disse Narizinho. Inventou um casulo feito de fio de seda enroladinha.

— Perfeitamente. Mas fez esse invento e parou. Se tivesse a faculdade inventiva tão grande quanto a do homem, teria ido alem. Parou no fio. O homem tomou o fio e dele tirou as maiores maravilhas que ha em tecidos — os crepes, os cetins, os veludos, os tafetás, as musselinas, etc.

Os chineses conservaram essa industria em segredo por mais de vinte seculos. Era um segredo sagrado. Por fim o Japão conseguiu importar de lá umas chinesinhas na posse do segredo e tambem se fez grande produtor de seda. Mais tarde uma princesa da China fugiu para as Indias, levando escondidos no penteado sementes da amoreira e ovos do Bombix — e nas Indias a industria da seda tambem se desenvolveu. A folha da amoreira constitue o alimento exclusivo da lagarta.

— Quer dizer então que a՚ seda não passa de folhas de amoreiras transformadas em fios pelas glandulas da lagartinha maravilhosa? perguntou a menina.

— Isso mesmo. Mas a seda foi por muito tempo uma preciosidade que só os principes ou os grandes magnatas podiam usar. Era carissima. Um dia dois monges persas, de viagem pela China, conseguiram atravessar as fronteiras com mudas da amoreira e ovos do Bombix ocultos num canudo de bambú, e vieram orgulhosos oferecer o regio presente ao imperador de Constantinopla. Anos depois estava Constantinopla transformada no centro das sedas do mundo ocidental.

Quando os Cruzados saquearam essa cidade levaram de lá canastras e mais canastras de peças de seda, espalhando-as por toda parte como grande novidade, isso trinta seculos depois da criação da industria na China. A seda ficou então conhecidissima, mas sempre como coisa preciosa. Um principe da Borgonha contava com orgulho que no enxoval da sua filha figurava um "par de meias de seda real". E mais tarde a Imperatriz Josefina quasi arruinou o seu marido Napoleão, tanta erá a seda que encomendava para o seu vestuario.

A furia das mulheres europeias em usar sedas foi crescendo a ponto de já não haver Bombix que chegasse. Seda ! Seda ! Seda ! era o grito universal das elegantes. O genio inventivo do homem, então, pôs-se em campo para resolver o problema. Tinha de inventar a seda artificial, barata — e a seda artificial surgiu. Com a mesma materia prima com que se faz o papel, chamada celulose, os quimicos criaram o rayon, ou seda artificial. Liquefazem a celulose e deixam-na escorrer em fiozinhos, que secam, ficando com o mesmo brilho e a mesma flexibilidade da seda natural. Infelizmente não possuem a mesma resistencia e duração. Por mais esperto que seja o homem, o Bombix ainda se ri da seda que o homem faz.

Mas reparem que tudo isto não passa de desenvolvimento da primitiva ideia do bicho-homem, de cobrir o corpo com uma pele de urso. O dificil foi ter essa ideia. O resto veio naturalmente, como consequencia forçada. E-assim com todas as invenções. O dificil é sempre o primeiro passo. Dado o primeiro passo, o resto vem naturalmente.

 

Tia Nastacia entrou nesse instante, muito aflita, dizendo que Emilia estava brigando com o Quindim.

— Já sei, disse dona Benta. Com certeza quer convence-lo a andar vestido. Que se arrumem por lá. São nove horas e quero dormir. Fica o resto para amanhã.


  1. Bairro industrial de São Paulo.

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.