Historia das invenções (4ª edição)/I

CAPITULO I

O Bicho Inventor

 

Depois que na peneira de pipocas só ficaram os piruás, isto é, os grãos de milho que não rebentam, dona Benta continuou:

— Van Loon começa este capitulo assim: "Um belo dia um grãozinho de pó pesando apenas 6.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 de toneladas destacou-se do Sol para começar sua vida propria pelo Espaço.

— Nossa Senhora! exclamou a menina. Nem Quindim é capaz de ler esse numero.

— E esse fato, continuou dona Benta, não causou nenhuma perturbação no ceu. Era tão pequenininho o tal grão de pó destacado do Sol, que nenhuma das outras estrêlas deu pela coisa. E՚ nesse microscopico grão de poeira que vivemos, meus filhos. Somos uma poeirinha viva sobre esse grãozinho de poeira astronomica... E os outros astros são tambem grãos de poeira, com certeza habitados por seres absolutamente incompreensiveis para nós. Pois bem, no nosso grãozinho de poeira formou-se a Vida, surgiram os animais, que são seres com vida, e pelo espaço de milhões e milhões de anos os animais se foram revezando no dominio da terra, ora vencendo uma especie, ora vencendo outra, até que apareceu o homem, o atual vencedor.

— Atualmente só, vóvó? Não poderá ficar o vencedor sempre?

— Impossivel responder, minha filha. Assim como no (animal homem) surgiu essa inteligencia que lhe deu o dominio da terra, pode surgir outra forma de inteligencia, mais apurada, em outro qualquer ser, numa planta, num peixe, numa formiga, num microbio — e o homem terá de entregar o cetro de Rei dos Animais, desaparecendo da superficie da Terra como tantos outros reis já desapareceram.

— Mas como o homem tomou conta da Terra?

— E՚ o que Van Loon procura explicar nesse capitulo. Logo que a crosta se resfriou a ponto de permitir a Vida, a Terra se foi povoando rapidamente duma infinidade de plantas, de animais cascudos e de seres que viviam no seio das aguas. Se eu fosse Van Loon contava a coisa de outra maneira, porque estou convencida de que a Planta é tudo, e que todos os animais não passam de parasitas, ou pragas da planta.

— A senhora já disse isso na Geografia, lembrou Pedrinho.

— Pois é. Veio a Planta, numa infinidade de especies vegetais de todos os tamanhos e tipos; e a abundancia de vegetais trouxe consigo a abundancia de animais, isto é, de parasitas da planta.

Desses animais muitos nunca deixaram as aguas e foram os antepassados dos peixes que existem hoje — esses que o homem pesca, salga e enlata, para empregá-los na alimentação.

Outros, os antepassados dos lagartos e das cobras que existem hoje, ocuparam tais extensões da Terra (como sabemos pelos fosseis encontrados) que com certeza foram os reis da criação em seu tempo. Algum lagartão de tamanho descomunal havia de rir-se dos outros seres, como nós hoje nos rimos de todos, e havia de chamar-se a si mesmo Rei dos Animais. Isso porque durante milhões de anos o clima da Terra, as chuvas torrenciais e a excessiva umidade do ar favoreciam o desenvolvimento desse tipo de vida. Nós somos um tipo de vida. A planta é um tipo de vida. O microbio é um tipo de vida. Nessa epoca a que me estou referindo o clima favorecia o tipo de vida representado pelos Saurios, animais que tanto viviam na terra como na agua.

— E grandes, não?

— Monstruosos, minha filha. Atingiam proporções que nos enchem de espanto. Dentro d՚agua deviam dar ideia de embarcações, de hiates ou submarinos em movimento. Surge agora um problema. Como foi que esses monstros, que eram os donos da Terra, desapareceram por completo? Só temos noticias de sua existencia pelos esqueletos encontrados nas escavações, ou conservados dentro dos gelos eternos. Como foi que desapareceram?

Aqui entram em cena as hipoteses. Van Loon opina que as causas do desaparecimento deviam ter sido varias, e cita uma bastante curiosa. Diz ele que esses animais se foram desenvolvendo de tal maneira, crescendo tanto, encoscorando tanto nos cascões de defesa, aumentando de tal forma a força e o tamanho das garras e dos chifres, que acabaram vitimas do excesso de força.

E faz uma comparação muito curiosa com as modernas potencias militares, ou Grandes Potencias, como se diz. Esses paises estão se armando de tal maneira na terra, no mar e no ar, estão se fortificando com tamanho numero de canhões, tanques, metralhadoras, carabinas, gases mortíferos, navios encouraçados, submarinos, aviões de bombardeio, etc., que acabarão vitimados pelo excesso de armamentos, do mesmo modo que os grandes saurios de outrora [1].

Ficaram tão grandes, esses saurios, tão pesados em suas armaduras, que acabaram vencidos pelo peso do armamento. A carga tornou-se excessiva. Perderam a mobilidade e foram morrendo de fome, atolados nos lameiros, quando uma mudança qualquer de clima trouxe escassez de vegetação.

— Compreendo, disse Pedrinho. Se os bois tão lindos que o coronel Teodorico tem no Pasto Grande ficarem sem aquele famoso capim gordura que cresce lá, levam a breca, a não ser que o coronel os mude para outro pasto.

— Isso mesmo. Se sobrevier uma mudança de clima que mate todo aquele capim, e se os bois estiverem gordos demais a ponto de não poderem andar, ou o compadre os tira de lá ou eles morrem de fome. Os saurios daquele tempo perderam o pasto — e como não tinham nenhum compadre que os acudisse, foram desaparecendo um por um. Hoje vemos os seus esqueletos nos museus e os pobres museus ficam tontos para acomodar tamanhas carcassas. Basta uma delas para encher toda uma sala imensa. Violentas mudanças de climas deviam ser mais frequentes naquelas epocas do que hoje, porque á medida que a Terra vai envelhecendo vai criando juizo — ha menos mudanças bruscas, menos terremotos, menos erupções vulcanicas. Um dia chegaremos ao estado em que está a Lua, um estado parado, caduco, morto, que quasi não muda — e será então o começo do fim da nossa Terra.

Pois foi assim que os milhões de enormes saurios que dominavam a Terra desapareceram completamente, isso muito antes que os grandes mamiferos e o homem dessem sinal de si.

Mas afinal o homem deu sinal de si. Apareceu. Não de súbito, do dia para a noite, caido das nuvens. Foi aparecendo aos poucos gastando nisso milhares de anos. Apareceu juntamente com os macacos, os chimpanzés, os orangotangos, os gorilas. Era um deles. Peludo, andando de quatro, feiissimo. Dessa grande familia macacal um ramo começou a modificar-se num certo sentido, até virar no que chamamos Homem. Outros ramos desenvolveram-se em sentido diferente e ficaram o que são hoje — os Simios. Outros desapareceram.

Andavam de quatro pés. Os do ramo macaco-homem aprenderam a andar sobre dois apenas, e os dois pés que sobravam lentamente se foram transformando em mãos. Foi um enorme progresso, porque para caminhar sobre a terra quatro pés são demais. Dois bastam. E dois bastando, sobram dois, que virando mãos se tornam de grande utilidade para o individuo.

O primeiro grande passo, o primeiro grande progresso dessa especie animal foi esse — transformar dois pés em duas mãos. Tudo mais decorre daí. Puderam mudar de habitos, e tanto caminhar sobre o chão como sobre as arvores, desse modo adquirindo enormes vantagens sobre os que só andavam pelo chão. Viraram acrobatas maravilhosos. Aprenderam a dar saltos dum galho a outro, duma arvore a outra, escapando assim com facilidade de todos os inimigos quadrupedes. E naquela Terra em que os Saurios já tinham sido os dominadores absolutos, os Simios entraram a dominar.

Mas deu-se outra mudança na superficie da Terra. As aguas retrairam-se e as areas de terra firme aumentaram. A temperatura tambem diminuiu, com o ar já menos umido. As condições, portanto, se tornaram menos favoraveis para a vida das plantas. Em vez da floresta ser uma coisa continua, começou a sofrer interrupções (isso em milhares de anos). Interrompia-se aqui para só recomeçar muito lá adiante. Surgiram manchas de campo, isto é, de chão revestido de vegetais rasteiros. As florestas ficaram como ilhas dentro do mar de vegetação rasteira.

Isso veio mudar a vida dos Simios, sobretudo daquele ramo donde la sair o Homem. Já o futuro Homem não podia, como antes, viver exclusivamente sobre as arvores, locomovendo-se por entre as copadas? Quando a floresta parava e começava o campo, ele tinha de refletir, de estudar o caso.

Tambem as montanhas se ergueram naquele tempo a muito maior altura'por causa do abaixamento das aguas, de modo que os nossos antepassados, alem da barreira dos campos, tiveram ainda a atrapalha-los a barreira das montanhas. E então a Lei da Sobrevivencia dos mais aptos que nunca deixa de agir, fez valer a sua força.

— Que lei é essa, vóvó?

— Quer dizer que na luta pela vida, na luta entre as especies ou contra as coisas que nos rodeiam, vence sempre o mais apto, isto é, o mais esperto, o mais jeitoso, o mais preparado para mudar de sistema quando isso convem. O nosso macaco-homem já estava com a inteligencia mais alerta que a dos outros e se ia adaptando ás mudanças verificadas na superficie da Terra. Vencia as dificuldades. Sobrevivia. Era o mais apto, como se diz em linguagem cientifica, e o mais apto sobrevive sempre, isto é, continua a viver enquanto_o menos apto leva a breca.

Aquele animal peludo que se mostrava mais apto que os outros, que já pensava, que já estudava as situações comparando uma coisa com outra, que já fazia tudo para sobreviver, que já havia transformado dois pés inuteis em duas mãos utilissimas, lutou de rijo contra os novos obstaculos que as mudanças na superficie da Terra criaram e adaptou-se a eles. Acabou vencendo.

— Como?

— Tornando-se o que precisava ser. Tornando-se INVENTOR. Com os inventos que ia fazendo aumentava o seu poder sobre a natureza, e não se deixava vencer pelos obstaculos. A partir dessa epoca a Terra viu proliferar sobre sua crosta um bicho diferente dos demais. Um animal que criava coisas. Um animal que inventava. O Homem, enfim.

Quando hoje falamos em invenção imediatamente nos vêm á ideia as ultimas grandes invenções humanas, como o radio, a televisão, o cinema falado. Naquele tempo o pobre bicho peludo só inventava coisas extremamente simples, que depois ia aperfeiçoando. E como uma invenção sai de outra, as grandes invenções de hoje não passam do desenvolvimento das modestas invençõezinhas dos nossos antepassados peludos.

— Mas era só o bicho homem que inventava? perguntou Pedrinho.

— Não. Todos os animais possuem uma certa capacidade inventiva. As aves, por exemplo, inventaram os ninhos, alguns bastante engenhosos. As aranhas inventaram um variado sistema de teias para apanhar insetos. As abelhas e as formigas inventaram inumeras coisas para resolver seus problemazinhos de alimentação e moradia. Os castores se tornaram verdadeiros arquitetos. Mas esses animais, depois de inventarem uma certa coisa boa para eles, paravam. O homem não. O homem nunca parou de inventar, mais, mais, mais, sempre mais, e desse modo foi desenvolvendo a sua capacidade inventiva até distanciar-se infinitamente de todos os outros seres que habitam a Terra.

Os ninhos, as teias de aranha, as construções dos castores, por exemplo, são sempre os mesmos. Eram ha dois mil anos o mesmo que são hoje e daqui a mais dois mil anos serão ainda o mesmo. Já o homem está mudando sempre, inventando sempre, aperfeiçoando sempre. As casas de ha 2000 anos eram muito diversas das de hoje, e as do ano 3000 vão ser muito diferentes das de agora.

Os outros animais só inventaram para dois fins: garantir a alimentação e a morada. Conseguindo isso, pararam. Parece que o espirito inventivo deles adormeceu. O homem, não. Quanto mais inventa, mais quer inventar e mais inventa. Nunca parou, nem nunca parará. E a coisa vai com tamanha velocidade, que é impossivel prever o que seremos daqui a alguns milhares de anos.

— Pois até bonecas pensantes, falantes e asneirantes nós já inventamos, murmurou Narizinho com os olhos na Emilia.

Dona Benta riu-se e prosseguiu:

— A raça humana começou com uma enorme vantagem. A vida dos homens primitivos sobre as arvores, com a agilidade e alerteza que eles precisavam ter, deu-lhes uma forte superioridade sobre os seres que viviam no chão. Tinham de usar muito mais o cerebro do que os quadrupedes de baixo, que só usavam a força bruta. Depois, quando veio a mudança de que falei e eles se viram diante das florestas diminuidas, dos tais campos rasos e das tais barreiras de montanhas, já estavam suficientemente ageis para, mesmo fora das florestas, livrar-se dos perseguidores.

Os que tiveram de desistir das florestas para morar unicamente em planícies despidas de vegetação alta, aperfeiçoaram-se com rapidez na arte de andar de pé, sem a ajuda das mãos (nas florestas caminhavam segurando-se com as mãos nos troncos do caminho), tiveram de contar unicamente com os pés, já que as mãos não tinham em que agarrar-se. E aquelas mãos, que a principio só serviam para ajudar aos pés, começaram a ter outros empregos. Começaram servir para segurar coisas, para carregar coisas, para despedaçar coisas. Foi um grande progresso. Os outros animais não podiam fazer isso. Para segurar, carregar e despedaçar coisa só usavam os dentes; o bicho-homem segurava, carregava e despedaçava com as mãos, conservando os dentes livres para a defesa. Como vocês estão vendo, a vantagem era enorme.

Foi esse o grande passo que o bicho-homem deu, e que lhe permitiu distanciar-se de todos os outros animais. Dali por diante suas invenções seriam sempre no sentido de aumentar o poder dos pés e das mãos — como tambem aumentar o poder dos olhos, dos ouvidos e da boca, e aumentar a resistencia da pele. Graças a esses aumentos o homem ganhou Eficiencia, isto é, ganhou um poder tão grande que o fez o rei da Terra. Hoje quem manda é ele — e a não ser que a faculdade da invenção se desenvolva tremendamente numa formiga ou num microbio, o homem continuará rei enquanto a Terra for a Terra.

— Então a Terra pode algum dia deixar de ser a Terra? perguntou Pedrinho.

— Se as condições de clima que temos hoje mudarem de modo que a vida se torne impossivel, como na Lua, então a nossa Terra deixará de ser este maravilhoso canteiro da Vida para tornar-se uma coisa morta como a Lua. E՚ nesse sentido que falei. Se todos desaparecermos, se isto aqui ficar uma aridez sem sinal de vida, como a Lua, então a Terra deixará de ser a Terra. Terra é o nome que demos ao grãozinho de pó. Se desaparecermos, desaparece tambem a denominação que lhe demos, e portanto desaparece a Terra...

Os meninos ficaram pensativos. Dona Benta continuou:

— Mas isso não foi tudo. Alem da diminuição das florestas e do elevamento das montanhas, o bicho-homem teve de lutar contra outro terrivel fenomeno daqueles tempos: o enregelamento de enorme parte da superficie da Terra. Os sabios chamam a isso Glaciação. Houve varios Periodos Glaciais, em que os gelos tomaram conta do mundo só poupando uma faixa lado a lado do Equador. A temperatura baixou muito. As condições de vida tornaram-se durissimas. Os animais e as plantas tiveram de ir recuando para a faixa do Equador, unico ponto onde a vida lhes era possivel.

Ora, todos os animais e plantas são por natureza preguiçosos. Repare naquele gatinho ali. Se está com a barriga cheia, o que quer é dormir, e não fazer nada. Todos os seres são assim. Querem e preferem o sossego, a paz, a ausencia de trabalho. Seja leão, camarão ou pulga, se podem estar cochilando não estão trabalhando. E o bicho-homem tambem devia ser assim. Mas aquelas sucessivas calamidades, e por ultimo a invasão dos gelos, o tornaram terrivelmente alerta e trabalhador. A necessidade põe a lebre a caminho, diz o ditado — e foi a necessidade que botou no caminho do progresso os nossos antepassados peludos. Tiveram de correr, de pensar depressa, de inventar uma, duas, dez e cem coisas diferentes para vencer os obstaculos que as mudanças de clima e outras lhes vinham criando.

O gelo equivaleu ao mais formidavel dos chicotes. Horrorizado com a perspectiva de morrer de frio, o bicho-homem deu tratos á bola e acabou despertando o imenso Poder que jazia adormecido em suas mãos, em seus pés, em seus olhos e em sua boca, a ponto de tornar-se essa Força da Natureza que hoje é. Porque, meus filhos, os atuais descendentes do pobre bicho-homem são hoje uma Força da Natureza. O que ele tem feito é prodigioso. Milagres sobre milagres. Milagres que deixam a perder de vista o que ele, na sua ingenuidade religiosa, chama milagres.

 

Era hora de dormir. Emilia rematou a noitada com uma asneirinha a que ninguem deu atenção porque todos estavam de olhos muitos abertos, pensativos. As palavras de dona Benta haviam enchido a cabeça das crianças com um panorama tremendo — e nos sonhos daquela noite houve até pesadelos. Narizinho sonhou que seus pés tambem se tinham transformado em mãos, o que a deixava atrapalhadissima. "Como andar agora?" E Emilia, que estava perto, asneirou: "Sentada em cima de Rabicó; com os quatro pés do marquês e as quatro mãos nasais, você vira um novo "tipo de vida", capaz de tomar conta do mundo — vira um "Rabicauro". "Que historia é essa, Emilia?" perguntou a menina; e o diabrete respondeu: "Assim como a combinação de homem e cavalo produziu o Centauro, a combinação de você com Rabicó produzirá um Rabicauro..."

Essa asneira da Emilia foi classificada como a Asneira N.° 1.


  1. Isto foi escrito muito antes do rompimento da Segunda Guerra Mundial.

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.