Herança de Lagrimas/III
Davam dez horas quando entrei nos esplendidos salões da viscondessa.
Nunca meus olhos se tinham aberto em ambito tão rescendente dos perfumes da sociedade escolhida. Tudo ali era grande e magnifico. Á exquisita e rica elegancia dos adornos, juntava-se o prestigio que infundem ainda estes nomes reverenciados desde seculos.
A sala de recepção, admiravel peça oitavada, molduravam-n'a quadros que deviam ser de grande custo, os quaes se reproduziam como por encanto nos ricos espelhos sobrepostos ás abundantes étagères carregadas de bijuterias de preço, de flores rarissimas e candelabros de crystal.
Seguia-se a esta a sala do concerto, onde os musicos preludiavam uma symphonia cadenciosa , fazendo lembrar um cantico da orchestra celeste, entoada por uma chorêa d'anjos. D'aqui passava-se á peça mais ruidosa e mais querida da mocidade: o salão de baile. Cada um d'estes recintos tinha a sua feição particular, sem comtudo destoar do primeiro.
As damas surprehenderam-me pelo bom gosto de seu trajar, mais que pela riqueza dos estôfos e atavios.
Inquestionavelmente, as senhoras de Lisboa primam em elegancia natural e n'uma graciosidade seductora que lhes dá ainda maior realce.
Conheci tudo isto n'um relance d'olhos; mas não sei se a minha demasiada confiança ou despretensão me valeu, para me não sentir mal em tal concurso, onde tinha por honra sahir airosamente a bem dos nossos creditos de provincia. Se consegui vencer, foi por certo com a simplicidade. Escolhi a brilhantina branca e o blonde, como o symbolo da singeleza. A saia, toda apanhada em rufos, prendia ao lado com um bouquet de rainunculos naturaes, que juntavam a seu brilho uma graça que não desmerecia no meio dos velludos e pedrarias que sobrecarregavam alguns peitilhos; juntei a isto simples braceletes de coraes e perolas, e no collo mal se distinguia uma ligeira fita preta apertada por um rubim de preço. Os cabellos, levantei-os frisados em bandós, collocando sobre elles uma grinalda de flores iguaes á da guarnição do vestido, e vindo fechar sobre a fronte com um diadema do mesmo lavor dos braceletes.
Dito isto está dito tudo : a minha despresumida garridice não chamava a attenção nem afeava o brilhantismo de tal festa.
Vamos agora ao mais importante.
Quando assomei á soleira da porta, a viscondessa levantou-se d'uma cadeira d'espaldar, adiantando dois passos a receber-mé com a amabilidade digna e nobre d'uma rainha. Depois de mutuamente nos cortejarmos, voltou-se para duas senhoras que estavam a seu lado.
― Apresento-lhes ― disse ― uma das mais peregrinas formosuras do nosso Minho, desse jardim onde desabrocham como espontaneamente flores desta natureza.
As minhas faces purpureavam-se ouvindo-me encarecer assim. Respondi, comtudo, superando o meu embaraço: ― O' minha senhora!.. Ha um requinte de bondade em v. ex.a que chega a confundir-me. Todavia quem entra n'esta sumptuosa mansão presente que a magica varinha da poderosa fada d'estes logares tem o poder de transformar em roza opulenta a mais humilde e rasteira urze. ―
Prometti ser sincera, minha Henriqueta, nem eu para ti estaria a cubrir-me com o véo da falsa modestia. Festejaram as damas e cavalheiros presentes a originalidade bucolica do meu dizer, e passados dois minutos confluiam para mim todos os olhares; achando-me de repente debaixo da pressão d'uma curiosidade, que com quanto me não incommodasse me perseguia, por ser o meu desejo não incitar reparos.
Começou pouco depois o concerto em que tomaram parte algumas senhoras. A este seguiu-se a dança a que não pude eximir-me temendo me acoimassem de excentrica ou da falta de saber. Acceitei, pois, os pares que á porfia me buscavam, sem bisonhice, nem grande apressamento. Fiz por conservar o meu ar naturalissimo, discorrendo com os meus pares sobre musica e litteratura, como costumavamos fazel-o ambas nas nossas familiares palestras.
Notei n'estes homens d'aqui mais conhecimentos para enlevar e prender o espirito, bem que a sua graça seja mais frivola, e por isso mesmo menos verdadeira.
Depois de ter dançado não sei quantas quadrilhas e walsas, tomei o braço d'uma das damas que me apresentára a viscondessa, não por sympathisar muito com ella, apezar da sua formosura, mas por julgar necessario travar d'estas relações de sociedade e corresponder ao amigavel acolhimento que recebi.
D. Guiomar de Menezes, é o seu nome, pertence á mais apurada e fina aristocracia. E' casada ha annos com um cavalheiro addido á legação ingleza em Londres, onde tem demorado com a esposa que, segundo me quiz parecer, nada aproveitou dos costumes e severas lições das mulheres d'aquelle paiz.
Depois de atravessar o salão, sempre envolvidas n'uma nuvem d'homens, affastamo-nos maquinalmente para a sala do concerto, abandonada a dois ou tres sujeitos de idade, que placidamente discutiam politica.
Sentadas em frente uma d'outra, a nossa conversação esmoreceu gradualmente, começando eu a sentir a garra insanavel do fastio que me segue a toda a parte. D. Guiomar tambem me parecia preoccupada, e sem desejos de voltar ao salão onde a essa hora deviam procurar-nos.
Em que pensavamos nós? Ella, não sei dizer-te, mas iria jurar que eram tristes seus devaneios; eu, perguntava ao meu destino que rigores lhe mereceria mais.
Mergulhada n'estas tropelias da minha imaginação, esqueci-me completamente, e creio que suspirei.
― Os anjos denunciam a sua essencia angelica ― murmurou uma voz aos meus ouvidos.
Voltei-me rapidamente, e dei de rosto com um mancebo que me contemplava. Cortejou-me respeitoso, estendeu a mão a D. Guiomar que fitava com certo alvoroço e voltando-se para mim:
― Não tenho a honra de a conhecer, minha senhora, nem a creio de Lisboa. Porem, a côr dos olhos e dos cabellos, e não sei que instincto secreto me está dizendo que fallo a uma dama portugueza. Vou pedir por tanto a v. exc.a que me dispense costumes que nos vieram importados não sei d'onde. Fallo no louco preconceito de não poder um cavalheiro dirigir-se a uma senhora que vê pela primeira vez. Deixa-me v. ex.a esperar o perdão de tal ousadia? ― Não pude deixar de sorrir, respondendo com alguma reserva.
― Pede pouquissimo para receiar uma recusa. Mas como toda a culpa tem castigo, imponho-lhe a penitencia de me julgar deusa ou houry, já que me deu o primeiro diploma d'anjo.
― Comprehendo e admiro o espirito de v. exc.a ― respondeu um pouco vexado o meu interlocutor. ― Sinto n'este momento, uma dor, que me castiga mais o coração do que a vaidade. Creia-o, minha senhora. Se não receiasse os seus motejos dir-lhe-ia como o mais querido poeta:
«Pourqoi mon cœur bat il si vite?
«Qu'ai-je donc en moi qui s'agite
«Dont je me sens épouvanté ?»
Sem saber explicar-te porque, arrependi-me de ferir a susceptibilidade d'aquelle homem, que se me afigurava debaixo de feições mui diversas. Tomára-o a principio por futil galanteador, e logo me apparecia o poeta, o idealista talvez !
Foi com pezar que o vi ir de caminho sem esperar resposta, ficando eu discutindo-o mentalmente dois minutos, que tantos decorreriam até á entrada da viscondessa, cuidadosa da minha desapparição. Dava ella o braço a uma senhora que me tinha impressionado durante o concerto pela maviosidade e intimativa de seu canto. Estimei o ensejo de aproximar-me d'ella, trocando algumas palavras em que deixei transparecer o gosto sincero que me dera em ouvil-a. Recebeu com tanta modestia os meus gabos, que, passados alguns momentos presas por mutua sympathia, conversavamos como se de muito nos conheceramos. Continuou a dança.
De relanço notava eu que o meu incognito seguia todos os meus movimentos, mas com certo disfarce; e eu procurava affastar sempre os olhos do local em que o via, fingindo não o perceber.
No fim da noite tornei a achar-me ao lado da gentil cantora, que possue uma instrucção e espirito nada vulgar.
― Estas festas ― disse-lhe eu ― não curam enfermos de coração, pelo contrario esta luz é demasiado viva e entoutece-os dolorosamente.
― Assim é ― respondeu ella, depois de olhar um pouco para mim. ― Eu tambem gosto mais das trevas: o pensamento vôa mais livre, e a alma faz-se melhor. No meio d'este bulicio, agitam-se paixões mesquinhas, sentimentos ignobeis . Seja minha amiga, sim? Eu vivo só desde que a minha extremosa mãe baixar á sepultura. Meu pai, o conde d'Alvarães, é a personificação da bondade releve-me este sancto orgulho. Quero que o conheça, certa de que encontrei uma alma superior capaz de aprecial-o. Tenho ainda um irmão, um verdadeiro coração de poeta, um desgraçado que vive de chimeras, e que posso roubar com todo o meu carinho não sei a que sestro infeliz que lhe cava abysmos em toda a parte. O mundo, sempre injusto, accusa-o de crimes que elle em consciencia não pratica, e por assim dizer fere-me a mim tambem porque o estimo, e sinto as suas dores como minhas. Não faltará occasião em que v. exc.a o conheça, e verá que este elogio não é exagerado.
― Creio; e tem já seu irmão duas recommendações a meus olhos que valem muito.
V Eil-o! ― bradou ella de repente ― Apresento-te a senhora D. Dianna de Sepulveda. Minha querida amiga ― continuou, voltando-se para mim ― Nuno d'Alvarães, meu irmão.
Fitei o homem que estava diante de nós com certo enleio. Era elle. Comprimentámo-nos em silencio.
― Fallavamos de ti ― tornou a minha nova amiga ― Tenho orgulho em dizer-te que achei uma intelligencia distincta n'esta senhora, e sobre tudo o coração sincero de que carecia o meu espirito.
Eu sentia-me um pouco embaraçada, e para sahir d'esta situação entendi rompel-a com arrojo.
Estendi pois a mão ao visconde de Alvarães, dizendo-lhe:
― Culpo-me de ser ha pouco severa ou arrebatada em demasia: como v. exc.a quizer. Entre desditosos a attracção é visivel e singular Respondo agora pela authorisada voz do mesmo Alfredo de Musset que me citou, e que por assim dizer, traduz os sentimentos um pouco imitaveis da minha alma:
«Je te suivrai sur le chemin,
«Mais je ne puis toucher ta main,
«Ami, je suis la solitude».
Aproximou-se-nos meu marido: deixei o baile.
Assim acabou a minha entrada no mundo. Creio que não omitti coisa essencial, e que me ficarás obrigada pela prolixidade occiosa da minha narração.