Herança de Lagrimas/II
Interrompi hontem bruscamente a longa carta em que, pondo de parte os mil incommodos d'uma jornada de sete dias, dentro d'aquelle abafador transporte da liteira, e o arrastado d'aquellas horas de permanente tête-à-tête com uma pessoa que dormita as tres quartas partes do tempo, me dispunha a descrever-te a impressão que me causou esta magnifica cidade, para a qual os provincianos, como nós, olham e não sem razão com verdadeiro enlevo.
Até mesmo para as almas prosaicas que nunca sahiram de Portugal, e que, por uma estupida monomania do seculo, só acham sublime e primoroso o que, por fé e favor dos almanacks, sabem e conhecem dos paizes estrangeiros, Lisboa deve ser uma cidade admiravel, pela magestosa grandeza de seus edificios, e o espaçoso de suas ruas principaes. A mim me pareceu, vendo-a do alto de S. Pedro d'Alcantara,-permitte linguagem figurada-uma dama graciosa espreguiçando-se gentilmente em fofo relvado de jardins, e remirando-se alem no espelho immenso, onde se banham aquellas saudosas Tagides do nosso divinal poeta.
O Tejo! Fazes lá idéa como é lindo, como é surprehendente por noites de luar o espectaculo que se goza do cáes de Sodré ou Terreiro do Paço, vendo fumegar uma immensidade de barquinhos, que são talvez para muitos o patrimonio, as rendas, e a esperança d'uma familia?! Vistas a distancia, todas aquellas luzinhas, fulgindo aqui, e alem, umas tremulas e vivazes, outras frouxas e quasi indistinctas até se sumirem nas vagas azuladas que encrespam ao de leve, e põem em suave baloiço aquellas frageis conchinhas! Ha n'isto por vezes uma illusão d'optica que nos prende a vista e a alma. Parece queas estrellas estão baixando do céo á terra, convidando-nos o pensamento a seguir-lhes o rasto immutavel.
Agora comprehendo eu as voluptuosas gondolas de Veneza, os amorosos rugidos do Adriatico. O embate das ondas, o bramido do mar, sempre me causou sensação de dor amarga e irritante: porém, este rio, que tanto se lhe pode comparar pela grandeza, exerce ao contrario sobre mim uma influencia diversa. Sinto na sua contemplação um bem-estar que me refrigera os padecimentos do espirito, sem comtudo me atrophiar as faculdades intellectuaes.
N'esses momentos de concentração, parece que sinto despegarem-se-me umas azas invisiveis, que vou tomar o vôo, e remontar-me não sei a que mundos, a que hemispherios e plagas desconhecidas.
Ó Henriqueta! que immensa gratidão devem a Deus aquelles que encontraram na terra esse outro ser que lhes completa a vida, refazendo n'uma só duas almas ?! Felicidade sem sombra seria por horas d'essas achar ao nosso lado quem nos acompanhasse nas excursões febricitantes do devaneio. Como seria doce cahir d'essas alturas para sentir o braço robusto e amparador que transformaria o mundo real no paraiso de nossos primeiros paes?!
Ai! minha amiga, estas idéas, a que eu volto sem cessar, tornam mais medonho e horrendo este escurissimo abysmo da minha alma!
Estou a aborrecer o mundo, a detestar a sociedade e a vida. Este mundo, que tu adoras, porque és feliz, porque encontraste em Gualberto a metade do anjo que tu és, é o antro onde se pavoneam estas féras humanas, esta raça feroz e egoista, que com rara excepção, tem sempre e para tudo um riso de sarcasmo; riso, torpe, que chega a macular a propria santidade da dor. Não tenho eu sido victima d'elle? Não me tem acoimado de mentecapta porque não festejo suas inepcias, nem me canso em fingir considerações que me não merecem?!
A sociedade é o que tu sabes: é uma velha hypocrita e andrajosa, coberta com manto de velludo. Aqui não ha nem se precisa senão de dinheiro, esperteza e uma boa mascara para gosar distincções e respeitos.
Confesso-to: tenta-me muito a idéa do suicidio, sorri-me o aniquillamento; tenho constantemente diante dos olhos este pharol luminoso a chamar-me ao porto desejado; mas, no maior ardor da lucta, levanta-se invulneravel no meu peito a muralha do christianismo; os meus olhos volvem-se á cruz sublime, que me está dizendo: sê forte. Força, pois, ó meu Deus! permitti que as pedras, que desabam das montanhas da philosophia impia e mentirosa, não esmaguem a minha fé. Eu caminharei firmada n'um unico ponto do vosso divino evangelho. Lá dizeis Vós que na Patria Celeste dos felizes da terra «entrará um por cem». Que a vossa adoravel prophecia fortaleça os que soffrem; os que gemem algemados ao padecer atroz d'uma insomnia permanente, d'uma espertina cruel dos sentidos, como esta que eu sinto inoculada em mim, e cuja febre me devora e gasta os renovos da minha primavera. Eu já não conto senão com o desalento do cansaço; o meu espirito está debaixo d'uma pressão infernal, d'uma irritabilidade nervosa e febril. Creio que foi debalde esta digressão de que os medicos tão lisongeiras promessas me faziam; parece-me que estou ainda mais doente desde que sahí de casa. Quanto mais me esforço por vencer este demonio occulto, mais elle se declara senhor imperioso de meus sentidos.
Que queres tu? Eu nasci para o amor da familia, para as alegrias do lar domestico; e a espada chamejante do anjo, expulsou-me para sempre do éden que gozam todas as creaturas sem lhe dar o verdadeiro apreço.
Orphã de paes, sem conhecer nunca affagos de seio materno, tudo á volta de mim é mysterioso e escuro, como se a minha existencia escondesse grandes crimes.
E quem sabe?
Gasto muitas horas a reflectir no que ha para mim de obscuro no viver de meus antepassados. Apoquento meu marido, aperto com elle de todas as formas imaginaveis para que me diga alguma coisa respeito á minha familia, tendo, como tenho, boas razões para crer que viveu na sua intimidade; mas tudo é debalde, a nada se move. Cala-se a todas as minhas perguntas, suspira, e reprime a minha curiosidade com duas palavras pronunciadas com o entono de cominiseração profunda e respeitosa:
― Não queiras saber mais do que sabes ― A memoria de teus paes é, e deve ser um culto para nós: foram dois grandes desgraçados.
Porque? pergunta o meu espirito perdido nesta urdidura, sem poder acertar com o fio principal. Porque? repete a minha razão, procurando nas trevas um raio de luz que me esclareça. Mas nem espirito nem razão me responde; e o raciocinio nada pode em casos destes em que é preciso adivinhar... Mudemos por tanto de assumpto, e deixa-me ver se encarreiro outra vez o aranzel que te estava fazendo do meu enthusiasmo.
Enthusiasmo! Repara tu como ha palavras convencionaes até para o nosso proprio sentir, e como resaltam dos bicos da penna sem a gente saber dar a explicação d'ellas. Deves rir-te de mim, Henriqueta; deves dizer lá comtigo: ― Esta mulher engana-me ou illude-se a si mesma quando me falla em commoções e em extasis á vista das maravilhas surprehendentes da terra. Tens razão; ri-te de mim; ri ainda de melhor vontade, sabendo que vou ámanhã assistir a um concerto dançante dado em meu obsequio pela viscondessa de***, e que tenho preparado para essa occasião uma toilette elegantissima, segundo diz a modista, mais afamada entre as aformoseadoras do genero humano. Dou-te licença para tudo, menos para me chamar hypocrita: isso sabes tu que não sou, e que o meu desgosto e indifferença por essas futilidades, que entretem e amenisam a vida das outras, não é fingido, mas sim real.
Nunca tu saibas o que isto é, minha amiga.