Herança de Lagrimas/I
Eis-me, pois, caminho de Lisboa, minha querida Henriqueta. Pediste-me uma descripção minuciosa dos pequenos incidentes d'uma jornada de trinta e tantas legoas, e dos abalos, enlevos, ou fastios do meu coração. D'esté coração de que a tua graciosa e feliz bacharelice diz coisas tão feias, até descrer da sua individualidade, excepto quando o sentes pulsar junto do teu seio. Sou eu responsavel, mereço as accusações que me diriges, se algumas das fibras da minha alma se conservam fechadas no seu involtorio de gelo? O que eu não sei ainda bem, minha amiga, é se isto é um mal que me faz padecer, ou um bem que mé poupa a grandes magoas. Todavia, forçoso é confessal-o, a minha alma tem anceios de curiosas experiencias. Deus negoume um dos attributos felizes da humanidade: as alegrias infinitas da paixão reciproca, os arrobos mysteriosos do amor exaltado, dizes tu, e com razão. Concordo comtigo, e quizera sentil-o; sentil-o, como eu o comprehendo.
D'aqui nascem estes secretos enfados que me atormentam a existencia, estes desesperos tantas vezes disfarçados n'um sorriso d'amarga ironia ao meu destino. Crêr que existe para todas as creaturas um mundo de luz embriagadora, e viver nas minhas trevas!... Aqui, ao lado d'este homem que me chama sua desde os dezoito annos, e a quem o mundo denomina meu! Meu! Pertence-me como o aleijão pertence ao rachitico de nascença, que debalde tenta lançar fóra de si a carga pezada e odiosa.
Que vida esta minha! Sem estimulos de presente, sem esperança de futuro! Bem o sabes: a minha alma inquieta e pensadora levou-me a estudar o amor, essa paixão sublime que aniquilla ou engrandece, nos romances da epocha. Achei, porém, fastidiosas as descripções, e algumas enjoativamente imitadas. Ou o espiritualismo piegas sem aquelle cambiante admiravel do Raphael de Lamartine; ou a sordidez da materia tressudando no arredondado das formas e das galanices do estylo.
Não era isto o que eu imaginava. Tentei ir mais longe á cata de modêlos; quiz conhecer as tragedias dos grandes mestres litterarios de passadas eras. Ahi sim: admirei os typos grandiosos das Julietas, Desdemonas, e Kítty Bell; mas, nem compenetrando-me do fogo d'essas lavaredas fundidas em bronze, encontrei o mytho que devia tornar combustivel o marmore da minha essencia.
Que me faltava pois? O meu espirito esmorecia á falta de alimento, restava-me todavia ensaiar o amor sublime do Christo. Meditei, e estudei a Religião do Divino Martyr: a minha fé ardente elevou-se a um mysticismo que se notava por exaggerado, mas, nem assim, — com vergonha o confesso, — nem os gozos celestiaes minguavam as tribulações interiores causadas pela solidão moral; suspirava por alma que se arrebatasse com a minha ás biblicas contemplações da sublime epopeia da creação do universo que me acompanhasse, emfim, até onde libravam as ancias infinitas da minha imaginação.
Se eu tivesse mãe! pai! irmãos !... Mas, ninguem! Achar-me como engeitada no mundo, sem parentes, nem familia !... Perdoa, se te offendo, Henriqueta, perdoa, se te irrita dizer-te a sinceridade da minha dôr que a tua affeição, grande e pura como é, não chega, nem pode saciar as minhas exigencias espirituaes. Não sei o que presinto e sonho de deslumbrante, que ainda acordada me cega.
Oh! que ninguem saiba o quanto a orphandade é triste, despedaçadora e negra!
Eu tenho um marido, um homem para cujos braços me atiraram, cumprindo-se assim a vontade d'um pai que não conheci senão por esta farta herança de angustias que me legou.
E minha mãe? Quem me fallará d'ella?
Quem me dirá, talvez, que eu fiquei já no berço, amortalhada, n'uma dobra do seu sudario e que devo ao influxo melancolico da minha infancia esta incomprehensivel sobre-excitação moral que me revela o amor como.... creio que ia dizer-te uma tolice; minha amiga!...devia sêl-o. É tão complicada, tem umas exigencias tão sobrenaturaes esta visão que me enfeitiça o pensamento desde o arraiar da minha aurora!... Deixa-me, porém, tentar um esboço que illumine a minha idéa.
O que eu sinto é o ideal, subtilisado na chrisalida pura que a morte mesma respeita, é a parte immortal da creatura voltando-se para o fóco de luz onde se depura o barro immundo de que fomos creados.
Já vez que este ideal em nada se parece com o ideal dos poetas. O ideal d'elles é uma imagem creada aos vapores nevoentos da imaginação escandecida pelos ardores imperiosos da mocidade. O acaso, deparando a suas vistas cubiçosas novos typos de mulher, encontra-os sempre promptos a extasiarem-se, diante muitas vezes de mediocres perfeições. Adorando hoje uma, doidejando ámanhã por outra, e enlouquecendo emfim por todas aquellas que fitam o raio fugitivo d'esses fingidos corações.
E se não, recorda o que nos diz o grande Garrett nas suas folhas cahidas
«.... Aquella é formosa,
«Não se me dava de a ter.
«E esta? E' sò baroneza,
«Vale menos que a duqueza:
«Não sei a qual attender.»
Pobres mulheres! Eu dizia a todas: fugi do poeta, do inspirado, do chamado homem de coração. Tudo isso são palavras ruidosas, laços que prendem eternamente almas impressionaveis . Elle, o poeta não pode gastar o genio n'um só amor. O exclusivismo é para estupidez feliz que se contenta com pouco. Os bem fadados de Deus, tem de cantar as Evas antes e depois do peccado, as tempestades procellosas da vida, os desenganos do mundo, as desesperanças da terra, e as magnificencias do ceo!
Que grandiosa tarefa! A par d'ella o que é, que valor pode ter a seus olhos um coração amigo e dedicado?! Demais, não é isso o que elles ambicionam. Querem o triumpho, o triumpho facil acobertado com o irresistivel. Querem depois o abandono, para se carpirem, a traição para blasfemarem, o despreso para levantar voz em grita contra esses anjos transformados em demonios.
Perguntas-me tu agora quem me ensinou tanto. Respondo: não a experiencia, graças a Deus, mas o estudo que tenho aproveitado de mil exemplos, provande-me que não érro nos meus juizos.
Quanto á mulher, não creias que eu seja menos rigorosa. Detesto a que se sacrifica por ambição; nunca ella será boa esposa, nem boa mãe. Outros defeitos, não conheço nenhuma que os tenha na primavera da vida; e mais tarde , a pedirmos contas, seria á sociedade ou aos homens que as perverteram. Bom era que para taes almas houvesse mais commiseração, da parte d'essas outras que sahiram victoriosas em identicas pelejas.
Eu quero a mulher assim. Quero-a misericordiosa, doce, e singela como a flôr dos prados. Quero-lhe lagrimas para a miseria, e alegrias para os que se apaixonam de sua mão bemfaseja. Quero vêl-a scismadora, voltada ás nuvens prescrutando os mysterios indecifraveis da immensidade. Quero presentir-lhe o primeiro balbuciar de coração, quando este murmura baixinho: «Vem complemento do meu ser, não tardes. Vem, antes que o sopro da descrença me bafeje, e o anjo da desgraça queime meus labios com o ardor das paixões».
Pois queres tu saber, Henriqueta ? Eu, com os meus vinte e sete annos já feitos, adoro, tenho ainda destas visões immaculadas; é o meu thesouro este anciar virginal e sagrado, é este talvez, sem que eu mesmo o imagine, o rival de toda a imagem de homem que me preoccupa um momento.
Parece-te uma demencia remodellar-me eu assim? Será. Eu sinto uma tristeza, uma saudade infinda, uma embriaguez dulcissima que me arrebata para além mesmo dos caminhos percorridos pelo espirito...
Vou dizer-te tudo. Muitas vezes, quando os meus olhos se fecham ou escondem, como tu dizes, debaixo das palpebras, é que eu sinto um frémito voluptuoso e aromatico pousar-lhe ao de leve como um beijo da aragem matutina no mez d'abril. Quando a minha cabeça descae como a roza queimada na haste pelos ardores estivos, é que as pontas dos meus cabellos me roçam as faces, palidas pelo estremecimento do jubilo interior. Quando finalmente, a minha voz immudece no meio d'uma dissertação animada, é a minha alma que se desprende dos laços terrestres, e anda pairando no espaço com sua irmã fugitiva.
Depois desta confissão, minha amiga, fico certa de que menos ainda me conheces do que no passado. Ficas-me chamando excentrica, doida, romantica, e afinal de tudo isto, ha só um epitheto que me cabe perfeitamente: chama-me uma grande desgraçada, e é que acertaste. A minha primavera não pôde romper os nevoeiros em que despontou involta; o outomno vae carregado e sombrio; e o inverno, para que eu já caminho, será pezado e fastidioso. Quando me lembra que breve chegará a velhice, esse achaque incuravel da humanidade, o qual não ha-de ter um deposito de reminiscencias que me aligeire as horas, essas horas que são como uma vida retrospectiva para o ancião, sinto um desejo quasi invencivel de pôr termo a este flagello incessante do meu espirito... Silencio, Henriqueta! Não, não me digas onde estava para mim a salvação. De mais o comprehendo eu!