Esmeralda
No fundo verde da téla avulta em claro uma Cabeça macilenta, dolorosa, como que envôlta n’um albornoz branco.
Tóques da mesma côr garça pôem lhe leves nuances nos cabellos, nos olhos scysmativos, anhelantes, que têm a expressão de um desejo nomade...
Desse chromatismo de tons verdes idealisou o artista o nome da sua viva cabeça imaginaria — que parece uma dessas physionomias raras que só naturezas especiaes sabem distinguir e amar, uma dessas cabeças de mulheres singulares que a dolencia da paixão enervante calcinou e turvou de dôres.
Do gólpe rubro da bocca escapa-lhe um sentimento de amargor, que a travorisa e acidúla, como se um acre veneno ardente lhe estivesse sangrando os labios.
E essa bocca, assim em gólpe rubro, purpurejada por um vinho secreto de ilusão antiga, destacando alacre no pallôr do rosto frio, como que excita aos beijos, turbilhões de beijos como de chammas...
E descendo da bocca aos seios alvos de lua, a imaginação vae phantasiosamente compondo todo o corpo de Esmeralda e despindo-o á proporção que o vae compondo, despindo-o e gosando a carne côr de papoula.
E, as tintas, na téla, vivendo da impressionabilidade artistica que um pincel de mão original e nervosa lhes infiltrou, como que exprimem, no colorido e no ideal da contemplativa Cabeça, a emoção vaga, aérea, de alguma formosa e amada Esmeralda virgem, perdida e morta d’entre as verdes pedrarias do Mar solemne...