Epigrammas portuguezes/1
LIVRO I.
EPIGRAMMA I.
Admoeſt. EPigrãmas! naõ convem,
Que tu te metas em tal:
Grande loucura te tem,
Se pertendes ſahir bem,
Donde tantos ſahem mal.
Poeta. A brevidade, a doçura,
A ſubtileza diſcreta,
Que hum Epigramma procura,
Naõ terei; mas na loucura
Moſtrarei, que ſou Poeta.
II.
Naõ he comtigo, Leitor,
O que eſcrevo de má fé;
Mas ſe por merecedor
Em ti o quizeres pôr
Então, Leitor, comtigo he.
III.
Irei, Leitor, variando,
No que te for referindo,
Sério, e jocoſo alternando,
Nem ſempre Ovidio chorando;
Nem Anacreonte rindo.
IV.
No que eſcrevo eſtou de avizo,
Que reſplandeça o engenho,
Que reſplandeça o juizo;
Naõ, quanto me era precizo;
Porém quanto eu em mim tenho.
V.
Leitor, eu naõ me exaſpero,
Se mal comigo te houveres:
Dize tu, o que quizeres;
Que eu tambem digo, o que quero.
VI.
Livro meu, para onde vás,
Que em me ſahindo da maõ,
Mil unhadas levarás?
He pena de taliaõ;
Porque tu tambem as dás.
VII.
Meu livro, ouve, vê, e cala,
Dado cafo que te emende,
Quem de corrector faz gala;
Que de ordinario eſte ſalla
Mais, do que menos entende.
VIII.
A quem te he conveniente,
Moſtras tu muita affeiçaõ;
Tens amiſade de caõ,
Que ſó vai ſeguindo a gente,
Em quanto lhe cheira a paõ.
IX.
Em muitos livros já li,
Que os oſſos do gaviaõ
Attrahem o oiro a ſi;
Mas eu eſta attracçaõ vi
Nas unhas, nos oſſos naõ.
X.
Amigos , ſoffrer nao poſſo
Taõ pouca doutrina em vós,
Que em ſete do Padre Noſſo
Foi ſó o eſtudo voſſo
A Petiçaõ Venha a nós.
XI.
Naõ faráõ innovadores,
Que eu a elles aſſentiſſe;
Porque he mais, que parvoice,
Se por crer em taes doutores,
Naõ creio, no que Deos diſſe.
XII.
Ouvindo algum, que he amigo
De oſtentar de erudiçaõ,
Fazendo della leilaõ,
Aſſento logo comigo,
Que he formado em charlataõ.
XIII.
Com muito boa vontade,
Quando o meu jantar ſe come,
Me vens fazer ſociedade,
Tu dizes, que he amiſade,
A mim parece-me fome.
XIV.
Brancos cabellos arrancas,
Tua velhice occultando;
Mas que importa, ſe arrancando
As tuas melenas brancas,
Fica-te o caſco alvejando?
E ſe eſte arrancas inteiro,
He força, que te aconteça,
Que o miolo alvo appareça;
Com que aſſim o verdadeiro
He arrancar a cabeça.
XV.
Lá nas idades paſſadas
Faziaõ morgados ricos,
Hoje ha caſas empenhadas,
Tudo; porque eſtaõ mudadas
As rocas em abanicos.
XVI.
A que propoſito vem
Huma mulher, que ſe embuça
Em covados quaſi cem?
Se ella cabeça naõ tem,
Para que he tal carapuça?
XVII.
Sempre te acautelarás
De hum, que com proſas te vem;
Que aquelle, que ſe desfaz
Em palavras, e naõ más,
Talvez palavra naõ tem.
XVIII.
Se vires hum em acções
Defendendo opiniaõ,
Em que bens, ou males vaõ,
Naõ lhe olhes para as razões,
Olha-lhe para a razaõ.
XIX.
Dizes temes máos officios
Da morte, que he taõ ingrata;
Mas naço dás eſſes indicios;
Pois morrendo pelos vicios,
Morres, pelo que te mata.
XX.
Com medo de eſtar doente
He opiniaõ commua
Fugirmos do ſol ardente:
Naõ mata o ſol tanta gente
Quanta huma achacada lua.
XXI.
Se alguem vier perguntando,
Quem he que no mundo tem
De alliados maior bando;
Se reſpondes affirmando,
Que o tolo, reſpondes bem.
XXII.
Ha gente, que naõ ſocega,
Querendo ſem tom, nem ſom,
O que por lei ſe lhe nega,
E mais, que a ſarna, ſe pega:
Naõ ſabes, o que he? o dom.
XXIII.
Muita gente ha, que ſe enfeita
Com primor, e bizarria,
Que a naõ olhar, quem acceita,
Para pôr á maõ direita,
Nem tal maõ conheceria.
XXIV.
Naõ digo, que com franqueza
Senhoria a todos dês;
Porém loucura ſeria
Naõ dar huma Senhoria,
Para ter muitas mercês.
XXV.
Que ſeja em fogo vivente
A Pyrauſta naõ preſumo;
Porém creio, que naõ mente,
Quem diſſer, que ha muita gente,
Que vive em fumo, e de fumo.
XXVI.
Diſſe bem? diz hum da caſta,
Dos que cabeça naõ tem:
Naõ mo pergunte ninguem;
Que para dizer mal, baſta
Perguntar-me, ſe diz bem.
XXVII.
Naõ creias, por ſer quem he,
No que diz hum ſabichaõ:
Na ſanta religiaõ
Governa-te pela fé,
No de mais pela razaõ.
XXVIII.
Eſſes, que bebados ſaõ,
Naõ perdem mais os ſentidos,
Nem mais cabeçadas daõ,
Que aquelles, que a adulaçaõ
Beberaõ pelos ouvidos.
XXIX.
Sollicitas, que te venha
Entendimento excellente,
O meio mais conducente
He lidar, com quem o tenha;
Mas ha pouca deſta gente.
XXX.
Ventura, de quem achara
Algum amigo perfeito:
Mas onde eſtá tal ſujeito?
Julgo ſer coiſa mais rara,
Do que he hum nariz bem feito.
XXXI.
Se hum curioſo pertende
Saber, qual he o ſujeito
De juizo mais perfeito,
He o que naõ ſe arrepende
Do mal; porque o naõ tem feito.
XXXII.
Na arvore de geraçaõ
Ha tronco, e naõ ſe declina,
Em que raiz ſe tem maõ:
Sim tem raiz; porém naõ
Se vê; porque he pequenina.
XXXIII.
Como por intermetido
Achas, quem te deſcomponha,
Para naõ ſeres doido,
Hum remedio tens bebido,
Que he a falta de vergonha.
XXXIV.
Hum prodigo perguntou
A huma cigana, que tal
Fim a ſorte a elle otorgou:
Ella lhe prognoſticou,
Que ir morrer n'um hoſpital.
XXXV.
Fallar verdade convém
Com toda a ſinceridade,
Quero fallala; porém
Quero ma fallem tambem;
Aqui a difficuldade.
XXXVI.
Quem falla pura verdade?
Saõ os meninos, e loucos:
Pois em tanta quantidade
De velhice, e mocidade
Ninguem mais a falla? poucos.
XXXVII.
A qualquer Corte, que fores,
Ou noſſa, ou dos eſtrangeiros,
Sempre encontrarás milheiros,
Que vivem de doiradores:
Saõ todos os liſongeiros.
XXXVIII.
A huns, que murmuraõ franco,
E a aduladores prometto
Em crêlos fazer-me manco;
Que huns fazem do preto branco,
Os outros do branco preto.
XXXIX.
Eu naõ ſei, para que he eſſa
Affectaçaõ em marchar:
Deixa-a, para quem começa,
Eſcuſas de andar depreſſa;
Que já tens pouco, que andar.
XL.
Faz do diabo o povo hum ſanto;
Ajuda o adulador;
Cala o ſabio por temor
De ſe oppor a povo tanto,
E vai o diabo em andor.
XLI.
O ſeculo illuminado
Ouço a eſte chamar;
E ninguem póde negar,
Que eſtá bem adiantado
Em mentir, e em enganar.
XLII.
Que cegos no mundo vaõ!
Hum he cego da avareza
Outro cego, da ambiçaõ,
Outro de amor, e affeiçaõ,
Outros de ira, e de fereza.
Numero os cegos naõ tem
De cegueira ſimilhante;
Em tantos cegos porém
Naõ há hum, que cante bem,
Nem que delle bem ſe cante.
XLIII.
Se o Medico aconſelhar
Os banhos do mar, tomai-os;
Naõ ſe perdem; porque o mar,
Se vos naõ remediar,
Remedeia os dos catraios.
XLIV.
Luz , hum amor taõ ardente
Te tomei, quando te vi,
Que recebi juntamente
Muito má fé com a gente,
Que he inimiga de ti.
He gente de huns, que ſe encurtaõ
De os verem com o máo fim,
De que ás eſcuras ſe furtaõ;
Ou ſaõ lobos; porque furtaõ,
Ou ſaõ lobas em latim.
XLV.
Tu fempre foprando vens,
E gente tua inimiga
Diz, que a ſoberba te obriga:
Concordo, ſe tu naõ tens
Alguns foles por barriga.
XLVI.
Que coifa haverá, que traga
Mais penas a hum avarento?
Saõ muitas; mas eu aſſento,
Que lhe daõ grande tormento
Deſculpas, de quem naõ paga.
XLVII.
Ha quem no mundo ſe vio
Sempre em vida deſcançada,
Sempre folgou, ſempre rio;
E do nada naõ ſahio;
Sim; porque ſempre foi nada.
XLVIII.
Para eſtudo naõ eſcolhas
Filho de cabeça ruda;
E tu a tens, ſenaõ olhas,
Se he ſó de quarenta folhas
O livro, porque elle eſtuda.
LXIX.
Quem naõ tem contentamento,
Crê, que em caſa alheia eſtá,
O meſmo cuida o de lá;
Mas o que tem bom talento,
Já o naõ procura cá.
L.
O mundo eſtá atrazado;
Figuras delle, que paſſaõ,
De ſombra naõ tem paſſado,
E ſombras de tal eſtado,
Que nem tem corpos, que as façaõ.
LI.
Subir, e mais ſubir queres;
Mas toma tu, Leitor, iſto
No ſentido, que quizeres;
Tanto mais alto eſtiveres,
Quanto ſerás mais mal viſto.
LII.
Quem por ſabio ſe avalia
Tem grande conſolaçaõ
No bem da ſabedoria;
E eſta pára em ninharia,
Que o mais he opiniaõ.
Ter dinheiro com largueza
Tem o avarento por bem;
Tomara ſaber porém,
Que bem tem neſſa riqueza,
Se elle tendo-a naõ a tem.
O que for ambicioſo,
Por bem a honra terá;
Mas como tem elle lá
Eſſe bem taõ precioſo,
Se a honra he, de quem, a dá?
Se imagina algum ſujeito,
Que tem cá bem, naõ ha tal;
Que o bem deve ſer perfeito,
Todo o de cá tem defeito,
Chamar-lhe bem, he bem mal.
LIII.
Naõ falta gente, que diz,
Que he feliz, quem o crê ſer,
Que he o meſmo que dizer,
Que para algum ſer feliz
He preciſo enlouquecer.
LIV.
Nós os mais membros ſervimos
Em tudo, o que lhes convém;
Á boca o comer lhes vem
Por nós até os veſtimos,
Que nem tal preſtimo, tem.
Mas deves tu reparar
No ſalario, que cobramos:
Os para quem trabalhamos,
Nem ſaõ para nos lavar;
Que huma á outra nos lavamos.
LV.
E nós ſempre carregados
Comvoſco ſem deſcançar?
Os voſſos grandes cuidados
Ficavaõ todos parados,
Em nós teimando em parar.
Porém ſejamos ſoſſridos
Que a noſſa conſervação
Pende de eſtarmos unidos;
E eſtamos todos perdidos,
Em ſe perdendo a uniaõ.
LVI.
Naõ ſei, quem tanto te deu:
Tu veſtes do melhor panno,
Comes como hum ſoberano,
E naõ tens coiſas de teu,
Excepto mentira, e engano.
LVII.
Pertence ao meu natural
Eleger; mas eu me avenho
Com huma loucura tal,
Que deixo o bem, tomo o mal;
E eſſe o maior mal, que tenho.
LVIII.
Hum avarento tem medo
Do dinheiro lhe fugir;
Mas como ha de elle ſahir
Se a bolſa he de tal ſegredo,
Que o dono a naõ póde abrir?
LIX.
Poucos do vicio fugindo,
Muitos vaõ para elle entrando;
Naõ vendo, nem reparando,
Que quantos entraraõ rindo,
Todos vem de lá chorando.
LX.
Como ſaõ pelo interior
Os homens, quero ſaber;
Mas fico-me com querer,
Que ſaõ lá de furta côr,
Naõ ſe pódem conhecer.
LXI.
As delicias deſte mundo
Em tom de vos collocar,
Em hum goſtoſo lugar,
Vos lançaõ em hum immundo,
E ſempre no do pezar.
Parecem-me jogador,
Que toma a bola na maõ
Por modo de exaltaçaõ;
Porém pára eſte favor
Em a arraſtar pelo chaõ.
LXII.
Pertendem homens inteiros,
Que a ventura a elles ſe una
Com honras, e com dinheiros;
Porém naõ vêm, que a fortuna
Anda atraz dos embuſteiros.
LXIII.
Já em muitos livros li,
Que a formoſura he hum bem:
Poderá ſer para alguem;
Mas nem, para a ver em ſi,
Goza della, quem a tem.
LXIV.
Tem forças a mocidade,
Diz hum, em quem ella mora;
Mais forte he a longa idade,
Que com tal facilidade
Lança a mocidade fóra.
LXV.
Quem á dignidade anela,
Julga-a hum bem ſem igual;
Conſegue coiſa taõ bella,
Cahe-lhe em cima o pezo della;
Já lhe parece o bem mal.
LXVI.
Hum a outro a vida tira,
Sem razaõ alguma ter,
Para tanto mal fazer;
E naõ mata a ſua ira,
Que o fará talvez morrer.
LXVII.
Gente, que com comer ſonha,
E que naõ jejua hum dia,
Guardar o jejum devia;
Quando menos por vergonha
Da brutal alarvaria.
LXVIII.
Eu naõ ſei, como inda ha gente,
Que louca em ſi ſe embasbaca
Crendo-ſe coiſa excellente,
Sem ver, que he interiormente
Huma nojenta cloaca.
LXIX.
Nas peſſoas o defeito,
Que as faz mais mal parecidas,
Naõ he o nariz mal feito,
Nem o olhar pouco direito:
He ter as unhas compridas.
LXX.
Gente, que tem má rele,
Tendo feito a traveſſura,
Diz: Eſcorregou-me o pé:
Eu tenho perdido a fé
Com gente taõ mal fegura.
LXXI.
Gente, que nunca ſe cala,
Coſtuma fallar comſigo;
Neſta parte hei de louvalla;
Que em quanto comſigo falla,
Naõ vem cá fallar comigo.
LXXII.
Bem ſei, que alguns notaráõ,
Quando fallas, ter o geito
De fazeres muita acçaõ;
Mas elles naõ tem razaõ;
Que iſſo he fallar dito, e feito.
LXXIII.
Fóra com taes enchurradas,
Que na força do dizer
Me vens na cara meter:
Eſcuſo as barbas regadas,
Para haverem de creſcer.
LXXIV.
Para que he tanto palpar?
Chegaraõ-te tentações
De achares, que maſtigar?
Quero-te deſenganar;
Naõ ſaõ figos; ſaõ botões.
LXXV.
Como pódes tu tolher;
Que a colica te perſiga,
Se és taõ alarve em comer,
Que em vez de tu a reger,
Rege-te a tua barriga?
LXXVI.
Comem á boca fechada
Os velhos; que a tal eſtado
Tem eſte tempo chegado,
Que nem na boca cerrada
Está ſeguro o bocado.
LXXVII.
Eu ando na diligencia
Seja, porque preço for,
De me fazer comprador
De calos para a paciencia,
E orelhas de mercador.
CXLVIII.
Eu eſtimara ſaber,
Que naçaõ ha, que na guerra
Poſſa mais acções fazer;
Que a todos oiço dizer,
Que a gente da ſua terra.
CXLIX.
Terás goſto ſe comprendes,
O que hum tanto eſcuro digo;
E ſe mais claro o pertendes,
Porque inda me naõ entendes,
Nem eu me entendo comtigo.