Ensaios de sciencia (Vol. 1)/2

Os Sambaquis

 

OS SAMBAQUIS

 

Eis um nome que muito tem dado que fallar, que pensar e que escrever, com o qual muita sciencia tem se procurado casar para dar-lhe vulto notavel; nem faltaram-lhe locubrações dos sabios de caco de pote, geologos e anthropologos improvisados. Para colher provas disso, não precisa ir longe, basta folhear a Revista do nosso Instituto Historico e Geographico.

O que, porém, mais me escandalisou foi lêr no livro de Lyell, intitulado a Idade do genero humano, um paragrapho intitulado os Diques de Santos no Brasil.

Ha ahi erro geographico, collocando S. Paulo nas immediações de Santos, e ha tambem erro archeologico e ethnographico, comparando o que viram em Santos com os diques do Ohio e dando-lhes origem identica, devida á um povo adiantado em civilisação; qualificam além disso esses diques como obra de terra.

Isso evidentemente é nota de carteira de viajante que passou ao largo, em canôa, pelo rio da Bertioga, e que causticado pelos meruins não se deu ao trabalho de saltar em terra, contentou-se em dizer o que veio-lhe á cabeça acerca de uns prismas triangulares, terminados em ambos os lados por hemipyramides.

Para não consentir em reproducção de erros taes mandei para as Noticias Geographicas do Dr. Petermann, de Gotha, um esclarecimento sobre sambaquis, com observação sobre a leviandade de viajantes apressados aos quaes ás vezes damos importancia, não com o fim de auxiliar a sciencia, mas para obtermos algum elogio em letra redonda além-mar.

Devemos convencer-nos que sciencia exige pausa e perseverança; quem a quizer fazer ás carreiras, perde-se.

Aqui reproduzimos o que foi publicado em 1874, no 2.° volume pag. 228 das mencionadas Noticias.

Para se dar ao sambaqui a importancia que lhe cabe é preciso traduzir o nome e eis á esse respeito o que teve a bondade de informar-me o nosso distincto guaraniologo Dr. Baptista Caetano de Almeida Nogueira:

 

« Sambaqui, significa litteralmente montão de conchas; de Tambá concha, e ky collinas conicas como peitos de mulher. Nos substantivos guaranis a mudança do t em h aspirado ou em gu fórma a passagem do valor absoluto ao relativo e reciproco; como os portuguezes na sua lingua não têm aspiração davam-na por ç ou s. Além disso em palavras compostas, o genitivo occupa o primeiro lugar, e dahi resulta hambaky, collina de conchas. Póde tambem ser estropiamento de hamba-kyab, refugo ou varredura de concha. »

 

Servem ambas as versões; a primeira qualifica o objecto, a segunda explica a sua origem, e é a que mais satisfaz.

É pois o sambaqui um monte de cisco composto de conchas; quer dizer que se varreu o lugar coberto de casca e amontoaram-se as varreduras.

Essa operação era indispensavel para acampar no lugar um povo que descalço pisava e nú assentava e se deitava sobre o chão.

Essas varreduras naturalmente eram ajuntadas em cascas de arvore, cestos ou urupemas e amontoadas em um lugar só. A primitiva fórma desses montes é incontestavelmente o cone; e é effectivamente tal a forma de muitos sambaquis.

Attingida certa altura, encostava-se o cisco até o vertice e sempre do mesmo lado; a consequencia era formação de um prisma de trez faces, deitado, com os topos rematados por duas metades de cone, cujas convexidades ás vezes gastas passam á faces de pyramides.

Até aqui vemos como foram construidos esses montes de concha, que tambem se chamam casqueiros e ostreiras; carecemos agora indagar qual a origem de tanta casca.

Primeiro que tudo devemos observar que os sambaquis invariavelmente se compõem de uma só qualidade de casca e esta sempre de molluscos bivalves comiveis; estes moluscos, ora são ostra, ora o samanguayá do Rio de Janeiro, ao qual no sul deram os portuguezes o nome de berbigão (Cryptogramma macrodon, Lam). Está disseminado aqui e acolá e é acompanhado de algumas cascas isoladas de Cardium muricatum, uma ou outra ameijóa, nome que dão indistinctamente á Dosinia concentrica, Born, e á Lucinia jamaicensis, Sprgl.; raras cascas de Arca, Pholas e Pinna vieram accidentalmente cahir ahi porque vivem de envolta com o samanguayá.

Agora resta dizer alguma cousa sobre a vida desses molluscos: são elles sociaveis, formam grandes colonias reunidas em determinados pontos, constituindo bancos ás vezes de extensão consideravel; sendo estes bancos em parte destruidos, em pouco tempo regeneram-se pela geração nova.

Ora, reunindo esta propriedade de agglomeração e reproducção, á qualidade muito mais importante de alimenticia, ahi temos dadas as condições para reunir um povo em busca de sustento em um ponto e a sua permanencia ali emquanto houvesse que comer, e o seu regresso para o mesmo lugar logo que nova seára podia se fazer.

Concluimos tambem dahi qual a causa dos montes e varreduras das cascas; não é cousa devida á methodo, á espirito de ordem, é só uma consequencia da necessidade de limpar o terreno que se occupa, de todos os fragmentos que ferem ou cortam.

Passemos agora á algumas condições de ordem secundaria, que são: 1.° stratificações; 2.° objectos diversos; 3.° influencia geologica.

Nos sambaquis encontram-se frequentemente estratificações distinctas separadas umas das outras por uma camada terrosa, mais tenue; tambem estas têm facil explicação combinando o modo de construcção, com os periodos de que precisam os bancos de concha para se regenerarem. Durante estes periodos a camada superficial do casqueiro soffre a acção do tempo, inicia-se uma decomposição; quando os indigenas voltavam ao lugar, de vez para nova colheita, arrancavam o capim e as hervas que cresceram, varriam folhas seccas e onde naturalmente depositavam esse cisco era sobre o casqueiro e muito provavelmente atacavam-lhe fogo, porque a estrata terrosa frequentemente tem aspecto de cinza; esse processo calcinava parte das conchas que com a humidade do ar ou com a chuva se esfarelavam, e deste modo a camada recente ficava perfeitamente separada dos depositos anteriores.

Essas expedições periodicas para buscar em determinados pontos e em epochas certas o alimento não eram só para colheita de conchas; ellas tinham lugar em occasião, por exemplo, em que o peixe se reune em cardumes, entrando pelas bahias ou subindo os rios para desovar; á esses cardumes denominavam pirasema, nome que ainda hoje subsiste, e ahi preparavam suas provisões de pirásinunga ou peixe secco. Reunem-se ainda hoje as tribus do norte em malocas ou partidas para colheita de ovos de tartaruga, da castanha, etc. Tambem para caça havia excursões periodicas e de todas ellas não permaneceu vestigio por não terem casca duradoura, que se varria como o samanguayá ou a ostra.

Quanto á objectos estranhos á colheita dos bancos, devem-se mencionar ás vezes conchas de outras proveniencias como uns mariscos ou mexilhões que elles iam colher nos mangues, o Mytilus pictus, Dkr., ou a Tarioba Iphigenia Brasiliensis, Lam., e os sernambys standella fragilis, Chmn, e em parte as Macoma cayennensis, Lam., que vivem enterradas na areia das praias do mar grosso; mas estas nunca avultam.

Entre as varreduras encontram-se utensis de pedra, cacos de panella e de potes ( nunca me constou que se encontrasse uma panella inteira, servivel), pedaços de carvão, restos de tições, etc. Alem disto todos os restos de caça e pesca, como ossos inteiros e em fragmentos e espinhas de peixe.

Os accessorios mais notaveis são ossadas humanas, porém, relativamente raras; eu não as encontrei; vi alguns ossos grandes como tibias que não tinham sido quebradas para chupar o tutano. Ha quem sustente que as ostreiras eram aproveitadas para enterrar os mortos; não é isso muito verosimil, porque então seriam mais frequentes as ossadas; parece antes que tambem esses ossos, de algum velho, ou doente que fosse abandonado, constituiam lixo como o mais e eram atirado sobre o monte.

Reduzimos assim à sua singela expressão natural o sambaqui, que teve de servir para tanta producção fantastica, ora sendo diques, ora trincheiras, outras vezes mausoléos, e até construcções para o culto.

Não ha ainda muitos annos viam-se sambaquis recentes e respeitaveis produzidos em diversos pontos da bahia do Rio de Janeiro pelos pescadores de marisco para fabrico de cal; elles colhiam o samanguayȧ ainda vivo e o amontôavam. Hoje estão esgotados os bancos, não se deu tempo á se reproduzirem as conchas, e pesca-se cisco composto de tudo, areia e fragmentos de concha.

Os antigos sambaquis do Rio de Janeiro já de longa data foram consumidos pelas caieiras, e para o sul vai acontecendo o mesmo. A cal consumida em Santos é tirada das ostreiras da Bertioga; em Iguape e Cananéa tambem soffreram consumo, o mesmo acontece em Paranaguá, etc.

O sambaqui tem em muitos pontos alguma importancia geologica que, não tendo sida attendida, deu lugar á interpretações inexactas.

O samanguayá vive em lugares pouco fundos e em agua salgada; quando penetra na barra de algum rio nunca chega onde possa predominar agua doce.

Os indigenas consumiam os samanguayás necessariamente na maior proximidade do banco onde os colhiam.

Portanto a existencia de sambaquis á mais de legua de distancia de agua salgada, como acontece n՚alguns affluentes da bahia de Paranaguá, por exemplo no Rio Gorgossú, ou na Laguna, onde se eleva no meio de vasta planicie em parte já coberta de densa matta, á mais de 10 metros o morro do Sambaqui servindo de marco aos navegantes que demandam a barra, a existencia destes denota que por alli perto havia outr՚ora bancos de samamguayá e agua salgada.

Temos ahi o caso de haver recuado o mar como diz o povo, ou havido emersão da costa como se exprime o geologo.

A consequencia dessa emersão por levantamento lento, foi ficarem á secco cordões de bancos, fechando as enseadas, as quaes ficavam mais razas e com facilidade eram aterradas pelos depositos de alluvião trazidos pelos rios. Assim a Laguna, que devia ter sido uma immensa enseada, é hoje um vargedo de brejos cobertos de tiririca, cortadas por canaes de agua doce que cada vez mais se estreitam; a barra do Camacho por onde entrou Garibaldi com duas embarcações, é hoje terra firme e raras vezes ainda se abre.

Existe na cidade um calhão de granito meio metro acima do terreno e dois metros acima da mais alta maré; ha ainda agarrada na sua parte superior uma casca de ostra. É, pois, evidente que o mar antigamente subia pelo menos 2 1/2 metros acima do actual nivel, o que confirma o solo sobre o qual está construida a cidade, todo elle de lôdo escuro, cheio de cascas de cryptogramma, cardium, arca e mais companheiros; um pequeno sambaqui que se encontra na cidade está sobre uma elevação que foi ilha.

A existencia pois de sambaquis em lugares, onde se dão condições contrarias ás que presidiam a sua construcção, revela o alteamento do littoral.

Não posso deixar de mencionar ainda um facto curioso: Em Paranaguá diversas pessoas me referiram que havia no rio Piracuara, um antigo navio de madeira pregado com cavilhas de páo por baixo de um sambaqui; cada qual completava o mysterioso navio á seu modo e arranjava uma descripção capaz de excitar em extremo algum cerebro de archeologo; acrescentavam que a madeira era desconhecida na terra. Havia em tudo isto materia sufficiente para massar o mundo com um romance de estada de phenicios ou carthaginezes nas plagas brasilicas.

A curiosidade moveu-me e lá fui dar com o encantado barco, isto é, apenas com um fragmento que com auxilio de imaginação se poderia qualificar de taboa; mandei excavar e pouco adiante encontrei restos da prôa de uma canôa, amarrada com um pedaço de imbé á um coto de vara pontuda fincada no lôdo! A textura da tal madeira estranha era a da nossa peroba! e assim esvaeceu-se a poesia dos bellos contos, que eu já havia ouvido em Iguape. O que se conservou da ygara dos indios foi devido ao desmoranamento de uma porção de sambaqui que a cobrio.

Com a elevação do littoral muitos sambaquis ficaram estacionarios; outros tambem deixaram de crescer pelo desapparecimento dos primitivos donos da terra rechassados pelos invasores.

Os costumes da população nova são outros, em vez de construir os sambaquis ella os destróe fazendo cal e brevemente delles em vão se procurarão vestigios: restará só o nome.

Parece que debaixo de condições identicas formaram sambaquis com conchas de agua doce nas margens dos affluentes do Amazonas como os descreve o Sr. Barboza Rodrigues na sua excursão ao Tapajós ; ali é mina de sernamby aproveitada para cal. E՚ um facto muito interessante, que devemos á este cuidadoso observador.

Longas paginas se poderiam ainda escrever sobre o sambaqui soltando as azas á imaginação e tirar eruditas conclusões sobre sua fórma geometrica orientação, etc. De gabinete é facil discorrer sobre estado de civilisação dos incolas, fallar dos constructores dos sambaquis, discutir a idade destes e pelos accessorios determinar a sua origem. Tudo isso, porém, são futilidades; um facto bem observado basta para annular um livro inteiro de dissertação ouca.

 

G. S. de Capanema.

 

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