Ensaios de sciencia (Vol. 1)/1/IV

ADVERTENCIA

 

Para escrever a grammatica e diccionario do abañeênga foi necessario tomarem-se notas e apontamentos de quantos auctores poude haver á mão, principalmente dos que tractavam de brasis e guaranis e de cousas á elles relativas. Depois appareceu a conveniencia de serem coordenados alguns desses apontamentos e impressos como complemento da grammatica e do diccionario com o fim de elucidar as deducções formuladas e justificar a correcção orthographica, concatenando umas com as outras as noticias constantes de diversos livros, escriptos em latim, portuguez, espanhol, francez, etc.

Circunstancias e difficuldades diversas tem embaraçado e ainda embaraçam a publicação da obra, cujo plano foi preciso mudar e assim acha-se para bem dizer ainda em osso. Isto determinou a impressão dos apontamentos e notas antes do diccionario e grammatica, á que não poude dar a ultima mão de modo que possam ser entregues aos typos. Falta de livros, difficuldade de consulta dos que ha, n՚algumas bibliothecas, e afinal nenhuma sobra de tempo, quasi todo absorvido em serviços obrigatorios de cada dia, evidentemente estorvam a conclusão de qualquer trabalho desta natureza.

Parecerá á muitos cousa de nonada ou de minima importancia esta penosa tarefa de coordenar a orthographia de palavras de uma lingua barbara. Embora; é um estudo como outro qualquer, e depois de concluido vêr-se-ha se tem ou não alguma utilidade.

Tinha de começar pela reimpressão do cap. 21 de Lery. Mas com o prolegomeno e a exposição da orthographia, por mais que os resumisse, ficou occupada uma bôa parte do primeiro folheto dos Ensaios, com prejuizo dos que nelles collaboram. A transcripção de Lery fica, pois, para o segundo folheto.

No mencionado cap. 21 de Lery vem com bastante ingenuidade e fidelidade uma especie de dialogo do auctor com os indios, escripto com orthographia á franceza. Si a lingua de que ahi se dá amostra é a mesma que fallavam no Paraguay, e si disso se dá demonstração por meio da correcção orthographica, parece que a cousa não deixa de ter importancia para a litteratura e para a sciencia.

Será transcripto lettra por lettra o que escreveu Lery com a respectiva traducção dada por elle, e parallelamente a correcção segundo a orthographia adoptada. Adiante irão notas explicativas.

Ao Lery seguir-se-hão os apontamentos tirados de Yves d՚Evreux, a traducção da viagem de Roulox Baro e outros. De Claude de Abbeville como só conheço a traducção feita peio Sr. Dr. Cesar Augusto Marques não é possivel tirar copia fiel para ser comparada e discutida.

Sem de forma nenhuma querer desmerecer os trabalhos do Sr. Dr. Marques, que aliás são optimos e o constituem benemerito das lettras brasileiras, a enunciação franca de uma ideia algo opposta ao seu modo de vêr e fazer não implica uma censura. Nas traducções de Claude de Abbeville e de Yves de Evreux com que enriqueceu-se a bibliotheca patria, foi muito inconveniente a alteração parcial que se fez na orthographia original dos vocabulos indigenas, alteração que só podia ser feita systematicamente e com prévia declaração, sob pena de concorrer ainda mais para a confusão da lingua já tão incongruente e embaralhada. Para o estudioso destas antigualhas linguisticas foi máo e seria mais de apreciar o que fizeram, os Srs. F. Dinis, e Julio Platzmann, reimprimindo fielmente o primeiro Yves d՚Evreux e o segundo o Anchieta.

Para concluir este primeiro opusculo e para dar uma amostra da marcha seguida na correcção orthographica, eis um pequeno trecho de Laet, no qual elle fez o confronto de vocabulos da lingua geral dados por Lery com os colhidos na bahia da Traição e os dados por um lingua Belga. D՚entre os 23 vocabulos transcriptos, em alguns não ha outra divergencia senão no modo de escrever, e em outros mui pouca differença do termo empregado, o qual existe na lingua com outra significação.

Le noms des parties du corps de l՚homme
(Desc. des I. Occ. L. 16, Cap. 1º)
Selon Jean de Lery Dans la baye de Traycion Selon la remarque d՚un Belge.
La teste Acan Acan Yahange
Les cheveux Aue
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Yahange
Les cheveux Aue
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Aua
Les oreilles Nembi Nambi Namby
Le front Shua
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Suwa
Les yeux Dessa Desa Scescah
Le nez Tin Tin Ty
La bouche Iourou
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Iurou
Le menton Redmiua
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Tedube
La langue Apecou Apecong Ypecou
Les dents Ram Tannie Raaingh
Le col Aíoedé Aiura Aiure
Le gosier Asseoc
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Assiocke
La poitrine Poca
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Potiah
Les reins Rousbony
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Yuabebouy
Les fesses Reuire
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Syquarre ou Tobyrre.
Les espaules Inuanpony
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Attiube
Les bras Inua Giuwa Ye
Les mains Po Po ou gepo Poh
Le ventre Reguie
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Zambeh
Les tetins Cam
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Camme
Les genoux Rodouponam Tnippha Nupuha
Les iambes Resemeu Gretima Youba
Les piés Pouii Gepu Ypuch.
 

A՚ primeira vista ninguem dirá que são vocabulos da mesma lingua, por exemplo: reuire e syquarre on tobyrre, rodoupmam, tnippha e nupuha. Entretanto com alguma attenção vê-se que a questão se reduz á orthographia simplesmente.

Akang = akã caput. Já se observou no prolegomeno que era habitual entre os guaranis e ainda é entre os paraguayos pronunciarem em certos casos o vocabulo elidindo as syllabas finaes ou as consoantes do radical: che-rú por che-rub ou che-ruba, che-akã por che-akang ou che-akanga. Em yahange ha evidentemente troca de k em h e o y é sem duvida a particula pronominal designativa de 3.ª pessoa; i-akang, ou melhor ï-akang illius caput.

Ab = ába capilli. Quer Lery, quer o Belga escreveram u por v e este estaria em vez de b como ainda hoje usam no Pará.

Nambi aures. Lery escreveu á franceza em por am; o Belga poz y por i o que é frequente em francez portuguez, etc.

Sybá {{smaller|frons. Laet errou ao transcrever Lery que tem sshua e não shua; o segundo s póde ser erro por i, e o u = v; no Belga w = v e u é francez equivalente á ü allemão. Portanto o termo de Lery sihva corresponde ao do Belga süba, isto é, sybá.

Tesá oculi. Em Lery e no da bahia da Traição está d por t e em um o s dobrado. No Belga apparece se = s e ha de mais um h final. O s inicial explica-se logo que se veja que póde estar em vez de h porque tem-se então tesá oculi, che-resá mei oculi, nde-resá tui oculi}]; hesá {[smaller, guesa sui oculi. Em vista do h final é possivel que o vocabulo do Belga seja techag videre, que no infinito póde fazer techag = techaka; em vez do t absoluto pondo-se o h, relativa pronominal, têm-se hecháka eum videre.

Tim = tĩ nasus. Em francez in = en, e isto mostra que os brasis pronunciavam muito do nariz e talvez com som entre tim e tem. A escripta do Belga ty é desconchavada.

Jurub = jurú {{smaller|os, bucca}]. Já vio-se que a suppressão do b final é usual; a semi vogal j, não têm conta o numero de vezes que, se acha representada por i e até por y. Pela escripta do Belga o vocabulo correspondêra é jyrú na nossa escripta.

Tendyba mentum. Laet não transcreveu com exactidão o Lery; este traz che-redmiua. Com este vocabulo temos: tendybá mentum absolute, che-rendybá, nde-rendybá, hendybá, guendybá meum mentum, tuum, etc. Ora sendo visto que u vem por v equivalente á b resta só a anomalia do dm em vez de nd porque o i por y não é de estranhar. Na escripta do Belga só falta a designação de som nazal de tēdube = tendyb; a syllaba final não accentuada acha-se em muitas noticias dos tupis e é difficil explicar essa falta de accento essencial.

Apekum = apekū lingua. Seja ou ou on o que vem em Lery e no Belga é possivel adaptar-se á verdadeira pronuncia. e apresenta-se apenas mais anómalo ong guttural que se vê no vocabulo da bahia da Traição. Quanto ao mais l-apekū ou Ij apekū ejus lingua explica a escripta do Belga.

Tārn̄ = tāi dens, dentes absolute, che-rāin̄, nde-rāin̄-hāin̄, guāin̄ mei, tui, etc., dentes. Em Lery vem cheram}}, Laet supprimiu che. Pronunciando-se tannie com accento na primeira e as outras breves e não accentuadas approxima-se á tāin̄. Emfim ai valendo é em francez e ng valendo o vocabulo do Belga equivale á rāen̄ bastante proximo de ráin̄.

Ajur=ajú collum. Aqui se apresenta um dos casos em que se vê quantos erros se commettem na transcripção dos vocabulos. Laet transcreve de Lery aíoedé e em Lery está aiouré, e na escripta de Lery só é inexplicavel o accento sobre o é final. Na escripta do Belga dando-se á u o som francez elle se desvia mais da verdadeira pronuncia que não é ajyr.

Jaseóg=jaseó guttur. Para se accommodar á verdadeira pronuncia, só falta tanto em Lery como no Belga a semivogal inicial j. A guttural g representada por c ou mais fortemente ck não tem nada de estranho.

Potiá pectus. Em Lery evidentemente houve suppressão de t e mudança de i em c. O h final no vocabulo dado pelo Belga só teria por effeito dar mais força a accentuação do final de potiá.

Tumby renes (ou antes lumbi) que faz che-rumby, nde-rumby, etc. Escrevendo o vocabulo de Lery segundo a pronuncia, fica elle rusbui, pois sem duvida está n por u e y por i; mas é possivel tambem que houvesse erro em us por m e neste caso o vocabulo pronunciado seria rombuí; em qualquer dos casos já se approxima de che-rumby, pois que Laet supprimio tambem a pronominal che de Lery. O vocabulo dado pelo Belga é n̄yá-bebúi ou pya-bebúi, que significam pulmones, pois que o primeiro é litteralmente n̄ya-bebúi cordia levia, e o segundo pya-bebui viscera levia. Que é um dos dous não padece duvida: em yua o y póde ser erro por p e póde tambem representar a semivogal j que se alterna com  ; portanto dando a u o som francez tem-se ou pua (pya para nós) ou jua (jya-n̄yaá para nós). O adjectivo bebúi tambem é pronunciado bebúia ou bebúja e ahi temos o final do vocabulo do Belga, visto como ou vale u.

Tebir=tebi elunes et nates. Em Lery é claro u por b, o r inicial por t mostrando a suppressão feita por Laet do pronome che que o precedia. No escripto do Belga. vem dous termos; o segundo tobyrre é evidentemente tebira havendo o por e, y por i, rr para exprimir á franceza o r brando do abañeênga. O outro vocabulo suppondo-se que y vale dous i ficaria siikuara que se aproxima de hebikuar. Ora tebikuara quer dizer natiom foramen, podex, e tebikuar em absoluto, faz nos casos relativos che-rebikuar, nde-rebikuar, hebikuar. etc.

Atiyb humeri et jyba-ypy brachiorum exortus, vel junctura. O vocabulo do Belga não carece de grande trabalho para se reduzir á atiyb geralmente usado para exprimir hombros; o dado por Lery, porém, soffreu muita alteração; o primeiro u (valendo y) está escripto n, depois em vez de b quiz escrever v e vem u: vem em seguida n ou u por y e á final a syllaba pony talvez pouy (valendo ou em francez u) em vez de py. O termo jyba-ypy além do significado proprio, era empregado para exprimir lacertus, mas impropriamente, porque para isto havia jybá-n̄eā.

Jyba brachia. Em Lery n por u (valendo y), e u por v (valendo b). Em giuwa tem-se apenas de dar á g o som de j, formar diphtongo de iu, e fazer w=v que está por b. O termo ye dado pelo Belga não póde ser senão alteração de yb, caulis, fustis, truncus, arbor, malus e mesmo brachium.

Po manus e che-po mea manus correspondem bem á poh e gepo.

Tyé ou antes tyjé alvus, també venter e mais propriamente inguen, porque para venter tinham tambem takapé. Em tyje o j talvez por ser precedido da vogal guttural y tem tendencia á soar como g. O r por t já se sabe que é a substituição passando de caso absoluto para caso regido, e o mesmo quando vem h por t ou r. Em zambeh é evidente o z em vez de h.

Kam mamma, uber. Os guaranis supprimiam o m dizendo , e os tupis faziam duas syllabas kama.

Tenypyā genua. Em Lery o r por t já se sabe; rodou está por reny ou rendy, e pouan (ponam erro de n por u) por pyā ou pyam. Em tnippha pronunciando-se duas syllabas com as lettras tni e dando-se aspiração á h já o som se approxima de tenypyā; em nupuha o Belga supprimio a primeira syllaba te ou re e tornou bem distinctas as duas syllabas finaes pyā.

Tetyman crura, ub coxa, femur. Em Lery houve erro de s por t facil de dar-se com o s antigo, que se assemelha á f; reteman já não se arreda muito de retyman Já vio-se ge por che portanto gretima está por geretima, que já dá che-retymā mea crura. Afinal youba está por ij-ub, á moda tupi ij-uba illius femur.

Py pedes, pes. E՚ evidente o pouii de Lery que faz duas syllabas em py e ainda alonga a segunda. Gepu está claro que é che-py mei pedes; ypuch é sem duvida i-py illius pedes.

 

B. C. d՚A. Nogueira.

 

(Continua.)

 

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