Ensaios de sciencia (Vol. 1)/1/III

METAPLASMOS
 

Para ultimar as observações acerca dos sons e das lettras que os representam resta tratar dos metaplasmos usados, muitas vezes por mera euphonia. Vê-se que fallando da troca de letras umas pelas outras tracta-se da mudança dos respectivos sons e não da troca por mera alteração de orthographia.

O y especial do abañeênga é de todos o que tem soffrido maior mudança, o que é natural, visto ser o som mais difficil e portanto mais alteravel. No Pará e em geral no norte, segundo se vê do vocabulario, do Padre Seixas e de Gonçalves Dias, e como é confirmado por viajores observadores, o y degenerou em é e em u. O verbo tyba jacere dizem teua, em vez de jasy luna dizem jasê e a negativa eyma tornou-se êma.

A mudança de y para u vê-se em apymō mergere que tornou-se apumŭ, em memby tibia, fistula, tuba que passou á membu, em hayhúb amare hoje sausúb, em mytuü quiescere agora mutuü. A mudança do y para i tambem se deu no norte, mas foi quasi geral nos vocabulos introduzidos no portuguez, como já se apontou em sapetyba, pindayba e outros embora escriptos com y.

Afinal, nos vocabularios de Gonçalves Dias e do Padre Seixas apparece o y representado por uma simples apostrophe como em p՚a por pyä stomachus.

As vogaes o e degeneraram em u, exemplo: potiá pectus putiá, porang pulcher purang; o pronome jo tornou-se ju, jetyk tubera passou a jutika.

De o mudado em a ja ha exemplo no mesmo tesoro onde vem marangatu por morangatu pulcher, bonus id est virtute preditus, maranduba por moranduba novitates sc. corum quæ sunt auditio.

O e tambem por vezes muda-se em i e vice-versa, veja-se tekó esse que faz a-ikó, re-ikó, o-ikó em vez de a-ekó, re-ekó, o-ekó, e ten cubare que faz a-in, re-in o-in em vez de a-en, re-en, o-en.

As duas vogaes a i são as que menos mudaram. O a, porém, quando representa a vogal neutra por vezes apresentada como outra qualquer e em composição desapparece quasi sempre, como em ybatan arbor rigida, lignum solidum de yba ou yb e antan e em ramo desinencia do subjunctivo que já desde Figueira apparece reme.

Nas nazaes apresenta-se grande tendencia de esquecerem-se as lettras complementares do radical, principalmente no Paraguay. O adjectivo antan durus, rigidus é escripto e pronunciado ātā e na primeira syllaba o som nazal é apenas sensivel de modo que já se podia escrever atā. No mesmo caso estão porā quasi porá em vez de porang pulcher e outros.

O som nazal de y é duvidoso que o houvesse em muitos casos, e parece antes ter sido alteração da labial b para m como se vê em yb arbor, mudado para ym em ymbira arboris pellis, arboris cutis.

Em ẽ, ĩ, ō, ha muitos exemplos de ter tambem desapparecido o som nazal, como mostra manō deesse que em muitos lugares se diz manô.

As consoantes, como acontece em toda parte, trocam-se umas pelas outras da mesma classe, ou formadas no mesmo lugar dos orgãos vocaes, isto é, as labiaes entre si, o mesmo com as dentaes, etc.

As gutturaes alternam-se frequentemente, e vê-se gantim por kantim ossis acumen, garaib por karaib sanctus, etc. No supino dos verbos acabados em g sempre ha mudança de g em k como em og supprimere, óka; pog rumpere, póka. Alem disso o g tem desapparecido em muitas dicções, e não só o g mas o u que costuma acompanhal-o e com elle se liquida. Assim guasú grandis tem ficado uasú e asú (e até usú); jaguá felis, jauá; guatá ambulare, uatá e atá; guapy sedere, uapy e apy.

Comparando-se o que disse Figueira, o Diccionario brasiliano e outros com o que vem no Tesoro acha-se o, u em vez de gu em: oapy por guapy sedere, oasem por guasem clamare, oára, oama, oaba, por guara, guama guaba (desinencias participiaes). Em karamemoā por karamenguā dá-se troca de ngu por mo.

Um dos metaplasmos mais usados dá-se no abrandamento de k em ng quando formam-se compostos, por exemplo: kér somno se dare, conferre se dormitum, mongér aliquem somno dare, conferre dormitum; karu se alere, mangaru alere.

A aspirada h em composição é inteiramente subordinada aos sons que a precedem e com elles muda como se vê nos participios em háb e hár. A desinencia geral é por exemplo como no verbo mboé docere, que faz mboeháb quod docetur, doctrina e tambem schola, mboehar qui docet, magister. Mas conforme as terminações da radical do verbo o h soffre mudanças como se vê em ñā ou ñan currere, que não faz ñahár nem nāháb, mas sim ñandab cursus, ñandár qui currit, assim em moñang facere, moñangáb quod fit, monhangár factor, mondog discerpere, mondokáb quod discerpitur, mondokára qui discerpit, moam tollere, moambáb quod tollitur, moambár qui tollit. Nestes exemplos vê-se o h amalgamado com a vogal nazal precedente mudar-se em nd, ng, k, m.

As dentaes d, nd, n rendem-se umas ás outras e apparecem tambem em lugar da dental forte t, mas esta nunca em lugar de qualquer das outras. O pronome singular da segunda pessoa apresenta-se sob as formas de, nde, ne, mas nunca te que tem significação diversa. Elle apresenta-se tambem sob a forma re, que é a prepositiva verbal da segunda pessoa do singular, e esta ligação entre a trinada r e a dental n explica o porque nos participios terminados em ar, ou ára, este r frequentemente figura como n como se vê em: yguána, maranguiguána, sokána, apohána, jukahána, ñandána, ñangána em vez de yguara aquaticus marangiguara rixosus, turbulentus, sokára qui contundit, apohára qui facit, jukahára qui occidit, ñandára qui currit, ñangara qui corbe colligit. O n por r apparece ainda em nã=rã similis, noin=roin locare, etc., e o inverso em rẽ=nẽ oleri.

Só na grammatica póde ser desenvolvida a regra dos radicaes demonstrativos, que pronominalmente se substituem uns aos outros na ordem t, h, gu, r e de que já se vio exemplo.

No mais quanto ás dentaes observa-se que no tesoro não vem um só vocabulo começado por d e vem muitos começados por nd. Entretanto francezes, portuguezes e outros escreveram esses vocabulos com d, e ás vezes com n ao passo que os paraguayos ainda hoje só usam do nd. O pronome pessoal por exemplo da segunda pessoa singular no tesoro é sempre nde, outros, porém, escreviam ne ou de, mas nunca te que tem significação diversa. Pelo contrario ha exemplos de mudança de t em nd, como se vê no verbo mondyî terrere, composto da prepositiva activa mo e do verbo neutro tyî tremere.

O que dá-se com as dentaes, tambem acontece com as labiaes p, b, mb, m que alternam-se obdecendo á certas leis de harmonia e regras grammaticaes. Se o radical tem p ou b pelo facto de se compôr com dicção de som nazal mudam-se essas lettras em mb e m. Do é a pospositiva dos supinos gerundios e ella se muda em ma e mo por exemplo em: ã erigi ãma e não ãbo, nupã contundere, pulsare, nupāmo e não nupābo, manō deesse, manõmo e não manóbo. Nos supinos gerundios de mais o b está sujeito á mudanças analogas ás que vimos para h. Pyrã calcare faz pyrãmo, pyrũnga, ty humare, serere, tymo ou tymba, mondóg discerpere faz mondóka e não mondóbo que corresponde ao verbo mondó jubere.

O relativo bäe que como pospositiva dos verbos fórma o participio presente o-mondóbäe qui jubet, o-häy-húbäe amans, este relativo, dizemos, quando isolado é mbäe, como em: mbäe-pe-ê-ré quid dicis?

O verbo por esse e habere composto com outras dicções por vezes muda-se em bór. O adverbio mais, tambem posposto á dicções nazaes muda-se em me e o mesmo acontece com a posposição pe.

No começo das dicções é rarissimo apparecer b simplesmente; de ordinario vem mb e este como já disse alterna-se com p. Assim diz-se po=mbo manus, pir=mbir pellis, pya=mbya pes, pya=mbya viscera, pokáb=mbokab tormentum, pug=mbug erumpi, peu=mbeu pus.

Além destas mudanças dos sons pelos seus correspondentes da mesma ordem (isto é, gutturaes, dentaes, ou nazaes entre si) ainda ha outras que parecem, porém, não são mais anómalas. Uma dellas e das mais frequentes é a do b em u e o. No verbo tyb o b degenerou em o: com effeito a terceira pessoa negativa do singular do presente indicativo é ndi-tyb que passou á nitio como se vê no diccionario brasiliano e dahi ainda á intio como está no vocabulario do Padre Seixas.

A pospositiva verbal haba, com que formam-se substantivos participios, no norte descambou para dua, e ainda mesmo se só havia terminação ba esta mudou-se em na exemplo: Peba planus tornou-se peua: tupába leetus, cubile, tupáua ; ygahába vas aquarium ygasáua. E tambem no meio das dicções como em abati milium que ficou anati. Em portuguez, sabe-se, trocam muito o b por v e vice-versa, mas o abañeênga não tendo x faz a troca do b por u.

Nem somente se cifra nesta mudança a alteração que soffre o b; elle tem sido completamente elidido e junto com elle a vogal da syllaba. Tubichába princeps, pelos indios do Pará é pronunciado tucháua, morubichába ficou muruicháua, etc. No fallar dos paraguayos tambem ha exemplo do desapparecimento do b por exemplo no verbo kuàáb seire, noscere quando se diz ndaí kuáái, em vez de ndái kuâábi ignoro, ignosco.

De outros metaplasmos e das figaras de grammatica não é opportuno aqui tractar mais desenvolvidamente: cabe em outro logar quando se analysar a estructura da phrase e proceder-se ao estudo dos radicaes. É na grammatica que podem ser estudadas certas mudanças de sons subordinados á leis algo uniformes; o abaneênga como todas as outras linguas tem o seu modo de variar as vozes conforme a contingencia dos sons, que se compõem.

Exemplos de metathese, verbi gratia, tem-se em bai por aib arduus, malus, como agora usam os paraguayos; de apherese em por tesá oculi; de apocope em quasi todos os vocabulos na bocca das gentes do Paraguay e das Missões; de synerese em tayñ por tayîn semen em tañ por tãin dens, de syncopa ou crase em tamonduá por tasymonduár myrmecophaga, ou litteralmente formicarum auceps, venator.

A apocopa merece particular attenção porque do uso frequente della entre os paraguayos resultou a principal differença entre guarani e tupi como já foi notado no prolegomeno. Embora pareça repetição fastidiosa torna-se preciso insistir sobre este ponto, porque isto tem induzido á muitos erros, fazendo crêr que differia muito o guarani do tupi. Os vocabulos tub, péb, nãn; tar, iab, óg, pór, syb, hub, e outros eram pronunciados pelos paraguayos com elisão da ultima lettra, dizendo elles: tú, pé, nã, tá, iá, ó, pó, sy, hú, e os tupis juntavam sempre a vagal neutra pronunciando distinctamente a segunda syllaba em túba, péba, ñāna, tára, iába, óga=oka, póra, syma, húba. Os guaranis nem sempre supprimiam essa ultima lettra ou syllaba conforme a euphonia ou a clareza que queriam no que diziam, mas era-lhes mais habitual a suppressão. Os tupis não apresentam quasi caso algum em que elidissem a ultima syllaba; provam-no os nomes hoje correntes no Brasil como peróba, pindayba, sapetyba, karióca, pipóka, inandioka, etc. Confrontem-se yberab aqua splendens que no Brasil tornou-se uberába e no Paraguay yberá; tyjúg lutum, no Brasil tyjúka e no Paraguay tujú.

É claro que aqui tracta-se só de metaplasmos proprios da lingua e não de trocas, equivocos, etc., resultantes do modo differente de escrever e de erros de escripta ou de impressão. Estes são inteiramente desconchavados e exigem apenas attenção para se não cahir em equivoco. De trocas de n por u, g por y, a por u e viceversa e muitos outros erros de escripta ou typographicos estão inçados os livros que tractam do Brasil e tem engendrado muitas extravagancias. No prolegomeno apontamos os dois nomes piága e inubia que nada significam e que são meros erros de paijé e mimby.

Além dos erros typographicos ou de copia ha o da orthographia differente, adaptada ordinariamente pelo autor da noticia aos caracteres empregados na propria lingua, em que escrevia. Assim em Lery, em Claude d՚Abbeville e outros o u é escripto á franceza ou, o é vem como ai, o ô como au, o y especial como u, ua ou oa como oi, ñ como gn, etc. Os portuguezes para quem o é apenas signal orthographico, porém, mudo na pronunciação, tendo de exprimir a aspirada forte do abañeênga serviram-se do ç e deste facto resultaram muitos equivocos; com effeito basta a suppressão da cedilha para que o som de ç se apresente como k, completamente inadmissivel. Digo inadmissivel porque no abañeênga ha talvez um caso unico em que a fusão de um g e de um h (equivalente de ç) produzem k; é nos participios derivados de verbos acabados em g que recebendo as pospositivas hab ou hár, reduzem o gh a k, por exemplo em pog strepere, crepare, pokáb strepitum et quod crepat, tormentum, pokar strepitans que segundo as regras de composição da lingua deviam ser pogháb, póghár, ou ainda pógaháb, pógahár.

Este ç empregado pelos portuguezes foi tão inconveniente que ainda acarretou outras adulterações de sons produzindo extrema confusão. A terminação do futuro dos participios em hab que é simplesmente haguã ou haguam vê-se escripta em Figueira e tambem em Anchieta aōama onde não se vê nada do som guttural tão proprio desta desinencia. Assim juká-haguama apresenta-se sob a fórma juká-ãoama, moingó-haguama como moingó-aõuma, fórmas visivelmente inconvenientes e não aptas.

É quanto basta para se poderem seguir as correcções e interpretações das dicções do abañeênga escriptas conforme as diversas orthographias dos que visitaram a terra de Santa Cruz, nos primeiros tempos da descoberta, e sobre ella escreveram noticias.

 

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