Ensaios de sciencia (Vol. 1)/1/II
ORTHOGRAPHIA E PROSODIA
Tanto na grammatica e diccionario do abañeênga, como nestes opusculos, os caracteres adoptados foram os seguintes na ordem alphabetica geralmente seguida: a, b, ch, d, e, g, h, i, j, k, m, n, ñ, o, p, r, s, t, u, y.
Admittiram-se os indispensaveis para exprimir os sons da lingua geral e preferiram-se aquelles sobre cujo valor phonetico menos duvidas apparecem. Talvez haja no abañeênga sons que assim não sejam bem reproduzidos, mas esta lingua não tem monumentos escriptos, não tem litteratura e seria pretenção irrealisavel a de apresentar com extrema exactidão as menores nuanças de sons, tanto mais quanto no decurso de mais de tres seculos soffreram as vozes innumeras modificações, já pelas leis de evolução propria ás linguas, mormente das que não são fixadas litterariamente, já pela mistura de vozes de outras linguas.
É facil portanto e é natural que se ache imperfeito e deficiente este alphabeto, mas é o indispensavel e apto para a representação dos sons usuaes da lingua, que tem fornecido tantas expressões e vocabulos ao portuguez e espanhol fallados na vasta peninsula Sul-americana, dos quaes não pequeno numero foi transplantado para os livros de sciencia. Mais miúda descriminação de sons serviria apenas para difficultar o estudo da lingua geral sem concorrer muito para a elucidação dos radicaes.
Ha annos que tomo notas para a grammatica e diccionario do abañeênga e foi posteriormente que tive conhecimento das licções de linguagem do Sr. Max Müller e li outras obras. Tornava-se penoso refundir tudo e reproduzir o diccionario e a grammatica conforme o alphabeto physiologico que devêra e tende á tornar-se universal. Por outro lado porem reconheci tambem que poucos são os sons cuja representação não está de accordo com a adoptada no alphabeto physiologico, e assim mediante algumas explicações podia ser acceito tal qual, tanto mais quanto é o proprio que conviria para representar taes sons em portuguez e em espanhol. Os portuguezes e espanhóes foram os primeiros e principaes conquistadores da America do sul, as suas duas linguas irmãs são as falladas mais geralmente em quasi todo o continente austral da America e as que maior numero de vocabulos do abañeênga tem adoptado; portanto por este lado até é conveniente a reproducção dos sons do abañeênga de um modo que esteja em harmonia com a pronunciação destas duas linguas de origem latina.
Convem apenas, como já ficou dito, algumas explicações acerca dos caracteres adoptados e dos sons que elles representam.
O abañeênga é rico de vogaes e relativamente pobre de consoantes.
Comparando-se as suas vogaes com as do schema do Dr. Lepsius
a
| ||
é francez |
eu francez |
ò italiano |
é francez |
ö allemão |
ó AU: francez |
i francez |
ü allemão |
u OU: francez |
vê-se que exceptuando as da carreira central eu, ö, ü, elle tem todas as outras. Mesmo na carreira central - ha uma sui generis que até certo ponto assemelha-se á ü e que representa-se nestes opusculos e no diccionario por um y. Assim o schema das vogaes do abañeênga póde ser
a
| ||
| è | ó | |
| é | ó | |
| i | y | u |
accentuando-se as vogaes e, o, á portugueza.
A vogal especial, representada por y carece de detida explicação, por ser a que apresenta maior difficuldade na pronunciação e por ser caracteristica no abañeênga. Tem ella alguma semelhança com o u francez ou ü allemão, mas é na realidade muitissimo distincta.
Eis o que acerca deste som vem na grammatica
do Padre Anchieta:
« i vogal que em muitos vocabulos se pronuncia
« aspero com a garganta, bem se lhe póde escrever
« g in fine, acabando-se a dicção no mesmo i, porque
« compondo-se com outra dicção começada com vogal
« exprimitur g ut ig rio, atà direito, composto diz igată
« rio direito.
« In medio dictionis não se soffre porque quem não
« sabe a lingua, pronuncia muta cum liquida, ut:
« imondopîra dirá i mondopigra.
« E encontrando-se com qualquer consoante no
« meio ou no fim, fará um concurso muito aspero de
« consoantes ut: tigba, agigb, etc. E nem com isso o
« ha-de saber pronunciar de qualquer modo que se
« escreva, se não fòr ouvindo-o viva voce.
« Por isso, para conhecer ser este i aspero, se es-
« creve com um ponto em baixo e ficará iota subscri-
« pto i porque faz muito differente significação do i
« leve ut: i (sub-ponctnado) agua com i aspero, i is, ea, id,
« com i lene; ayopi (sub-ponctuado) tanger trombeta ou frauta,
« ayopi picar uma vespa. Ou se ha-de deixar ao uso, porque
« alguns muito bons linguas o não podem pronunciar:
« mas ex adjunctis se entende o que quer dizer.
« ia com i aspero commummente é dissyllabo, ut:
« pia, abiar. »
O Padre Figueira á respeito d՚este som disse: « cos-
« tumaram os antigos linguas usar do mesmo i, jota
« com dois pontos, hum na cabeça e outro no pé, e
« lhe chamavam i grosso, porque a pronunciação he
« como entre u e i. Donde nasce que alguns o fazem
« u e outros o fazem i e forma-se na garganta como
« ig; mas porque na impressão não se pode metter
« este i com os dois pontos, em lugar delle se poz y;
« o qual todas as vezes que se achar no meio ou no
« fim de alguma dicção, se pronunciará como grosso
«no modo sobredito. »
A advertencia do catechismo do padre araujo transcripta no diccionario portuguez e brasiliano diz: « y
« é nota de voz guttural, que se forma na garganta,
« dobrada a lingua com a ponta inclinada abaixo, e
« lançando o halito opprimido na garganta, com um
« som mixto e confuso entre i e mais u e que não é
« i nem u, envolve ambos como se vê neste nome y
« agua. Os antigos para exprimirem este som, usaram
« de jota com um ponto em cima e outro em baixo.
« Outros escreveram ig. Porém, insufficientemente uns
« e outros, porque o jota tem diversa vocalidade que
« nunca chega á proferir este som guttural. Mais pro-
« porcionado é y que soando em sua origem aos gre-
« gos como ug e pronunciando-o como os antigos
« latinos, os modernos em muitos vocabulos o expri-
« mem como i. O Catechismo antigo usava de ambas
« as lettras i, y, promiscuamente por jota. Aqui por
« não se multiplicarem sem necessidade as lettras e
« pôr as que são necessarias se põe i com o seu or-
« dinario som e se reserva y para a vogal guttural. »
NO tesoro de la lengua guarani o padre Antonio Ruiz declarou que:
« Toda pronunciacion guttural, que se nota com
« esta señal házia arriba (signal latino de breve) es
« larga siempre, ut: iti basura; y assi se ha de pronun-
« ciar siempre con assento largo. Lo mismo es la pro-
« nunciacion guttural y narigal simul, cuja nota es
« esta (~) que se pone sobre la y, en que siempre con-
« curren estas pronunciaciones. »
Assim vê-se que o Padre Anchieta para exprimir esta vogal especial do abañeênga serviu-se de um i com um ponto sotoposto, o Padre Ruiz de Montoya de um semicirculo com o curvo para cima sobre o i (signal de breve latino), e o Padre Figueira, Araujo e outros empregaram o y. Uma auctoridade competente aconselhou-me que empregasse o grego, tanto mais quanto o y nos ensaios de alphabeto universal é usado para representar a semi-consoante sanskritica correspondente. Já ficou dito por que ficou conservado o y.
Com esta vogal sui generis não ha, parece-me, nenhuma parecida nas linguas europeas. Chamam-na yogal guttural, mas attentando bem na maneira pela qual ella é formada, dever-se-hia antes chama-la faucal. O melhor modo de percebe-la e forma-la é cantar as vogaes ; vê-se então que ella é feita por uma emissão rapida de som da garganta directamente para o exterior, como que evitando discorrer pelo tubo buccal; por isso póde ella ser considerada como a mais breve e a mais aguda das vogaes, e tanto que, demorando-se um pouco sobre ella, já parece que se forma em seguida uma consoante guttural g ou talvez o ch allemão. Isto explica em parte o uso que fizeram alguns de ig para representa-la.
Para confirmar este modo de considerar a vogal especial y do abañeênga, póde-se notar o que acontece nos vocabulos compostos. Ha um termo radical na lingua expresso por essa vogal mera e simples; é y agua; compondo-se esse termo com o verbo ar capere, sumere, accipere, formou-se ygár=ygá madidus, madefactus, quod aquam accepit ; composto com ára (contracto de áramo) formou-se ygára super aquam, linter « canôa ». Nestes exemplos vê-se que, apenas dá-se a minima demora na pronunciação do y immediatamente quer apresentar-se um som consoante guttural, o qual topando uma vogal na expressão que se vai enunciar em seguida, cahe sobre ella e com ella forma syllaba. O que disse Anchieta e o exemplo por elle apresentado ygatã confirmam o exposto.
Não havendo no geral das typographias caractere, gregos aconselharam-me que para representar a vogal especial empregasse o v que se parece com o gregos ou então empregasse o ü allemão. Nem um nem outro parecem convenientes, o primeiro porque toma-se sempre como consoante, e por isso é mais improprio que o y adoptado, e o segundo porque o emprego do trema é necessario para outro fim como se verá.
Além disto, sendo estes opusculos, e tambem o diccionario e a grammatica, especialmente destinados ao Brasil, não convinha alterar em grande a escripta de muitos vocabulos hoje admittidos no portuguez fallado pelos habitantes do imperio. São numerosos os nomes de plantas, de animaes, de lugares e outros do abañeênga hoje correntes em todo o Brasil. E se bem que o y do abañeênga na sua passagem para o uso brasileiro algumas vezes tenha tomado o som de u como em Ubatuba, Guaratuba, ubatã, usá, mais frequentemente com tudo tomou o som de i e continúa á figurar na escripta como y tal qual se vê em Sapetyba, Parayba, Guaratyba, Pindayba, etc. O v grego finalmente é tambem representado em portuguez e outras linguas romanicas pelo y nos vocabulos oriundos do grego, como se vê em grande numero de termos, mormente scientificos, compostos com hydro, poly, lympha, syno, etc.
No guarani fallado pelos paraguayos actualmente conserva-se o i gruesso de Montoya, mas quando esse i gruesso tem o som nazal elles empregam um y italico como vi em alguns numeros do periodico Lambaré. Além de outros inconvenientes o i gruesso não existe no geral das typographias.
Assim as vogaes adoptadas ficam sendo a, é, ê, i, ó, ô, u, y, ás quaes cumpriria juntar mais um caracter para representar a vogal neutra (Urvocal ou vogal primitiva — Max Muller 3.ª licção da 1.ª serie), a qual é essencial no abañeênga. Mas como esta vogal passa facilmente á todas as outras, no caso geral e quando fôr indispensavel será representada por um a sem accento, e em outros casos pela vogal surda que occorrer mais naturalmente. Com effeitò sendo quasi todos, e podia dizer, todos os radicaes desta lingua monossyllabicos, na construcção das phrases frequentemente tornar-se-hão dissyllabos, juntando-se-lhe um a complementar, que não é outro senão a vogal neutra. Assim temos: ab capillus, tub pater, ar dies, mundus, hub quærere, jur venire, tab pagus, og domus, jub flavus, e que se tornam ába, túba, ára, húba, júra, tába, oga, júba.
Quanto á accentuação o simples facto de escrever em portuguez e para uso do Brasil determinou o emprego do accento agudo para as vogaes accentuadas. O accento grave seria tambem necessario sobre o è e ò para differençal-os das mesmas lettras quando representam sons abertos. Por exemplo té erratus, diversus, insolens que se pronuncia como o ä allemão ou ai francez e têtê corpus que se pronuncia justamente como o participio passado francez été. Mas para não multiplicar os signaes empregar-se-ha em vez do grave o circumflexo, que já é necessario empregar em outros casos como se verá. O circumflexo demais disso tambem é usado em portuguez para exprimir o som fechado como servem de exemplo os verbos lê, crê, vê o nome avô e outros. Á moda portugueza serão chamados é, ó vogaes abertas, ê, ô, fechadas. O ô fechado não é frequente e nem haveria inconveniente em confundil-o com o aberto. O é fechado, porém, convinha ser discriminado, porque por exemplo em abaeté e abaêté a differença dos sons corresponde á grande differença de significação: o primeiro quer dizer horridus fœdus, deformis, e o segundo verus, honorabilis, gravis.
Abundam os sons nazaes no abañeênga e por isso serão empregados os caracteres ã, ẽ, ĩ, ō, ũ, y já admittidos nos ensaios de alphabeto universal. Talvez pudesse o til ser dispensado, considerando-se que no diccionario tem de ser escriptos os radicaes com todas as lettras que o caracterisam, como ang umbra, anima, amb=am stare, sistere immotus, erigi, ram quod simulat, imitat, similis. Mas como os guaranis e ainda hoje os paraguayos no corpo das phrases enunciam os sons perfeitamente nazaes sem fazerem ouvir as consoantes proprias do radical, torna-se indispensavel o emprego. do til para designar o som nazal da vogal. Assim elles dizem moñã facere, efficere, fabricare e não fazem, sentir o ng que termina esta dicção; torna-se isto mais sensivel no derivado moñãháb factio, fabrica, em vez de moñangab. No mesmo caso estão porā pulcher, ñeë loqui, ãtã durus, rigidus, acer, 7 cubare, ã erigi, kā mammæ, ubera, rã similis em vez de porang, ñeeng, antan, in, am, kam, ran.
Á respeito da quantidade não é possivel estabelecer discriminações bem fixas e pareceu preferivel não adoptar-se designação especial. Apenas, pois, póde-se estatuir que as syllabas escriptas com vogaes accentuadas serão consideradas longas e as não accentuadas breves; por exemplo abá homo, gens tem a ultima longa, e pelo contrario ába equivalente á áb capillus, capilli, crines, tem a primeira longa e a s egunda breve e até nulla; árame ou áramo quum vel ut nascatur, tem a primeira longa e as duas ultimas breves. No mesmo caso estão os subjunctivos táramo ut legat, káramo ut frangat, ut secet, éramo ut dicat, pinamo ut carpat, ut runcat, sókamo ut punetim feriat, contundat. Diversas pospositivas como pe, bo, i, ne, em geral accentuadas ou pronunciadas com a vogal bem aberta, são com tudo sempre breves e de mais á mais encliticas, mas basta a observação e escusa annota-lo na escripta, salvo separando-as da palavra que regem, por exemplo kópe ou kó-pe in arvo, ópe ou ó-pe contracto de óg-pe in domu; tábo ou tá-bo legendum, lectu, húbo ou hú-bo quærendum, quæstu, etc., em que as syllabas finaes são sempre abertas, mas breves. Com tudo para evitar duvidas ainda será necessario em certos casos empregar o signal circumflexo para designar as longas e onde fôr esse signal empregado as syllabas que se seguirem serão sempre breves, por exemplo karamingua area, capsa, que tem o ê longo ainda que a ultima seja accentuada com o til; dá-se aqui uma pronunciação semelhante á das palavras portuguezas sótão, sarámpão, benção e outras.
Além destes signaes torna-se necessario o emprego dos pontos diacriticos para indicar a pronunciação de vogaes concomitantes que formam syllabas separadas. Esta concomitancia de vogaes é frequentissima e até dá-se muito a repetição da mesma vogal como se vê em kaä frutetum, sylva et herba, hoö corporeus, torosus, soö animal, ñeëng loqui, heë pellere, huü mollis, piï tenuis, minutus, e tambem ñeä cor et medulla, pyä [{smaller|stomachus}} et cor, hüã caulis, thallus medullosus, spina dorsi, que se pronunciam separadamente de modo que todas estas dicções são dissyllabas.
Fazendo-se algum reparo no modo de fallar, nota-se que os paraguayos frequentemente pronunciam, quando dá-se esta concomitancia de vogaes, a segunda com alguma aspiração. Como se verá adiante existe na lingua a aspirada h que corresponde ao spirritus asper dos grammaticos, e na concomitancia de vogaes, de que aqui se tracta, parece que na segunda vogal sente-se o spiritus lenis. Na dicção hüũ a primeira syllaba é pronunciada com a aspiração forte do h, e na pronuncia do segundo u dá-se uma como diérese na qual é sensivel o spiritus lenis differente do spiritus asper da primeira. Com o trema (¨), collocado sobre uma das vogaes entre as quaes apparece uma como diérese, se indicará onde deve haver spiritus lenis; devia este signal ficar sobre a vogal que tem o spiritus lenis, mas nem sempre é isso possivel, como por exemplo em ñëẽ=ñëeng loqui, ñëê=ñeëm effundi, hëẽ sapidus, onde as syllabas que tem spiritus lenis LENIS já são marcadas com outro signal.
Os pontos diacriticos são indispensaveis tanto mais quanto na lingua ha tambem abundancia de diphtongos e cumpria distingui-los. Em pyä stomachus, byä commodo esse (propriamente être à son aise) ha duas syllabas e na segunda o spiritus lenis ; e pelo contrario em piâr se tueri, pyû tener, lenis, hêi lavare, hyî cupere as vogaes formam diphtongo e ha uma só syllaba. Como nas typographias não ha y com accento nenhum, fica ainda um profundo defeito na accentuação de dicções como pyû, hyî e outros que deveram ter o accento sobre o y por ser o seu som predominante no diphtongo.
Para se tornar bem sensivel a differença entre o spiritus lenis e o spiritus asper vejam se por exemplo : poö manus ampla, sc. munificus, beneficus, em que ha spiritus lenis na segunda; pohó e manu ire, effugere, em que a segunda syllaba tem h ou spiritus asper ; finalmente poóg manu legere, colligere em que as vogaes oó succedem-se simplesmente ambas accentuadas. Oö crassus tem spiritus lenis na segunda, ohó it, vadit tem spiritus asper; assim a mesma cousa com ñëë loqui, ñëëeffundi, e ñehē evacuari, com pyä stomachus e pyhar tenebræ. Por aqui se vê quanto devia ser musical esta lingua, e quanta difficuldade ha hoje para se fazer ideia e differençar suas variadas modulações, que necessariamente estão implicadas em grande numero de vocabulos compostos os quaes por isso até parecem contradizer-se.
Os diphtongos mais usuaes da lingua são formados por i e u quer antepostos, quer pospostos ás autras vogaes, e existem diphtongos nazaes como em täiñ dens, hãyîñ semen, granum, ñi urere, karãi scabere, scalpere. Estes diphtongos ãi, ẽi, ãi, etc., pronunciam-se proximamente como em portuguez mãi, bem, muito, etc., á que até certo ponto correspondem em francez os sons nazaes que ha em montaigne, poing, regne, etc.
Para se conhecer quando ha diphtongo, empregar-se-ha o accento circumflexo sobre a vogal principal ou dominante, ficando a outra sem accentuação alguma. Quando a vogal principal do dithtongo fôr nazal o mesmo til sobre ella supprirá o circumflexo. Quando emfim o mesmo diphtongo fôr breve, a vogal accentuada que o precede receberá o accento. Exemplo: pâi omentum, hêi lavare, pêu pus, sanies, häyĩ semen, ákuà cuspis, mucro, kuâb transgredi, transire, guêr vetus, preteritus, guêb deletus, obliteratus, uyb sagitta, kuî farina, pulvis, kûi vas, cyathus, crater, ũî urere, uî pulvis, mênguã offensa, damnum.
As consoantes ordenadas segundo o modo de formação resumem-se nas explosivas ou dividuas :
| Gutturaes | k | g | ñ |
| Dentaes | t | d | n |
| Labiaes | p | b | m |
As quaes tem-se de juntar ainda algumas fricativas ou continuas e uma ancipite ou trinada.
A guttural continua forte foi designada pelos espanhoes pelo h e pelos portuguezes muito impropriamente por ç. É evidente que devia ser preferido o h. Esta guttural passa, não raras vezes, á sibilante dental s, que tambem por vezes muda para sh (inglez), sch (allemão) e que aqui vai figurada ch. Este ch em alguns lugares do interior e em S. Paulo, se faz ouvir tambem com tsh. Assim nos participios em háb ou hár o h passou frequentemente á s e depois á sh (ch). Na saudação paraguaya maechápa re in, ut vales? echápa vem de esába que antes fôra ehába substantivo participio do verbo é dicere.
Adoptado o y para representar a vogal especial do abañeênga não houve remedio senão admittir o j, ainda que não muito proprio, para representar a semi-consoante que se ouve em jakaré, jagua, jar, je, jo. A pronunciação deste j varia em extremo conforme as localidades, ora não se differençando da vogal i, ora soando como dj, ora passando á ñ e até á ch. O som que mais propriamente se lhe pode attribuir o do Ja sim em allemão ou então o do ayez tende vós em francez. De passagem do j para ch tem-se exemplo em cha-ha em vez de ja-há eamus e em outros imperativos de verbos.
Só falta agora considerar a trinada r que suppuz à principio corresponder à semi-vogal sanskritica, e que pessoa habilitada me fez vêr que não passava de uma semi-consoante branda. O som deste r é o que se ouve nas palavras portuguezas e espanholas caro, sonoro, ara, ira, no francez cher, colère, sirop, heros, no allemão hier, èr, etc. De ser branda a pronunciação deste r ainda mesmo no começo das dicções provem o erro de terem escripto, quer em espanhol quer em portuguez, erê em vez de rê para exprimir a prepositiva verbal da segunda pessoa do singular.
Ainda é preciso uma observação á respeito das consoantes dividuas g, d, b, das quaes só a primeira é a que se apresenta começando dicções sem pronunciação nazal. As outras duas d e b em geral no começo das dicções sôam sempre como nd, mb. Por isso talvez osse melhor representar as dividuas do abañeênga pela serie
| k | g | ng | ñ |
| t | d | nd | n |
| p | b | mb | m |
Com effeito nas dicções mbae res, mbói anguis, coluber, mbir pellis, cutis, mby pes', pedes, nde tu, tibi, te, ndu sonare, strepitare, etc., o b parece precedido de m e d de n. Como que se sente aqui tambem o spiritus lenis que notamos acima na concomitancia de vogaes, e que parece haver no re prepositiva pronominal da segunda pessoa dos verbos.
Cabe aqui consignar uma nota. Embora seja arriscada a asserção, indico-a para que outros que tenham mais facilidade de tracto, quer com os nossos indios, quer com os paraguayos, a verifiquem. Este spiritus lenis que existe na pronunciação de mbäe, mbói, nde, etc., parece-me ser uma cousa inteiramente especial ao abañeênga e à outras linguas americanas. Com alguma attenção de facto nota-se um halito inspirado e não expirado, que precede á explosão da consoante b ou d. Analoga inspiração póde se reconhecer nas consoantes duplas do kechua Como ccapa letus, ttanta panis, que Tschudi escreveu com k e t especiaes. Esta inspiração é mais difficil de se reconhecer na pronunciação do re prepositiva pronominal, mas é evidente na concomitancia de vogaes, de que tractou-se acima, e tambem na pronunciação do y, a vogal especial. Houve dantes com effeito essa inspiração de sons? Parece que sim. Esforçando-me por vezes com os paraguayos para pronunciar o y e as vogaes duplas de soö, ñeë, suü, etc. reparei que alguns (e estes visivelmente guaranis puros) não enunciavam, antes propriamente engoliam o y e as vogaes reduplicadas. Conversando depois com outro paraguayo que tinha tal ou qual instrucção, e que forneceu-me escriptos em abañeênga, elle disse-me que assim só fallavam kaäygua indios do matto, caboclos puros.
Donde conclui que este modo de pronunciar, proprio dos indios primitivamente, foi perdendo-se com o contacto com os europeus que não têm sons dessa natureza. Viajantes observadores que têm percorrido os nossos sertões confirmam que é frequente ouvirem-se dos indios estes sons engolidos e á final na roça, entre os caipiras e matutos, é conhecida a interjeição ehá e outros cacoethes em que se ouve essa inspiração de som.
Assim parece que não só a vogal especial y e a duplicada das dicções que a tem, como ainda as nazaes iniciaes de dicções que começam por mb, nd, e talvez r, tinham essa inspiração devendo notar-se que com y, mb, nd, a inspiração precede, e nas dicções de vogal dobrada a inspiração segue a enunciação da syllaba immediata.
Na arte de la lengua geral del reyno de chile o padre Andres Febres dá ideia de um ù especial da lingua araucana, brevissimo á tal ponto que, mediante certas considerações, é por vezes supprimido na escripta, nemùl, mamùll, pelùm que tambem se escreviam neml, mamll, pelm. Este ù especial lembra muito o y do abañeênga, não obstante ser facil não achar anologia entre um e outro porque esse ù apresenta-se á formar syllabas em concomitancia com sons inteiramente estranhos ao abañeênga que por exemplo não tem o l.
O desapparecimento deste ù deixa vêr concomitancia de consoantes, como por exemplo, em neml, o que tem o seu analogo nas consoantes duplas do kechua ppacha, ccara, etc., e, como já foi apontado, faz lembrar os mb, nd do abañeênga. Quando menos, estas analogias desafiam o estudo destas linguas e provocam a sua comparação.
Uma observação que interessa, é sobre a ausencia de certas consoantes no abañeênga. O ƒ e o v talvez podessem considerar-se impossiveis para aquellas tribus tupis ou guaranis que tinham o costume de furar o labio para nelle metter o batoque. Em geral vê-se que este uso devia influir muito na pronunciação das labiaes, e dahi tambem é possivel que provenha a raridade de vocabulos que tenham b por inicial; quasi sempre neste caso as iniciaes são mb. Que influencia podia exercer isto sobre a inspiração que precede as consoantes b e p é o que será difficil decidir.
Compendiando o exposto sobre as consoantes e comparando os signaes adoptados com os que têm sido usados na escripta portugueza e espanhola, eis as poucas differenças:
Eliminou-se o ç dos portuguezes e ficou o h dos espanhóes, mais proprio para exprimir a aspiração.
Foram substituidos o c (antes de a, o, u) e o q por k, universalmente usado e proprio para exprimir a instantanea guttural forte. Salvam-se assim as ambiguidades da escripta com c e q como dão-se em quér por kér dormire, cuer por kuér vetus, cyr ou quyr por kyr tener, viridis, páceme ou páqueme ou pácamo por pákamo eum expergiscatur, (paceme escreveu Anchieta).
Preferio-se o ñ espanhol ao nh portuguez correspondente á gn francez. O ñ é sem duvida preferivel não só porque é usado geralmente, como porque representa-se o som por um só caracter, evitando ambiguidades. Escripto este som nh á portugueza dar-se-hia confusão entre anhó (ang-hó) animæ ire, suspirus e añó solus, unicus. Se fosse adoptada a franceza gn poderia ainda apparecer alguma confusão com os sons representadas por g e por n.
Por motivos identicos preferio-se o s em vez de ç e de c (antes de e, i) para a sibillante.
O emprego do ç á portugueza trouxe o inconveniente de confundir-se o s com o h. Este h representa por si um elemento grammatical; nomes e verbos começados por t representam certo estado absoluto; logo que se subordinam á nomes e pronomes mudam o t em r, e quando o pronome é de 3.ª pessôa o r torna-se h, e este muda para gu quando é reciproco. Por exemplo: tub pater, che-rub meus pater, nde-rub tuus pater, karüi-rub christiani pater, hub ejus pater, guûb suus pater. Já não acontece assim com o s que não varia e que até parece exigir, quando está no começo dos vocabulos, uma syllaba addicional preposta. Por exemplo sá oculi que faz na forma absoluta tesá oculi e depois conforme a regra das mudanças do t, che-resá, nde-resá, hesá, guesá mei oculi, tui oculi, ejus oculi, sui oculi; Tupã-resá Dei oculi. Aqui vê-se que os do radical ficou invariavel.
Para a semi-consoante quasi chiante adoptou-se j, convindo não confundi-la com i que tambem por si representa um pronome de 3.ª pessoa e com certa classe de nomes e verbos corresponde ao h já mencionado. Só na grammatica póde ser elucidado o que diz respeito á esta particula demonstrativa, mas nos seguintes exemplos se verá a necessidade da distincção entre i e j: ai-ar=aiár eum colligo, a jar=ajar adhereo, ai-u= aiú eum edo, a-ju=ajur venio, á-jú=ajúb requietus sum.
Afinal empregou-se ch para o chiante sh (inglez) = sch (allemão)= ch (francez). Talvez conviesse empregar x por ser um só caracter com o qual se evitaria o duplo emprego do h, e porque é o som que lhe dão os portuguezes em muitas dicções como xadrez, rixa, lixa, praxe, etc. Mas é tão differente o som attribuido á x no geral dos alphabetos que apezar de empregar dois caracteres (ch) para um som, com tudo foi preferivel. Por fim este som chiante do abañeênga que corresponde a sh inglez ou sch allemão, n՚alguns lugares sôa quasi tsh ou ao menos como ch de church igreja, e assim em todo o caso é preferivel o ch.
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