Ensaios de sciencia (Vol. 1)/1/I

PROLEGOMENO

 

Não ha ainda muito tempo que no Brasil tinha-se o tupi na conta de lingua differente do guarani.

Hoje mesmo por pequenas differenças de pronunciação e por se acharem aqui vocabulos que não são usados acolá, querem differençar tupi austral de tupi boreal e levam talvez adiante a subdivisão imaginando um tupi oriental, outro central, etc.

Procedendo por esta maneira tambem poder-se-hia differençar portuguez fallado em Portugal, de portuguez fallado no Brasil, e este em lingua de paraense, de carioca, de mineiro, de paulista, etc. Porque na realidade o guarani não se differença do tupi senão tanto quanto o portuguez fallado pelos nascidos na Europa differe daquelle que falla-se no imperio americano.

Se assim acontece em relação ao guarani é ao tupi que são uma e a mesma cousa, não será mais de estranhar que levassem á mais de milhar o numero das linguas americanas, multiplicando-as sem criterio nem exame, e fazendo de conta que cada tribu que se encontrava com um nome differente, tambem tinha a sua lingua diversa. Applicando ao portuguez esse processo podia-se dividir a lingua fallada no imperio, não só em tantas quantas são as provincias ou outras circumscripcões territoriaes, mas ainda em linguas dos Gonsalos, dos Mottas, dos Albuquerques, dos Souzas, segundo os nomes das familias.

Os trabalhos monumentaes que os sabios investigadores dos segredos da linguagem tem executado nos tempos modernos protestam contra este systema ou antes mania de multiplicar inconsideradamente as linguas.

E tal é a valentia e profundeza desses trabalhos que já não é o parentesco do espanhol e do portuguez o que se investiga e o que se demonstra.

O portuguez, o espanhol, o italiano, o provençal, o francez e o valachio por muito differentes que sejam hoje em dia, embora seja difficil que o que falla um desses idiomas possa perceber aquelle que falla outro qualquer dos co-irmãos, e lhe seja necessario aprender a lingua como inteiramente differente, estão hoje reconhecidos como provindos da mesma origem, são considerados como pertencentes á lingua romanica que se filia à latina e á grega.

Ainda mais. Entre linguas inteiramente differentes confrontadas á primeira vista, como o allemão com qualquer das linguas romanicas ou com o armenio, a investigadora sagacidade dos sabios vai descobrir os laços de parentesco. Das linguas já irmanadas em familias formam grupos, que são outros tantos ramos derivados de um tronco commum e á final chegam á constituir a grande arvore das linguas indo-germanicas á qual se filiam tambem o grego, o zend o sanskrit, etc.

O que acontece no mundo antigo é natural que se dê tambem na America, porque a natureza não gosta de excepções, e opera sempre em virtude de leis permanentes e geraes. Perante um estudo consciencioso as milhares de linguas attribuidas á America têm de ser reduzidas á muito limitado numero, talvez filiadas ás do mundo antigo, e á tronco quasi unico.

O douto abbade Hervás no seu Catalogo de las lenguas, diz que não obstante ser grande o numero e a diversidade dos idiomas fallados pelas nações indigenas das duas Americas, á onze se reduziam as linguas principaes espalhadas pela maior parte do Novo Mundo. Destas onze, pertenciam á America do norte sete, de modo que vem á ser só quatro as que predominaram na America do sul, as quaes são a araucana, a guarani, a kechua е a karibe.

Entre estas quatro linguas, segundo Hervás predominantes na America meridional, se não puder-se affirmar em absoluto que existe algum parentesco e affinidade, pelo menos é licito dizer-se que dá-se muita connexão no modo de formar e construir a phrase; e que ellas estiveram em estreito contacto umas com as outras deprehende-se do facto de se achar não pequeno numero de vocabulos e dicções communs á todas, ou pelo menos communs á duas.

Alcide d՚Orbigny identifica o caraiba com o guarani, e citando o tesoro de la lengua guarani, de guarini guerreiro faz derivar guarani, galibi, garibi, caribe e caraiba, e reputa esses nomes apenas corrupções do primeiro.

O caraiba por ter alguns sons inteiramente diversos dos do guarani e por lhe faltarem outros que existem nesta lingua não se poderá considerar á rigor dialecto delle, mas é innegavel que tem parentesco com a chamada lingua geral, que é talvez idioma co-irmão ; pelo mais perfunctorio exame das duas linguas conclue-se que as tribus que as fallavam tiveram estreitos contactos, em paz ou em guerra, o que confirmam as tradicções dos primitivos incolas, e as noticias que foram dadas por diversos exploradores principalmente dos primeiros tempos da descoberta.

É significativo este nome de caraiba ou caribe que se encontra por toda a parte não só na America. do sul, mas até na do norte, com diversas variantes mas conservando os vestigios do radical e mantendo significações correlatas. O radical kara corre parelhas com os vocabulos da lingua geral, tab, tupi, tamōi, tupā, gua, guay, guaya, pará, que semelhantemente se acham diffundidos por toda a parte, denunciando apezar dos pezares, uma communidade de origem ou pelo menos relações intimas das differentes gentes que possuem esses vocabulos no seu idioma.

Na republica jesuitica das Missões karaib designava em geral o homem branco, e applicaram-no aos europeus. Ainda hoje no Paraguay designam os descendentes de indios ou indias puros por abá e os brancos, os europeus por karai. Ao presidente da republica, aos generaes, etc., dão o tratamento de xe-karai-guasúmeu grāo senhor, e mesmo no tratamento civil dirigem-se ás pessoas gradas com o xe-karaimeu senhor. Os restos de omaguas е tupis que ainda andam errantes nas margens do Amazonas e seus tributarios em vez de xe-karai dizem hoje xe-iara ; mas agora mesmo chamam ao homem branco cariua. Em tempos anteriores os tupis da costa serviam-se do termo karaib para designar cousa excellente, ente superior, por karaiba eram conhecidos uns profetas ou sacerdotes de caracter mais elevado que o paijé, e logo no começo quando os primeiros catechistas começaram a pregação de doutrina na lingua geral designaram os anjos por karai-bêbê (ente superior volante).

Como já se vio filia-se á este vocabulo o nome dos galibis e caribes, isto é, o nome mais geral das tribus de Tierra-firme, das Guyanas e das ilhas do golpho Mexicano.

Em kechua não se acha a expressão karaib, mas acha-se ccari varão, varonil, o que não deixa de ter importancia em parallelo com kará-kará-retama que Antonio Ruiz dá no tesoro para designar-se o Perú em lingua de paraguayo. Litteralmente kará-kará-retama não se póde interpretar senão por patria dos esforçados, paiz dos guerreiros. Parece que os que fallavam a lingua geral chamando ao homem branco karaib e ao Perú kará-retama, entendiam que dalli daquellas altissimas montanhas tinha descido algum povo de côr branca, esforçado, destro e habil, pois ha tambem no tesoro do Padre Ruiz o adjectivo karár, que quer dizer habil (versutus, peritus e mesmo sapiens).

Importa ainda vêr que ccúra em kechua designa dar de comer, donde vem ccarakel que dá de comer (suppeditator, convidator, hospes e mais amplificado pater-familias,) o que lembra o Moussacat que Lery define le bon père de famille qui donne à manger aux passans. Por um lado ou por outro póde-se pois chegar ao vocabulo karaibbocablo con que honraron á sus hechiseros universalmente y asi lo applicaron á los españoles y muy impropriamente al nombre christiano y á cosas benditas, diz Antonio Ruiz.

Em araucano apparece carapueblo, fuerte, ciudade (calepino de Febres), e admittindo por um instante que com um termo estrangeiro se construa um vocabulo proprio (o que não é raro) ficaria litteralmente em lingua geral : kara-yburbis dux, oppidi magister.

Assim, nas quatro linguas principaes da America do sul apresenta-se esse vocabulo mais ou menos reconhecivel nas suas transformações, designando o mesmo predicado de eminencia, cousa saliente, ou importante.

Não fica ahi. O abbade Brasseur de Bourbourg na sua Dissertation sur les Mythes de l՚Antiquité Americaine, fallando dos guerreiros caraibas, que elle suppõe originarios da America do norte, e invasores da do sul pelo isthmo de Panamá, nota que os caramari de Carthagena gabavam-se de pertencer à valente raça dos caraïbas, e mais adiante observa que ficaram subsistindo por muitas partes as denominações cara, cari, coro, cali, etc. Elle cita Rochefort que dá caribe significando guerreiro, e observa que cará no sul originariamente era como que um titulo honorifico que se outorgava aos chefes que se tinham distinguido por acção de brilho, e accrescenta que nesse nome, que significava para elles o homem por excellencia, manifestava-se o orgulho de uma raça poderosa e bellicosa.

Mas tornemos ao que importa sobre a generalidade da lingua fallada pelo maior numero de indios do Brasil e do Paraguay.

Das quatro linguas que predominaram na America do sul, a que se propagou por maior extensão territorial, a que era entendida e fallada por sobre mais de dous terços da superficie do continente meridional, é aquella que foi denominada com toda a razão lingua geral e que se designa ora por guarani, ora por tupi, e que com o fim de abranger ambas com os dialectos, quaesquer que haja, dellas derivados, será chamada nestes opusculos pelo nome de abañeênga ; tal é a denominação que lhe dão os paraguayos, os quaes ainda hoje a fallam se bem que já muito deteriorada pelo esquecimento da antiga construcção e pela introducção não só de vocabulos, mas de phrases á espanhola, que demudaram quasi completamente a sua syntaxe e lhe deram um torneio inteiramente avesso á sua indole.

Que esta lingua foi a fallada em maior extensão territorial da America do sul, é cousa já reconhecida por diversos escriptores. É interessante e dispensa mais longas citações o pequeno todo de transcripções feitas pelo Sr. Julio Platzmann na reimpressão que fez da grammatica do Padre Anchieta, onde vê se quanto era antiga esta opinião. Da extensão dessa lingua já tinham fallado em tempos muitos antigos o Padre Antonio Ruiz de Montoya e outros; foi reconhecido em tempos posteriores pelo autor do Saggio di Storia Americana e pelo erudito Hervás, e em tempos. mais modernos o confirmam Alcide d՚Orbigny e outros escriptores. Citam-se, em diversos auctores e se me não engano tambem no L՚homme Americain de Alcide d՚Orbigny, palavras de John Luccok dizendo que esta lingua era fallada na America do norte.

Na mesma Revista do Instituto Historico estão impressos trabalhos, nos quaes se reconhece o extenso, dominio dessa lingua chamada geral no Brasil, e o seu parentesco com aquella que fallavam os povos das missões do Paraguay e da Guayrá.

De um curioso escripto de 1584 dado á luz no 6.° tomo da Revista vê-se que «todo o gentio da costa que tambem se derrama mais de 200 leguas pelo sertão e os mesmos carijós que pelo sertão chegam até as serras do Perú tem uma mesma lingua que é grandissimo bem para sua conversão».

Alcide d՚Orbigny foi deparar com guarayos, sirionos, e chiriguanos fallanndo a lingua geral no centro da Bolivia, circumdados de chiquitos, moxos, kechuas e aymaras que fallavam linguas differentes. O omagua é dialecto da lingua geral e talvez nem simplesmente dialecto, talvez a mesma cousa que tupi е guarani, isto é, differençando-se apenas um do outro como o fallar de uma provincia do de outra.

Eis algumas palavras de Hervás que vem á proposito:

 

«Da lingua omagua é necessario discorrer separadamente, porque nella se acha documento claro da tenacidade que as nações americanas têm em conservar o seu idioma nativo. No. cotejo que fiz das palavras dos idiomas guarani, omagua e tupi adverti claramente a sua afinidade, e que as nações que os fallam, tinham origem commum ; sobre o que fiz algumas investigações. O abbade Velasco julga que seja omagua a estirpe destas nações e outras que se acham dispersas pelo novo reino de Granada e por outros paizes, cuja extensão é de mil e quinhentas leguas, e em que se fallam linguas de clara afinidade com o guarani e omagua. Velasco escreve-me de Faenza em 14 de Fevereiro de 1787.

« Os omaguas crèm-se superiores aos outros indios americanos ; tem-se por gente distincta e nobre e como nação deste caracter se reconhece entre as outras nações do Maran̄on. O seu idioma é dos melhores da America meridional, na qual poucas nações se acham tão numerosas como a omagua. Sabe-se que esta nos seus costumes, e talvez tambem no idioma concorda com os guaranis muito á sul ; ella concorda tambem com a nação agua do novo reino de Granada, dispersa pelas planuras do Orinoco, e pela provincia de Venezuela da linha equinoccial para norte: concorda tambem com a tupi, numerosa na provincia do Pará e em varios paizes do Brazil, e principalmente concorda com a nação do rio Tocantins á 5° lat. S. e á 325° long. N՚um dos paizes do Maran̄on pertencente ás missões que tinham os jesuitas e estão situados á 4° de lat. meridional e 305° de long. havia um formigueiro de indios omaguas; pois o padre Gaspar Cuxia em 1615, quando com elles estabeleceu a paz, achou quinze mil omaguas nas ilhas do rio Maran̄on, sem contar os que havia no rio Yurum (chamado tambem Yurua) onde estão os indios yurimaguas. O padre Samuel Fritz chegou á fundar trinta e tres povoaçōes de omaguas e yurimaguas, tāo numerosa era a naçāo Omagua E onde se achará a sua origem ou estirpe? Os omaguas do reino de Quito dizem que se deve achar no Maran̄on, e que muitas tribus de sua naçāo ao verem as barcas dos primeiros espanhóes enviadas por Gonzalo Pizarro, fugiram para as terras baixas do Maran̄on, para os rios Negro e Tocantins, para o Orinoco e outros paizes do novo reino de Granada. Candamine que observou attentamente a naçāo omagua na sua viajem pelo Maran̄on, conjectura que ella antigamente formava uma monarchia ou soberania por perto do Orinoco, e que ao entrarem os primeiros espanhóes, fugio e derramou-se por diversos paizes. Nāo me atrevo á approvar esta conjectura que me parece arbitraria ; o certo é que acha-se pelo menos a extensão de 70 gráos entre o guaranis, os tocantinos, os omaguas do Pará, do Orinoco, de Venezuela, e do Maran̄on de Quito.»

« Até aqui Velasco que foi missionario no reino de Quito ; na Italia, depois que alli chegou com os jesuitas espanhóes, elle imprimio um diccionario da America meridional em que suppōe a existencia de muitos dialectos do omagua.

« Caman̄o julga os omaguas descendentes dos guaranis; porque ainda que entre os omaguas e os verdadeiros guaranis (que são os paraguayos, os do Pará, os tupis, os uruguayos, os guaranis, etc.) se interponha um cháos de naçōes de idiomas diversos, com tudo por acharem-se os verdadeiros guaranis estendidos desde o Brazil até Cayena, parece que dos guaranis do Brasil devem provir os omaguas que se achavam no Maran̄on entre os rios Napo e Yurum. Na historia do Maran̄on, illustrada pelo padre Manuel Rodrigues, acha-se uma excellente discripçāo da provincia dos omaguas que fallavam dialecto do guarani.

« Parece pois probabilissimo que todas as naçōes, que fallam dialecto do guarani, descendam dos guaranis do Paraguay ou dos tupis do Brasil (que tambem são guaranis). As linguas guarani do- Paraguay e tupi do Brasil nāo sāo menos semelhantes que a espanhola e a portugueza entre si. Estas duas linguas tem o caracter da maior antiguidade. porque uma mesma palavra com accentos diversos pronunciado em guarany e em оmagua tem differentes significaçōes como succede na lingua china e outras. Á omagua falta a grande perfeição grammatical do guarani e isto parece indicar que desta seja dialecto a lingua omagua: assim o latim, dialecto do grego, tem menos perfeiçāo grammatical que esta; as linguas portugueza, espanhola, franceza, italiana e valaca são dialectos da latina e menos perfeitas que estas no artificio grammatical; e o mesmo succede aos dialectos teutonicos com respeito ao allemāo de que provém. As naçōes que fallam o guarani, occupam grandissima extensāo nas costas de Brasil e nos paizes mediterraneos; e foram e sāo actualmente mais numerosas que as que fallam o omagua; mas os omaguas tem-se achado nas ilhas do rio Maran̄on e nas suas margens; isto certamente faz conhecer que sāo tribus provenientes e separadas dos guaranis e que por meio da navegaçāo estabeleceram-se já em umas partes, já em outras.

« As naçōes insulares provém das do continente.... e os caribes do golpho do Mexico provém do continente da America. Os omaguas sāo os phenicios da America porque, segundo as historias das missōes dos jesuitas, e a asserçāo dos missionarios ainda vivos, elles tem sido sempre homens de grande habilidade para a navegaçāo.

« Com a lingua omagua tem afinidade as linguas jurimagua, payagua, yagua, cocama (como os seus dialectos cocamillo e huebo) a lingua yete (fallada por uma naçāo barbara das ribas do Napo no paiz dos encabellados) e talvez outras linguas de nações pouco conhecidas.»

 

A esta citaçāo que nos mostra o aban̄eênga á estender-se para as bandas do noroeste com a denominação de omagua, é bem cabido ajuntar outra de Alcide d՚Orbigny. Diz elle:

 

« Se quizermos lançar uma vista d՚olhos sobre a synonimia dos guaranis, sobre os nomes que tinham no tempo da conquista e tem ainda hoje as suas diversas tribus, pasmar-nos-ha o seu numero, e um volume de investigaçōes mal bastaria para discutir todas ellas convenientemente : porque a mesma tribu, mudando de lugar ou de chefe, mudava ao mesmo tempo de denominaçāo ; dahi essa immensa quantidade de naçōes que se pretendem extinctas ; depois cada historiador conforme a maneira como tinha ouvido o nome, conforme a orthographia que lhe dava, creava tambem nomes novos, que os compiladores reproduziam copiando-os sem critica, até mesmo adulterando-os e abrindo assim nova fonte de erros. De outro lado os hespanhóes, os portuguezes, os francezes, os inglezes e os hollandezes, cada qual com seu modo de escrever conforme o genio da propria lingua, apresentavam as mesmas denominaçōes sob forma differente, o que as mutiplicava gratuitamente. A melhor prova que disso poderemos dar é a compilaçāo, aliás bóa, que fez Warden na arte de verificar as datas em que só para o Brasil indica 387 naçōes....

« Acreditamos nāo exagerar estabelecendo, depois de examinar a origem desses nomes de naçōes, que mais de 400 devem pertencer á guarani, mencionando apenas tribus cujos nomes foram adulterados pela orthographia. »

 

Dando em seguida uma breve synonimia elle menciona Arachanes, no Rio-Grande do Sul ; Mbeguas e Timbués, no Baradero ; Carácarás, abaixo de Santa-Fé ; Tapes, em Missiones ; Cariós, no Paraguay ; Guayanas, ao pé da grande cascata do Paranã ; Guarayos, Sirionos e Chiriguanos na Bolivia.

O mesmo abbade Hervás, já citado, tractando dos indios do Brasil e enumerando os que fallavam tupi adstringe-se ás noticias dadas pelos escriptores portuguezes como Simão de Vasconcellos, etc., confirmados por outros de nacionalidade diversa, Como pertencentes ao ramo tupi ou tapi elle enumera tapes, carijos, tamoyos, tupinacos, temiminós, tobaiáres, tupinambás, tupinaes, amoypiras, ybyrairas, caetes, potiguares, paraibas, apantos, tupiguares, araboyares, rarigoares e tocantinos. É uma lista de nomes que não tem maior importancia, logo que pertencem á lingua geral, são susceptiveis de explicação nella e que principalmente ninguem contesta serem denominações de diversas tribus tupis, isto é, que fallavam a mesma lingua. De passagem apenas note-se que por tupinambás costumam os auctores designar especialmente os da Bahia, entretanto que essa denominação parece ser geral, e cada tribu se apropriava della no seu tracto com os europeos. Os tamoyos do Rio de Janeiro deram-se á Lery por tupinambás; o mesmo fizeram os do Espirito Santo, os do Maranhão, etc., e assim vê-se que é erro denominar-se de tupinambá unicamente a gente que habitava no reconcavo da Bahia. Os tupinambás do Amazonas, dizem, eram os restos dos tamoyos vencidos no Rio de Janeiro que se internaram e foragidos foram dar com sigo no Amazonas; e porque não seriam outros tupis, visto que tupis eram tantas tribus esparsas por todo o Brasil? e como é que só os restos dos tamoyos é que puderam atravessar tantas centenas de leguas, sem serem completamente exterminados por gentes contrarias ? o caminho que seguiram era inteiramente despovoado ? Os omaguas da Bolivia, Perú e Nova Granada não eram o mesmo que tupis e guaranis? e não se davam tambem por tupinambás, donos da terra.

Isto induz á procurar a interpretação do nome tupinamba. Em outro opusculo tracta-se disto mais desenvolvidamente, e aqui cabe quando muito uma observação.

E՚ possivel traduzir tupinambá, ainda que com alguma difficuldade, por gente da terra (finium gens, vel, locorum incolae), resposta natural á uma pergunta quinam estis, formulada pelos europeus no Rio de Janeiro, na Bahia, etc., e respondida por indios pertencentes á mesma familia.

Deixando de parte estas tribus que ninguem contesta serem da mesma familia, os auctores menciònam grande numero de outras inteiramente diversas, e que fallavam idiomas sem parentesco algum com a lingua geral e nem mesmo entre si. No Catalogo de las lenguas Hervás enumera não menos de 51 linguas ou nações mencionadas pelos escriptores portuguezes como differentes.

Alcide d՚Orbigny, depois de declarar que pouco conhece os brasis, pois na sua viagem apenas vira um botocudo, etc., referindo-se ás figuras e descripções que vira nas obras de Spix e Martius, de Neuwied, de Rugendas e de Debret classifica-os todos no ramo brasilo — guarani, attentos os caracteres physiologicos.

Se pois pelos caracteres ethnographicos todos os brasis podem-se considerar como pertencentes á mesma raça, mais ou menos misturada aqui e acola com gentes de origem differente (kechuas? chilenos?), resta apenas saber se realmente a diversidade das linguas é tão grande, como dizem, resta averiguar e assentar quaes eram essas linguas. Ahi os dados são mais que parcos. Afora do que existe acerca de lingua geral o mais cifra-se em alguns róes de nomes, que não podem auctorisar illação de especie alguma. Se nestas listas de nomes ao menos houvesse algumas phrases, que supprissem á falta de grammatica, como se vê no vocabulario caraiba de Padre Raymond ainda bem ; mas nem isso. No seu Glossaria linguarum brasiliensium Martius reunio a maior parte (não todas) das listas de nomes que encontram-se em diversas viagens e noticias do Brasil. Mas o que fazer com essas listas, cujas nomenclaturas são escriptas, Deos sabe como, e cuja pronunciação é a mais duvidosa possivel? Se o aban̄eênga escripto por portuguezes (tupi) tem-se por differente do aban̄eênga escripto por espanhóes (guarani) e nem combina com o que escreve Lery, como interpretar essas nomenclaturas, com cuja orthographia podem produzir-se os sons mais differentes conforme forem pronunciados?

Entretanto prestando-se alguma attenção e levando-se até onde é possivel a comparação acha-se que a diversidade não é tão grande como parecia á primeira vista. Há setenta róes compilados no Glossaria exceptuados os tupis, e os do Brasil septentrional ou das Guyanas. Nestas setenta nomenclaturas já não é pouco achar alguns vocabulos communs á muitas e, o que é mais, communs ora ao araucano, ora ao kechua, ora ao mesmo abañeênga. O que se conclue daqui? que a grande variedade de linguas em ultima analyse se reduz á nada, pode ser explicada pela simples degeneração, dialectica tão perfeitamente estabelecida pelos mestres da sciencia da linguagem, e que finalmente os milhares de linguas attribuidas á America do sul se reduzem ás quatro principaes que estabeleceu Hervás, as quaes talvez ainda se reduzam á duas o abañeênga е o aymara, de cuja mistura, fusão, amalgamamento, dissolução e refusão em diversas epochas resultaram o kechua, o araucano, o caraiba e os numerosos idiomas e dialectos que dahi provieram.

Dirão de certo que não é possivel por exemplo confundir tapuias e aimórés com gentes da raça tupi, que são muito grandes as differenças, etc. Em todo o caso, porém, sobresahe o facto mais geral, isto é, que as tribus americanas inquestionavelmente se differençam menos umas das outras do que cada uma dellas da africana ou da caucasica. Esta questão porém pertence á anthropologia, e não é licito em ligeiros opusculos escriptos com fim muito limitado, aventar questões de outra ordem e que demandam conhecimentos especiaes e profundos.

Não se trata aqui propriamente da questão ethnographica. Não se discute se os indios que fallavam a grande lingua geral eram autochtones ou pelo menos dos mais antigos habitadores do paiz, se vieram ou não de outra região, atravessando mares com escala por ilhas, ou percorrendo continentes. Averigua-se e estatue-se apenas um facto; a generalidade de uma lingua que estendeu o seu dominio por uma vastissima extensão de terras e com a qual tem mais ou menos affinidade grande numero das linguas chamadas americanas.

Assim pois o abañeênga, a lingua geral donde procederam o guarani, o tupi, o omagua com os seus variados dialectos nas bacias do Amazonas e do Prata, o chiriguano, o guarayó, o cayuá, o apiacá nos mattos grossos e nas campanhas do interior e talvez o o kiriri, o kariri e outros nos sertões do Ceará, Pernambuco, Bahia, estendeu o seu dominio, pode-se dizer, desde, o golpho de Darien, ao pé do isthmo de Panamá, até as boccas do Rio da Prata e desde a encosta oriental da grande cordilheira Americana até o cabo mais avançado da costa do Brazil, que penetra pelo Atlantico á frontear com a Africa. Parece que lá das cabeceiras donde nascem os ingentes rios, tambem defluiram as tribus dessa dilatada raça de aborigenes que se derramaram por toda a parte á leste dos Andes. D՚aquelle nucleo central, onde está a mãi d՚agua, d՚aquella Parasyy ( maris genitrix litteralmente ), onde estão as nascentes dos grandes rios, donde brotam os principaes afluentes dos dois colossos chamados Paranã, Maraná ( aquori similia, sc. flumina ) é possivel e crivel que tambem descessem as gentes, cuja lingua foi fallada por toda a costa do Brasil desde o Rio da Prata, não só até o Amazonas, mas ainda alem das boccas do Oyapock até Guayra, Maynas e Cumana, e no interior das terras brasileiras, no Paraguay, em parte mesmo do Chaco no centro da Bolivia, nos limites do Perú, nas diversas cabeceiras dos affluentes do Amazonas e do Orenoco.

Attento o vasto dominio desta lingua, derramada sobre tão consideravel extensão territorial, pela maior parte pertencente ao imperio brasileiro, vê-se que foi muito bem cabida a designação de brasilo-guarani que lhe foi dada por Alcide d՚Orbigny, tal e qual tambem figura no mappa ethnographico de Balbi. Com muita propriedade podia chamar-se ainda o abañeênga, a lingua dos brasis, comprehendendo nesta designação aquelles indios que catechisados pela companhia de Jesus em as suas aldeias constituiram as missões, a grande republica da companhia jesuitica; desmantelado o dominio dos padres as antigas aldeias das Missões em parte extinctas, ficaram pertencendo umas ao Paraguay, outras ao Brasil e algumas á confederação. Argentina.

Ainda mais. Se considerarem-se as intimas relações e mesmo a fusão que se deu das gentes guaranis ou tupis е omaguas com karaibas, se reparar-se que a lingua fallada pelos karaibas podia ser dialecto do abañeênga mais ou menos eivado de elementos estranhos, trazidos pela mistura de idiomas de outra procedencia e caracter; se reflectir-se que o karaiba de Terra firme apresenta mais traços de semelhança com o abañeênga, do que o karaiba fallado no archipelago das Antilhas, pode-se concluir que do abañeênga procedeu o karaiba ou pelo menos são oriundos do mesmo tronco e depois o karaiba alterando-se cada vez mais, tornou-se a linguagem dos karaibas das ilhas. Que esta foi a marcha das tribus confirman-no as tradições e o proprio Padre Raymond Breton no seu vocabulario caraiba indica que os ferozes dominadores das ilhas, procediam dos da chamada Terra-firme.

Sendo assim o dominio do abañeênga não se limitou á America do sul, propagou-se pelas ilhas do mar Autiliano, estendeu-se á Florida, dilatou-se pela costa para nordeste, e do outro lado, para oeste, chegou até as boccas do Mississipi, pois até ahi ha vestigios de passagem e estadia dos karaibas.

A denominação de lingua geral, portanto, dada ao abañeênga (ou tupi ou guarani) significava que essa lingua era aquella que era fallada e entendida por maior numero de tribus, esparramadas em uma vasta superficie. O kechua tambem foi chamado lingua geral do peru e com razão pois era a mais estendida e fallada no antigo imperio dos Incas. Do mesmo modo ainda houve outras na America do norte á que deram tambem o nome de lingua geral.

Os paraguayos como acima se disse ainda hoje dão o nome de abañeê á lingua indigena, e chamam karaiñeê ao espanhol, ao portuguez e em geral ás linguas de europeus. abañeê quer dizer falla de indio e karaiñeê, significa falla de branco. A elisão da syllaba final dizendo simplesmente abañeê está ventilada em outro lugar deste opusculo.

 

 

E não é somente por ter dominado em vasta extensão territorial que tem summa importancia o abañeênga.

 

« Nāo posso comprehender, diz Azara, como é que a naçāo guarani sendo agricola e por conseguinte pouco viajora, se estendeu de modo tāo consideravel e em tāo grande numero, ao passo que todas as outras, mais vagabundas, achavam-se reduzidas á pequeno numero de individuos. »

 

Mas adiante diz o mesmo auctor:

 

« Cousa igualmente incomprehensivel para mim é o modo como poude estender-se a lingua guarani pelo immenso territorio possuido pelos pertuguezes e francezes, e em parte do paiz que descrevo (as possesōes espanholas) por entre meio de grande numero de hordas independentes quasi isoladas, e que nāo conheciam commercio algum e ainda menos o uso dos livros ; ao passo que vemos os governos de França e de Espanha, apezar dos seus esforços, das suas escolas, dos seus livros e dos seus meios de communicaçāo, nunca poderem introduzir em todas as suas provincias o uso geral e exclusivo do espanhol e do francez. »

 

Essas palavras formam verdadeiro contraste com o que disse von Martius, o eminente botanico, á quem tanto deve o Brasil e que entretanto á respeito dos indios e ainda mais á respeito das linguas por elles falladas emittio algumas proposições bastante erroneas.

O sabio naturalista allemão, entre outras opiniões menos justas á respeito dos brasis, diz que a lingua geral dilatou-se tanto por influencia dos padres da companhia de Jesus, e chega á suppôr que ella é uma giria arranjada com o material dos vocabulos de uma lingua indigena com o fim de servir á catechese. Esta opinião tem largo curso, naturalmente determinado pelo prestigio do nome do sabio botanico.

Contradizem esta opinião todos os factos constantes dos historiadores. Os padres jesuitas e assim tambem os franciscanos e outros, sempre que no desempenho de suas funcções de missionarios, iam desencovar tribus nos sertões, a primeira cousa de que cuidavam era de estudar a lingua fallada pelos selvagens, afim de poderem pregar-lhes a doutrina. É um dos principaes meritos das companhias religiosas o zelo, a fadiga immensa com que compuzeram grammaticas e vocabularios dos idiomas das gentes que andaram catechisando, grammaticas e vocabularios dos quaes alguns nem foram impressos, e outros, não obstante terem sido dados á luz, apenas são conhecidos de nome e de menção nas noticias bibliographicas. Da lingua dos chiquitos por exemplo pouco ou nada resta, entretanto d՚Orbiguy dá noticia de um diccionario e d՚uma grammatica bastante volumusos, manuscriptos, que elle poude obter na sua excursão pela Bolivia, que prometteu publicar na parte ethnographica da sua grande obra, e de que até hoje não se tem outra noticia.

Se alguma vez os religiosos catechistas trataram de impôr á gentes novas a lingua de que já tinham grammatica e vocabulario, foi quando na visinhança de uma aldeia já formada e desenvolvida apparecia, de algures, familia differente, que elles tratavam de reduzir e amansar. Isto mesmo, porém, aconteceu raras vezes.

Sendo assim póde-se dahi concluir que os padres da companhia tivessem tentado impor uma lingua geral á todos os povos e aldeias que formaram no Brasil ?

Uma cousa que mostra que os padres nem pensaram em impôr lingua de especie alguma aos brasis, é que elles no principio empregavam todos os esforços para exprimir na lingua indigena os mysterios e todas as cousas da religião, e procuravam traduzir todas as expressões do catechismo na propria lingua dos indios. Para isso tiveram elles de forçar a lingua, obrigando-a á abstracções ainda impossiveis para o seu estado de desenvolvimento, torceram muitas vezes o sentido natural das dicções e á final alteraram até a estructura grammatical, mettendo-lhe por via de regra pleonasmos inuteis, e procurando exprimir as cousas da religião por vocabulos e phrases de oito leguas, incomprehensiveis talvez aos indios ou pelo menos extravagantes. Depois desistiram de exprimir essas cousas com termos tirados da lingua indigena e procuraram encaixar nella os mesmos termos do cathecismo adaptando-os á pronuncia dos indios, naturalisando-os no abañeênga. Assim chamaram á principio á cruz ybyra-joasá, ligna invicem transversata ; e depois curussá nas missões portuguezas, curuzú nas espanholas; aos anjos chamaram karai-bèbè e depois mesmo anjo apezar de ser este um composto de sons antipathicos ao modo de fallar dos indios; karaib foi adoptado pelos padres no principio para designar santo, bento, e assim designaram por ñandy-karaib os oleos santos, y-karaib agua benta, a agua do baptismo. Para exprimir o verbo baptisar empregaram já mongaraibe tornar santo, tornar bento, (visto a significação dada á karaib), já mbo-jahú banhar, e jahú banhar-se foi adoptado para baptisar-se. Afóra destes ainda foi empregado o participio hobasúpyr rosto atravessado, ou encruzado, para designar o homem baptizado, o christão ; entretanto os, indios, não obstante a imposição e lição dos padres, empregaram outra expressão para dizer baptisar-se, e esta foi terog tirar fóra fóra o nome, expressão que tem seus laivos de ironia patenteando que no pensar delles os indios entendiam que baptisar-se não era tomar nome e sim perder o que já tinham. Muitas outras expressões adoptaram os padres á principio que 'depois substituiram pelos proprios vocabulos portuguezes ou espanhoes, e assim vê-se nos cathecismos Espirito Santo, Purgatorio, Paraiso, etc. Igreja designaram primeiro por tupāróg e tupāóg e depois por igreja e iglesia ; inferno chamaram anā-retam patria do diabo, tatá guasú apyreym fogo grande que não tem fim, etc., e depois inferno mesmo. A Virgem Senhora designaram de um modo realmente extravagante ou pelo menos irrisorio dizendo Abá-bykaguér-eyma illa quam mas nondum terebravit e posteriormente pelo mesmo termo portuguez virgem. O verbo mongetá com o sentido de rogar á Deus, rezar, e o termo angaipab para designar peccado, são evidentemente expressões forçadas e torcidas para exprimirem o que os padres queriam.

No mais os padres concorreram para a prompta corrupção da lingua e mesmo precipitaram-na. Nas grammaticas reconheceram os variados participios (á que chamaram substantivos verbaes), notaram que tinham tempos, mas não viram que constituiam verdadeiros modos e nos catechismos construiram as phrases á maneira portugueza e espanhola, e ás vezes mais felizmente á latina. Nas graminaticas deram á perceber que no seu fallar proprio os indios faziam o verbo-substantivo i nherente ás particulas pessoaes, e nos cathecismos empregaram o verbo ikó ser no Brasil e o verbo in estar ou estar sentado no Paraguay. Isto deu aos dialogos de doutrina e ás rezas um phraseado prolixo e arrastado, que á primeira vista se differença d՚aquelle que se acha nas phrases conservadas de uso quotidiano dos indios, o qual quasi sempre é de extrema concisão e graça.

E se tal fosse o seu proposito não seria mais natural que, em ultima analyse, quizessem impôr e procurassem generalisar o portuguez ou espanhol, a lingua que fallavam ?

Solemne protesto contra este pensar dá-se mesmo no Brasil pela simples existencia dos dous catechismos dos Padres Mamiani e Frei Bernardo de Nantes. Este ultimo publicando o seu catechismo da lingua kariri, declara que o faz para facilitar o ensino dos catechumenos em sua lingua propria, que differe da kiriri de que já havia grammatica e catechismo composto por Mamiani. Estes dous idiomas fallados por indios do rio S. Francisco e do sertão se bem que separados por distancia maior de 100 leguas, são summamente parecidos e ambos elles têm feitio de serem dialectos do aban̄eênga, muito corrompidos pela introducção de vocabulos e phrases de outra procedencia; não acha-se nelles relação immediata com o galibi e outras das Guyanas, mas a constancia de certos sons, estranhos ao aban̄eênga e que trocados pelos equivalentes nesta lingua demonstram a sua procedencia, induz á procurar analoga derivação, se bem que já com sons diversos para o galibi, patenteando que assim se poderia tambem filiar ao aban̄eênga este ultimo idioma. Esta observação que occorre accidentalmente não póde ser aqui desenvolvida porque alongaria demais este escripto.

O que fica bem assente é que em vez de inventarem uma lingua para imporem-n՚a aos catechumenos, os padres tratavam de aprender todas aquellas que topavam e nellas escreviam livros de doutrina para uso das respectivas aldeias. É este o facto real não só no Brasil, mas no Chili, na Bolivia, no Perú, na Columbia, etc.

Si o tupi fosse inventiva dos padres jesuitas e não de facto a lingua geral das hordas mais numerosas da America leste-austral não é possivel explicar como é que o tupi é o mesmo guarani. Os padres Abbeville e Yves d՚Evreux eram francezes e capuchinhos pregando no Maranham; Lery, tambem francez, porém calvinista, não pisou no Maranham e as noticias que escreveu são de indios do Rio de Janeiro ; o padre Figueira, portuguez e jesuita, escreveu a sua grammatica e fez, durante annos, servicos de catechese no Pará, e o padre Antonio Ruiz, tambem jesuita, porém espanhol, escreveu o seu Tesoro no Paraguay. Todos estes missionarios vieram á America em tempos anteriores á meiados do seculo XVII; não era possivel a minima combinação entre elles; cada qual escreveu das cousas americanas á seu modo, com a orthographia usada na lingua patria da Europa, procurando reproduzir nella com fidelidade os sons da lingua estranha que ouviam dos incolas. Ora pois, se esta lingua é a mesmissima, escripta apenas de differente modo, com orthographia peculiar ao escriptor, não resta duvida de que — tal lingua era a mesma espalhada por terras diversas, e é inteiramente gratuita a supposição de que foi obra dos padres jesuitas, como avançou Martius.

Outra idéa que teve muitos propugnadores, entre os quaes tambem von Martius, que foi combatida pelos illustres auctores do Brasil e Oceania, e dos Indios perante a historia, e agora está de novo adquirindo voga é a que suppõe todos os indios do tempo da descoberta em um estado de barbaria tão grande, como aquella em que se acham os restos das tribus errantes nos sertões depois de tres seculos de catechese, isto é, de perseguição á todo o transe. Uma das cousas que desmente esse pretendido estado de barbaria é a lingua; uma tal ou qual agricultura, a preparação da farinha de mandioca e do kagui, a pericia de accender fogo dispensando vestaes para conserva-lo, e outros usos ainda provam o contrario, e quem lêr com attenção as noticias deficientes, parcialissimas dos christãos, conquistadores da terra, reconhecerá que estes pobres brutos hoje foragidos pelos mattos, receiosos dos beneficios da catechese, reduzidos á ultima degradação, em nada se parecem com aquelles homens crianças, expansivos, alegres, que batiam os contrarios na guerra, que mesmo devoravam os prisioneiros, mas em fim eram homens como os pintam os Caminha, Lery e outros ingenuos narradores.

É assumpto que levaria longe e que não cabe desenvolver n՚um estudo que não passa de mero apontamento.

Apenas fique consignado que é um erro grave medirem-se os indios do tempo da descoberta pela bitola dessas pobres malocas que hoje andam corridas pelo sertão, que esqueceram a lingua, unico monumento legado pelos antepassados, a qual ainda attesta que essas gentes não foram tão barbaras como a querem fazer aquelles, que vieram arrebatar-lhes as terras patrias, a liberdade e a vida.

A existencia da lingua geral dominando em quasi toda a região cis-Andina é cousa de summa importancia e exprime um facto do mais alto interesse para o estudo das linguas americanas e para a ethnographia, isto é, que o tupi é o mesmo guarani e o omagua.

O padre Hervás citado acima diz que o tupi e o guarani se differençam um do outro apenas como o espanhol do portuguez. Ainda menos, é a verdade que salta aos olhos logo que se investiga a cousa mais á fundo. O tupi se differença do guarani tanto como o fallar dos brasileiros differe do dos filhos de Portugal, e talvez mesmo como o de um paraense differe, do de um mineiro ou paulista. Com effeito, confrontando-se as dicções do tesoro com as que vem em Figueira, no Diccionario Braziliano, no de G. Dias, em Lery, em Yves d՚Evreux, em Piso, etc., e prestando-se attenção á differença de orthographia observa-se que o tupi diverge do guarani quasi que só em ajuntar invariavelmente uma vogal final aos vocabulos que os guaranis pronunciavam sem ella e tambem sem a consoante que com essa vogal vinha á formar syllaba. As dicções do abañeênga táb, túb, räyr, aób, ̄neëng, kuár, áb, pelos tupis eram pronunciadas tába, túba, räyra, aóba, n̄eènga, kuára, ába, e pelos guaranis muito frequentemente tá, tú, räy, aó, n̄eë, kuá, á. Os vocabulos usados por tupis e nāo por guaranis, e vice-versa são poucos e podem ser enumerados; em geral dependem das condições climatericas e geographicas em que viviam que fazia variar os modos de vida ; por exemplo, nomes de peixes das costas do Brasil seriam naturalmente desconhecidos no Paraguay. Afóra disto mais um ou outro vocabulo differente como seja texágvêr em guarani, tepiac em tupi; uruguasúgallinha em guarani, sapukai em tupi ; e poucos mais.

Não póde deixar de ser aqui exharada uma reflexão muito importante, referente á capacidade das linguas para exprimir cousas abstractas. O abañeênga neste ponto apresenta-se para bem dizer em um estado de verdadeira infancia e para enunciar concepções abstractas resente-se da ingenuidade e do embaraço proprio da criança que ainda não precisou bem as suas concepções. Na lingua já se differençam bem os adjectivos dos substantivos e na construcção da phrase com as particulas pronominaes os adjectivos podem figurar de verbos passivos, ao passo que os substantivos deveriam ser considerados verbos activos. Assim roça (arvum e mais propriamente seges, messis) pode-se referir á kog alere, e dahi xe-kog messis mea, significaria quod me alit : mas com o adjectivo a particula pronominal figura de verbo substantivo e xe katu significa sum bonus.

Agora havendo os adjectivos katu bonus, aib malus he dulcis, kyr viridis, etc., as abstracções bondade, o bom, o bem, maldade, o mal, doçura, o doce, verdura, o verde, não se podem exprimir de um modo absoluto, construem-se na phrase já de um modo já de outro conforme se apresenta a concepção, e os padres procurando exprimir isto quasi sempre por via da desinencia participial hab forçaram muitas vezes a lingua á um torneio improprio della, e até disparatado.

Permitta-se uma bem cabida citação do Sr. Max- Müller; diz elle:

 

« E de que modo exprimio a linguagem a mais immaterial das concepções, dado ainda que seja concepção racional, o nada? Foi pela unica maneira possivel, isto é, foi pela negação de alguma cousa real e palpavel, ou pela comparação com algum objecto dos nossos sentidos. Nada diz-se em sanscrit asat « não sendo »; em latim nihil isto é, nihilum em vez de nifilum quer dizer ne-filum, « nem um fio. »

« A dicção rien do francez hoje, é mera alteração de rem accusativo de res e conserva ainda o sentido negativo apezar da queda da particula negativa que a precedia originariamente. Assim ne pas vem de non passum, e ne point de non punctum. O francez neant e o italiano niente são o latino non ens. Considere-se agora por um instante de que modo nascem as fabulas em virtude da magia da linguagem. Era perfeitamente correcto dizer-se nihilum, « dou-vos nada, nem um fio :» ahi fallava-se de um nada relativo; negava-se na realidade, ou declarava-se não dar alguma cousa. Tambem é perfeitamente correcto dizer entrando n՚um quarto vazio « não ha nada aqui » querendo com isso dizer não que « não ha absolutamente nada » mas só que « ali não vemos o que contavamos achar no quarto.» Á custa, porem de repetirem-se taes phrases, forma-se gradualmente no espirito vaga ideia de um nada e então nihil torna-se nome de algo positivo e real. Os homens começaram no principio á fallar do nada como se fosse alguma cousa e gradualmente foram indo e tremeram com a ideia de anihilamento, de todo inconcebivel á não ser no cerebro d՚um louco.

« A expressão anihilação se tivesse sentido, apenas significaria etymologicamente (e podemos dizer logicamente) « ser reduzido á cousa que nem é um fio » : e certamente este estado não seria tão terrivel, pois que segundo a logica mais rigorosa esse estado comprehenderia o dominio todo da existencia excluindo unicamente o que se entende por fio. Entretanto quantas especulações, quantos medos e delirantes terrores á proposito do Nihil simples palavra e mais nada! Vemos crescerem e decrescerem as cousas que nos cercam, assistimos ao nascimento e ao fallecimento dos viventes, mas nada vemos extincto, aniquilado. Ora, o que não está ao alcance de nossos sentidos e o que contradiz todos os principios da razão não tem direito á ser expresso pela linguagem. Podemos servir-nos dos nomes dos objectos materiaes para exprimir objectos immateriaes, se estes ultimos puderem ser concebidos racionalmente. Podemos,por exemplo, conceber potencias que escapam-nos aos sentidos, mas que têm comtudo realidade material. Podemos chama-los espiritos, litteralmente halitos, sopros, brisas, subentendendo perfeitamente que por « espirito » designamos cousa que não é simples « brisa ». Elles podem ser chamados em inglez ghosts nome que tem referencia à gust, yeast, gas, e outros vapores imperceptiveis. Mas o Nada, um Nada absoluto que não é visivel nem concebivel, nem imaginavel, jamais deveria ter achado expressão, nem lugar no diccionario de seres racionaes. »

 

A profundeza e belleza destas sublimes palavras sirvam de desculpa para a transcripção longa e excessiva do trecho inteiro quando era necessario e pertinente só uma pequena parte. Voltemos ao que motivou a citação.

Em abañeênga não havia expressão directa para nada, ninguem, etc. Existia, porém, nos verbos a conjugação negativa que variava segundo os modos. Hoje os paraguayos usam de mbäebê para significar nada e abábé, ninguem ; mas o primeiro ao pé da lettra diz : mais cousa ; e o segundo mais gente ; d՚onde se vê que realmente querendo construir a phrase á espanhola elles subentendem um verbo com a sua negativa ndi-pori mbäebe, ndi-pori abábê, não ha mais cousa, não ha mais gente, para dizer: não ha nada, não ha ninguem.

Entre os tupis foi adoptado para significar nada e tambem a simples negativa não, o vocabulo nitio e mais modernamente intio, inti que são adulteração de ndi tyb, non est, non jacet e deste modo o torneio da phrase desviou-se mais profundamente da syntaxe primordial.

Gonçalves Dias e o padre Seixas nos vocabularios da lingua usada hoje no Pará escrevem intimaän nada, intiáuá ninguem, fórmas corruptas de ndi tyb mbaé, ndi tyb abá, non est res, non est gens.

 

É tāo real o predominio da lingua geral em toda a America portugueza e bôa parte da espanhola do sul, assim como nas possessōes francezas, inglezas e hollandezas, que ainda outros factos vêm confirmal-o. Por toda essa vasta extensāo os nomes de plantas, de animaes e geographicos sāo explicaveis por via de radicaes do abañeênga ; se ha excepçōes, em pequeno numero sāo ellas e nāo era preciso suppôr um grande numero de linguas e dialectos, bastaria considerar que é a lei natural da linguagem (principalmente das que nāo sāo fixadas pelo monumentos escriptos) a mudança perpetua e continua.

Ahi a é o que admira é que essa lingua, sem litteratura, sem nenhum dos meios que concorrem para fixar as linguas, pelo contrario embatida por todos os modos e em todos os sentidos pelas gentes civilisadas, tenha podido perdurar por mais de tres seculos. Apezar de vencida e batida, apezar de ser lingua de barbaros, uns exterminados, outros corridos pelos mattos, outros emfim escravisados, fundidos, amalgamados com os conquistadores, essa lingua inoculou nas linguas vencedoras e civilisadas nāo sómente vocabulos e termos que figuram hoje até nos livros de sciencia, mas ainda phraseados, idiotismos e cacoethes. A suppressāo de uma e mais lettras no final das palavras tāo usual entre os brasileiros principalmente os caboclos e caipiras é um cacoethe herdado dos indios e desconhecido aos portuguezes que pelo contrario procuram tornar brevissimas as syllabas nāo accentuadas do meio ou do principio das palavras pronunciando : mlaço, btar, rlogio, prstaram, apprvar, em vez de melaço, botar, relogio, prestaram, approvar ; os brasileiros pelo contrario dizem : botá, chovê, arde, subi, comendo invariavelmente os rr finaes. Os portuguezes tendem á confundir o pronome reciproco com o relativo ; e nāo fazem esta confusāo só nas oraçōes de terceira pessoa ; é cousa que quotidianamente se vê, que as pessoas mais lidas na litteratura de Portugal já adoptam na conversaçāo o se e o si reciprocos dirigindo-se á segunda pessoa, e dizem : fallo com sigo, dirijo-me á si, é para si que trouxe este livro, querendo dizer ; fallo comtigo (ou comvosco, á moda de S. Paulo onde tambem usam com mecê) dirijo-me a ti, é para ti que trago este livro. Os brasileiros pelo contrario procuram differençar o relativo do reciproco e herdaram isto nacturalmente da lingua geral, onde é fundamental e caracteristica esta differença, que despresada altera completamente a estructura grammatical. Empregam elles tambem o possessivo seu, sua, dirigindo-se á segunda pessoa, é certo, mas entāo para differençal-o mais, juntam-lhe pleonasticamente o relativo delle, della. Assim exprimem-se : trago recado de F., por causa delle é que venho, e nāo dizem : por sua causa é que venho. Estive com fulano e entreguei-lhe o seu chapéo delle accrescentando pleonasticamente o delle porque sem isso podia significar o chapéo da pessoa com quem falla. Quanto ao mais no emprego do seu, sua, se, si, procuram os brasileiros conservar o caracter de reciproco justamente como em latim, onde de modo analogo ao do aban̄eênga para o relativo emprega-se is ou ille e cujos genitivos ejus, illius correspondem exactamente á delle, della, e figuram de possessivos, sendo sui, sibi, se e suus, sua, suum usados, quando a phrase exprime algo de reciproco. Em todo o caso o fallar á segunda pessoa ȧ moda dos paulistas é mais preciso e mais bonito, e se ainda em oraçāo de segunda pessoa se quizesse usar de verbos na terceira, era preferivel o emprego do vossė (derivado da segunda vós) com um certo que de brasileirismo, e um pouco correspondente ao usted dos espanhóes.

O francez gabado como lingua de conversação, usa em geral da segunda pessoa do plural, e emprega a segunda do singular quando ha mais familiaridade e talvez carinho que exprimem por um verbo especial tutoyer. Os inglezes tambem usam do tratamento em segunda pessoa. O se, si, lhe á portugueza é como que um subterfugio para tractar-se com pessoas estranhas e evitar-se tratamento mais distincto. Este tratamento em terceira pessoa, parece-se com o dos italianos e dos allemães ; os allemães, porém, empregam a terceira. do plural quando tractam com urbanidade e a do singular quando pouco se importam com a polidez ; assim dizem was machen Sie, wie geht es Ihnen polidamente, e quando querem fallar com menos cortezia ou mais familiaridade wie machet er ou sie, wie geht es ihm ou ihr.

 

 

Confirmando o facto do predominio do abañeênga no leste e no norte da America do sul ainda, importa fazer outra consideração.

A comparação do kiriri e do kariri com o abañeênga induz a outras conclusões; estas duas linguas, reputadas differentes do abañeênga visto como têm sons que não existem nesta, depois de examinadas com mais attenção, reconhecem-se como dialectos delle mais ou menos adulterados por elementos estranhos. Daqui se é levado á outras comparações e vê-se: O galibi e outras linguas das Guyanas tem sons ainda mais differentes, tem por exemplo abundancia de Il que não ha em abañeênga ; mas substituidos estes sons pelos equivalentes ou correspondentes em abañeênga reproduzem-se os vocabulos deste, e não um ou dois, porém, um grande numero. A estructura grammatical por fim de contas, tanto quanto é possivel aprecial-as nas phrases dadas em deficientes vocabularios, mostra que por esse lado o parentesco não póde soffrer contestação.

Mais uma vez será possivel confirmarem-se as leis estabelecidas pela sciencia da linguagem, á respeito do desmembramento da lingua matriz e formação dos dialectos.

Como simples indicação dos resultados produzidos pela comparação de diversos dialectos, referindo-se as dicções de cada um á uma fonte commum, e não raras vezes achando-se vocabulos que em vez de remontarem directamente á matriz, derivam-se de dialecto irmão ou collateral, examine se apenas um vocabulo, de lingua matriz.

Por caminhos differentes, mas derivados da mesma fonte, adoptados em tempos diversos e em diversas accepções veja-se por exemplo nas linguas romanicas as transformações que soffreu o verbo capere e o seu frequentativo captare ; as notas são tiradas do diccionario de Diez e das licções de Max Müller. Em portuguez apresentam-se desde logo captar, catar, caber produzindo o primeiro captura, captor, capto (v. g. em mentecapto), capião com os seus correspondentes em latim, e depois ainda captivar e captivo que torna-se catico em espanhol, cattivo em italiano, caitiu (que significa ruim, mȧo) em provençal, captif em francez; e o que jȧ é mais notavel e parece estranho, da mesma fonte provem chetif como notaram Diez e Max Müller; ao 2.° catar que significa já vér, mirar e já investigar, esmerilhar, subordinam-se os compostos acatar, e recatar com grande numero de derivados acatamento, recuto, etc., e ainda catavento, catafalco, catacumba e outros; entre acatar e acceptar formou-se acceitar donde se deriva de um lado acceite (substantivo) e accepção (outro substantivo de significado inteiramente diverso) correspondente á acceptio na lingua matriz; á este corresponde em francez acception, e á acceitar tambem accepter, mas nesta lingua apparece outro derivado acheter em sentido muito differente. Parallelo á este existe, composto com outra prepositiva, racheter, á que correspondem em italiano reccattare, em espanhol rescatar, em portuguez resgatar, resgate e ainda regatear, com outros derivados. Ao 3.° significado de capere ( caber ) alem dos derivados immediatos proprios do verbo considerado de significação neutra e talvez passiva, como o adjectivo participio cabido (que se escreve e pronuncia tal e qual outra dicção cabido provindo de capitulo e ainda cabide) subordina-se capa ao qual Diez reporta um grande numero de vocabulos; á capa, quia quasi totum capiat hominem, corresponde em espanhol e italiano cappa e em francez chape ; deste veio em francez chapeau correspondente ao italiano. cappello e ao portuguez capello, e dahi ainda capella (grinalda e tambem pequena igreja); d՚outro lado apparecem capuz, capucho, no italiano cappuccio, no francez capuce, capuchon; e ainda capote em portuguez e espanhol, cappotto em italiano, capot em francez, e outros vocabulos desenvolvidos da mesma fonte; deixando de parte a fonte latina o portuguez tomou directamente do francez chapeau (em antigo francez chapel) chapéo. É quanto basta para mostrar a fecundidade de um só radical quando se o acompanha em todas as suas derivações não só em uma lingua, mas nas co-irmās.

Applicando-se ás linguas da America este processo, que tão ingentes resultados tem produzido no estudo das linguas do mundo antigo, é natural que se esperem identicos effeitos.

O simples facto da existencia de grande numero de vocabulos, que com pequenas mudanças são como que universaes na America do sul e talvez na do norte seria bastante para induzir á crer que pelo menos, houve uma lingua que passeou soberana por todo este vasto continente. Fosse ou não vinda de outra parte essa lingua, o facto certo e estabelecido fundamentalmente é que ella existio e revela a sua existencia no grande numero de vocabulos pelo menos communs á todas as linguas da America do sul. Cumpre lembrar apenas un preceito deduzido das licções de Max Muller : para designar sol ou agua, por exemplo, é possivel que se dêm, e na realidade se dão termos muito differentes nesta e n՚aquella lingua; mas estudada a cousa por outro modo acha-se em uma lingua o sol designado por um termo que na outra significa aurora, em outra luz do dia, em outra, queimar ou accender ou brilhar, ou allumiar ; ahi enxerga-se a derivação e reconhece-se o desmembramento dialectico. No que ficou dito á respeito do termo karaiba tem-se um exemplo que confirma o facto.

Ja se vê, nesta investigação é preciso criterio para se não cahir no extremo opposto, dando-se por filiados ou aparentados vocabulos de origem inteiramente diversa. É uma mania como outra qualquer a de achar semelhança entre cousas differentes e os mestres da sciencia da linguagem já notaram e estabeleceram que é um erro por meras concordancias parciaes estabecer-se parentesco de linguas que todas as considerações obrigam á suppôr que nunca se mesclaram nem tiveram occasião de contacto. É deste modo que alguns já acharam parentesco entre o abañeênga e o grego porque deparam-se termos como og casa que lembra oikos; poro gente, ou muitos, que assemelha-se a poly, etc.

É preciso realmente muita vontade de achar parentesco em toda a parte para etymologicamente ligar Perú, Pará, Paraguay, Veragua, Paria, Parina e por fim Brasil.

É possivel que assim seja; é possivel filiar o kechua ou outras linguas americanas a tronco sanskritico. Mas entāo é porque nesse caso já se póde provar scientificamente que houve um unico Adam e confirmar a tradicçāo biblica com os dados fornecidos pela sciencia. Entāo os dados fornecidos pela comparaçāo das linguas terāo chegado á mais alta precisāo, dando a synthese da sciencia linguistica. É difinitivo que a questāo ethnographica póde ser decidida pela sentença final de uma origem unica de todas as linguas, ou que pelo menos a species homo no que diz respeito á expressāo do pensamento, tambem parece-se comsigo só.

Para se compararem as linguas é preciso primeiro que tudo que se as conheça e bem ; tāo evidente é isto que basta dize-lo.

Pelo menos este modo de vêr conforma-se mais com o real e positivo do que tentativas como a do Sr. Fidel Lopes no seu livro As raças aryannas no Perú. Como quer se filiar esta lingua ao sanskrit se ainda nem se a conhece nem se a precisou? Como classificar uma arvore n՚um dado genero quando nāo se examinou a flôr, nāo se sabe como é o fructo e mal se estuda a folhagem? Como se dizer peremptoriamente que este vegetal provem de tal regiāo, se no mesmo lugar em que elle se apresenta como objecto de estudo nāo se investigou ainda se elle parece-se com outros, se ha ou nāo especies congeneres? vai-se buscar na Asia (está bem) e ainda em cima no tronco commum das linguas aryannas, isto é, das poderosas linguas cultas da civilisaçāo, a filiaçāo de uma lingua que geralmente classificam entre as de agglutinaçāo, entre as que nāo chegaram á alto gráo de desenvolvimento, e isto quando ainda nem definiram bem a lingua de que trata-se nem se estudaram as suas relações com as conterraneas. É o mesmo que querer fazer a geologia do Brasil pela geologia da Russia ou do Egypto.

Embora nāo se admitta em absoluto que o kechua ou o guarani sejāo linguas agglutinativas no rigor da palavra, com tudo não é possivel sem mais nem menos filial-as á familia sanskritica; com igual razāo poderiam filiar-se á semitica. Entre o Sr. Fidel Lopes e von Martius está o caminho direito, que é o da observaçāo e estudo consciencioso das linguas americanas.

Nāo comporta este pequeno trabalho o necessario desenvolvimento de algumas ideias em referencia ao estudo das linguas americanas; mas sem a menor duvida a primeira cousa que importa é fixar qual é a lingua de que se tracta, coordenando e systematisando a sua orthographia, afim de que se nāo tomem por sons da lingua, aggregados de lettras muitas vezes antipathicas á indole della, nem se supponham de idiomas diversos, vocabulos, que só differem pela forma da escripta.

Assim o primeiro dos trabalhos á fazer é reunir com fastidiosa paciencia, e com criterio tudo quanto se acha esparso nos diversos autores de diversas nacionalidades, e por conseguinte annotado com a mais variada orthographia, coordenar esses sons escriptos de tantos modos differentes, esmiuçar as phrases e assim penetrar no sentido dos primeiros radicaes. Ahi vai-se deparar até com erros de impressāo, e até erros resultantes de esquecimento dos primeiros viajores que com o decurso dos annos nāo comprehenderam mais as notas que elles proprios escreveram. Dessa coordenaçāo de orthographias ver-se-ha que o que se tomou por cousas differentes nāo no sāo realmente, e que até inventaram-se nomes que nunca houve na lingua dos indios. Os poetas nos seus versos têm fallado da inubia, cousa que nem os guaranis das Missōes, nem os tupis da costa, nem os omaguas do sertāo conheceram ; o nome generico da flauta em aban̄eênga era mimby, que escripto mybu e tambem mubu depois tornou-se inubie, expressão que á meu ver ajunta lettras de um modo ávesso á indole do aban̄eênga.

No mesmo caso está o celebrado piága, que pecca pelo mesmo motivo e que procurado nos escriptores antigos nāo se acha. O feiticeiro, o curandeiro, o medico, ás vezes com certas funcçōes sacerdotaes, pelo que consta tanto de escriptos ácerca do Paraguay como das chronicas dos brasis, era paijé (qui dicit finem, litteralmente). Este nome apparece escripto paye, piaye e até piache e de outros modos ; no segundo modo de escrever piaye, bastou que por erro de impressāo se mudasse o y em g para tornar-se pïage, donde o piaga, cujos cantos tanto que fazer têm dado aos litteratos e romancistas.

Além deste apanhado de tudo quanto se tem escripto é preciso colligir com escrupulosa attençāo nāo só os dizeres dos nossos matutos, nos quaes se conservam muitos vestigios da lingua fallada pelos primeiros incolas, mas ainda e principalmente apanhar as fallas dos indios com a maior exactidāo possivel e escrevel-as de modo que possam ser reproduzidas com a maxima fidelidade. Emquanto se nāo adoptar uma orthographia uniforme é isto impossivel.

Mesmo depois de estar systematisada a orthographia, o apanhado das fallas dos indios nāo é facil e exige muito criterio d՚aquelle que toma as notas. Se até entre homens nāo selvagens, por exemplo entre um inglez e um portuguez que nāo sabem a lingua um do outro, é difficilimo o colloquio de modo que se entendam, e dāo-se equivocos extravagantes, nāo obstante o subsidio dos gestos e signaes, o que nāo será entre homem civilisado e indio do matto ? O indio tem modos de vida e pensares differentes dos do homem civilisado e vice-versa; á um sāo inteiramente desconhecidas cousas que o outro suppōe que todo o mundo sabe. Só dahi quantos equivocos nāo resultarāo?

Nem tanto será preciso. Supponha-se que queiram apenas tratar das cousas mais geraes que necessariamente têm uma expressão na linguagem, por exemplo das partes do corpo humano, e que se pergunte por gestos ao indio como é que elle chama a cabeça. Elle poderá responder com dicçāo de sua lingua minha cabeça ou tua cabeça ou cabeça delle conforme o objecto designado, apontado pelo gesto, mas nunca ou quasi nunca cabeça simplesmente. Nos vocabularios é frequente acharem-se phrases em vez de vocabulos; é preciso já certo desenvolvimento e cultura para isolar das phrases as partes que a compōem, e perguntando-se ao indio como é que elle diz matar elle responderá eu mato ou ainda mais complexamente eu mato a cobra. Com um exemplo do glossaria de Martius tornar-se-ha sensivel o que ha de vago nestas proposições. No dialectus vulgaris a expresāo caput está traduzida por acanga, jacanga, canga ; no apiacá vem ai-acana, no cayowá está siakan, no omagua е campeva apparecem yakaih, yacae. Tudo isto que faz suppôr dialectos differentes se reduz á nada desde que se attende á correcçāo orthographica e tambem ao fallar do indio. Akang signica cabeça (caput), ij-akang a cabeça delle (illiuscaput), xe-ukang minha cabeça (meum caput). Ora jacanga, ai-acana (orthographia franceza de Castelnau) yacae e yakaih correspondem á ij-akang, e siakan é evidentemente xe-akang.

Dir-se-ha que, tem pouca importancia practica, immediata e effectiva, este estudo talvez frivolo para muita gente.

Nāo é assim. Á um estrangeiro, que só saiba o portuguez aprendido regularmente por livros, em todo o caso será mais facil fazer entender-se nesta lingua do que se nada soubesse della e de repente se visse na necessidade de se exprimir em portuguez. Ainda que todos os indios que restam pelo interior do Brasil nāo fallem dialectos do aban̄eênga, é fóra de duvida que, quem tiver conhecimento de lingua geralL, terá menos difficuldade de se entender com elles, ou pelo menos com os que descendem de tupis ou omaguas.

O que nāo póde e nāo deve continuar é este arbitrio e anarchia de orthographius, que impossibilita o estudo das linguas indigenas sem a minima vantagem para ninguem. Só dos indios cajuás dos campos de S. Paulo e Matto-Grosso possuo tres vocabularios, dous fornecidos por dous amigos e um no tomo 19 da Revista do Instituto; as orthographias (todas de brasileiros!!!) autorisariam que se os tivesse na conta de tres dialectos, da mesma lingua de certo, mas sempre differentes.

Se, pois, ha realmente vontade de se fazer alguma cousa para civilisar os indios, uma das primeiras necessidades é o conhecimento da lingua geral, e depois o dos seus dialectos e das outras linguas.

Isto, porém, nāo se poderá fazer emquanto se nāo adoptar uma orthographia uniforme, porque senāo, quantos forem os organisadores de vocabularios, tantas serāo as linguas.

Se nāo servir a orthographia aqui proposta, rejeitem-na, mostrem que ella nāo serve, mas emfim proponha-se outra mais acceitavel e definitivamente fixe-se a orthographia.

No seio mesmo da sciencia vāo os dislates orthographicos influir de uma maneira desastrosa. O nome Cariama dado ao Microdactylus de Geofroy de Saint Hilaire ou Dicolophus de Illiger, tomado da lingua geral, deveria ser Sariama, pois que o primeiro nāo tem explicaçāo plausivel no aban̄eênga e o segundo é correspondente á uma cousa que distingue esta pernalta, a crista ou topete em forma de espiga. Embora Azara dê o nome como onomatopaico do grito da ave, na discripçāo que elle faz dos caracteres do passaro foi que descobri a significaçāo do nome quasi litteral em aban̄eênga.

 

 
errata
 

Decidido que para representar o som sh (inglez) ou sch (allemāo) ficassem os caracteres ch por ser de todo improprio o x (portuguez), torna-se necessario notar que, por equivoco, escaparam alguns x que devem ser substituidos por ch nas paginas já impressas, 6, 26 e 40.

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